sábado, 31 de janeiro de 2009

Amor em passos de dança

Eduuaro Viana
Morto o meu corpo em abandono
Fulgindo dançando a alma
Sobre o planeta da cor.

O mundo que foi meu dono
E me deu alegria e calma
Escondeu-me o amor.

E eu fiquei encolhida
Numa espera ansiada
Tiritando no frio nocturno.

E eu fui por ele preterida
Sem palavras, silenciada,
Com todo o meu medo soturno.

Não há mais nada para além de mim?
Que monstros precisam ainda vencer?
Aonde é o lugar do meu fim?
Em que espaço posso renascer?

Carlos Bracher
A manhã começou há pouco, ainda se vê a Lua!
A noite foi longa, cheia de sobressaltos, cheia...
E eu acordei definitivamente depois das seis
Com uma enorme saudade de ser tua!

Que foi que os dias passados foram fazendo?
Porque se ofuscaram as imagens que tinha guardado?
Ficaram apenas aquelas a preto e branco e... a cinzento
Há muito tempo que ficaram enevoadas!

Nunca entendeste bem o que me deste, não.
Não sabes ao certo o que em mim plantaste.
Hoje sou ama e senhora de outro coração
Hoje sou a dona da flor que semeaste.
António Carneiro
Procuro-te na multidão dos lamentos
Tu existes aí, algures por entre eles.
Oiço a tua voz embrulhada na confusão
Sou até capaz de ouvir algumas sílabas!
Chamo-te.
Chamo-te a todo o momento
Mas o som mistura-se com o vento!
Onde estás?
Aonde me leva a tua canção?
Amadeu de Sousa Cardoso
No calado silencio da tua ausência, desespero
Clamo por ti no deserto da minha demência
Choro-te no meu peito vazio...
Tranco a garganta de dor em suspiros
E arrefeço o meu corpo frio
Eu sou a imensidão...
Na hora que entre nós medeia
No devir infinito da solidão
Eu canto o meu canto de sereia.
Arrimo contra mim o cansaço
O acolhedor abraço da exaustão
E torno o dia em cada noite...
No calado silencio da tua ausência, em vão
Parto em busca da minha compaixão
E volto a ser a interrogação!


Telmo, o marujo

Mãe Irene (3ªparte)
- Mas porque fiquei eu tão perturbado com a revelação de Daniel?
- A tua perturbação vem de um reconhecimento longínquo da tua memória. Ela emergiu à superfície confirmando que algo nesta tua existência merece ser revista. Essa sensação de desamparo é o teu orgulho que se recusa a ser dominado, que julgava tudo dominar que acabou por reconhecer a sua fraqueza. É bom. Far-te-á procurar soluções de modo a desenvolver outras qualidades. É necessário ser-se humilde para crescer, Telmo.
Não me apercebo que isso seja orgulho mas, na verdade, incomoda-me pensar que aqueles a quem chamo família, só o sejam por um instante, segundo Daniel, apenas por esta existência!
- É verdade, Telmo. A verdadeira família não é aquela de quem descendes materialmente mas, aquela com quem te identificas espiritualmente. No entanto, se nasceste numa determinada família foi porque só te poderia dar aquilo que necessitavas, ou porque necessitavas de resgatar algum aspecto do teu passado.
Quanto à tua “verdadeira família” vais reconhecê-la quando os encontrares e sentires que eles fazem parte de ti e tu deles. Em qualquer podes encontrar num estranho, num estrangeiro, esse sentimento. Quando tiveres ultrapassado a busca e encontrado o teu caminho. Entre vós não haverá segredos nem desvios de pensamento pois, sereis capazes de escutar e falar o cada um tem para dizer sem qualquer esforço.
- Quem me dera, encontrar assim alguém!
-Guarda então essa esperança…
- Peço-te que não te ofendas, Irene. Mas gostava tanto que fosses minha mãe!
- E sou, meu querido Telmo! Sou a mãe de todos os que me procuram. O meu colo está sempre disponível para quem dele necessita!
- Às vezes, quando estou contigo, sinto-me tão pequenino!...
- Fico contente que te sintas assim. Só mostra que crescerás, que te tornarás Homem e que me recordarás com esse sorriso que agora mesmo desenhaste no teu rosto!
A emoção com que ouvi Irene fez-me aconchegar a ela num choro convulso como nunca me acontecera. De tanto chorar adormeci nos seus braços enquanto ouvia um sussurro: “ Dorme… dorme meu filho e que os teus sonhos sejam o prenúncio de uma nova forma de estar!”

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Amor em passos de dança

Tarsila do Amaral
Porque
Houve uma promessa que não esqueci
Porque
O amor é maior que todas as iras
Porque
Te conheci num tempo diferente


Amei-te

Sem que o soubesse ainda...

Porque
Os anjos não são crianças risonhas
Velando por nós sem que o saibamos
E nos mostram os rostos dos que abandonamos.
Porque
É necessário e urgente cumprir
A prova material do que há-de vir
Eu quero sentir, sim, sentir,



Braque
As imagens da minha fantasia perpetuam-se nos nervos grisalhos que reclamam estímulos de alegria.

A construção do irreal requer algum engenho e parceria.

Por isso volvo em busca do sótão das recordações.

Os meus sonhos perderam cor, só rebrilham de tanto os lustrar!

Cristalizaram-se as formas atrevidas, porque não temo já a sensatez.

Eu sou hoje caleidoscópio perdido.

Nascente de águas filtradas.
Picasso


O teu olhar escorrega nas paredes do meu corpo
Humedece-o de lágrimas doces,
Luzindo.
Depois...
Depois, vagueia até ao largo...
Endurece
Envelhece
Reprime o desejo que floresce!
Aperta-se em silêncios e estremece,
Perde a cor,
Empalidece!

Os teus lábios apertados cerram palavras
Enroladas na confusão
E tantos pensamentos
Que ficam incapazes de suspirar!
Sussurram
Murmuram
E sopram brisas de angústia
Enturbilhadas
Numa saudação.

Todo o teu rosto se mascara de insolência
Se veste de rugas
Enganando
Uma alma puída de desilusões.

Pinta-te meu amor com as tintas da vida
E faz de mim a tela virgem


Agora só restam as lembranças das emoções espalhadas por aí.

O mundo não acaba aqui!
Miró
A aurora dos olhares espraia-se no horizonte da eternidade.

Veste as cores do espectro, diluídas no céu imenso e envolve-nos.

Mergulha num mar ondulante de emoções e procura apenas a serenidade.

Rebrilha no rosto do anjo que nos observa, é a lágrima que o comove.

Na plenitude, os olhares, lançam-se sobre si sorrindo.

Ficamos nus de pureza, no abandono dos corpos deitados em inocência.

Manifestamos a ternura sem gestos, apenas com a luz que nos tomou.

Depois, na maturidade de uma geração inteira, os esplendores vão fugindo... até se encontrarem de novo nos peitos sábios e portadores da serena paciência.

No final dos tempos desaguaremos no Universo que nos criou.
André Neto
Diz
Diz que os teus olhos são estrelas
E que essa luz
Não é uma ilusão!


Diz
Diz que o seu doce cintilar
É o reflexo do espelho
Do meu olhar.


Diz
Diz que estou viva e pronta a amar
Bastando para isso
Um leve pestanejar.