sábado, 24 de janeiro de 2009

Cezanne
Vem depressa, vem depressa,
Que eu morro por esperar.

Aqui, neste cais ventoso
De Inverno, envergonhado.

Vem depressa, vem depressa,
Que o meu corpo se cansa,
Já não consegue avançar,
Já não consegue esperar.

Vem depressa, vem depressa,
Para que não acorde de vez
Deste sonho que, por acabar,
Ficou neste inglório chamar.
Sebastião Rodrigues
Tenho medo de sentir medo,
De ficar com o gemido na voz.
E, de acordar manhã cedo,
Com a sensação de estar a sós.

Tenho medo de sentir tremer
O meu corpo convulsivo
E, de continuar a tremer,
Num anúncio evasivo.
Derain
Eu conto:
Era uma vez uma história
Que ficou por dizer
Presa na garganta
Que a não pode contar.

Era vermelha a nuvem
Que se abria
Azul a estrada
Por onde se estendia
E a flor generosa
O seu perfume oferecia.

O que ficou calado
Cá dentro do peito
Foi como uma semente
Germinando contente...

Telmo, o marujo

A justiça de Daniel (2ªparte)

- O que pensas verdadeiramente daqueles que fazem parte da tua família actual?
- Bem…não tenho grande impressão dela… às vezes até parece que não faço parte dela!
- Sim, mas sinceramente, analisa cada um deles.
- O meu pai é muito trabalhador, esquece facilmente as necessidades dos outros, só pensa em acumular riqueza, é um bocado mesquinho e, não tem nunca um gesto de generosidade. Nunca faz nada pelos outros se não obtiver algum ganho com isso.
- O teu pai ainda está num degrau muito abaixo do seu desenvolvimento, não o culpes, ele não aprendeu ainda a importância de outros valores.
- A minha mãe criou-nos, tratou de nós como soube, mas está sempre a reclamar da vida que tem. Julgo que gostaria que nós fossemos famosos, importantes, assim reconheriam o seu trabalho e a sua contribuição na nossa educação. Dedica-se muito a João por causa da sua doença.
- Ela não é muito diferente do teu pai. Espera que tu regresses rico, admira Gil e Henrique porque os sabe ambiciosos, despreza Bernardo por ser humilde e reservado e, espera, mesmo que secretamente, que João morra e a liberte desse fardo.
- Gostava que assim, não fosse, mas acho que estás certo em muitas coisas, tenho pensado nisso algumas vezes, mas achava que estava a ser um pouco duro com os meus pais!
- Mesmo que lhes reconheças os defeitos, não quer dizer que não tenhas uma grande dívida para com eles, afinal o teu projecto de vida nunca seria posto em prática se não nascesses deles. Se calhar se fosses um filho muito amado, não terias ansiado procurar outro caminho! E, os teus irmãos, que pensas deles?
- Bernardo e João são os meus favoritos. Bernardo é forte e manso, obediente e cumpridor. Não tem grandes ambições. Às vezes parece-me um bocado triste mas nunca lhe ouvi uma palavra desagradável. É o braço direito do meu pai, mas ele não reconhece e prefere os meus irmãos, Gil e Henrique. João foi sempre doente, é o que está mais próximo da minha idade mas nunca brinquei com ele. Tem o olhar parado, quase não sai de casa, tem medo de tudo. Mas olha-me nos olhos com ternura, às vezes até parece que me quer dizer qualquer coisa, mas eu não o percebo. Gosto muito dele sem saber porquê, sinto as suas dores no meu peito e não posso fazer nada por ele!
- Quanto a João já te expliquei que a sua doença é uma espécie de cura na sua vida, não tens que ter pena dele, só tens que o amar, mais nada. Bernardo, talvez não seja o mais esperto da família, vê o que vê, e mais nada. É muito terra a terra, como costumam dizer as pessoas no teu mundo, mas é um homem muito generoso, honesto e tranquilo. Talvez numa próxima vida ele vos ultrapasse. E, os outros, já manifestaste a tua pouca simpatia para com eles. Porque razão sentes isso?
- Bom… eles não são exactamente iguais, no entanto, dão-se bem. Não sei explicar bem porque sinto isso em relação a eles, mas Gil, tem uma linguagem feia, tudo nele é malícia, não respeita ninguém, sobretudo as mulheres. Henrique é violento, está sempre pronto para uma boa rixa, parece que já nasceu zangado. E não é só bater, ele sente prazer em magoar. Sofri bastante com ele quando era criança, e João também é muitas vezes uma vítima nas suas mãos. Até com a minha mãe é bruto.
Sabes, Hugo, apesar de reconhecer que a minha família não é aquilo que eu desejava, custa-me falar dela assim, é a única família que tenho!
- É bom que tenhas esses sentimentos. Mas enganas-te numa coisa, não é a única família, é a tua família actual, esta é mais uma que tiveste.
- Como assim?
- Já tiveste outras famílias em vidas passadas, a todas deste um pouco de ti, criaste com elas laços de amor, hoje porém, a tua família é a humanidade inteira, tens que aprender que não devemos amar só o que é nosso, mas o que é de todos.
- Ai! Hugo, receio que não entenda tudo o que me estás a dizer? Sinto uma confusão enorme na minha cabeça!
- Eu sei, pequeno, mas a nossa conversa entrou em ti como semente, e ela, germinará dentro de ti. No dia em que desabroche, terás o conhecimento inteiro sobre ela.
-Só mais um esclarecimento: quando falas em vidas, fico curioso, afinal quantas vidas temos nós?
- Uma só, revestida de infinitas formas. Não há limites, e o seu número não é mensurável.
- Não?
- Não. O mais importante é o que vives em cada uma delas, o que aprendes com elas, como te transformas e aperfeiçoas ao longo da tua única vida!
- Pensei que ia ficar esclarecido! Mas acho que fiquei ainda com mais dúvidas!
- Óptimo! São as dúvidas que nos fazem procurar respostas. E por isso aprender! Estás cansado, não estás?
- Estou, mas não te zangues comigo!
- Claro que não, compreendo. Está na altura de repousares, talvez no jardim encontres um lugar aprazível que te ajude a sossegar o espírito e a organizar as ideias.
Daniel despediu-se de mim e eu desci até ao jardim como ele me recomendara, durante o percurso ia pensando como era interessante haver uma justiça que não era exercida pela força, mas feita através da razão e dos sentimentos, que em vez de castigar, reabilitava os homens sem os derrubar nem os atirar para um inferno em chamas. Acho que nesse dia fiquei um pouco mais sábio, afinal, não era o tempo que me fazia crescer, era apenas uma forma nova de ver as coisas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Telmo, o marujo

4. A justiça de Daniel (1ª parte)

Ninguém me impedia de vaguear pelo interior da Casa, por isso eu percorria todos os corredores na esperança de encontrar alguém com quem conversar. A maioria das vezes encontrava encerradas as portas e imaginava mistérios atrás delas.
Naquele dia no andar de cima, descobri uma que se situava numa espécie de plataforma, para lá chegar bastava-me subir por uma escada em caracol construída toda em tubos de bronze amarelo. Foi o que fiz. À minha chegada, a porta deslizou em silêncio e eu esgueirei-me cautelosamente para dentro do aposento. Fiquei de boca aberta!
A sala era oval e o tecto abobadado, nele abria-se uma fenda que permitia a saída de um braço de um telescópio monstruoso que ocupava grande parte da sala e que girava por si só, muito lentamente, num arco de circunferência aproximadamente de duzentos e quarenta graus. As paredes da sala estavam repletas de painéis côncavos em que inúmeros pontos de luz de várias cores piscavam. Havia ainda uma quantidade razoável de mesas com bancos acoplados cujos tampos eram concebidos num material idêntico ao vidro mas muito mais espesso e brilhante.
Depois do primeiro impacto, sentei-me a uma das mesas e pousei a minha mão direita sobre ela. Imediatamente, começaram a formar-se no tampo imagens vivas reflectindo os meus pensamentos da altura. Arrisquei então pensar na minha própria cidade, e logo se esboçaram os contornos dela, o cais amuralhado, as calçadas, o largo da feira... entusiasmado, dirigi então o meu pensamento para casa do meu pai.
Lá estava o toldo vermelho assinalando-a. Vi o meu pai mais velho e desgastado a atender um estrangeiro que lhe mostrava uns tecidos finíssimos e ele, com o seu habitual ar desdenhador a subvalorizar a mercadoria para ver se conseguia baixar ao mínimo o seu preço. Bernardo mostrava-se interessado e tentava convencer o pai que valia a pena o investimento, mas ele não lhe ligava nenhuma. Depois penetrei no armazém onde encontrei os outros meus irmãos, Gil e Henrique que estavam a enrolar peças de lã. Pareciam divertidos, pois de vez em quando, soltavam risadas e piscavam os olhos maliciosamente um para o outro.
Como não vi João, o meu irmão mais querido, resolvi entrar na cozinha. A minha mãe e a comadre Zinda vestiam-se ambas de luto, mas não percebi porquê. Encontrei o João deitado numa enxerga perto do lume, transpirava abundantemente e agitava-se com alguma violência. Nunca soube porque João passava a vida doente. Bastou-me ter posto esta questão para que reparasse numa figura horrível perto dele. Era escura e retorcida, estava agarrada às suas costas e parecia sugar-lhe um filtro esbranquiçado. – Sai daí! – Gritei eu, a criatura olhou-me maldosamente nos meus olhos e acabou por se assustar, largando o meu irmão e desvanecendo-se numa espécie de fumo acinzentado.
João suspirou e acalmou-se, pediu a minha mãe um pouco de água que ela serviu de imediato, surpreendida com as melhoras repentinas dele.
Fiquei atordoado com tudo aquilo, o que me parecera de início um jogo era a própria realidade! Como era então possível interpenetrar o meu mundo e exercer influência nele, apenas com o meu pensamento e a minha vontade?
Senti uma mão pousar suavemente sobre o meu ombro, virei-me e encontrei o rosto de Daniel.
- Tudo o que vês aqui é inteiramente real mas não é vantajoso interferir levianamente com essa realidade. Vem comigo para eu te explicar melhor.
Daniel era o mais baixo e atarracado de todos os Seguidores, tinha uma cabeça pequenina colada a uns ombros demasiado largos, quase nem se distinguia o pescoço! O tom da sua pele era de um moreno azeitonado, porém os traços da sua cara eram correctíssimos e os seus olhos transmitiam uma serenidade sem igual. A sua voz entrava directamente no meu cérebro, devagar, como para ter a certeza que eu o entendia. Passámos por uma porta mais pequena que dava para uma outra sala onde funcionava a biblioteca e onde milhares de livros se perfilavam nas estantes coladas à parede, alguns Seguidores liam compenetrados e Daniel fez-me um sinal para que eu me mantivesse em silêncio e indicou-me uma escada interior. Descemos os degraus e penetramos numa espécie de gabinete onde também havia prateleiras cheias de caixas numeradas.
- Lá em cima estão milénios de cultura terrena e não terrena, escritos em todas as línguas de todos os mundos conhecidos, aqui estão os registos do seu estudo. Sabes, o pensamento da humanidade não tem variado muito ao longo dos tempos, mas a forma como o têm posto em prática varia conforme os tempos e os lugares. Às vezes, esses pensamentos revestem-se de alegorias tão fantásticas que acabam por perder o seu verdadeiro significado, outras, são tão claros, que surpreende os homens e os torna incrédulos em relação a eles.
Perguntar-me-ás porque estudamos nós, o passado dos mundos? E eu respondo-te desde já que é no passado que encontramos muitas vezes as respostas do futuro.
Todos os seres evoluem ciclicamente até atingirem a maturidade num lugar e passar à infância noutro. Assim, cada nova multidão tenderá a cometer os mesmos erros, só que os vão sanando de forma diferente, dependendo da sua evolução e sensibilidade. É interessante verificar como cada geração os resolve! Todos os Seres ambicionam progredir nos seus conhecimentos, quer na sua aplicação, quer nos recursos que utilizam. Isso não tem grande importância se no final atingirem o objectivo pretendido. No Universo existem várias leis; mas a Lei da Casualidade que diz que uma acção por si só não tem razão de existir se dela não derivar um efeito, repercutindo-se sucessivamente, é a mais compreensível e aceite por todos. Tudo é consequente, nada fica em suspenso. É por isso que nós, vós e todos os outros habitantes do vasto universo habitável, necessitamos de aprender a conhecer a Lei. Só com a consciência plena dela se pode agir utilizando o livre arbítrio que nos foi dado, responsabilizando-nos portanto por todas as nossas acções e pensamentos.
Os habitantes do nosso Arquipélago vieram de mundos muito diferentes entre si, só a sua essência divina os aparenta bem como o seu nível de evolução. No entanto, por uma questão de adaptabilidade revestiram-se das formas corporais que tu lhes reconheces. Têm em comum a conduta, os valores, e o desejo de progredir num mesmo sentido. Nós mesmos, os Seguidores, estamos sujeitos às mesmas necessidades e desejos. A nossa atitude prioritária é evoluir e dar àqueles que ainda não atingiram o mesmo grau de evolução a oportunidade e os meios de o conseguirem. Entendes?
-...Mais ou menos, Daniel! Não percebo muito bem como é que seres desiguais, procuram em caminhos diferentes os mesmos fins! Repara, tenho pouco mais de uma dúzia de anos, não sou estudado, e a primeira vez que saí de casa foi para dentro de um navio que navegou mais de um ano só parando o tempo suficiente para carregar e descarregar mercadorias, o que nem deu tempo sequer de conhecer os cais aonde aportávamos. Que conheço eu da vida!?
- Conheces sim, Telmo, tu tens muito mais idade do que julgas ter, um dia irás recordar-te disso...se for necessário para tua aprendizagem, claro. Sempre exististe, o teu lugar estava ocupado por ti antes de o saberes, muito antes de nasceres daquela a quem chamas mãe.
- Credo, Daniel! Como pode isso ser?
- Tu, como todos, és espírito, essência, verbo... no teu mundo costuma dar-se o nome de espírito a tudo o que não tem uma consistência sólida, porém, há muitas formas da matéria que desconheceis e que existem distintas em todo o Universo. O verdadeiro espírito ainda fica muito além da vossa compreensão porque é demasiado subtil, etéreo!... Mas continuemos; o que pensas do tu do facto de nos preocuparmos com a harmonia e o desenvolvimento dos que habitam nos mundos próximos?
- Não sei! Talvez sejais como os anjos, e essa é a vontade de Deus!
- Não, não somos como os anjos, esses, são seres perfeitíssimos
que vivem na esfera divina. Nós, mesmo que mais avançados do que vós em alguns aspectos, estamos muito atrasados para os nossos próprios padrões e, sobretudo para aqueles que já nos ultrapassaram! É certo que já passamos a vossa fase evolutiva há algum tempo, mas estamos apenas um pouco à frente. Se a nossa missão é fazer-vos crescer é porque crescemos também com esse esforço, é como uma retribuição!
- Então qualquer um de nós pode chegar ao topo? Nesse caso,
para que serve o céu ou o inferno? Quem nos faz o julgamento depois da morte? Que papel desempenha Deus nesta história?
- O céu e o inferno não são lugares específicos, são apenas
Imagens, estados de alma que se apresentam aos seres menos evoluídos que não conseguem perceber de outra maneira os seus erros. Como em tudo, os que são semelhantes tendem a reunirem-se, logo, cada qual encontra após a sua morte física aquilo que acredita encontrar, bem como os que actuaram e pensaram de forma idêntica. A prestação de contas é feita por nós mesmo se tivermos capacidade para tal, pois possuímos uma consciência mais clara depois de nos libertarmos do nosso invólucro. Só os mais atrasados, renitentes e orgulhos precisam da intervenção de alguém mais aperfeiçoado para lhes mostrar o caminho certo, isso os impulsionará a corrigir e a arrependerem-se dos actos cometidos de forma a comprometerem-se com o caminho do bem. Deus é o Infinito, o Absoluto que nos criou, e todos nós, se quisermos, podemos em todas as nossas vidas encontrá-Lo.
- E então, o que são os anjos afinal?
- Os anjos jamais se apartam da presença do Divino. Nunca utilizaram corpos materiais para crescer. Eles são como luzeiros que velam os nossos passos no labirinto da nossa procura.
- Nesse caso tudo está previsto! Não vale a pena fugir ao sofrimento, nem alterar o nosso caminho!
- O sofrimento ajuda-nos a crescer, ele permite que aprendamos a desviarmo-nos de alguns comportamentos, torna-nos mais humildes e dispostos a perceber a transitoriedade das coisas. Mas cada um é livre de viver esse sofrimento com mais ou menos compreensão. Podemos subir ou descansar na escada que nos leva aos patamares da nossa vida. Logo, és tu mesmo que constróis esses degraus.
- Mas… e os males que nos atingem fora da nossa vontade? Eu vi que João, o meu irmão, era vítima de uma criatura horrenda que lhe sugava as forças e, não creio, que ele aprenda com isso! Apesar de tudo, sinto uma imensa compaixão por ele e gostaria de o libertar dessa criatura que o mantém refém e o debilita!
- O teu irmão aceitou esse sofrimento para redenção de um passado anterior cheio de vícios, é como se lavasse toda a sua vida nesta existência. Tu e o João vieram com a mesma vontade de mudar. Ele através do sofrimento e da dor e, tu, com o conhecimento que aqui adquirás e com as tuas acções futuras. Ambos fazeis para do mesmo plano. Plano esse que traçastes há muito.
- Perdoa-me, Daniel, mas tudo o que dizes é muito confuso para mim!
- Acredito que neste momento te perturbes, mas tenho a certeza que o entenderás em breve quando meditares no que falámos.
Responde-me agora tu a umas perguntas:
Rubens Gerchman
Alguns vêem estrelas nos olhos
E caminham ao som do vento.

Outros, na rota do deserto
Bradam e arrastam-se no lamento.

Alguns têm o olhar brilhante,
Iluminam a estrada,
Desfraldam a bandeira berrante
Sempre que vencem, em cada passo, o nada.
De harmonia com o tempo,
Trazem em gloriosas taças
O sémen do advento,
O elogio da sua raça.

Outros, no seu deserto
Cegam-se pela poeira.
Nunca chegam a estar perto,
Caem e levantam-se a vida inteira.
São os derrotados, os enlutados,
Estéreis, escondem-se temerosos.
Passam sem serem notados.
Não são belos...nem horrorosos.

E nós?

Olhamos
E ficamos mudos de olhar e de voz!
Matisse
As pedras do caminho
Negras
Gastas
Pelos domingos

No passo passo
Do caminho sem rota
Misturando a cor
Dos perfumes d’ocasião,
Mostrando as barbas rapadas
E as pernas depiladas,
E, os relógios
Que esquecem as horas.

Passa o domingo
Negro
Gasto
À porta da rua
Onde as palavras são inaudíveis.
Picasso
No encontro das tuas mãos
Procurando desejo,
Há uma página em branco
De um livro em segunda edição.

Há já o tempo passou!
O tempo de poder passar...

Agora as minhas mãos
Seguram o presente
Que não se deixa prender
Nem, simplesmente, se mostrar.
Os dias têm estados chuvosos e frios, é tempo disso! Mas eu sinto-me enjaulada!
Gosto de sair de casa, manhã bem cedo, cruzar-me com os noctívagos que saem dos bares e discotecas que arrastam com eles a ressaca de uma noite de esvaziamento. Sou-lhes tão estranha como eles a mim, mas gosto de olhar e ouvi-los no seu entaramelar de vozes.
Mesmo não vendo qualquer sentido no seu modo de vida, sou incapaz de os criticar. Cada um é o que é, cada um vive do modo que entende. Eu prefiro o meu mas sei que muitos também se admiram disso.
O melhor da manhã é o começo do ruído, num crescendo, depois, passadas algumas horas já não o distinguimos.
Também gosto de ver aqueles que têm que partir para os seus afazeres, lavados, perfumados, com o sono atrás das costas mas caminhando para o dia. Também já fui assim! E ficou-me o jeito.
Daqui a pouco, vou para a rua beber o café e os rostos!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Elza O.S.
Não sei o que me faz seguir em frente, olhar as margens do caminho, parar por momentos nas fontes de água fria, aquecer-me ao sol, reparar no luar.
Só sei que os meus passos me levam do destino, e que o mundo todo é meu ainda!