terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Tarsila do Amaral
O meu segredo


Este é o meu segredo escondido:

Um dia a Lua
Outro dia o Sol
Apadrinharam-me com a bênção das suas luzes.

Adormeci então no colo do seu sossego!

Deixei que o sonho continuasse...

Pálida, a Lua, em sua serenidade
Banhou-me de nostalgia
E ofereceu-me um bilhete para a viagem interna
Indicando-me o lugar da sabedoria.

Doirado, o Sol, sempre quente e presente
No seu espreguiçar ardente
Deu-me a sua alegria
E ensinou-me onde vive a fantasia.

No regaço da Lua
Encostada ao peito do Sol
Depressa prendi este segredo só para mim.
Jorge Barradas
Os Grandes Olhos

Os Grandes Olhos que tudo vêem ergueram de imediato as suas pálpebras e com as suas íris profundamente escuras dirigiram-se ao misterioso objecto.
Os Grandes Olhos nem sequer pestanejaram, apenas as suas pupilas se dilataram.
No ponto visado estava um ser ridiculamente pequeno.
Um homem!
Esse homem arrastava um fardo volumoso embora leve.
Todo o corpo se flexibilizava para que a força e o equilíbrio se conjugassem.
Por vezes parava nesse percurso e enrolava-se sobre si mesmo chorando a sua fraqueza. Outras vezes, ao conseguir deslocar-se por breve espaço interrompia a tarefa e regozijava-se.
O fardo ia alterando a forma tornando-se menor, quiçá mais pesado.
A linha imaginária era sinuosa, com curvas apertadas, e declives íngremes.
Mas o homem na sua actividade sem fim, prosseguia, levando-o consigo.
Quando chegou perto dos Grandes Olhos, ele trazia apenas um grão de areia decuplicando o peso inicial.
Quase sem forças e apenas com a estratégia e a persistência, o homem num último arranque, atirou-o para a frente.
Os Grandes Olhos fecharam-se e a Grande Boca abriu-se deixando que a língua vermelha se estendesse como uma passadeira até aos pés do homem.
Só nesse momento o homem respirou fundo e, e pisando docemente a língua entrou dentro da boca.
A boca fechou-se.
A garganta engoliu.
E o Grande Rosto em que estavam implantados os Grandes Olhos, distendeu-se num sorriso, tornando-se maior!
Derain
Sou marinheiro

Sou marinheiro sem farol, sem leme e sem rota
Navego nas águas revoltas da fantasia
Tenho no meu corpo gingado o timbre da nota
Que canta a doce canção do mar em melodia.

O meu suor tem o cheiro fresco da maresia
E o meu cabelo dança ao vento, livre, solto!
Desfraldo-me como uma vela em rebeldia
Porque o futuro em névoa se vê envolto.

Sou marinheiro de mundos de mil tons e de cor
Já não procuro mais praias nem portos de abrigo,
Vou por onde este imenso oceano for.

Permito que o fecundo mar me chame amigo
Porque dele recebo anilada luz em cor
Sou marinheiro, e nestas águas me persigo!

Temo, o marujo

Uma visita à Ilha do Labor (2ª parte)

A entrada da aldeia fazia-se sem grande transição. Primeiro uma casa, depois duas, por fim meia centena delas nas duas margens de um pequeno riacho que ali passava vagaroso.
Umas quantas crianças brincavam com terra e calhaus, crianças como outras quaisquer d meu mundo. Irene perguntou-lhes qual era a casa de Naomi e eles, graciosamente, indicaram uma que ficava ligeiramente recuada, por de trás um muro pintado de amarelo.
A casa parecia muito antiga porque debaixo da camada branca actual podiam observar-se outras camadas de tinta de diversas cores. Havia manchas de humidade que confirmavam o clima pouco agradável daquela ilha, mas de resto, era uma casa sólida, capaz de durar mais três ou quatro gerações.
À porta estava uma mulher madura que ao ver Irene se precipitou nos seus braços:
-Que bom, Seguidora, afinal sempre conseguiste chegar a tempo! Minha mãe está prestes a partir para o lugar do Repouso e eu sei como ela era tua amiga! – As palavras da mulher eram ditas sem choro e sem aflição, talvez a ruga profunda que lhe separava as sobrancelhas fosse mais vincada! Além disso, havia no seu olhar alguma inquietude, nada mais.
Irene bateu-lhe levemente nas costas da mão e apresentou-me à filha de Naomi como um dos “eleitos” e a mulher, convidou-me também a entrar.
Lá dentro tudo era muito simples, limpo e confortável. Em redor do leito baixo estavam todos os filhos de Naomi, as noras, os genros, os netos e alguns bisnetos. Serenos, silenciosos e tranquilos, possuíam uma tal dignidade que me comoveu. Veio-me de repente à memória o funeral do meu avô, da gritaria e alvoroço dessa altura e não pude deixar de comparar os comportamentos de uma família e de outra. Aqui a morte era esperada como um facto natural sem deixar de ser respeitado.
Quando me aproximei do leito da moribunda observei como era velha, tão velha que nunca me passou pela cabeça ver alguém daquela idade. Magra, pálida, de rosto e braços enrugados e estendidos ao longo do corpo. Os seus cabelos entrançados com carinho, chegavam-lhe quase à cintura, eram tão brancos que quase resplandeciam. Tinha os olhos abertos, secos, cinzentos mas cegos… a respiração audível e irregular, mostravam o grande esforço que fazia para continuar viva.
Irene aproximou-se com o carinho que eu já lhe reconhecia há muito, debruçou-se e falou-lhe quase em segredo:
- Então Naomi, estás no fim da tua jornada? Agora é a minha vez de te ajudar a fazer a passagem como forma de te agradecer teres-me ajudado a nascer. Não tens nada a temer… há alguma coisa que te prenda a este lugar?
O abanar lento da cabeça da moribunda deu a entender que estava completamente lúcida e preparada para o que se ia passar.
- Naomi, minha velha, já sabes como é… lembra-te da tua verdadeira pátria, daqueles que irás rever… esperam-te, com certeza, cheios de alegria. Decerto que alguns já se encontram aqui para te acompanhar, conhece-los?
A velha rodou lentamente a cabeça, parou aqui e ali, sorrindo e mentalmente respondeu que sim, que os reconhecia.
Irene então endireitou-se e perguntou se ela estava pronta para iniciar o rito. Quando obteve a resposta, destapou o corpo e desprendeu-lhe os cabelos com paciência, alisou-os ternamente com os seus próprios dedos, depois, começando pelos pés, foi massajando-lhe o corpo com um óleo que trouxera consigo. A família afastara-se o suficiente para dar espaço à Seguidora e mantinha-se calma. À medida que lhe passava as mãos pelo corpo cantav uma melodia sem palavras, quase hipnotizante! Por fim, levantou os braços sobre a cabeça de Naomi e fez um movimento como quem ajuda alguém a sair debaixo para cima e exclamou: - “Estás solta!”- o suspiro que se ouviu foi tão leve qye se perdeu no emio da respiração dos outros.
Eu nunca tinha visto alguém morrer assim e fiquei verdadeiramente impressionado.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Yara Tupynambá
Do meu encanto

No deambular do meu encanto,
Desdobro-me em interrogações,
Herdo o peso das últimas gerações,
E venço a tempo, todo o espanto.

Eu que sou feita deste universo imenso
Modelado pela mão da divindade
Que cheiro a rosas e cheiro a incenso
Preencho-me ainda de santidade.

Palavras? Meras palavras de ocasião?
Ou o sentimento da humanidade
Transformando a desilusão
E pintando-o de claridade?

Ainda não sei por onde, mas vou
Para além de mim, até à eternidade.
Não interessa quem afinal sou
Mas vivo aqui, nesta cidade!
José Jorge da Silva Escada
Há palavras

Há palavras que são ditas sem razão
Que apenas formulam uma evasão
Que ao serem proferidas se gastam
E ao vento se perdem, e se arrastam...

Há palavras mudas que não se usam
Palavras que a outras palavras calam.
Palavras que permitem a confusão
E deixam no ar o sopro da intenção.

Há palavras que se tornam ideias
Construindo complicadas teias.
São palavras capazes de parir
E que depois, se soltam por aí, sem cair.
Mário Cesariny
Eu sou o Universo

As águas morrem devagar na areia da praia aonde vou. Trazem consigo as nuvens em choro.
Poderosas, as ondas, ameaçam os rochedos rugindo, gemendo...e depois, em doçura, lambem-me os pés nus.
E eu, que sou feita de lama, de terra e de água em segredo, fico aqui reconhecendo-me!
Aí sou também o fogo que me queima através dos raios de uma estrela distante! Vejam como eu reflicto o brilho na prata de luz!
Por dentro de mim, o vento, sopra em gasoso movimento circulatório, dando som às minhas palavras.
Eu sou a vida, construída pelos quatro elementos da matéria.
Eu sou o Universo!
Werner Rainisch
Sopro

Que a bandeira da vida se desfralde ao vento
Assinalando o perpétuo movimento da viagem.
E que a pátria dos sonhos que invento
Seja mais, muito mais, que uma miragem.

Que o sopro insistente da minha linguagem
No dédalo das palavras nunca se perca.
Que arraste consigo a única mensagem
E não esqueça o sonho que a cerca.
Helena Vieira da Silva
Bom dia!


Bom dia!
Bom dia, novo dia que estás a despertar.
Como te banha o sol nesta manhã de esplendor!
Bom dia, mundo garrido de cor
Como sorris! Oh como sorris só por acordares!
Tu és o começo do futuro a gritar,
O pequeno passo do resto do meu chão,
O pensamento que ao se desenrolar
Se torna simplesmente em oração.
Cada manhã traz consigo a frescura
Que limpa da véspera as gotas de suor,
Tornando a vida um pouco mais pura
Engrandecendo-a numa oportunidade maior.
Bom dia, novo dia, que estás a começar,
Manhã engrinaldada de intenções,
Eu digo-te baixinho aonde quero chegar
E tu, levas-me contigo sem ilusões!

Telmo, o marujo

Uma visita à Ilha do Labor (1ª parte)

O tempo passava numa rotina que me propiciava a aprendizagem da cultura daquele povo. Aprendi a usar a minha linguagem do pensamento, as regras e atitudes a tomar com os Seguidores da Casa.
Apesar de todos me ajudarem a responder às minhas dúvidas, gostava de estar sempre que possível com Helena e Irene. A primeira tornava a minha estada alegre e agradável, supria as minhas necessidades humanas e despertava-me o interesse pela aventura. A outra era sem dúvida uma mãe, sempre pronta a acarinhar-me e a ouvir os meus mais secretos sentimentos.
Era, o que se pode dizer, um rapaz feliz!
Uma manhã, Irene veio despertar-me com um sorriso no rosto:
- Quero convidar-te a vires comigo à Ilha do Labor.
Saltei rapidamente da cama e quando me preparava para vestir a roupa habitual ela entregou-me uma outra. Tratava-se de umas calças mais compridas cor de rato e uma túnica de um cinzento mais claro. Também me deu uma capa de feltro vermelho com um capuz. Calcei, pela primeira vez em muito tempo, uma botas grossas que me davam quase até ao joelho. Ela mesma trazia roupa muito mais quente e explicou-me que o clima da Ilha do Labor era muito húmido e bastante mais fresco.
Helena apareceu e trouxe-me um almoço mais consistente avisando-me que tomasse muita atenção aos acontecimentos desse dia porque eles seriam de grande utilidade no futuro.
Despedi-me dela e fui de mão dada com Irene à visita.
Primeiro descemos a rampa que nos levou à estrada marginal e seguimos por ela até à ponte que ligava as duas ilhas. O mar nesse dia estava rosa claro, quase branco e muito sereno.
A ponte era de pedra alaranjada, comprida, apoiada em nove arcos. Suficientemente larga para deixar cruzar dois carros e gente de um lado e do outro. À medida que avançávamos, apercebia-se da diferença de temperatura, mergulhávamos num nevoeiro amarelento que me arrepiou porque já não estava habituado. Lá em baixo, no mar, conseguia entrever as silhuetas de embarcações que navegavam em diversas direcções. Só quando nos aproximámos do final e deixamos para trás o nevoeiro é que pude divisar a Ilha.
Era toda constituída por outeiros e colinas, fazia lembrar ondas do mar com os pássaros marinhos que guinchavam enquanto cruzavam os ares.
Ao chegarmos, sofri um choque! Uma intensa mistura de odores atingiu-me de repente: Era cheiro a fruta, a peixe, hortaliças, a barro molhado e curiosamente, a gente. Espirrei uma dúzia de vezes e Irene olhava para mim e ria-se… ria e dizia: “- Estás a ficar muito sensível!”
O primeiro lugar onde parámos foi a feira. Havia tanto movimento e ruído que fiquei meio tonto. Eram centenas de homens e mulheres andando atarefadamente, vendendo e comprando. Comercializava-se de tudo. Desde produtos hortícolas, gado miúdo, artefactos, panos, enfim, tudo o que era necessário para viver com todo o conforto.
Naturalmente, parei junto de uma tenda de panos para apreciar a qualidade dos tecidos. Irene, olhou-me compreensiva mas depois puxou-me pela mão e levou-me até ao lugar onde se vendiam cabras e ovelhas. Perguntou a um dos vendedores por Naomi. O homem encolheu os ombros e disse que talvez fosse melhor perguntar ao vendedor de mantas. Em ziguezague percorremos mais uns caminhos e chegámos até lá.
Foi uma mulher que respondeu a Irene. Pô-la ao corrente da doença de Naomi, e acrescentou que devia estar tão mal que os filhos nem vinham ao mercado há mais de dois dias. Rematou a conversa com um: “- Naomi já viveu tanto!”
Irene agradeceu e saiu dali com um ar preocupado. Estugou o passo e enfiou por um carreiro que se dirigia ao interior da ilha.
Mais ao menos a meio cortou por uma azinhaga e aproximámo-nos da aldeia onde Naomi morava. Eu francamente já estava cansado embora não quisesse dar parte de fraco. Mas Irene percebeu pelo meu arrastar de passos, o meu constante parar para observar os campos ou os rebanhos que pastavam neles. Por isso me olhou com ternura e me disse:”-Já estamos a chegar, pequenote.” Envergonhei-me e acelerei o passo para a acompanhar.