domingo, 8 de fevereiro de 2009

Rubens
7. A horrífica intenção dos fados transformou no meu país, as avenidas em vielas de dor.
Um fado de palavras tão amargas, tão acres que o doce mel as não disfarça!
A culpa procura-se. Como se ela desbastasse as farpas da verdade!
E o medo? Esse mascara-se de obediência e simpatia.
O temor é tão escondido e sangrador que eu choro por dentro ainda, sem saber por que razão.
Apertam-se-me os músculos tensos no corpo, o sangue corrupia dentro de nós, o suor erupta de todos os poros, a língua seca e incha. E fica-se à espera, sempre à espera, em estado de alerta.
Quando por fim o momento chega, é como se tudo estivesse já acabado, é a espera que nos une!
E o fado que os deuses nos ensinaram, continua dolente, indiferente, a todos os actos e consequências. Sem nada que o desvie da rota destinada.
Que importa que o sol amanheça cintilante ou se vista de nuvens cinzentas?
Basta que o medo tenha lugar na construção de uma pátria!
Gonçalo Ivo
8. Clara, transparente, fria, tão líquida! A água corre, alegremente e sem sobressaltos de maior por entre pedras conhecidas, redondas e gastas, conhecendo de antemão o seu caminho que só tem um fim. A nossa voz, junta-se a outros fios e engrossa tornando-se numa unidade maior cuja individualidade permanece.
Qual ribeiro, qual rio!
Tal como essa água que nos compõe, nos rodeia, líquido amniótico desde a génese, prossegue pela vida fora, faz parte de nós, mergulhando-nos em mistérios.
A terra suporta-nos, o ar penetra-nos, o fogo incendeia-nos. Mas, a nossa voz-água, acorda o que de mais sublime temos em nós, porque ela é elemento primordial da concepção ao final do destino de um corpo.
Ela deixa que o imaginário flutue acima da existência deixando à superfície a nossa alma.
Helena Vieira da Silva


9. Numa conversa, salvaguardando algumas verdades imutáveis, a nossa vida é um corrupio de acontecimentos que surpreendem e nos espantam em cada momento.
Há sempre um pormenor, um pequeno desvio, uma leve paragem que nos faz confluir a outras vias, a outros rumos.
Como malha de rede entrecruzada, expande-se em diversos sentidos, num perpétuo movimento desrespeitando os ritmos certinhos e criando novos arranjos.
Matéria-prima para a construção de novas ideias, ou para a realização de novos projectos, ela é o desafio e o conflito, a barreira que nos ensina a descobrir-nos.
A conversa, é uma paisagem em que a luz e a sombra das nossas palavras dão forma diferente aos espaços e ao tempo.
E eu gosto. Gosto dela! Mesmo que esqueça de algumas vozes!

Telmo, o marujo

Olhar como Gisela (1ª parte)

Naquela tarde o céu era uma enorme mancha dourada salpicada de vermelho. Nunca o tinha visto assim, o recorte das colinas e dos vales confundiam-se com céu parecendo que nos encontrávamos todos numa mesma superfície sem relevo!
A brisa morna trazia consigo poeiras luminosas que planava e poisavam aqui e ali cintilando nos lugares.
Eu estava sentado no terraço do edifício principal e estava a ter dificuldade em disciplinar o meu espírito e o meu corpo. Queria fazer os exercícios de meditação que me recomendaram mas perante este espectáculo, distraia-me frequentemente. Aquele era o lugar que eu elegera para esse tipo de actividades porque não só era sossegado como também me permitia num só olhar, abarcar as corcovas da Ilha do Labor e o mar purpúreo que aprendera a amar. Do lado direito recebia o aroma dos frutos do pomar e, do meu lado direito a profusão de cheiros emanados das flores dos canteiros.
Foi daí que senti a presença dela. O suave deslizar do seu caminhar, feminino… Gisela, a branca imaculada, destacava-se do fundo irisado e tornava-se um lírio alto acima da profusão colorida do jardim. De cabelos lisos, cor de mel, bailando a cada um dos seus movimentos, de olhos azuis lembrando o mar da minha infância… a sua silhueta esguia às vezes perturbava já o meu olhar de rapazinho. Havia um desejo escondido que ainda era incapaz de compreender. Sabia que não era só admiração, pois junto dela tremia e confundia os pensamentos, mas não sabia definir o que sentia e isso deixava-me nervoso!
Quando chegou perto de mim, cumprimentei-a com as faces coradas, ela sorriu e correspondeu à minha saudação com um gentil aceno e fez-me sinal para que a seguisse.
Nem questionei a razão desse convite e apressei-me a seguir com ela pelo caminho que ia dar a uma gruta que eu nunca me atrevera a explorar. Antes de entrarmos, Gisela deu-me a mão e pediu-me que observasse tudo com muita atenção.
A escuridão envolveu-nos de imediato. Depois, de pouco a pouco, uma luz ténue foi-nos orientando. As paredes encontravam-se sapientemente lavradas pela natureza. Rebrilhando no tecto, cachos cristalinos faziam lembrar jóias multicolores incrustadas em relevos caprichosos. Percorremos um estreito corredor que nos fez desaguar num átrio onde um lago em forma de estrela de sete pontas reflectia os pontos de luz e entre os triângulos surgiam raios de luz tal qual o espectro solar. A água do lago, escura e lisa, funcionava como um diamante gigantesco.
Fiquei aturdido, tão fascinado que nem pestanejava. O refulgir das luzes encandeava-me e turvava-me o pensamento. Fiquei incapaz de organizar qualquer frase. Lembro-me que me curvei os braços sobre o peito e que comecei a transpirar, custava-me respirar e foi preciso que Gisela me ajudasse a recuperar e regressar a mim.
- A beleza em extremo pode levar à loucura, Telmo. Principalmente se não se estiver preparado para ela. Apesar disso, a todas as horas, os milagres de beleza se desenrolam ante os nossos olhares e são muitas vezes incompreendidos devido à sua enormidade… que outras coisas de mais belo que este lago e esta gruta? Que outra imagem te afectará como as que acabaste de ver?
- Não sei, Gisela, há tantas coisas que desconheço… ouvi dizer que no fundo dos oceanos há plantas e animais maravilhosos, que no interior da terra se escondem tesouros deslumbrantes, que nas selvas e nos desertos existem flores e seres tão delicados que emocionam até os mais empedernidos, mas eu sou tão jovem e tão pouco experiente que nunca me foi dado confirmar a verdade dessas informações. Desconheço o universo em que vivo e deve ter sido por isso que reagi assim, foi tão inesperado!...
- Há belezas maiores que as que mencionaste entre o mais longínquo universo e o mais profundo dos planetas. Há espectáculos cuja magnitude se tornaria indecifrável até para cada um de nós. Olha, experimenta olhar mais uma vez para dentro destas águas. Verás tu próprio, um dos seres que reina sobre nós e cuja beleza está no espírito que o envolve. Demora o tempo que for necessário para te preparares, segura a excitação e acredita sinceramente que todos fazemos parte deste reino.
Ajoelhei-me com Gisela na borda do lago, agarrei o rebordo e engoli o excesso de saliva que se acumulara na minha boca.
As águas agitaram-se levemente tornando se em breve uma tela que proporcionava imagens tridimensionais.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Palavras viajantes

Braque
Palavras viajantes

Os ventos arrastam palavras. Sem medo, flutuam por aí impregnando os pensamentos daqueles que permeáveis, colhem do ar, os sons esvoaçantes.
As palavras deslizam pelas gargantas enrouquecidas, pelos peitos arfantes, pelos ventres, pelos sexos e, quando voltam a sair, deixam-se levar pelo caminho das pernas até mergulharem na escuridão húmida da terra.
Depois, basta-lhes a primavera para que despontem e floresçam. A seguir vêem as brisas delicadas que as levam para que planem mais uma vez, assim, num ciclo interminável, enquanto houver linguagem!
Derain
Mesmo que o fio já esteja curto depois de enrolado em nós, vale a pena. Ah! Como vale a pena ter chegado até aqui!


1. Calço os meus sapatos de ânimo cristalino e visto o vestido de malha quente que me protege da frialdade das mágoas. Há muito tempo que o sol disse que a minha cor era esta, a cor inventada para separar a noite do dia.
Namoro estrelas e com elas me deleito no luar da serenidade.
Sou também amante das brisas matinais porque me acordam.
Sou assim, uma palavra solta que se reinventa cada vez que vibra e soa.
Gosto de me lambuzar nas nuvens pardas, provar-lhes o sabor da dor porque assim saboreio a alegria de aqui estar.
Não temo a experiencia, só receio arrastar para o caos, todos os me puxam para a dureza do solo.
É uma tentação, arrastá-los comigo para a aventura!
Viajo mil vezes em cada dia.
E encontro motivos para felicitar quem me projectou.
Assumo as hesitações como inevitáveis e acato também os progressos. Quero crescer.
Nem sempre me liberto do malquerer, mas luto, luto absolutamente para vencer inércias e negritudes!
Gauguin
2. Depois de todo o esforço que fiz para atingir o socalco onde me encontro, respiro fundo e, seguro o batimento do meu coração.
Agora sim, posso contemplar a profundeza do vale salpicado de variegadas cores. Em torno de mim e para cima, os picos acerados das montanhas feridas dizem-me que é possível.
Leva-me a tentação, a desejar o colo da terra-mãe, quente, fundo, encostar a minha cabeça e ouvir as cantigas de embalar meninos que afastam os sonhos maus.
Eu sei, sei que só rasgando a pele das mãos, dos joelhos, poderei subir. E, lá de cima, erguer ainda mais alto o meu olhar, respirar o ar sem mancha que envolve o espaço.
Mas por enquanto espero. Espero e recapitulo as veredas que pisei e me trouxeram aqui.
Auroras, amanheceres, ocasos, entardeceres, sucedem-se uns aos outros para poder entender o desfiar do tempo.
É bom estar aqui, perturbar-me com o eco da minha voz que ricocheteia das paredes de rocha. Sinto fome de palavras, das palavras de outras vozes, de ser penetrada por elas.
E o meu anseio é tanto que as oiço sem conhecer a sua origem ou meta. Vêm como poeira, desprendem-se das pedras, das ervas ou, talvez de mim própria. São como pensamentos materializados em ondas vibratórias e, retornam para mim.
O caminho é áspero e infinito, mas eu acredito em mãos estendidas à chegada.
Quem me quer agarrar o braço?
maurice de Vlaminck
3. Acabo de acordar…ou de adormecer.
De qualquer das formas tive um sonho!
As folhas dançam o bailado do vento no chão e no ar, rodopiam sobre mim, borboletas sem alma no encanto de rodar.
Amarelo, vermelho, cobre e castanho, estalar desprendido em outonal ode benzida.
Esquivas silhuetas de animais bravios saídos de suas tocas, lugares escusos prenhes de vida, sussurros de maternal confidência.
É este o cenário terreno que me enlaça o espírito em ascese,
Emissão cósmica e cúmplice da paz que se acama no meu peito. Estado consciente onde alinho palavras de expressão que legendam o meu pensamento vagabundo.
É desse lugar que às vezes nascem os meus versos emoldurados de madeira tosca e sem adornos. Nascem pintados de lágrimas e deslizam calidamente para sossego do meu corpo.
Sou um Outono.
Outono escorado nas traves a que o tempo limou arestas vivas de inquietação.
Outono de sono profundo que a noite invernará um dia.
Sonho vestida de plumagens.

Telmo, o marujo

Uma visita à Ilha do Labor (3ª parte)

Depois de um momento curto de silêncio, cada um dos elementos da família veio despedir-se da matriarca, com respeito mas sem ruído. Colocam-lhe também uma flor no leito.
Irene pediu-nos a todos que não perturbassem Naomi com pensamentos de tristeza e que dirigíssemos somente palavras de encorajamento e consolo. A seguir chamou-me à parte e pediu que a acompanhasse para fora da casa.
Encostados à parede, Irene explicou-me que tínhamos ainda que esperar até que levassem o corpo da sua amiga para a Ilha do repouso. Eu não poderia acompanhar esse cortejo porque só a família e os amigos mais próximos o poderiam fazer. Acatei essa indicação embora houvesse dentro de mim uma curiosidade sobre como faziam o funeral.
Enquanto conversávamos, dirigiu-se a nós um homem bastante novo que pediu nervosamente a Irene para falar com ela.
Irene voltou a apresentar-me como fizera à família de Naomi e perguntou por sua vez se havia algum problema em eu ouvir o que ele tinha para me dizer.
O homem sorriu e disse:
- De modo nenhum! Soube há pouco que a Seguidora aqui estava e portanto vim pedir a bênção da sua presença no primeiro parto de minha mulher.
- E para quando está previsto, jovem? - Questionou Irene.
- Já começou as dores de manhã… é capaz de não ser muito demorado…
- Vamos então, é sempre bom receber mais um neste mundo!
Descemos a vereda a sudoeste ao encontro da praia. A aldeia de pescadores era diferente, as casas encontravam-se muito mais próximas umas das outras e tinham um aspecto menos cuidado. Eram construídas com tijolos minúsculos cor-de-rosa e em vez de telhados tinham terraços que serviam para secar e salgar o peixe. À porta de uma delas encontrava-se uma pequena multidão em ar de festa, esperavam o primeiro grito da criança como era de tradição.
Ao chegarmos, reconheceram Irene e apartaram-se em duas alas deixando-nos passar com ar surpreendentemente feliz.
No meio da sala de qualquer aldeão da Ilha do Labor, existe uma espécie de altar aos antepassados porque acreditam que eles continuam a fazer parte da família e a ajudá-los nas dificuldades diárias. À sua frente, estava uma rapariga sentada numa cadeira especial para poder parir com maior comodidade.
Apesar de tão nova, controlava a respiração conforme a mãe e a sogra lhe indicavam. Algumas mulheres aliviavam-lhe o desconforto, limpando-lhe o suor e massajando-lhe a barriga. Também a animavam com carinho.
Irene abeirou-se da parturiente, fechou os olhos e, acocorando-se foi acalmando as dores com as suas mãos de pluma. Também soprava suavemente sobre o corpo da mulher. Daí a nada, quase sem esforço, nasceu uma menina que gritou bem alto a sua intenção de viver. Foi o pai quem cortou o cordão e foi ele que teve o privilegio de a pegar primeiro ao colo para a colocar logo em seguida no peito da mãe.
Cá fora os amigos e os vizinhos ansiavam ver o novo ser, portanto o pai voltou a pegar na menina para a apresentar à comunidade. Um dos velhos que assistia e que me pareceu ser uma chefe da aldeia, verteu sobre ela uma concha de água do mar e todos aplaudiram com alegria.
Antes de nos virmos embora, Irene deu alguns conselhos aos pais e abençoou-os.
Regressámos então à aldeia de Naomi. Pelo caminho meditei sobre os acontecimentos mágicos a que assistira num só dia. Percebi que os mistérios maiores eram afinal, as coisas mais simples da vida. Ao mesmo tempo, cresceu ainda mais a admiração que sentia por Irene, sobretudo pela sua capacidade de dar, pelo jeito carinhoso com lidava com os outros, pela sua simplicidade com que vivia!
Irene leu os meus pensamentos e com um ar humilde disse-me:
- Não faço mais que o meu dever, Telmo. É esta a minha missão. Em vez de me admirares, tenta seguir-me. É fácil, acredita!
Quando chegamos, os preparativos estavam quase prontos. O corpo estendido numa padiola encontrava-se embrulhado numa mortalha branca e rodeado de flores pequenas e perfumadas. Ao sair, iniciou-se um cortejo e à frente dele, um dos bisnetos tocava em compasso um instrumento parecido com um tambor metálico. Só a família e os amigos mais próximos acompanhavam. Os vizinhos apenas se abeiravam do cortejo e atiram pétalas sobre ele como despedida, desejando uma boa viagem.
Chegados ao porto vi a embarcação que levaria o corpo para a Ilha do Repouso. Irene e eu despedimo-nos da família e voltamos para a nossa ilha.
Pelo caminho pensei:
-Tudo está terminado!
Ao que Irene rectificou:
- Ao contrário, meu querido, está tudo a recomeçar.
Depois, rodeando os meus ombros com ternura, murmurou-me:
- Esta é a espiral da vida!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sopros

Júlio Pomar
Quem sou?

Inventei um lugar para além dos sentidos, não muito longe da curva de onde me debruço.
Um lugar miraculoso por onde vagueio nos sonhos que posso reinventar.
Para alguns, torno infantil o meu mundo, visto-o de roupagens singelas. Para outros, preencho-me de silhuetas, abstraio-me em ilusão.
Um pé em cada mundo!
E eu a equilibrar-me entre eles!
Sou aquilo que ninguém sabe que sou.
Pairo além do comum e pareço real!
Sou eu que construo o caminho entre o abismo.
Fui eu que calcei as sandálias de um romeiro e transporto comigo a consciência!