sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

À procura da dor

Neste nascer infindo do dia, a amanhecer,
Surge o vagido tímido de um menino parido.
Alonga-se o grito sentido por desespero apreendido.

...Solta-se o mar,
...Solta-se a terra.
E em cada gota de espuma
Atirada aos nossos rostos,
Nasce um amargo contínuo
Que nos ensina a dor.
Cheguei junto da margem de um lago azul,
azul e belo com flores brancas,
sob a calma fluida dos meus olhos parados.

Os meus olhos encheram-se do lago,
Do lago azul, azul e belo com flores brancas.

Depois em pensamento caminhei.
Sobre a terra-torrão os meus olhos choveram.
Choveram o lago, o lago azul, azul e branco.
E a calma fluida chorada, lavou o meu sofrimento.
Na sombra do caminho
cai o luar
pálido, da noite a chegar.

Devagar como principio
do delirar
de um parto, a começar.

Embrulhado, o silêncio
vazio, vem anunciar,
a hora do jantar.
Ontem vi reflectir
um homem a rir
do seu discurso...

Ontem vi pasmar
diante do espelho
um homem a chorar
e uma mulher
com olhos de gente...

Hoje cá dentro
não me concentro
não sei o que achar...
A chuva cai
cai como em nós
cai a nossa voz
A chuva cai
cai como em nós
cai quando estamos sós.
Amanhã o vento
vai entrar no tempo
trazendo, trazendo
uma dor moendo
aqui, cá dentro,
junto do peito
e do ventre.

A paradoxal vida dos séculos XX e XXI

O que pensarão de nós os historiadores, arqueólogos, antropólogos, sociólogos e filósofos daqui a uns anos desta nossa sociedade?
Admirarão, sem dúvida, a velocidade das descobertas e os aperfeiçoamentos da técnica e da ciência realizados em pouco mais de um século que puderam materializar sonhos de muitos milénios. Reconhecerão os ideais que apelam à individualidade e à liberdade do ser humano, à sustentabilidade da Natureza, à protecção das espécies, os esforços feitos para corrigir os erros cometidos e épocas anteriores. Compreenderão que o seu presente foi construído nestes pilares e que esta foi a consequência de uma nova revolução onde todas as formas de vida passaram a ter um papel fundamental.
Simultaneamente, ficarão perplexos com a nossa obsessão pelo acumular de objectos e construção de espaços que desrespeitaram o equilíbrio da Natureza; pelo número e tipo de guerras que feriram e mataram tantos seres humanos; pela violação dos direitos mais fundamentais que levaram à venda de órgãos de dadores vivos e/ou ao seu contrabando; pela criação de uma ideologia que criou duas espécies de classes: a dos que têm sucesso e a dos que se perderam no caminho ou recusaram viver em função desses valores; pela necessidade de controlar, normalizar, avaliar, reciclar, reutilizar e rotular tudo o que nos rodeia.
O que pensarão os sábios do futuro sobre nós? Que julgamento nos farão?
Será que nos programas de História mereceremos mais do que uma frase que nos caracterizará como: A sociedade dos paradoxos?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009


Como os ramos de uma oliveira, estende os braços em jeito de confidência. A paz que tens dentro de ti frutificará em verde e alimentará todos os homens.

Telmo, o marujo

4. No Boa Nova


E deram-me o nome de Marujo.
Em pouco mais de um ano tornara-me num rapaz desembaraçado e bem-disposto, adaptado completamente às rotinas e tarefas. Para além de gajeiro, também esfregava as tábuas e fazia tudo o que me era pedido.
Todos os meus camaradas me respeitavam e acarinhavam, surpreendiam-se que em tão pouco tempo, tivesse aprendido tanto e tivesse tanto jeito em lidar com eles. Bartolomeu que se tornara quase meu tutor em nome da amizade comum que nos unia a Josias, incentivava-me muitas vezes para animar os mais desmoralizados ou, para sossegar os mais inquietos.
-“Vai, Telmo, vai falar com “Jonas”, está tão velho e doente que não voltará a embarcar!”- dizia ele, aproveitando o carinho que “Jonas” sentia por mim.
E, lá ia eu, falar-lhe dos meus projectos, dos meus planos para futuras viagens, dizia-lhe que precisava dele para me ensinar, e ele, sorrindo, puxava das forças e arribava.
Penso que a maioria me via como filho, irmão mais novo e até, como neto, sem querer, eu suavizava aquela dureza que os homens habituados às dificuldades costumam mostrar para esconder os seus verdadeiros sentimentos.
Nessa altura não compreendia porque é que havia marinheiros que não gostavam do mar, que estavam ali só para ganhar dinheiro ou por estarem a cumprir penas. Para mim o mar era um paraíso, não tinha medo dele. Sabia que para lá do horizonte havia mundos diferentes por descobrir. Sabia que o mar era uma estrada larga que me levava a um fim qualquer; uma praia, uma costa, qualquer outro pedaço de terra... era essa estrada que eu amava! As surpresas, os riscos, faziam parte dessa aventura. Era pelo imprevisto e pela descoberta que eu sentia a paixão, e também, porque secretamente eu sentia que estava destinado a ver revelados mistérios maiores.
Eu adorava o mar, pensava que ele era demasiado maravilhoso para servir de castigo a alguém. Não entendia o medo que sentiam dele (como se em terra firme os perigos fossem menores!), quando os ouvia contar histórias medonhas de monstros marinhos, de vagas arrasadoras, não conseguia evitar um sorriso discreto. Não porque me considerasse mais esperto do que eles, mas porque descobria os meus camaradas, homens feitos, com almas infantis e cheias de candura. A verdade porém, é que eu não podia retorquir pois, a minha experiência era muito pequena ainda!
Passavam os dias, as semanas, os meses, e eu, continuava a ir à noite ou quando estava livre, para o cesto da gávea ou para a proa. Ali os meus olhos perdiam-se nas águas azuis, verdes ou cinzentas para as apreciar. Encantavam-me as águas que pareciam dormir, respirar, e às vezes até, fazer birras quando espirravam espuma contra o costado e gingando perigosamente o navio.
Apesar de já ter experimentado calmarias e tempestades, sentia que nada de grave punha em risco a minha vida ou o meu namoro com o oceano.

Á procura da dor

Deixastes um país de marinheiros de mar,
cair ao fundo e engolir
as botas velhas que não foram pescadas...

Aí aonde o deixastes preso ao lodo do fundo
está uma corda cheia de nós de amargura
que vos suspende e guia.

Singela ideia feita de flores de hélices
batida pelas ondas enraivecidas
folheada de farpas...

Quem sabe se um suspiro
será capaz de lançar canhões
contra o ameno panorama?

O cenário é penúmbreo
como uma emissão em ondas curtas
de um programa de rádio, dessintonizado...

Talvez acorde dentro de vós
uma chama quente que seque o mar
que lime as farpas e barre o vento.

Talvez se solte a mensagem pelo ar
transmitida via satélite
e vos faça avançar!