quarta-feira, 11 de março de 2009

O suspiro de uma cadela



3. Estou toda azul. Sim, azul, aquela cor que cobre todo este pequeno mundo em que vivemos e que nunca sabemos exactamente o que quer dizer.

O azul é um mistério! Como pode uma cor pertencer às maiores extensões que conhecemos e não ser nada? Nada mais que o sobrepor de camadas incolores?
Como pode ela representar o conjunto do nada no todo, de forma tão intensa? Espanto-me, olho a minha pelagem e vejo-me azul, ainda por cima um azul que se retonaliza constantemente…
Esta cor, o azul, tem qualquer coisa de molhado, de fresco, como se nos mergulhassem em líquido. Mas na verdade, estou seca, sinto até o estalar eléctrico dos meus pêlos, ao friccioná-los! Além disso há muitos dias que não saio deste alpendre, (a dona da casa não deve estar cá, senão já me tinha enxotado daqui para fora) não tenho comido nem bebido, dormito aos poucos, um bocadinho de cada vez.
No entanto, estou azul, e como se uma força nova nascesse dentro de mim, apetece-me “dar um girinho” por estas bandas. Oiço uns chamamentos lá longe, mas estou indecisa, não sei se deva ir ou se fique aqui em terrenos seguros pois… esta cor estranha que me cobriu não é certamente tão discreta que não chame a atenção dos homens. Já não digo dos cães porque, para elas, basta-lhes o meu cheiro fêmeo, mas como estou colorida de azul, não tenho a certeza que o meu cheiro continue a ser o mesmo. Se calhar, ganhei o cheiro do mar, do vento, das florwes, eu sei lá!
Realmente há coisas! Só a mim é que me acontecem destas! Nunca ouvi ninguém dizer que um cão ou uma cadela, tivessem mudado de cor de um momento para o outro sem que o homem interviesse!
Espreguiço-me, estendo opostamente os meus membros, o mais que posso e, solto também o maior bocejo de que sou capaz. Tão longo e sonoro que, sinto admiração de mim mesma, fico impressionada. O melhor é esperar pela noite, assim será mais fácil passar despercebida, ninguém reparará na ridícula cor que tomei!
Pode ser que amanhã (será que há um amanhã) volte à simples condição de rafeira cuja pelagem é meio cinzenta, meio castanha, mas que não baralha ninguém. Gosto muito mais de ser vulgar, ter a sombra igual ao corpo, é que ser azul…é tão inquietante…além disso, quero a minha cor, mesmo que seja a mais banal de todas as cores, é a MINHA COR!

Escrever para crianças

Apesar de ter trabalhado tanto tempo para crianças continuo a ter alguma dificuldade em escrever para elas. Mesmo próximos, é difícil falar a mesma linguagem.
Como já disse aqui, a poesia foi sempre um instrumento que utilizei para chegar ao coração delas e isso deu frutos porque o lado emocional da poesia permite desenvolver também o raciocínio e a consciencialização dos valores.
No entanto, também fiz algumas incursões pela prosa. Começava muitas das minhas aulas com um conto. Às vezes um conto popular, outras, um conto inventado por mim. Registei alguns, não todos. E tenho pena de o não ter feito! Uma coisa é certa; até as coisas mais sérias podem ser ditas com uns pozinhos de magia. Todas as crianças apreciam a fantasia mesmo que tenham consciência da realidade. É o contexto lúdico que as estimula a aprender, por isso enveredei nesta área literária tão difícil. Contei-lhes histórias como outrora me contaram a mim. Sim, porque eu fui uma privilegiada nesse aspecto! Cada um, à sua maneira, todos os meus familiares tinha histórias para me contar, umas reais e outras fantásticas. O certo que é cresci no meio de contadores de histórias.
Portanto só me limitei a reproduzir o mesmo tipo de educação que tive em relação aos meus filhos e aos meus alunos e, podem crer, que não me dei nada mal!

Histórias de mim para ti ou Histórias mágicas de reais acontecimentos


Uma noite com as palavras

Aborrecida por não ter nada que fazer, sentei-me à borda do papel branco onde as linhas azuis se confundem e, esperei que o parágrafo se iniciasse.
Era noite. Acentos graves ouviam-se lá fora. Fora do pensamento. Abri a capa do caderno e as palavras assomaram tímida mas convictamente na ponta rolante da esferográfica. Convidei-as a entrar na página em branco e a tomarem o lugar que quisessem.
Artigos e pronomes pessoais disputaram discretamente um lugar à esquerda. O hábito é assim, torna-nos prisioneiros dos lugares! Aqueles ali não o sabiam, por isso tomaram essa atitude instintiva.
Os verbos, pelo contrário, acostumados a desdobrarem-se, foram mais flexíveis. Bem, sabiam que tinham que respeitar os tempos, os modos e o número, mas enfim, uma noite não são noites! Que o digam os substantivos!
Encheram por isso as linhas como se sentassem num estádio antes de um jogo importante e deliciaram-se completamente em jeito de gozo antecipado com a sua provocação, pois desta maneira, as palavras sobrantes, ligadas ao sentido da ordem, teriam que procurar na confusão, as suas posições. Situação que provocou momentos hilariantes e alguma confusão.
- Os verbos são terríveis! – Comentou um ponto de exclamação por entre um suspirozito de inveja.
- …e no entanto… - sentenciaram as reticencias. – São demasiado humanos, sentem e agem como eles. Nenhum de nós, pode confiar inteiramente neles… basta um pequeno deslize e transformam uma frase…
Os verbos tinham consciência da sua reputação, e compraziam-se com isso, realmente eram praticamente humanos, tirando algumas interjeições que os compreendiam muito bem e que às vezes até os substituíam, nenhuma, nenhuma outra palavra era capaz de dar tanto sentido à linguagem.
Estar ali à noite com as palavras, era diferente. Eu já calculara, mas confirmei à medida que via as palavras entrar, percebi então, como é que palavras curtinhas podiam ser mais poderosas que outras bem mais compridas.
Querem ver como? Eu conto:
A dada altura, um advérbio de mais de dez letras resolveu plantar-se com todo o seu tamanho quase no fim da linha. Estava à espera que reparassem nele, o que foi uma esperança vã! Ainda por cima, como todos têm a mania de terminar sempre em “mente”, quem é que ia olhar duas vezes para ele? A verdade, é que a falta de atenção o irritou. Revoltou-se, e até foi inconveniente com o maroto de um verbo, sentado no início da linha de baixo, que o olhava com ar divertido. Tanto esbracejou, tanto se esticou ao comprido que acabou encavalitado na margem e perder um “e”.
De outra vez, ocorreu um pequeno incidente.
Mesmo no meio da página, estava um daqueles substantivos epicenos que pudicamente escondem o sexo. Andavam todos embaraçados sem saber como o haviam de tratar, por nada deste mundo desejavam ofendê-lo. Zum zum, daqui, zum zum, dali, e eis que um pequeno artigo, humildemente constituído por uma só letra se foi sentar á sua beira. Um “Ah!” de alívio encheu os circundantes já esclarecidos.
Mas, vaidosos, vaidosos mesmo, são os adjectivos. Sempre com a mania de criticar as outras palavras, com a agravante de as rotular e de as quererem substituir em alguns casos. Têm a presunção que fazem parte de uma elite e não se dão com a maioria das palavras, acham que quando se associam é para fazer realçar a sua importância.
O mais engraçado é que os substantivos, suas vítimas principais, não se deixam escolher ao acaso, eles é os escolhem cuidadosamente. Coisa que não agrada nada a estes meninos de bem de todas as gramáticas do mundo. Ainda não perceberam que fazem parte de uma língua e que, para a enriquecerem têm que trabalhar em equipa e resolver as suas rivalidades.
Claro que estando eu, em tão viva comunhão com as palavras, aproveitei para as convidar a agruparem-se em frases, de modo a registar aquela noite diferente de todas as outras noites.

Telmo, o marujo

A Ilha do Conhecimento (4ª parte)

A estada na Escola do Corpo Físico ensinara-me a utilizar o meu corpo como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento do meu ser, numa idade em que todos os rapazes se sentem desconfortáveis com o seu próprio corpo, aprendi a valorizar as modificações e a amá-lo tal como ele era.

Já a barba despontava no meu rosto quando Hugo, o Seguidor responsável pela minha educação, voltou a aparecer e eu soube que estava na altura de mudar para outra escola: a Escola da Mente Elevada. Esta situava-se no cume de uma montanha agreste, organizava-se numa espécie de labirinto, em blocos autónomos onde o branco era a cor dominante. Era uma escola que predispunha os alunos à concentração. Havia bibliotecas, laboratórios, anfiteatros para as conferências e, as paredes interiores, estavam repletas de reflexões escritas. Aqui procurava-se sobretudo descobrir as causas e os efeitos naturais e espirituais do mundo em que vivemos.
Fui recebido com a mesma solicitude com que havia sido recebido nas escolas anteriores. Nos primeiros tempos senti-me bastante ignorante, mas os meus companheiros ajudaram-me a ultrapassar esse sentimento e em breve me nasceu uma vontade séria de aprender o mais que pudesse.
Estudei, amadureci conceitos, formulei dúvidas e procurei respostas para elas. Parecia-me que crescia como se fosse feito de uma matéria elástica distendendo continuamente. Ao mesmo tempo adquiri um respeito por toda a humanidade e pela grandiosidade e complexidade do universo. Foi aí que me apaixonei pela sábia construção dos mundos e me tornei mais humilde. A humildade que ensina a encurtar os passos para que estes sejam firmes e seguros, a atingir o conhecimento sem excitação e foi com essa serenidade que aprendi a ser cúmplice da Criação consciencializando-me da presença do Grande Construtor.
Nessa altura entendi que o meu caminho passaria pela aprendizagem da medicina. Os Mestres concordaram com a minha escolha e animaram-me muito a conseguir uma formação bastante sólida nesta área. Os médicos aprendiam tudo o que se relacionava com vida, desde os aspectos fisiológicos, aos mentais e espirituais. Também aprendiam a utilizar e a fabricar os medicamentos naturais que ajudavam a recuperar a saúde.
Quando acreditei que estava apto pedi a Hugo que me viesse buscar pois, sabia que não estava destinado à Casa dos Seguidores. Quando ele chegou, foi com espanto que recebi a indicação de que me faltava ainda frequentar uma outra Escola: a Escola das Artes do Espírito. Hugo explicou-me que era necessário desenvolver também essa vertente do Conhecimento para que a minha formação ficasse completa. Acedi porque nunca me passou pela cabeça pôr em causa o plano educativo que os Seguidores haviam decidido para mim e, fiz bem!
Depois de termos trilhado um caminho traiçoeiro cheio de ravinas, desci a um dos vales. Ao longe, quando divisei as enormes construções do local senti um embargo na garganta e um turbilhão de emoções dentro de mim.

segunda-feira, 9 de março de 2009

O suspiro de uma cadela


2. Aqui estou eu frente ao rio. Um rio que corre de então para cá e que ao contrário dos outros rios, se esfia na minha direcção como a querer voltar à nascente…

Não sei bem como vim aqui parar, nem tão pouco que lugar é este onde as plantas parecem ter invertido o lugar das suas raízes que, atiram ao ar, guardando ciosas nas covas escuras, as corolas encardidas!
Este é um lugar estranho! Tão estranho que eu tomo até as cores do seu pálido sol, como se ele se quisesse identificar comigo!
O rio não saltita de seixo em seixo como eu já vi em tantos lugares, não, ele parece engolir-se a si mesmo, numa lentidão tão grande que adormece nas margens esburacadas. E as águas? Nem são azuis, nem são verdes e nem são castanhas, antes têm a a cor suja da indefinição.
Estico o meu olhar para lá e não encontro o saltitar da rã nem o borbulhar de um peixe minúsculo. Não vejo mais que um monte de grãos de pedra arrastados pelo sugar débil da corrente.
Os espaços aquém e além das suas margens, são tão planos, tão rasos que o que está longe parece estar aqui e, o horizonte limita-se a uma linha inventada, rasgada e sem cor.
Não há desenhos de caminhos, nem ervas pisadas que indiquem passagens. Apenas tojos e espinheiros espalhados, aqui e ali ao sabor do acaso.
Mas eu cheguei até cá e não sei porquê!
O silêncio é tão grande que entra dentro de mim e aspira todo o resto da minha consciência. Não sei se estou perto ou se estou longe de alguma referência, mas sinto-me embalada no sono e transportada por esse espaço todo aí.
Neste momento, sou o nada. Sem tristeza e sem dor, sem alegria e sem entusiasmo, sei apenas que estou aqui onde nada me roça e sinto-me suspensa na vida…
Nada me servem os meus sentidos agora porque não existe um estilo que os acorde.
Muito francamente, acho que apenas a rebelde de uma interrogação se me atravessa na minha cabeça. Tenho a sensação que tudo evolou no ar, tudo aquilo que conheci antes e que fazia do código aprendido.
Gostava que este rio que observo me levasse à sua nascente onde sorve o seu caudal. Quem sabe se, dentro da escura madre, eu não encontraria a resposta?! Mas não. Nem consigo lembrar-me como deslocar-me. Não me esforço sequer, parece que de repente, me resumo ao olhar vagabundo sobre o rio que sobe, às terras adormecidas, à natureza enlouquecida. Parece que eu própria faço parte disto e, eu não sabia!
Queria adormecer profundamente e sonhar que existe na cidade um recanto qualquer que já me tivesse conhecido para ter saber se estou viva.
Se calhar preferia nem acordar desse sonho, porque esta realidade seria uma ilusão passageira! Gostaria de ouvir a minha voz a ladrar e a ressoar no ar, mas não, estou aqui esquecida de mim na cova do meu corpo sem sentir.
Rio. Rio leva-me contigo! Rio engole-me e deixa que eu cegue e ensurdeça desta vez! Rio, lava-me ou suja-me, tanto faz! Eu quero deixar de ser uma sombra parada no palco das tuas margens. Rio, rio, eu ainda respiro e não sabia!

O teatro


O teatro é uma das minhas paixões. Paixões? As paixões são entusiasmos passageiros que nos tomam de surpresa e nos enlaçam durante algum tempo em correria louca.
Teatro, para mim, é muito mais do que paixão, veio ter comigo na aurora da minha vida, cresci com ele, aprendi com ele a reflectir e a compreender o seu sentido.
Arte? Disciplina? Modo de estar? Pedagogia social e humana, encontro de realidades vestido de fantasia…às vezes doloroso, às vezes terno.
É uma forma de comunicar. Tão antiga como a própria linguagem. Imagino o caçador pré-histórico relatando os seus feitos junto dos companheiros; ele é herói, vítima, é o vento frio cortando a pele, o encontro com os rivais, tudo isto acompanhado de gestos e expressões faciais, de onomatopeias, de registos de voz variados.
Mais tarde, surge a coreografia de uma ou mais danças, a respectiva alteração do aspecto físico, o cerimonial perante a assembleia de seus iguais, notando-se já a interacção das personagens com o público.
Vem depois as grandes encenações, pensadas e realizadas pelos sacerdotes das diversas religiões organizadas, e, claro, a Grécia, Roma, a China, adoptando a arquitectura ao acto da representação. Vêm as máscaras, as luzes, a música, os efeitos especiais, acompanhando as narrativas especialmente escritas para a posteridade.
Daí para cá, pouco mais se desenvolveu, acrescentou-se apenas novas técnicas, novas filosofias e conceitos.
O teatro devia ser uma disciplina obrigatória nas escolas, digo-vos isso porque também fui professora. Com ele desenvolvem-se competências únicas; a linguagem oral, gestual e verbal, a colocação da voz, a estética, a descoberta dos autores, a noção do tempo e do espaço, o respeito pelo trabalho de grupo e pelo o outro, a pesquisa histórica, a contextualização dos acontecimentos e, também a receber a crítica e os elogios.
O teatro é isto tudo e o que mais quisermos absorver dele, considero-o a actividade artística mais completa de todas mas há tanta gente que não entende…

Telmo, o marujo

A Ilha do Conhecimento (3ª parte)
A minha ideia de escola em que um mestre declamava e os alunos repetiam, caiu imediatamente por terra. A primeira lição que aprendi foi que todos aprendemos uns com os outros. O Mestre-Tutor orientava-nos, aconselhava-nos e ajudava-nos a sistematizar, tudo o que íamos aprendendo.
Eu era o mais velho dos alunos mas não sabia escrever nem ler, num mundo em que o pensamento é que falava, a escrita tinha que ser forçosamente diferente. Baseava-se em símbolos que representavam ideias e não em sons. A princípio foi difícil porque esses símbolos eram muitos e eu, ainda não estava totalmente habituado a formular os pensamentos sem articular as palavras. Depois com o tempo e quase sem dar por isso, fui memorizando todos aqueles sinais e passei a ser capaz de registar o que fosse necessário. Aprendi também que ninguém era detentor de toda a escrita, esta desenvolvia-se consoante a nossa experiência e à medida que elaborávamos o nosso conhecimento.
Também compreendi logo que o mais importante era reflectir sobre os nossos actos ou atitudes. Por exemplo: se eu estivesse a preparar uma refeição, era questionado sobre a razão da escolha dos alimentos, a quantidade, a forma dos confeccionar, o modo como servir ou o efeito que teria no nosso corpo, mente e espírito. Desta forma eu abordava a matemática, as ciências, a ética e a arte. Nada era feito ao acaso. O Mestre-Tutor só intervinha se fosse necessário, mas a obrigação de perguntar e responder era nossa. Custou-me bastante adquirir esse hábito porque estava preso à ideia que os alunos eram ignorantes e só o mestre é que detinha o conhecimento.
Não estive muito tempo nesta escola, sei que cresci porque as minhas roupas deixaram de me servir e tive que fazer outras. Hugo apareceu um dia e conversou com o Mestre-Tutor sobre o meu progresso parecendo satisfeito.
Conversámos pouco mas soube que ele me iria levar para outra escola noutro local da Ilha, a Escola do Corpo Físico.
Deslocámo-nos a cavalo pois as distâncias entre as escolas eram bastante grandes. Pelo caminho Hugo explicou-me que a Escola que eu iria frequentar dar-me-ia a consciência e a importância do meu corpo físico, pois é através dele que nos expressamos e experienciamos a vida.
Quando chegámos percebi que passaria a viver com os meus companheiros sem qualquer Mestre-Tutor. Partia-se do princípio que éramos suficientemente crescidos para assumirmos a nossa aprendizagem. Havia Mestres mas estes percorriam o espaço e só agiam quando solicitados. Ali, rapazes e raparigas, faziam exercícios físicos que predispunham ao relaxamento, à expressão corporal e a um crescimento harmonioso do nosso corpo. Dávamos muita atenção à higiene, alimentação, vestuário e fabricação de objectos. Cultivávamos plantas e árvores que serviam para nos alimentarmos ou tratarmos as nossas raras doenças. Pescavam-se peixes e moluscos nos pequenos lagos e ribeiros, fiava-se, tecia-se e confeccionava-se a nossa própria roupa e calçado. Ninguém obtinha nada sem esforço pessoal. Era verdadeiramente uma vida sã. Entre nós transpirava-se alegria e amabilidade, aspecto esse muito importante pois aprendemos que mesmo não havendo amizade, era obrigatório ter para com todos delicadeza, generosidade e simpatia.
Foi pois, sem dificuldade que aprendi que ao cuidar do meu corpo, cuidava da minha mente e do meu espírito. Que o alimento e o conforto ajudavam a adquirir condições para o meu desenvolvimento interior e que nada, mesmo nada, do que pudesse considerar trabalho, prejudicava as outras aprendizagens. Pelo contrário, percebi que o trabalho relacionava o homem com o meio e ajustava-o à grande harmonia da vida. Foi muito gratificante compreender que tudo o que eu produzia era fruto da minha inteligência e habilidade. Sobretudo aprendi a distinguir trabalho de escravidão e que a preguiça proporciona sentimentos de angústia e inferioridade, a Escola do Corpo Físico ensinou-me não só a cuidar do meu corpo mas também, do Grande Corpo Colectivo e Cósmico.




domingo, 8 de março de 2009

O suspiro de uma cadela


1. Mordo a ponta do meu rabo enrolada no corpo nervoso e, dento o pêlo hirsuto e amargo, rasgando-me calada.

O vento expulso dos largos pelas ruelas e becos, arranha-me as orelhas e os olhos com a poeira que traz, chego mesmo, a inspirá-lo, desprevenidamente.
Há nas pedras da calçada, enodadas de canseiras, umas poçazinhas lodacentas onde me arrasto para diminuir o frenesim que sinto.
Não consigo já ganir as minhas dores. Elas tornaram-se tão materiais que me perfuram a pele como carraças. Profundamente.
Já não me incomodam os pontapés e as alguidaradas de água fria. Limito-me a encolher sob a soleira de uma porta envelhecida.
Já não farejo por entre as fitas de plástico dos talhos, a benesse de um osso duro de roer.
Fico aqui, como não quer a coisa, a ver se reparam em mim.
Dobro o cachaço ante aqueles que rosnam altivos e, passo indiferente por outros que também se encontram nesta volta da vida.
Colecciono suspiros no peito como quem compõe um colar de angústia. Um colar que aperta o pescoço e me deixa entorpecida.
Nem o assédio de um macho pouco exigente me animam já. Como se o cio fosse coisa longínqua… e, se um deles se serve, deixo simplesmente que aconteça, sem ruído, sem ofegação.
Eu sei que há um bairro do outro lado da cidade onde os cães têm vida de luxo, que são escovados, perfumados, passeados por donos pervertidos ou carentes de afecto. Eu sei que há ainda para lá da cidade, um baldio onde as ervas são muitas, os ratos e os láparos acessíveis à caça, onde se corre à vontade e se pode adormecer de barriga para o ar.
Mas para viver no bairro é preciso coleira, às vezes, até açaime. E, para viver no baldio, é preciso andar, andar muito, até lá chegar. E eu, estou velha!
Nunca tive outro dono senão eu própria, nuca dormi sem ser ao relento ou num qualquer coito mal cheiroso. E, já não tenho forças. Não, não tenho, para procurar o baldio e conquistar o lugar.
Prefiro ficar por aqui, onde cada esquina tem um sinal odorado por mim. Prefiro rastejar nesta lama fiel que partir à aventura.
Um dia, eu sei que é a única certeza, estender-me-ei numa berma, esticar-me-ei de ventre inchado, até que o carro municipal me leve dentro e me meta na pira que tudo purifica e alimenta.
E então, tornar-me-ei pó. Um pó fino e cinzento que se espalhará nos ares e entrará nas narinas dos que o respirarem. Nesse momento, acolher-me-ão dentro de si, nessa altura, sem esforço, farei parte das brisas e chegarei a todo o lado, sem medo, sem cansaço, sem lutas. O meu rabo e a minha boca, deixarão de ter sentido porque não terão forma e passarão a ser apenas a existência que a minha imaginação lhe queira dar.
Também não precisarei de um nome, porque terei apenas a consciência de que existo independentemente dos sentidos dos outros.
Ah sim, esse tempo virá! E eu, abocanhá-lo-ei mais depressa que hoje, abocanho o meu rabo!

Que bom rever Matilde!


Imagens de Chagall






Revi Matilde. Uma mulher que não parece existir aqui. Que é feita de algodão doce que se desfaz em ternura e deixa a sua doçura escorrer na forma da sua poesia.
Conheci Matilde há trinta e quatro anos, está igual, etérea, suave, com os mesmos olhos escuros que perscrutam o mundo dos homens e das crianças sem censura, apenas com compreensão. Toda ela é um sorriso de delicadeza que nos torna pequenininhos…
Se hoje continuo a escrever poesia, é porque recebi também dela, naquele tempo, o incentivo para o fazer. E, se como mãe e como professora elegi a poesia como veículo de educação, foi porque aprendi com pessoas como ela, que o meio mais eficaz de chegar ao coração das crianças é o afecto e o respeito. Quando se age assim, abre-se um canal entre nós e as crianças que permite que o ensino e a aprendizagem se façam do modo mais simples do mundo.
Matilde nunca foi formalmente minha professora, encontrávamo-nos nos corredores, escadas ou bar da escola, era aí que trocávamos breves palavras e nos entendíamos.
Nem sempre associamos os artistas à sua obra, às vezes há como uma bipolaridade neles, são uns quando criam, são outros como cidadãos. Mas Matilde, não. Ela é a sua própria poesia! E, embora a sua frágil figura o não demonstre, ela não é de modo nenhum alheia às realidades da nossa sociedade. Escolheu um caminho: defender e lutar pelos direitos das crianças. Essa tem sido o mote da sua vida e tem dado muito mais do que a sociedade portuguesa lhe reconhece.
Gosto de Matilde, da sua voz feita de arrastos e pausas, de palavras escolhidas ditas em modo de improviso, gosto da música dessas palavras que entram dentro do nosso espírito e nos fazem saltar os melhores sentimentos para fora de nós.
Foi bom rever Matilde! Porque cada vez que estou com ela através de suas poesias, fico mais doce e com vontade de ser melhor.
Obrigada, Matilde. Ainda bem que vives neste mundo de arestas!

Telmo, o marujo

A Ilha do Conhecimento (2ª parte)

Como já referi a Ilha do Conhecimento ficava um pouco mais afastada das outras, era também a mais acidentada, de picos acerados e rocha cinzenta-azulada. Quando aportámos, num porto artificial que se ligava à Ilha por uma ponte de madeira, pude reparar que toda ela, estava salpicada de conjuntos de edifícios muito brancos distantes uns dos outros mas, ligados entre eles por estradas serpenteantes. Aqui e ali podia-se no entanto ver grandes zonas verdes que mais tarde vim a saber tratar-se de florestas e bosques. Esperava-nos um velho com três cavalos pequenos e robustos. Eram cavalos de montanha, habituados a trotarem por veredas estreitas e a escaparem das ravinas. Não eram muito graciosos, mas podíamos verificar a sua resistência e docilidade. Hugo e eu cumprimentamos o velho e, ele deu-nos um animal. O de Hugo era castanho e o meu branco com grandes manchas amareladas. Montámos e seguimos o velho guia sem grandes conversas.
Durante muito tempo espiralamos as montanhas em silêncio, eu bebia a paisagem com uma grande ansiedade, sabia que iria viver ali durante o tempo que fosse necessário para a minha formação portanto procurava sinais que me augurassem o futuro. Quando nos aproximámos do primeiro conjunto de casas, desmontámos e o velho foi tratar dos cavalos combinando com Hugo que depois o viria buscá-lo para o levar de novo até ao porto.
Antes de entrarmos, Hugo explicou-me então que na Ilha havia quatro escolas; a Escola do Corpo Físico, a Escola da Mente Elevada, a Escola das Artes do Espírito e a Escola dos Seguidores. Os alunos como eu, não podiam frequentar de imediato essas escolas, primeiramente tínhamos que aprender as regras, os ensinamentos básicos e desenvolver todas as nossas capacidades e a personalidade de modo a poder escolher com segurança a área de estudos seguinte. Não íamos à escola, porque vivíamos com um Mestre que cuidaria da nossa educação, os companheiros com quem conviveria seriam também participantes na minha aprendizagem, tal como eu seria deles. Achei muito estranha aquela forma de escola mas mais interessante daquela que frequentara no soturno vão da Igreja da minha terra natal.
A grande maioria dos habitantes das Ilhas fazia apenas esta preparação e seguia para as respectivas famílias onde aprenderia as actividades profissionais que lhes agradava, só aqueles que demonstrassem ser especialmente dotados para as áreas que cada Escola desenvolvia, é que ficavam na Ilha do Conhecimento. Ninguém pagava nada pelos seus estudos, todos tinham a possibilidade de prosseguir os estudos desde que fossem capazes.
Fiquei aflito de repente, comecei a ter medo de não corresponder às expectativas dos meus amigos Seguidores. Hugo, afagou-me os cabelos e disse-me que não me preocupasse, que apenas me deveria esforçar em aprender o melhor possível o que me ensinariam, que aos poucos eu entenderia qual era o meu caminho.
Nesse momento, apareceu o Mestre-Tutor com quatro rapazes e três raparigas. Cumprimentaram Hugo e receberam-me com carinho. Entretanto o guia chegou e Hugo despediu-se de mim enquanto eu segui os meus futuros companheiros.