terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Telmo, o marujo

A Ilha do Conhecimento (1ªparte)


Como não tinha quaisquer tarefas definidas e a quantidade de experiencias novas me haviam perturbado, comecei a ficar menos inquieto, deambulava pela Ilha do Ocaso sem grande entusiasmo, procurava castigar o meu corpo em caminhadas cada vez maiores e por trilhos mais difíceis. Era uma forma de não pensar, de afastar a angústia que me tomara desde a visita que fizera com Gisela.
Os Seguidores nem sempre podiam estar comigo, cada um tinha afazeres demasiado importantes para me incluírem, mas Hugo, o Mestre, apercebeu-se do meu ânimo e um dia veio ter comigo com a grande novidade.
- Telmo, meu rapaz, chegou a hora de mudares de vida! Tens que cuidar da tua educação. – Bateu-me amigavelmente no rosto e esperou a minha reacção.
Hugo, tinha uma idade bastante avançada, mas era um homem enérgico e optimista. O cabelo entre o uivo vivo e o branco descia em ondas pelas costas até às espáduas. Muito alto e seco como um pinheiro bravo, emanava energia mas também muita ponderação e sabedoria. Admirava-o tanto que ás vezes apetecia-me arrimar-me a ele para receber a sua força e conhecimento.
- E como vai ser isso? Quem ai ser o meu mestre? - Perguntei sinceramente interessado.
- Irás para a Ilha do Conhecimento, lá o teu corpo, a tua mente e o teu espírito aprenderão a crescer juntos. Terás, não um, mas vários mestres que te ajudarão nessa tarefa, mas ser-te-á dado um tutor que supervisionará as tuas aprendizagens te auxiliará a adaptar-te às rotinas e disciplina.
Por um lado estava feliz com a perspectiva de uma nova vida, mas por outro sentia um certo receio pelo desconhecido e por que queria verdadeiramente corresponder às expectativas que os Seguidores depositavam em mim.
Hugo, passou-me o eu braço sobre os meus ombros e animou-me garantindo que eu me sairia bem.
Nesse dia fui convidado a participar na refeição dos Seguidores para ter a oportunidade de receber alguns conselhos e despedir-me de todos eles.



domingo, 22 de fevereiro de 2009

Anúncio


Prometo voltar a escrever mais assiduamente mas por enquanto tenho estado a fazer de avó a tempo inteiro e a tratar de assuntos que uma boa chefe de família tem o dever de cumprir. Além disso este computador tem andado com problemas de saúde e o médico ainda não veio cá a casa. Não há serviço nacional de saúde para estes bichos de estimação!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Vestida de uns sonhos limpos, calçada de asas...


Quando a luz do Sol me fez cócegas no nariz, teimei em fechar as pálpebras para terminar o meu sonho mas, o persistente raio de luz, abriu-me os braços e esticou-me o corpo…
Espreguicei-me e bocejei por fim. Inalei o ar fresco da manhã que entrou pela janela aberta do meu quarto, calcei os chinelos e saí dali…
Desfiz-me do suor da noite no chuveiro e deixei que os restos do sonho fossem engolidos pelo ralo.
Vesti um vestido leve de verão, volteei um pouco em frente do espelho do guarda-fatos e senti-me viva.
Esqueci-me de ligar o rádio porque a música era feita dos sons dos pássaros se ouviam e eles cobriram-me de bons augúrios.
Aceitei o convite do novo dia e calcei as asas partindo para a viagem sem rotas definidas.
Parti assim, vestida de uns sonhos limpos para integrar o Universo!

Vestida de uns sonhos limpos, calçada de asas...

Vestida de uns sonhos limpos, calçada de asas,
Na doce ingenuidade do pouco saber,
Esvoaçando por entre praças, ruas e casas,
Formosa e bela, vai menina, sem se perder…

Nadando nos vapores duma renda de aurora,
Perfumando-se de azul, ouro e púrpura
Banhando-se em as fantasias como outrora,
Reencontra nelas o seu rio de água pura.

Reflectindo o Sol e a Lua em seu redor
Qual princesa ou fada de um conto infantil,
Trauteia ainda os musicais versos de cor.

Vestida de sonhos limpos, cirandando, gentil
Murmura o embalo num cântico de amor,
Tingindo a noite de rosa, roxo e anil.

Telmo, o marujo

Olhar como Gisela (2º parte)

Primeiro, uma figura fluida, não se lhe percebendo feições pois, toda ela era cor onde as formas se adivinhavam apenas pela cintilação emanada de si. Espantei-me e perdi-me de mim porque me nasceu uma emoção que nunca sentira; era amor e doçura, liberdade e atracção, uma vontade de chorar e de rir sem saber por que razão! Deixei-me atrair para esse mar de ondas coloridas e embalei-me ao som de uma melodia estranha até cair numa espécie de sonho. Entrei num espaço onde nada me limitava, suspenso, flutuava naquele meio e interagia com a figura principal através de diversas luzes de um espectro de cor desconhecido e intenso. Não imagino sequer o tempo que demorei naquele limbo tão estranho mas, quando a consciência me acordou e me fez estremecer, fui atirado violentamente para o interior do meu corpo e acordei caído junto ao lago. Ainda tive tempo de ver as águas cobrirem aquele mundo qual cortinas brancas caindo sobre a liquidez das imagens. Sentia-me frágil, trémulo, tinha o meu rosto molhado de lágrimas e a garganta arranhada e seca.
Gisela estava junto de mim, nunca me abandonara, e dava-me a sua mão para me ajudar a erguer. Sorria, mas o seu sorriso não era de alegria, era antes de cumplicidade e também de compaixão.
Quando consegui falar perguntei-lhe porque me trouxera até ali e o que significava tudo aquilo. Disse-lhe ainda que depois de ter presenciado aquela maravilha, mais nada no mundo me pareceria belo, tudo para mim, a partir daquele dia, seria irremediavelmente comparado e tornar-se-ia grosseiro, incompleto e imperfeito. Até ela, a mulher da minha admiração!
- Apenas mostrei a tua e a minha pequenez perante aquilo que um dia poderemos ser se regarmos com esperança, virtude e amor toda a nossa vida. – Respondeu-me Gisela suavemente.
Compreendi que jamais seria feliz, a ignorância fazia o meu mundo acessível, depois do que vivera, percebia quão longínqua era a perfeição, desanimava, deixava cair os meus braços perante a grandeza da Obra! O esforço teria que ser eterno! E descobri também em mim a cobiça, o desejo de possuir parte da beleza transcendente que vislumbrara. Por isso voltei a chorar, num choro que me rompia por dentro, me magoava e me arrancava soluços e gemidos como nunca me acontecera.
A minha Seguidora, manteve-se serenamente a meu lado dizendo:
- Chora, Telmo, não esqueças que tudo é possível se acreditares, o teu espírito crescerá e saberás procurar a beleza que pretendes alcançar. De ti germinarão flores, as mais belas flores, que serão o retrato de ti mesmo. Tu, e só tu, poderás determinar a metamorfose da tua alma e descobrires a forma a dar-lhe. Não te envergonhes da cobiça que sentes em alcançar o que desejas, é legítimo, pois não é para possuir a materialidade, mas para adornar o teu espírito! Necessitas para isso de um amor infinito e incondicional, de desviar de ti os pensamentos mesquinhos. A Eternidade é um caminho e tu, nós, e todos os que existem neste processo de evolução, fazemos parte dela. E, é por essa estrada que avançamos e nos unimos, mesmo que os nossos passos nos pareçam curtos e lentos avançamos nessa via ascendente ao destino glorioso que nos espera.
Recolhi as palavras de Gisela no meu peito e saí com ela amparado ao seu ombro.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Palavras viajantes

Inimá de Paula
4. Rosa e amarelo, roxo e branco, pingos de cor no verde dos campos por onde passo.
Viagem de luzes e sombras que prometem imagens ao longo do olhar.
Sensação de dejá vu no fundo da minha razão. Sinto-me suspensa sobre elas.
O mundo que me recebeu não é suficiente para me prender, por isso, esvoaço no espaço da especulação.
É bom sentir-me assim, pairando sobre o mar das ideias e saber que posso mergulhar nele, inventar palavras para outros sentimentos.
É bom engolir a cor e dizer aqui o que o meu espírito se liberta e na forma de signos porque eles são também o contorno de mim mesma.
É bom tocar o presente na fracção de tempo que esta página ocupa porque depois dela, virá o futuro desenhado como um sorriso.
Amadeu de Sousa Cardoso
5. Sentada no muro que separa a certeza da interrogação, respiro o ar frio da manhã. E olho em volta…
O branco dourado da luz do dia recém começado fere-me um pouco a vista e o vento aguça-me os ouvidos. Mas mais importante do que ver e ouvir, é sentir também com os outros sentidos que possuo:
Os passos apressados dos madrugadores, ou os arrastados dos noctívagos, o ciciar de ninhos escondidos entre a folhagem, um cão ganindo, uma gata com cio.
Aroma de pedras húmidas, perfume de canteiros floridos, cheiro do café acabado de fazer.
A minha roupa tocando-me o corpo, o arrepio na minha pele.
O gosto da minha boca.
Para cá do mundo também há estradas e becos, cruzamentos de espera e rotundas…
Armadilhas e teias onde os incautos se perdem. Túneis que nos levam à luz.
Para lá do muro, trilhos ignorados, provavelmente bordejados de cardos e tojos onde os pés se magoarão, onde as dúvidas são feitas de encantos e sortilégios.
O vento empurra-me para lá!
O muro é estreito e baixo, vá lá, comprido… dá a volta ao universo que já conheço.
Não sou capaz de descer.
Não sei que lado escolher.
Dórdio Gomes
6. Contornando as costas de um país em cujas montanhas nascem rios que alimentam o mar que o semi-circunda, eu sinto-me essência do Império por descobrir. Sou uma habitante de um mundo de desejos por saciar!
Há uma imensidão para lá de mim, um espaço que me leva a todos os lugares que me abraçam quando chego.
Há um mistério denso que me recebe por entre ravinas e meandros e me acolhe no seu regaço morno.
Quase ilha, este país!
Quase ilha este rectângulo que semelha o rosto do continente! É por essa razão, que todos nós aqui, sentimos que tudo nos aperta e liberta, e eu vivo aqui!
Somos como pontos que pontilham as linhas das fronteiras, tão frágeis, tão débeis, mas ao mesmo tempo tão precisos.
País de viagem em que todos somos marinheiros, pelo menos através dos sonhos.
País de procura onde as respostas nos devolvem dúvidas.

E eu sou. Sou dele, inteiramente!
Porque nele me sustento como animal anfíbio. Porque são dele os sons que se reconhecem nas minhas palavras. Dele, apenas dele, é a areia das praias onde ouso estar viva.
País de partidas e chegadas, cais onde atracam fantasias.
Sou dele, como navio!
Ah estrela do novo dia, deixa-me vestir toda esta saudade que ele me dá!
Rubens
7. A horrífica intenção dos fados transformou no meu país, as avenidas em vielas de dor.
Um fado de palavras tão amargas, tão acres que o doce mel as não disfarça!
A culpa procura-se. Como se ela desbastasse as farpas da verdade!
E o medo? Esse mascara-se de obediência e simpatia.
O temor é tão escondido e sangrador que eu choro por dentro ainda, sem saber por que razão.
Apertam-se-me os músculos tensos no corpo, o sangue corrupia dentro de nós, o suor erupta de todos os poros, a língua seca e incha. E fica-se à espera, sempre à espera, em estado de alerta.
Quando por fim o momento chega, é como se tudo estivesse já acabado, é a espera que nos une!
E o fado que os deuses nos ensinaram, continua dolente, indiferente, a todos os actos e consequências. Sem nada que o desvie da rota destinada.
Que importa que o sol amanheça cintilante ou se vista de nuvens cinzentas?
Basta que o medo tenha lugar na construção de uma pátria!
Gonçalo Ivo
8. Clara, transparente, fria, tão líquida! A água corre, alegremente e sem sobressaltos de maior por entre pedras conhecidas, redondas e gastas, conhecendo de antemão o seu caminho que só tem um fim. A nossa voz, junta-se a outros fios e engrossa tornando-se numa unidade maior cuja individualidade permanece.
Qual ribeiro, qual rio!
Tal como essa água que nos compõe, nos rodeia, líquido amniótico desde a génese, prossegue pela vida fora, faz parte de nós, mergulhando-nos em mistérios.
A terra suporta-nos, o ar penetra-nos, o fogo incendeia-nos. Mas, a nossa voz-água, acorda o que de mais sublime temos em nós, porque ela é elemento primordial da concepção ao final do destino de um corpo.
Ela deixa que o imaginário flutue acima da existência deixando à superfície a nossa alma.