domingo, 15 de março de 2009

Histórias de mim para ti ou Histórias mágicas de reais acontecimentos


O burro

Era uma vez um burro. Um burro que logo à nascença foi separado de sua mãe e levado para um circo.
No circo viviam outros burros como ele, um pouco mais velhos, mas todos espertos e habilidosos.
O burro da nossa história era mais inteligente do que esperto, vivo, alegre, mas tremendamente crítico em relação à vida que levava. Isso criava á sua volta um ambiente tanto de admiração como de indignação.
Ainda o seu pêlo negro de jovem o cobria e, já ele descobrira que para o seu dono lhe dar coisas boas, era preciso que ele obedecesse cegamente, mesmo que não fosse essa a sua vontade! E também percebeu que as suas habilidades sobravam quase sempre porque o número era reduzido e os outros tinham também que trabalhar para que o tratador fosse reconhecido pelo público.
Na sua irreverência, provocava os seus companheiros, adorava escoicinhar para o ar ou fugir para os prados, gostava de se sentir solto para poder olhar os regatos de águas claras, cheirar as flores rasteiras ou simplesmente, trotar sem música e sem ordenança.
Um dia, o burro descobriu que o seu velho tratador se ia embora. Não gostava muito dele, mas era o único senhor que tivera e, por isso, ficou com pena quando o viu partir.
Os donos do circo retiram os burros do espectáculo e venderam-nos a quem os quis na feira de gado, ganhando com isso uma boa maquia à conta dos tais burros reformados.
Foi o nosso burrico então parar às mãos de um camponês brutal que queria fazer dele, uma vedeta, um simples animal de tiro. Para o ensinar, dava-lhe quanta vergastada podia. Ai quanto sofrimento sobre o seu lombo marcado! Ai quantas lágrimas…que os burros também choram…só que baixinho, baixinho, quase às escondidas!
Mas a revolta fazia parte do seu sangue, por isso, roeu a corda que o prendia e partiu para além, para a liberdade que o chamava, onde a voz do Homem o não o magoasse.
Foi já em terrenos florestados que encontrou um cavalo no seu caminho. Admirou-lhe a figura e a história, pois este dizia-se nobre, senhor de muitas aventuras passadas com cavaleiros andantes e campeão de provas de hipismo à mistura. Parecia até ter o poder de adivinhar o seu passado e o seu futuro num simples relinchar e piscar de olho!
O cavalo dizia-lhe que ele podia crescer, crescer tanto que chegaria a ser do seu tamanho. E, qual é o burro que não quer ser do tamanho de um cavalo? Portanto respeitava-o, embora não o temesse. Aprendera já que as hierarquias não são para desprezar, sobretudo se, se anda sozinho nesta vida.
Quando encontravam outros animais, o velho cavalo excedia-se na sua exuberância, abanava as crinas e amesquinhava e insultava o burro à frente de todos. Isto, em nome de o fazer crescer, claro!
O burro começou então a pensar se devia erguer a cabeça e morder-lhe o pescoço, mas depois, pensou melhor e reconheceu que o cavalo era inteligente e sábio, e que apesar de tudo o podia ensinar, portanto deixou-se ficar.
Habituou-se a ouvir calados os relinchos do outro e zurrava para dentro; às vezes de raiva, às vezes de conformação. Pensava: se desmascaro o cavalo à frente dos outros animais das duas, uma, ou eu fico por mentiroso e ingrato pois, a fama dele é maior que o seu tamanho, se o deixo cair em contradição, desgraço o coitado do velho que morrerá de vergonha. Se isso acontecesse, acho que morreria também de remorsos. A vingança é um acto iníquo, próprio dos homens, principalmente se ela se exerce sobre quem já não consegue defender-se. Assim, como assim, prefiro esperar que o fim do cavalo venha serenamente. Afinal, eu que não sou tão sábio como ele, prefiro chegar a velho com o coração leve e sem nada do que me arrependa. De que valerá toda a sua sabedoria se o meu coração for duro e a boca falsa? De que vale ter fama em vida e enterrá-la com o corpo?
E cogitando, o burro, vai caminhando, sofrendo ás vezes, escondendo a verdade para poupar o cavalo. Quem sabe se ele acorda da sua cegueira e descobre os seus erros e seja capaz de baixar os olhos para si?!
A erva é verde e a água abundante, está certo! Mas mais do que a erva e a água, há um azul imenso por cima das orelhas! É por isso que o burro quer conservar o seu coração puro. Quer poder um dia, ao atravessar o prado extenso e plano dos seus sonhos, encontrar um lugar onde os burros e os cavalos sejam todos do mesmo tamanho.

Temo, o marujo

A Ilha do Conhecimento (5ª parte)

A escola das Artes do Espírito ficava num amplo vale, todo ele um jardim! Cada árvore, cada canteiro de flores, formava uma unidade que nos proporcionava experiências emocionais. Diversas esculturas orlavam as alamedas e praças. Os edifícios também tinham para lá da sua função, uma traça diferente de modo a fazer um todo com o ambiente em que se situavam. Aqui o mais importante era a linguagem artística e, ela tão eloquente que pessoas como eu, sem qualquer conhecimento se sentia por vezes intimidadas. Descobri portanto que ainda teria muito que aprender naquela escola.
Não havia aulas formais, aliás, como nas escolas anteriores. Mas em todo o lado, a qualquer hora, havia concertos, bailados, saraus de poesia, representações dramáticas. Tanto nas paredes dos edifícios como no interior deles, expunham-se obras de arte que iam da pintura à escultura, da ourivesaria à cerâmica, enfim, era um mundo de coisas belas que acerava o espírito e abria as brechas da alma que levavam o espectáculo da vida para dentro de nós. Inundei-me de prazer e bons sentimentos, havia vezes que chorava sem saber porquê, lágrimas quentes e saborosas que escorriam por excesso de sentimentos, outras, tinha que me tocar par ter a certeza que estava acordado e não num sonho.
Hugo desta vez acompanhou-me durante todo o tempo que ali estive e por essa razão uni-me a ele muito mais do que aos outros Seguidores. Aprendi a manifestar os meus sentimentos e afectos com ele, não era raro passearmos juntos abraçados. Era um amor único! Um amor feito de cumplicidade e compreensão. Ainda bem que não havia a medição do tempo como no meu mundo natural, ali, não havia urgência, apenas o desfrutar das maravilhas.
Aprendi a reconhecer a vibração da minha alma ao som da música, das palavras ou das formas. E, quando me senti saciado terminei a minha formação. Quando saí, o mundo cá fora tinha outro sentido, um sentido que percepcionava de um modo mais inteiro toda a minha consciência. A Porta da Sabedoria entreabrira-se para mim, deixara-me espreitar um universo melhor porém, não me estava destinado ainda transpor o seu limiar…
Regressei pois com Hugo à Ilha dos Seguidores. Só agora reparava que o meu ombro roçava o ombro do meu amigo, as minhas passadas acompanhavam as suas, com a mesma força, a mesma segurança. Tinha-me feito homem quase sem dar por isso. Jovem é certo, mas um homem!
O futuro aguardava-me sem medos nem inquietações, a maré cheia das experiências tomava-me e o ondear que sentia dentro de mim era apenas o fluxo e o refluxo do meu pensamento e emoções. Desaguava agora num mar gigante que se estendia para lá do horizonte visível, um mar onde as rochas eram as poucas certezas da vida, e elas emergiam, altas, poderosas e sábias!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Vamos visitar o velho Almada Negreiros!



































































O suspiro de uma cadela



3. Estou toda azul. Sim, azul, aquela cor que cobre todo este pequeno mundo em que vivemos e que nunca sabemos exactamente o que quer dizer.

O azul é um mistério! Como pode uma cor pertencer às maiores extensões que conhecemos e não ser nada? Nada mais que o sobrepor de camadas incolores?
Como pode ela representar o conjunto do nada no todo, de forma tão intensa? Espanto-me, olho a minha pelagem e vejo-me azul, ainda por cima um azul que se retonaliza constantemente…
Esta cor, o azul, tem qualquer coisa de molhado, de fresco, como se nos mergulhassem em líquido. Mas na verdade, estou seca, sinto até o estalar eléctrico dos meus pêlos, ao friccioná-los! Além disso há muitos dias que não saio deste alpendre, (a dona da casa não deve estar cá, senão já me tinha enxotado daqui para fora) não tenho comido nem bebido, dormito aos poucos, um bocadinho de cada vez.
No entanto, estou azul, e como se uma força nova nascesse dentro de mim, apetece-me “dar um girinho” por estas bandas. Oiço uns chamamentos lá longe, mas estou indecisa, não sei se deva ir ou se fique aqui em terrenos seguros pois… esta cor estranha que me cobriu não é certamente tão discreta que não chame a atenção dos homens. Já não digo dos cães porque, para elas, basta-lhes o meu cheiro fêmeo, mas como estou colorida de azul, não tenho a certeza que o meu cheiro continue a ser o mesmo. Se calhar, ganhei o cheiro do mar, do vento, das florwes, eu sei lá!
Realmente há coisas! Só a mim é que me acontecem destas! Nunca ouvi ninguém dizer que um cão ou uma cadela, tivessem mudado de cor de um momento para o outro sem que o homem interviesse!
Espreguiço-me, estendo opostamente os meus membros, o mais que posso e, solto também o maior bocejo de que sou capaz. Tão longo e sonoro que, sinto admiração de mim mesma, fico impressionada. O melhor é esperar pela noite, assim será mais fácil passar despercebida, ninguém reparará na ridícula cor que tomei!
Pode ser que amanhã (será que há um amanhã) volte à simples condição de rafeira cuja pelagem é meio cinzenta, meio castanha, mas que não baralha ninguém. Gosto muito mais de ser vulgar, ter a sombra igual ao corpo, é que ser azul…é tão inquietante…além disso, quero a minha cor, mesmo que seja a mais banal de todas as cores, é a MINHA COR!

Escrever para crianças

Apesar de ter trabalhado tanto tempo para crianças continuo a ter alguma dificuldade em escrever para elas. Mesmo próximos, é difícil falar a mesma linguagem.
Como já disse aqui, a poesia foi sempre um instrumento que utilizei para chegar ao coração delas e isso deu frutos porque o lado emocional da poesia permite desenvolver também o raciocínio e a consciencialização dos valores.
No entanto, também fiz algumas incursões pela prosa. Começava muitas das minhas aulas com um conto. Às vezes um conto popular, outras, um conto inventado por mim. Registei alguns, não todos. E tenho pena de o não ter feito! Uma coisa é certa; até as coisas mais sérias podem ser ditas com uns pozinhos de magia. Todas as crianças apreciam a fantasia mesmo que tenham consciência da realidade. É o contexto lúdico que as estimula a aprender, por isso enveredei nesta área literária tão difícil. Contei-lhes histórias como outrora me contaram a mim. Sim, porque eu fui uma privilegiada nesse aspecto! Cada um, à sua maneira, todos os meus familiares tinha histórias para me contar, umas reais e outras fantásticas. O certo que é cresci no meio de contadores de histórias.
Portanto só me limitei a reproduzir o mesmo tipo de educação que tive em relação aos meus filhos e aos meus alunos e, podem crer, que não me dei nada mal!

Histórias de mim para ti ou Histórias mágicas de reais acontecimentos


Uma noite com as palavras

Aborrecida por não ter nada que fazer, sentei-me à borda do papel branco onde as linhas azuis se confundem e, esperei que o parágrafo se iniciasse.
Era noite. Acentos graves ouviam-se lá fora. Fora do pensamento. Abri a capa do caderno e as palavras assomaram tímida mas convictamente na ponta rolante da esferográfica. Convidei-as a entrar na página em branco e a tomarem o lugar que quisessem.
Artigos e pronomes pessoais disputaram discretamente um lugar à esquerda. O hábito é assim, torna-nos prisioneiros dos lugares! Aqueles ali não o sabiam, por isso tomaram essa atitude instintiva.
Os verbos, pelo contrário, acostumados a desdobrarem-se, foram mais flexíveis. Bem, sabiam que tinham que respeitar os tempos, os modos e o número, mas enfim, uma noite não são noites! Que o digam os substantivos!
Encheram por isso as linhas como se sentassem num estádio antes de um jogo importante e deliciaram-se completamente em jeito de gozo antecipado com a sua provocação, pois desta maneira, as palavras sobrantes, ligadas ao sentido da ordem, teriam que procurar na confusão, as suas posições. Situação que provocou momentos hilariantes e alguma confusão.
- Os verbos são terríveis! – Comentou um ponto de exclamação por entre um suspirozito de inveja.
- …e no entanto… - sentenciaram as reticencias. – São demasiado humanos, sentem e agem como eles. Nenhum de nós, pode confiar inteiramente neles… basta um pequeno deslize e transformam uma frase…
Os verbos tinham consciência da sua reputação, e compraziam-se com isso, realmente eram praticamente humanos, tirando algumas interjeições que os compreendiam muito bem e que às vezes até os substituíam, nenhuma, nenhuma outra palavra era capaz de dar tanto sentido à linguagem.
Estar ali à noite com as palavras, era diferente. Eu já calculara, mas confirmei à medida que via as palavras entrar, percebi então, como é que palavras curtinhas podiam ser mais poderosas que outras bem mais compridas.
Querem ver como? Eu conto:
A dada altura, um advérbio de mais de dez letras resolveu plantar-se com todo o seu tamanho quase no fim da linha. Estava à espera que reparassem nele, o que foi uma esperança vã! Ainda por cima, como todos têm a mania de terminar sempre em “mente”, quem é que ia olhar duas vezes para ele? A verdade, é que a falta de atenção o irritou. Revoltou-se, e até foi inconveniente com o maroto de um verbo, sentado no início da linha de baixo, que o olhava com ar divertido. Tanto esbracejou, tanto se esticou ao comprido que acabou encavalitado na margem e perder um “e”.
De outra vez, ocorreu um pequeno incidente.
Mesmo no meio da página, estava um daqueles substantivos epicenos que pudicamente escondem o sexo. Andavam todos embaraçados sem saber como o haviam de tratar, por nada deste mundo desejavam ofendê-lo. Zum zum, daqui, zum zum, dali, e eis que um pequeno artigo, humildemente constituído por uma só letra se foi sentar á sua beira. Um “Ah!” de alívio encheu os circundantes já esclarecidos.
Mas, vaidosos, vaidosos mesmo, são os adjectivos. Sempre com a mania de criticar as outras palavras, com a agravante de as rotular e de as quererem substituir em alguns casos. Têm a presunção que fazem parte de uma elite e não se dão com a maioria das palavras, acham que quando se associam é para fazer realçar a sua importância.
O mais engraçado é que os substantivos, suas vítimas principais, não se deixam escolher ao acaso, eles é os escolhem cuidadosamente. Coisa que não agrada nada a estes meninos de bem de todas as gramáticas do mundo. Ainda não perceberam que fazem parte de uma língua e que, para a enriquecerem têm que trabalhar em equipa e resolver as suas rivalidades.
Claro que estando eu, em tão viva comunhão com as palavras, aproveitei para as convidar a agruparem-se em frases, de modo a registar aquela noite diferente de todas as outras noites.

Telmo, o marujo

A Ilha do Conhecimento (4ª parte)

A estada na Escola do Corpo Físico ensinara-me a utilizar o meu corpo como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento do meu ser, numa idade em que todos os rapazes se sentem desconfortáveis com o seu próprio corpo, aprendi a valorizar as modificações e a amá-lo tal como ele era.

Já a barba despontava no meu rosto quando Hugo, o Seguidor responsável pela minha educação, voltou a aparecer e eu soube que estava na altura de mudar para outra escola: a Escola da Mente Elevada. Esta situava-se no cume de uma montanha agreste, organizava-se numa espécie de labirinto, em blocos autónomos onde o branco era a cor dominante. Era uma escola que predispunha os alunos à concentração. Havia bibliotecas, laboratórios, anfiteatros para as conferências e, as paredes interiores, estavam repletas de reflexões escritas. Aqui procurava-se sobretudo descobrir as causas e os efeitos naturais e espirituais do mundo em que vivemos.
Fui recebido com a mesma solicitude com que havia sido recebido nas escolas anteriores. Nos primeiros tempos senti-me bastante ignorante, mas os meus companheiros ajudaram-me a ultrapassar esse sentimento e em breve me nasceu uma vontade séria de aprender o mais que pudesse.
Estudei, amadureci conceitos, formulei dúvidas e procurei respostas para elas. Parecia-me que crescia como se fosse feito de uma matéria elástica distendendo continuamente. Ao mesmo tempo adquiri um respeito por toda a humanidade e pela grandiosidade e complexidade do universo. Foi aí que me apaixonei pela sábia construção dos mundos e me tornei mais humilde. A humildade que ensina a encurtar os passos para que estes sejam firmes e seguros, a atingir o conhecimento sem excitação e foi com essa serenidade que aprendi a ser cúmplice da Criação consciencializando-me da presença do Grande Construtor.
Nessa altura entendi que o meu caminho passaria pela aprendizagem da medicina. Os Mestres concordaram com a minha escolha e animaram-me muito a conseguir uma formação bastante sólida nesta área. Os médicos aprendiam tudo o que se relacionava com vida, desde os aspectos fisiológicos, aos mentais e espirituais. Também aprendiam a utilizar e a fabricar os medicamentos naturais que ajudavam a recuperar a saúde.
Quando acreditei que estava apto pedi a Hugo que me viesse buscar pois, sabia que não estava destinado à Casa dos Seguidores. Quando ele chegou, foi com espanto que recebi a indicação de que me faltava ainda frequentar uma outra Escola: a Escola das Artes do Espírito. Hugo explicou-me que era necessário desenvolver também essa vertente do Conhecimento para que a minha formação ficasse completa. Acedi porque nunca me passou pela cabeça pôr em causa o plano educativo que os Seguidores haviam decidido para mim e, fiz bem!
Depois de termos trilhado um caminho traiçoeiro cheio de ravinas, desci a um dos vales. Ao longe, quando divisei as enormes construções do local senti um embargo na garganta e um turbilhão de emoções dentro de mim.

segunda-feira, 9 de março de 2009

O suspiro de uma cadela


2. Aqui estou eu frente ao rio. Um rio que corre de então para cá e que ao contrário dos outros rios, se esfia na minha direcção como a querer voltar à nascente…

Não sei bem como vim aqui parar, nem tão pouco que lugar é este onde as plantas parecem ter invertido o lugar das suas raízes que, atiram ao ar, guardando ciosas nas covas escuras, as corolas encardidas!
Este é um lugar estranho! Tão estranho que eu tomo até as cores do seu pálido sol, como se ele se quisesse identificar comigo!
O rio não saltita de seixo em seixo como eu já vi em tantos lugares, não, ele parece engolir-se a si mesmo, numa lentidão tão grande que adormece nas margens esburacadas. E as águas? Nem são azuis, nem são verdes e nem são castanhas, antes têm a a cor suja da indefinição.
Estico o meu olhar para lá e não encontro o saltitar da rã nem o borbulhar de um peixe minúsculo. Não vejo mais que um monte de grãos de pedra arrastados pelo sugar débil da corrente.
Os espaços aquém e além das suas margens, são tão planos, tão rasos que o que está longe parece estar aqui e, o horizonte limita-se a uma linha inventada, rasgada e sem cor.
Não há desenhos de caminhos, nem ervas pisadas que indiquem passagens. Apenas tojos e espinheiros espalhados, aqui e ali ao sabor do acaso.
Mas eu cheguei até cá e não sei porquê!
O silêncio é tão grande que entra dentro de mim e aspira todo o resto da minha consciência. Não sei se estou perto ou se estou longe de alguma referência, mas sinto-me embalada no sono e transportada por esse espaço todo aí.
Neste momento, sou o nada. Sem tristeza e sem dor, sem alegria e sem entusiasmo, sei apenas que estou aqui onde nada me roça e sinto-me suspensa na vida…
Nada me servem os meus sentidos agora porque não existe um estilo que os acorde.
Muito francamente, acho que apenas a rebelde de uma interrogação se me atravessa na minha cabeça. Tenho a sensação que tudo evolou no ar, tudo aquilo que conheci antes e que fazia do código aprendido.
Gostava que este rio que observo me levasse à sua nascente onde sorve o seu caudal. Quem sabe se, dentro da escura madre, eu não encontraria a resposta?! Mas não. Nem consigo lembrar-me como deslocar-me. Não me esforço sequer, parece que de repente, me resumo ao olhar vagabundo sobre o rio que sobe, às terras adormecidas, à natureza enlouquecida. Parece que eu própria faço parte disto e, eu não sabia!
Queria adormecer profundamente e sonhar que existe na cidade um recanto qualquer que já me tivesse conhecido para ter saber se estou viva.
Se calhar preferia nem acordar desse sonho, porque esta realidade seria uma ilusão passageira! Gostaria de ouvir a minha voz a ladrar e a ressoar no ar, mas não, estou aqui esquecida de mim na cova do meu corpo sem sentir.
Rio. Rio leva-me contigo! Rio engole-me e deixa que eu cegue e ensurdeça desta vez! Rio, lava-me ou suja-me, tanto faz! Eu quero deixar de ser uma sombra parada no palco das tuas margens. Rio, rio, eu ainda respiro e não sabia!

O teatro


O teatro é uma das minhas paixões. Paixões? As paixões são entusiasmos passageiros que nos tomam de surpresa e nos enlaçam durante algum tempo em correria louca.
Teatro, para mim, é muito mais do que paixão, veio ter comigo na aurora da minha vida, cresci com ele, aprendi com ele a reflectir e a compreender o seu sentido.
Arte? Disciplina? Modo de estar? Pedagogia social e humana, encontro de realidades vestido de fantasia…às vezes doloroso, às vezes terno.
É uma forma de comunicar. Tão antiga como a própria linguagem. Imagino o caçador pré-histórico relatando os seus feitos junto dos companheiros; ele é herói, vítima, é o vento frio cortando a pele, o encontro com os rivais, tudo isto acompanhado de gestos e expressões faciais, de onomatopeias, de registos de voz variados.
Mais tarde, surge a coreografia de uma ou mais danças, a respectiva alteração do aspecto físico, o cerimonial perante a assembleia de seus iguais, notando-se já a interacção das personagens com o público.
Vem depois as grandes encenações, pensadas e realizadas pelos sacerdotes das diversas religiões organizadas, e, claro, a Grécia, Roma, a China, adoptando a arquitectura ao acto da representação. Vêm as máscaras, as luzes, a música, os efeitos especiais, acompanhando as narrativas especialmente escritas para a posteridade.
Daí para cá, pouco mais se desenvolveu, acrescentou-se apenas novas técnicas, novas filosofias e conceitos.
O teatro devia ser uma disciplina obrigatória nas escolas, digo-vos isso porque também fui professora. Com ele desenvolvem-se competências únicas; a linguagem oral, gestual e verbal, a colocação da voz, a estética, a descoberta dos autores, a noção do tempo e do espaço, o respeito pelo trabalho de grupo e pelo o outro, a pesquisa histórica, a contextualização dos acontecimentos e, também a receber a crítica e os elogios.
O teatro é isto tudo e o que mais quisermos absorver dele, considero-o a actividade artística mais completa de todas mas há tanta gente que não entende…

Telmo, o marujo

A Ilha do Conhecimento (3ª parte)
A minha ideia de escola em que um mestre declamava e os alunos repetiam, caiu imediatamente por terra. A primeira lição que aprendi foi que todos aprendemos uns com os outros. O Mestre-Tutor orientava-nos, aconselhava-nos e ajudava-nos a sistematizar, tudo o que íamos aprendendo.
Eu era o mais velho dos alunos mas não sabia escrever nem ler, num mundo em que o pensamento é que falava, a escrita tinha que ser forçosamente diferente. Baseava-se em símbolos que representavam ideias e não em sons. A princípio foi difícil porque esses símbolos eram muitos e eu, ainda não estava totalmente habituado a formular os pensamentos sem articular as palavras. Depois com o tempo e quase sem dar por isso, fui memorizando todos aqueles sinais e passei a ser capaz de registar o que fosse necessário. Aprendi também que ninguém era detentor de toda a escrita, esta desenvolvia-se consoante a nossa experiência e à medida que elaborávamos o nosso conhecimento.
Também compreendi logo que o mais importante era reflectir sobre os nossos actos ou atitudes. Por exemplo: se eu estivesse a preparar uma refeição, era questionado sobre a razão da escolha dos alimentos, a quantidade, a forma dos confeccionar, o modo como servir ou o efeito que teria no nosso corpo, mente e espírito. Desta forma eu abordava a matemática, as ciências, a ética e a arte. Nada era feito ao acaso. O Mestre-Tutor só intervinha se fosse necessário, mas a obrigação de perguntar e responder era nossa. Custou-me bastante adquirir esse hábito porque estava preso à ideia que os alunos eram ignorantes e só o mestre é que detinha o conhecimento.
Não estive muito tempo nesta escola, sei que cresci porque as minhas roupas deixaram de me servir e tive que fazer outras. Hugo apareceu um dia e conversou com o Mestre-Tutor sobre o meu progresso parecendo satisfeito.
Conversámos pouco mas soube que ele me iria levar para outra escola noutro local da Ilha, a Escola do Corpo Físico.
Deslocámo-nos a cavalo pois as distâncias entre as escolas eram bastante grandes. Pelo caminho Hugo explicou-me que a Escola que eu iria frequentar dar-me-ia a consciência e a importância do meu corpo físico, pois é através dele que nos expressamos e experienciamos a vida.
Quando chegámos percebi que passaria a viver com os meus companheiros sem qualquer Mestre-Tutor. Partia-se do princípio que éramos suficientemente crescidos para assumirmos a nossa aprendizagem. Havia Mestres mas estes percorriam o espaço e só agiam quando solicitados. Ali, rapazes e raparigas, faziam exercícios físicos que predispunham ao relaxamento, à expressão corporal e a um crescimento harmonioso do nosso corpo. Dávamos muita atenção à higiene, alimentação, vestuário e fabricação de objectos. Cultivávamos plantas e árvores que serviam para nos alimentarmos ou tratarmos as nossas raras doenças. Pescavam-se peixes e moluscos nos pequenos lagos e ribeiros, fiava-se, tecia-se e confeccionava-se a nossa própria roupa e calçado. Ninguém obtinha nada sem esforço pessoal. Era verdadeiramente uma vida sã. Entre nós transpirava-se alegria e amabilidade, aspecto esse muito importante pois aprendemos que mesmo não havendo amizade, era obrigatório ter para com todos delicadeza, generosidade e simpatia.
Foi pois, sem dificuldade que aprendi que ao cuidar do meu corpo, cuidava da minha mente e do meu espírito. Que o alimento e o conforto ajudavam a adquirir condições para o meu desenvolvimento interior e que nada, mesmo nada, do que pudesse considerar trabalho, prejudicava as outras aprendizagens. Pelo contrário, percebi que o trabalho relacionava o homem com o meio e ajustava-o à grande harmonia da vida. Foi muito gratificante compreender que tudo o que eu produzia era fruto da minha inteligência e habilidade. Sobretudo aprendi a distinguir trabalho de escravidão e que a preguiça proporciona sentimentos de angústia e inferioridade, a Escola do Corpo Físico ensinou-me não só a cuidar do meu corpo mas também, do Grande Corpo Colectivo e Cósmico.