5. Mãe Irene (2ª parte)
Irene convidou-me para ir com ela, torneámos alguns dos caminhos e abeirámo-nos de uns arbustos muito engraçados; da mesma planta, despontavam pequenas bagas cor de mel, vagens verdes riscadas de amarelo, e flores brancas muito parecidas com as flores das nossas abóboras. Seguindo o seu exemplo, comi as bagas que me pareceram ter um sabor agridoce e as vagens que sabiam a pão de milho. No fim de me ter saciado com estas iguarias, peguei numa das flores e chupei cada uma das suas pétalas que me refrescaram agradavelmente. Foi uma refeição divertida, pois uma das coisas que mais me interessava naquela idade, era descobrir sabores, cheiros, cores, sons e texturas. Sentia um apelo enorme em exercitar todos os meus sentidos!
Enquanto comíamos, conversávamos sobre as sensações que íamos tendo. Nunca tinha pensado quão interessante podia ser falar daquilo que experimentava. Irene era uma excelente mestra, sabia orientar e levar-me a descobrir conceitos como se fosse um jogo, um divertimento!
Depois, sentámo-nos na relva e muito mais à vontade, pousei a minha cabeça no seu colo. Era tão repousante que me senti quase um menino pequenino com direito a usufruir cuidados maternais. Estivemos calados durante muito tempo, nesse período pude pôr em ordem as minhas ideias.
Irene era uma mulher grande em tudo, o seu colo fazia lembrar um ninho forrado de ternura. Tinha a pele castanha macia, quente e perfumada. No rosto arredondado, os olhos negros cintilavam e falavam com uma linguagem que entrava ternamente no coração. A boca apresentava quase sempre um sorriso meigo.
Reparei que a via escolhida por ela, era a do Serviço porque trazia, tal como Helena e Daniel, um cristal pendurado na testa. O cristal de Irene assemelhava-se a uma lágrima de solidariedade por todos aqueles a quem protegia.
Pela primeira vez, sem ter que fazer qualquer esforço, deixei que a minha voz se soltasse de dentro para fora:
- Irene, porque que tem que ser assim? Porque é que os homens só aprendem com a dor?
- Com a dor? Oh, meu filho, a dor é apenas um dos meios de aprendizagem, ela tem apenas a intensidade que cada um pode suportar! Mas também se aprende com o trabalho, a beleza, a alegria e, sobretudo meu querido, com o amor!
Tudo tem que ser bem doseado para não haver desequilíbrios.
Se a dor fosse o único meio, os homens tornar-se-iam empedernidos, indiferentes. A dor só serve quando se está disposto a entendê-la. Os outros meios ajudam a compreender o lado forte, belo e sólido da vida. Com eles, constrói-se a doçura e a gratidão, principalmente a crença profunda nos objectivos a atingir.
Quando Daniel te falou na Lei, foi para que percebesses que existe uma justiça em tudo o que nos rodeia. Nada se colhe sem sementeira, mesmo num mundo tão agraciado como o nosso! É muito difícil de entenderes isto?
- Não, dito assim, não é. Mas… Irene, porque não temos nós consciência de todo o nosso passado? Porque nascemos esquecidos dele em cada vida? Deste modo caímos nos mesmos erros, não é?
- Isso acontece para que possamos começar de novo, como se acabássemos de acordar. Embora não os esqueçamos totalmente, dentro de nós existe a consciência do que devemos fazer para corrigir cada um dos nossos defeitos ou crimes de outras passagens pelo mundo material. No entanto, o passado é pouco importante se já formos capazes de decidir o futuro, de transpor os obstáculos, um a um, com a certeza do que fazemos. Não convém negar os erros anteriores porque eles fizeram parte da aprendizagem. Imagina que te recordavas de tudo. O mais natural era que tentasses esconder os teus aspectos negativos por vergonha, ficarias tão preocupado com eles que deixarias de investir nas tuas qualidades ou agirias apenas em função deles.
Tal como os pais esquecem as diabruras dos filhos, dando-lhes constantemente a possibilidade de se regenerarem, Aquele que nos criou também assim faz!
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Mais palavras...
Henri Maguin

Sinto o peso do nada
Vazio no meu peito,
Enquanto os pés calcam
A almofada do meu jeito.
Sinto o labirinto de sons
E as imagens a branco e negro,
Ecoando em semitons
Aquilo que eu mesma nego.
Aqui sou sem tudo e sem nada,
A luz que ilumina o cego
Na tortuosa estrada.
Aqui governa o meu medo,
E sinto-me surda, cega, calada
No meu próprio enredo.
Vazio no meu peito,
Enquanto os pés calcam
A almofada do meu jeito.
Sinto o labirinto de sons
E as imagens a branco e negro,
Ecoando em semitons
Aquilo que eu mesma nego.
Aqui sou sem tudo e sem nada,
A luz que ilumina o cego
Na tortuosa estrada.
Aqui governa o meu medo,
E sinto-me surda, cega, calada
No meu próprio enredo.
Palavras
Tarsila do Amaral

O Sol é de todas as cores
Mesmo daquelas que ninguém vê.
O Sol tem todos os valores
Mesmo para quem não crê.
O Sol
Trago eu no peito
Quando o riso se desprende
No riso
Que ilumina e surpreende.
O Sol
Trago eu no olhar
Quando a paixão se solta
E quando ela voando
Volta e não volta.
O Sol
Trago eu no ventre inchado
Quando grávida me sinto.
Quando há algo esperado
No amor que pressinto.
O Sol
Trago eu nas mãos
Quando dou
Quando recebo
Dos que são meus irmãos.
O Sol
É de todas as cores
Ao erguer de cada manhã
Ao erguer de cada dia.
Mesmo daquelas que ninguém vê.
O Sol tem todos os valores
Mesmo para quem não crê.
O Sol
Trago eu no peito
Quando o riso se desprende
No riso
Que ilumina e surpreende.
O Sol
Trago eu no olhar
Quando a paixão se solta
E quando ela voando
Volta e não volta.
O Sol
Trago eu no ventre inchado
Quando grávida me sinto.
Quando há algo esperado
No amor que pressinto.
O Sol
Trago eu nas mãos
Quando dou
Quando recebo
Dos que são meus irmãos.
O Sol
É de todas as cores
Ao erguer de cada manhã
Ao erguer de cada dia.
Raoul Dufy

Foste campo, foste sol,
Terra semeada de trigo,
Subterrânea água do lençol
Nascida no solo amigo.
Foste oceano, foste mar,
De ondas ao sabor da maré,
Cardume que ao passar
Alimentou a minha fé.
Agora não és mais do que eu.
Estás fundido no meu corpo cansado.
O amor, esse morreu,
Ficou apenas o seu recado.
O campo e a água secaram
O cardume desapareceu,
E até o sol se esqueceu e as ondas sossegaram.
Terra semeada de trigo,
Subterrânea água do lençol
Nascida no solo amigo.
Foste oceano, foste mar,
De ondas ao sabor da maré,
Cardume que ao passar
Alimentou a minha fé.
Agora não és mais do que eu.
Estás fundido no meu corpo cansado.
O amor, esse morreu,
Ficou apenas o seu recado.
O campo e a água secaram
O cardume desapareceu,
E até o sol se esqueceu e as ondas sossegaram.
Telmo, o marujo
5.Mãe Irene (1ª parte)
Durante alguns dias andei estranho. Ora me angustiava, ora ficava inexplicavelmente alegre. Nenhum dos Seguidores se mostrou admirado com esse comportamento. Continuavam a tratar-me com delicadeza e simpatia.
Eu entretanto ia-me habituando àquele lugar e ao modo como ali se vivia.
De vez em quando pensava nas palavras de Daniel e, sempre que o fazia, mais perguntas nasciam no meu pensamento. Ninguém me respondia a elas já que no meu íntimo, eu as fazia para mim mesmo. Não em direcção a eles, portanto nenhum me respondia. Às vezes parecia que se me abriam fendas profundíssimas na mente, como se tudo o que eu considerara definitivo, se esfumasse. Havia como bolsas de vazio…espaços em branco para cobrir… nesses momentos, sentia-me só, realmente só! Meio perdido num mundo desconhecido!
No entanto, em certas alturas, parecia-me que alguns dos rostos que me rodeavam eram-me conhecidos, embora não me lembrasse de onde, nem de quando os conhecera. Por isso sentia aqueles sentimentos que tanto me levavam à tristeza como à alegria. Os pensamentos escorregavam de tal forma que pareciam feitos de água sobre a minha cabeça.
Segui o conselho de Daniel, procurava o jardim para estar a sós e pensar, ou melhor, para tentar agarrar cada um desses pensamentos e tentar compreendê-los.
Um dia, estava eu debaixo de um carvalho sem idade, meditando sobre a relação da minha vida com o que se estava a passar, quando me cansei de disciplinar os meus pensamentos e adormeci.
O meu sono foi agitado, cheio de sonhos confusos. Vi-me vestido de corpos diversos, representando papeis diversos. Ora me via como escravo, ora como senhor de terras, ora como frade, ora ainda, como uma mulher. Uma mulher desesperada, atada a um poste sobre uma pilha de lenha que ardia. O sonho era tão real que me ardiam os olhos e sufocava com o fumo, que sentia a queimadura das chamas e a dor intensa que elas me provocavam. Comecei então a gritar: - Estou inocente! Estou inocente!
- Schiu, calma pequenino!... – Sussurrou uma voz meiga junto ao meu ouvido.
Acordei então sacudido por um choro convulso e fui abraçado pelos braços macios da Seguidora Irene.
- Que sonho horrível, Irene!
- Que se passou? Em que estavas a pensar antes de teres adormecido? Tem calma, meu filho, está tudo bem!
- Acho que estava a pensar na conversa que tive com Daniel, um dia destes… há coisas que são difíceis para mim entendê-las e, vim para aqui pensar nelas! Foi ele quem me aconselhou a procurar o jardim para reflectir nas suas ideias!
-Hum, hum! Mas afinal o que é que te perturbou tanto? Lembras-te qual era a questão em que estavas a pensar antes de adormecer?
- Acho que foi… essa coisa de se ter muitas vidas numa só vida, dos familiares só durarem algum tempo, de ter que subir sozinho as escadas do progresso…
- O Seguidor falou-te da Lei, não foi?
- Foi.
- E isso, atormenta-te, assim tanto?
- Oh, Irene, é que eu de repente fiquei sem saber quem sou! Não percebo porque errei nas outras vidas e, que erros cometi…não sei a quem devo nesta vida!
- Serena, meu menino, eu te explicarei o melhor que puder de modo a compreenderes, está bem?
- Está - Respondi eu quase a chorar outra vez.
- Então agora, antes de tudo, vais comer e beber alguma coisa para te refazeres. Vem comigo que eu te ensino a colher um verdadeiro manjar.
Durante alguns dias andei estranho. Ora me angustiava, ora ficava inexplicavelmente alegre. Nenhum dos Seguidores se mostrou admirado com esse comportamento. Continuavam a tratar-me com delicadeza e simpatia.
Eu entretanto ia-me habituando àquele lugar e ao modo como ali se vivia.
De vez em quando pensava nas palavras de Daniel e, sempre que o fazia, mais perguntas nasciam no meu pensamento. Ninguém me respondia a elas já que no meu íntimo, eu as fazia para mim mesmo. Não em direcção a eles, portanto nenhum me respondia. Às vezes parecia que se me abriam fendas profundíssimas na mente, como se tudo o que eu considerara definitivo, se esfumasse. Havia como bolsas de vazio…espaços em branco para cobrir… nesses momentos, sentia-me só, realmente só! Meio perdido num mundo desconhecido!
No entanto, em certas alturas, parecia-me que alguns dos rostos que me rodeavam eram-me conhecidos, embora não me lembrasse de onde, nem de quando os conhecera. Por isso sentia aqueles sentimentos que tanto me levavam à tristeza como à alegria. Os pensamentos escorregavam de tal forma que pareciam feitos de água sobre a minha cabeça.
Segui o conselho de Daniel, procurava o jardim para estar a sós e pensar, ou melhor, para tentar agarrar cada um desses pensamentos e tentar compreendê-los.
Um dia, estava eu debaixo de um carvalho sem idade, meditando sobre a relação da minha vida com o que se estava a passar, quando me cansei de disciplinar os meus pensamentos e adormeci.
O meu sono foi agitado, cheio de sonhos confusos. Vi-me vestido de corpos diversos, representando papeis diversos. Ora me via como escravo, ora como senhor de terras, ora como frade, ora ainda, como uma mulher. Uma mulher desesperada, atada a um poste sobre uma pilha de lenha que ardia. O sonho era tão real que me ardiam os olhos e sufocava com o fumo, que sentia a queimadura das chamas e a dor intensa que elas me provocavam. Comecei então a gritar: - Estou inocente! Estou inocente!
- Schiu, calma pequenino!... – Sussurrou uma voz meiga junto ao meu ouvido.
Acordei então sacudido por um choro convulso e fui abraçado pelos braços macios da Seguidora Irene.
- Que sonho horrível, Irene!
- Que se passou? Em que estavas a pensar antes de teres adormecido? Tem calma, meu filho, está tudo bem!
- Acho que estava a pensar na conversa que tive com Daniel, um dia destes… há coisas que são difíceis para mim entendê-las e, vim para aqui pensar nelas! Foi ele quem me aconselhou a procurar o jardim para reflectir nas suas ideias!
-Hum, hum! Mas afinal o que é que te perturbou tanto? Lembras-te qual era a questão em que estavas a pensar antes de adormecer?
- Acho que foi… essa coisa de se ter muitas vidas numa só vida, dos familiares só durarem algum tempo, de ter que subir sozinho as escadas do progresso…
- O Seguidor falou-te da Lei, não foi?
- Foi.
- E isso, atormenta-te, assim tanto?
- Oh, Irene, é que eu de repente fiquei sem saber quem sou! Não percebo porque errei nas outras vidas e, que erros cometi…não sei a quem devo nesta vida!
- Serena, meu menino, eu te explicarei o melhor que puder de modo a compreenderes, está bem?
- Está - Respondi eu quase a chorar outra vez.
- Então agora, antes de tudo, vais comer e beber alguma coisa para te refazeres. Vem comigo que eu te ensino a colher um verdadeiro manjar.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Palavras
Tarsília do Amaral

Rodeia o meu corpo com o teu,
Assim...como no verbo primordial!
Para que eu sinta de novo viver.
Que esse enlaçar supremo
Faça que o sussurro se solte,
E que eu sinta de novo crescer
O grito, que dentro de mim, está por dizer.
E,
No lapso de tempo tomado,
Que o ar fique acordado.
Que eu creia,
Que ao me teres apertado,
Tenha o amor despertado!
Assim...como no verbo primordial!
Para que eu sinta de novo viver.
Que esse enlaçar supremo
Faça que o sussurro se solte,
E que eu sinta de novo crescer
O grito, que dentro de mim, está por dizer.
E,
No lapso de tempo tomado,
Que o ar fique acordado.
Que eu creia,
Que ao me teres apertado,
Tenha o amor despertado!
Oswaldo Goedi

No meu encontro de passos
Vejo a sombra estendida
No cinzento da parede
Que a luz da noite ilumina.
No meu encontro de passos
Arrasto em desarmonia
Os meus pés já gastos
E esquecidos da alegria.
Vejo a sombra estendida,
Porque de outro modo não podia,
Porque cansada morria
Aos passos da melancolia.
No cinzento da parede
Que fora branca um dia,
Caiada ao pôr – do - sol,
Manchada no outro dia.
A luz da noite ilumina
Numa voltagem anémica,
Queimando solene, os restos,
Daquilo que foi um dia!
Vejo a sombra estendida
No cinzento da parede
Que a luz da noite ilumina.
No meu encontro de passos
Arrasto em desarmonia
Os meus pés já gastos
E esquecidos da alegria.
Vejo a sombra estendida,
Porque de outro modo não podia,
Porque cansada morria
Aos passos da melancolia.
No cinzento da parede
Que fora branca um dia,
Caiada ao pôr – do - sol,
Manchada no outro dia.
A luz da noite ilumina
Numa voltagem anémica,
Queimando solene, os restos,
Daquilo que foi um dia!
Subscrever:
Mensagens (Atom)




