segunda-feira, 12 de janeiro de 2009


Um pássaro voa por entre as nuvens deixando um rasto de consolação: a liberdade é possível... se nosso olhar se elevar mais acima!

Não há sábado sem sol, nem domingo sem missa, nem segunda sem preguiça.


É assim que o determinismo dos nossos adágios populares nos decora a vida!
Eu acho engraçado porque há ditados para tudo, porque palavra menos palavra, são reconhecidos pela cultura de todos os povos do mundo. São o resumo da sabedoria acumulada pelas gerações anteriores. E não são só os menos doutos que os utilizam, encontramos gente de todos os estratos sociais e culturais a fazê-lo. Há mesmo quem se dedique à sua pesquisa e os publique. Tenho uma amiga assim.
O mais divertido é que eles são muitas vezes o ponto final de uma conversa ou, o seu início. São as reticências do nosso discurso oral!
Deve haver muitos sábados cinzentos, domingos onde a igreja da aldeia recôndita não realiza missa, e segundas-feiras cheia de energia e vontade de trabalhar…mas sabe tão bem desculpar com este adágio, a moleza que nos toma no começo da semana de trabalho!

Telmo, o Marujo

2. Bartolomeu

Certa manhã, Josias apontou para o largo e mostrou-me um belo navio ancorado.
_ Estás vendo? É o Boa Nova. Costuma fazer a rota do Cabo. O imediato é meu amigo. Vamos ter com ele. Acabou de entrar na taverna do Sanchez.
Rejubilei!
Quando entrámos na taverna Josias meteu dois dedos à boca e lançou um assobio tão estridente como nunca tinha ouvido! E logo, um homem moreno de peito largo, esticou o pescoço e dirigiu o olhar para nós. Ao ver Josias deu uma enorme gargalhada e avançou rapidamente para um festival de abraços de quebra-ossos, socos amigáveis nos ombros e nos queixos dando ao corpo a alegria de se reverem.
Josias apresentou-me e sentámo-nos os três numa mesa vaga.
Estiveram um ror de tempo a conversar, a rir e a beber enquanto eu, nervoso, esperava com ansiedade a esmola de uma palavra. Não me impacientei porque ao mesmo tempo era fascinante ouvir a conversa dos dois.
Falavam de tempos idos, de lugares conhecidos de ambos, de mulheres de outros lugares e costumes. Percebia-se a cumplicidade deles nas frases por acabar, nos olhares de encontro e nas risadas em coro.
Bartolomeu, era bastante mais novo que Josias, mas isso nada importava. Havia nele uma energia imensa, uma força de derrubar medos. Ao pé dele, sentia-me seguro, quase crescido.
Anunciou que andava à procura de um moço para o navio. O anterior, ficara a viver em África com um tio que era dono de umas plantações.
De repente, Bartolomeu perguntou-me se eu estava interessado em embarcar.
Engasguei-me e espirrei todo o vinho que tinha na boca pelo nariz. Apesar da aflição abanei afirmativamente a cabeça enquanto Josias me dava umas boas palmadas nas costas.

O meu velho amigo piscou-me o olho maliciosamente, sabendo perfeitamente que era um dos meus sonhos. Bartolomeu nem precisou de mais nenhum sinal porque se apercebeu exactamente o que me ia na alma.E combinámos que, no dia seguinte, ele mesmo falaria com o meu pai.

À procura de Deus

Eu penso e, quero crer, que Deus é o ponto zero.
O início, o fim, um princípio enfim!
É do Nada a erupção, a forma de uma ilusão,
O fulcro do nosso sistema de existência.
O primo tema.

Não é de sólida matéria, nem tem forma etérea.
Comove e surpreende todo aquele que O entende.
E se Deus é a existência, recria-se na penitência,
De multiplicar-se no ser, que em ser, torna a ser.

É o universal movimento, o risco de um pensamento.
Ou, a cadência do vento, na nuvem do céu a voar.
É a fúria do mar a bramar ou, apenas um sino a tilintar.
Eu penso que Deus é também o profundo e escuro lugar
Em que não queremos ninguém para connosco estar.
.
Há entre a noite e o dia um espaço,
Na abóbada vazia, um traço,
Que nos dá a resposta certa
À pergunta que nos desperta.

É de manhã. Ao clarear do novo dia,
Decido de novo viver,
E deixo o tempo passar,
Calmo… para o entender.

É um interlúdio reflexivo
E cheio de afirmações!
É, quando o cérebro já activo
Fervilha em suas conexões.

Eis o Universo renovado!
Eis as manhãs diárias sem data!
Eis o envelope fechado
Que se descola e mostra grato!

É, é entre a noite e o dia
No espaço da rósea aurora
Que a resposta se abre
À pergunta duma qualquer hora!
Num país de costa acidentada , surgiu a discórdia.
O pseudo-progresso levava-o para o abismo da História?

Grita o povo em efusão:
-Não basta só pão!
Gritam os governantes:
-São estas as leis reinantes!

E o desânimo pariu a dor
E matou o que restava do amor.
Será o fim dos tempos, Senhor?
Porque há opressão e terror?
Não chega a estas gentes
Ter sol e boas sementes?
Não, não é só este clamar
Que faz o mundo mudar.
Para quê lançar arremedos
Se ficam vivos os medos?

A nuvem negra veio do Egipto
Lançou-se sobre a multidão
E os homens sem força para o grito
Acocoraram-se no chão.
Foi o mistério que anunciou
O ponto limite, o ponto de zénite.
Tudo agora se transformou.
Quem quiser ficar, que fique...

domingo, 11 de janeiro de 2009


Todos fazemos parte do rio que nasceu dos soluços e correu abrupto. Se dividiu em falso-delta e se reuniu agora perto do fim.
A foz é já ali!

Tenho que cuidar do meu tesouro


Há quem junte dinheiro, o invista e forme grandes fortunas, há quem coleccione obras de arte, objectos de valor histórico ou arqueológico e ganhe com isso um património invejável, eu... eu acumulo os amigos!

Tenho uma roda deles, os mais íntimos, na maioria são mulheres porque tanto na minha vida profissional como na social, convivo mais com mulheres. Além disso, entre as mulheres é mais fácil encontrar cumplicidades e amizades descomprometidas. Não faço discriminação aos homens, mas não aconteceu encontrar mais que chegasse ao estatuto de meu amigo!

cada um dos meus amigos, é especial, diferentes uns dos outros, tanto na sua postura perante a vida, como nos seus gostos, desejos, ambições, crenças e temperamento. São diferentes porque são únicos!

Não gosto de usar a expressão "conquistar amigos", parece que os tomei à força!Prefiro dizer que os ganhei, pois qualquer um deles trouxe à minha vida algo de bom.

De há uns anos a esta parte, reunimo-nos todos os anos na altura do meu aniversário, fazemos um almoço, temos os nossos rituais, e comportamo-nos como uma espécie de confraria. Brincamos e temos gestos de ternura e simpatia uns com os outros. ( O que é preciso é cativar. Já dizia o Principezinho!) Acontece que alguns se mantém desde o início e outros que se desligaram. Não é problema, a vida é assim, o que importa é que os que estão, ESTÂO.

Esta comemoração funciona como um três em um, festeja-se o meu aniversário, brinda-se ao Novo Ano e consolidam-se os laços que nos unem.

Este é o meu tesouro e tenho que cuidar dele!

Bem Haja cada um!

Introdução

Foram muitos os escritores que começaram a escrever as suas obras em revistas e jornais na forma de capítulos. à medida que os iam publicando, recebiam a informação sobre a opinião do público. Isso, permitia-lhes avançar num certo sentido e alterar alguns aspectos de modo a agradar o mais possível.
Telmo, o Marujo, começou a ser escrito há doze anos e, a dada altura, empancou. Não saiu do sítio! Não me tenho preocupado muito porque sei que este tipo de coisas acontecem até aos melhores, mas gostava de fazer uma experiência: vou publicando capítulo a capitulo e talvez, quem sabe, alguém me ajude a sair do impasse! Vamos a isso?

Telmo. o marujo

1. Os meus olhos cor de mar


Acabara de sair da infância e, o mundo parecia-me já apertado. Sabia de portas, mas não como as abrir.
Todos os outros rapazes da minha idade, atiravam-se com fúria para a vida, enquanto eu nada fazia. Quando não tinha aulas, escarranchava-me na muralha do velho porto da minha cidade, deixava-me hipnotizar pelo ondear das águas cansadas, ou perdia-me em sonhos sempre que relia um velho diário de bordo oferecido por um marinheiro, ou ouvia as longas conversas sobre as suas viagens. Talvez eu fosse um navio audacioso numa aventura por iniciar.
Tinha muito poucos amigos. O único a quem podia chamar assim era um velho marinheiro chamado Josias que tinha idade para ser meu avô.
Apesar da nossa diferença de idades, éramos companheiros de espírito, ambos inquietos, entusiasmávamo-nos com as intrigas urdidas pela nossa imaginação. Como se fora um jogo! Cada qual sabia que o que o que contava era a imaginação, uma invenção quase delirante do nosso pensamento. Um caleidoscópio que nos iludia o espírito. Divertíamo-nos e, pelo meu lado, creio que aprendia muito mais do que nas aulas de Frei Rufino da Cruz.
Nunca fui um miúdo bem-mandado nem pacato. Normalmente, acontecia irar-me com tudo e com todos, principalmente comigo mesmo. Aborrecia-me sobretudo o corpo e, quando olhava para o comprimento extravagante dos meus membros, para a estreiteza da minha cabeça encimada de cabelos ruços, espetados em todas as direcções, envergonhava-me. Para já não falar das minhas orelhas largas e salientes que me emprestavam um ar de truão. E essa imagem que tinha de mim, levava-me a ser bastante antipático com a maioria das pessoas.
Josias ouvia as minhas lamúrias e sorria divertido. Não que fizesse pouco de mim, mas porque ele era sábio e sensível. Ouvia-me e depois, pondo um ar de seriedade, sem troça, dizia-me pousando com firmeza a sua mão no meu ombro:
- Sabes, Telmo, a beleza dos homens está na alma. E sendo os olhos, o espelho da alma, posso dizer-te que os teus se confundem com as águas do mar. Às vezes nem sei se são eles que reflectem o mar ou se é o mar que transborda deles!
Quando ouvia aquelas palavras, ficava todo vermelho, senti-as como um elogio e travava a emoção na garganta com um riso nervoso. Não estava habituado a palavras de elogio e aquelas, soavam-me doces e sinceras.
Josias, compreendia o meu pudor e disfarçava com uma cachimbada e uma coçadela nas barbas brancas que lhe roçavam o peito.
Passei a deixar de me queixar àquele homem porque sentia que não era justo amarrotar a nossa amizade com os salpicos do meu egoísmo.
Afinal eu tinha os olhos de mar e convinha continuar a navegar com eles!