domingo, 29 de março de 2009

Mais uma semana



Mais uma semana e o ramerrame dos dias a impedirem-me de ser mais assídua aqui no blog.
Dediquei dois dias para ir às escolas no âmbito do mês da leitura, faz bem voltar àqueles espaços tão ligados a mim, faz bem voltar a falar e ler para as crianças. Para elas basta um pouco de atenção e um sorriso para se abrirem e corresponderem, mas fico triste com o desânimo que impera no todo que se chama escola. Principalmente o ar cansado e desmoralizado que as minhas colegas trazem estampado no rosto e a sua necessidade de desabafarem.
Sinto que a escola por que tanto lutei está a morrer aos poucos. O domínio político-administrativo sobre elas coarcta os laços e as ideias transformando o professor num funcionário sem asas. Falta-lhes aquela chama que os fazia discutir, de um modo convicto, acerca da coisa comum, a escola em que passavam os dias e as propostas pedagógicas que defendiam.
As crianças hoje estão mais sós. Não no sentido físico, nesse até parece que estão atrelados aos adultos, mas no sentido da sua autonomia, da sua criatividade e da sua comunicabilidade! Tudo é programado, testado, registado como se a vida real fosse assim. Que será delas no futuro? Quando tiverem que se desenvencilharem sozinhas? Sem ninguém para lhes servir o pacote de soluções? Dá ideia que se está a preparar uma geração para servir, sem ser capaz de decidir! Isto não tem nada a ver com teorias de conspiração, mas o medo inflado nelas vai torná-las dóceis, obedientes, moles… tipo animais domésticos! As mais rebeldes tornar-se-ão agressivas, paranóicas ou tiranas.
É isto que a sociedade deseja? Um poder global onde uma elite diminuta controle a grande maioria colonizada? E os mais velhos que se habituaram à liberdade e à acção? Serão, no futuro, considerados agitadores? Personas não gratas? Que lhes farão? Eu por mim já acredito ter um dia que passar à clandestinidade! Se for preciso, morrerei pela liberdade e pela razão, acho que não tenho medo, porque sei que outros como eu continuaremos a lutar por ela. E, como diz o povo, não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe!

Telmo, o marujo

Catarina, a incorruptível

Atravessámos um túnel nebuloso que desembocava na escuridão da noite. Fogos-fátuos elevavam-se no ar contrastando com o negro da noite.
Planámos sobre o subúrbio da cidade onde a vizinhança de uma lixeira emprestava um fedor intenso que entrou pelo meu nariz e quase me fez sufocar. Ouviam-se gemidos, gritos e imprecações que magoavam a alma, tudo era desolação, miséria e tristeza. Nunca havia presenciado tanta violência nem tanto sofrimento, as trevas ocultavam os rostos mas eu sentia as suas presenças através da sua respiração ofegante junto de mim. Mãos invisíveis agarravam e arrancavam em desespero as minhas vestes imateriais.
Vultos passavam por mim como fantasmas, vagueando sem destino e desaparecendo numa espécie de becos. Que poderia eu aprender em tal mundo?
Catarina apontou-me um recanto e mostrou-me uma roda de homens em volta de um velho agonizante. Este, estrebuchava com febre e dores, dos seus lábios corria um fio de sangue pastoso e escuro e, os seus olhos, se bem que abertos, estavam secos e cegos!
Com a nossa aproximação, os homens apartaram-se alguns desapareceram, outros permaneceram num misto de curiosidade e desafio. Em todos eles, havia marcas dos seus percursos, golpes, nódoas cicatrizes, e os seus olhares frios deixavam perceber os ódios e rancores. A seguidora não lhes deu demasiada importância, abeirou-se do velho e impôs as mãos sobre ele iniciando o ritual de desprendimento. Apesar der fraco, ele debatia-se agarrando-se ainda à mísera vida e tentava afastar Catarina. Não se lhe reconhecia qualquer sentimento de contrição, pelo contrário, havia como que uma resistência superior às suas próprias forças.
Apesar disso, Catarina persistia em emitir as energias manifestadas em cor, tentando com isso transmitir-lhe alguma paz. Aquela era uma luta do bem contra o mal e, estava a decorrer ante os meus olhos, para que percebesse quão importante era a tarefa de Catarina. Nessa altura tive consciência do embate das forças negativas sobre ela e então, aproximei-me mais e resolvi colaborar fazendo o possível para pôr em prática tudo o que tinha aprendido. Procurei dentro do meu peito os mais amorosos sentimentos, centrei-me no mesmo objectivo de Catarina e, lancei para fora o que de melhor tinha em mim. Um brado enorme ecoou pelo subúrbio, já fora do seu corpo, o velho recuperou as forças e juntou-se à horda e preparava-se para se vingar em nós.
A Seguidora deu-me a mão serenamente e eu, qual cavaleiro defendendo sua dama, enfrentei-os com o ar firme de quem está convicto dos seus actos. Num átomo de tempo foi determinada a vitória e a derrota e eles caíram de joelhos, prostrados e chorando como crianças arrependidas. Algumas silhuetas luminosas surgiram entretanto e encaminharam aqueles homens para um lugar diferente. Suspirei de alivio e compreendi qual a cruzada de Catarina.

domingo, 22 de março de 2009

O suspiro de uma cadela


5. Não há volumes. Só superfícies no reflexo das nossas relações. E, apesar disso, bastava que eu ou tu, nos projectássemos um pouco para além de nós!

Esta tem sido, toda a vida, a minha política. Porém, na maior parte das vezes, só consigo arranhar a polidez dos outros com a minha tacteante ternura. E, quantas? Quantas vezes se aproveitam dela num breve movimento para me roubarem?! Penso reconhecer a protuberância dos outros, mas a minha mola está demasiado lassa pelo hábito de me esticar e acabo por não me encolher…
Foi há três dias que encontrei este lugar, recolhia a minha necessidade de me isolar do vai e vem da cidade. Nunca gostei muito de praia, mas nesta época, o areal está húmido e encontra-se quase deserto. Por isso, não é desagradável.
Acho que andava a precisar de sentir novos cheiros, espojar-me em espaços abertos e, coçar-me, coçar-me como poucas vezes o faço, nestes espinheiros que crescem nas dunas. Além disso, este marulhar repetido do mar, embala-me, apaga-me os contornos mais ásperos do pensamento e ajudam-me a mergulhar fundo, bem fundo do fundo de mim mesma.
Estar aqui, é estar no vestíbulo da eternidade, prepara-nos a entrada, sem a agudeza dos opostos. Uma cadela como eu, já pouco mais pode esperar do que um terminar sereno e, precisa sem dúvidas, de se treinar para a solidão.
A perversidade que nos mantém presos à realidade é demasiado objectiva, acredito que passei anónima pela vida, isso incomoda-me! Talvez porque sinto cada vez mais curta e apertada a trela que me segura ao mundo, talvez…
Quando mergulho na minha história, curiosamente nunca a vejo igual. Encontro dezenas, senão centenas de outros cães e cadelas que para além do cheiro, não me deixaram mais nada. São, como hei-de dizer, ornamentos de memória!
Baixo o focinho por entre as patas na areia da beira-mar e deixo que a espuma das ondas desmaiadas mo beijem.
De olhos abertos, cego-me para o que está próximo e projecto-me para além do horizonte.
Imagino – um cão também pode ter imaginação! – Vultos caninos que me parecem familiares, acenam-me, chamam-me, apelam ao meu corpo mole. Um deles faz-me lembrar a minha mãe, uma cadela tão magra como eu, que vagueava nas ruas e generosamente servia os machos das redondezas. Tinha fama de mansa, só quando tinha crias se arrebitava toda na fúria de as proteger. Não faço ideia, em qual das ninhadas nasci, sei que houve muitas antes da minha e que depois de eu a deixar, continuou a gerá-las.
Lembro-me apenas que éramos quatro. Três fêmeas e um macho. Todos amarelos, híbridos de um galgo. O nosso tamanho em breve superou o dela, o que claramente, dificultava a disciplina e o respeito entre nós. O meu irmão em breve perdeu o domínio porque cegou, não me lembro porquê. Sei apenas que deambulava sem segurança e um dia, desapareceu para sempre. O conflito entre nós, as cadelas, tornava-se cada vez maior, principalmente quando chegava a época do cio, cada uma de nós queria o melhor macho, hoje já nem sei bem para quê! Mas não durou muito essa luta, pois cada uma seguiu o seu destino. Nem sequer nos despedimos umas das outras, partimos, simplesmente!
A minha mãe lá ficou no seu território, não sei por quanto tempo. Talvez os laços familiares entre cães não sejam assim tão apertados! Eu procurava mais que um breve lamber ou mordiscadela. A maioria dos cães que se cruzaram comigo aproveitou bem essa ânsia de afecto, aproveitavam o melhor que podiam e logo que se sentiam satisfeitos, afastavam-se apagando todos os episódios do passado recente. Confesso, que me desiludi, passei então a lutar pelos direitos dos outros, a servir de confidente, a socorrer os menos capazes, a lamber as feridas de uns quantos. Alguns aproveitavam a minha acção para em seguida me tentarem dominar, roubar ou magoar, outros, vá lá, afastavam-se e esqueciam-me.
Por vezes rebentava dentro de mim uma revolta tão grande que passava as noites a uivar, a morder o meu próprio rabo. Agora, quando penso nisso, e estou no epílogo da minha passagem por aqui, já não faço caso, vivo mais comigo mesmo, se tiver que ajudar um cachorro ou um cão perdido do dono, é porque me faz melhor a mim do que a eles. Já não estranho as partidas precipitadas, nem os silêncios comprometidos, fico até admirada quando algum se lembra de agradecer.
Hoje, quando me projecto tenho a certeza que é um reflexo instintivo que me impede a indiferença perante os que me rodeiam, assim, defendo a minha existência de um sono sem sonhos e resguardo-me das sombras.

O que nos faz ser felizes




É quando existe a suspensão temporária das nossas necessidades básicas que nos apercebemos que, com a sua satisfação, obtemos os maiores prazeres. E são os prazeres mais elementares que equilibram o todo que somos; física, intelectual e emocionalmente.
Não precisamos de ir de aventura em aventura procurar experiências num hedonismo desesperado, basta repararmos o que está em falta.
O sono, a alimentação, a higiene, a drenagem os resíduos corporais, a respiração, a recuperação dos sentidos que por qualquer motivo se viram impedidos de funcionar em plenitude, são necessidades que ao verem-se satisfeitas nos fazem encantar com a vida. Significa isso que a vida podia ser muito mais fácil e tranquila.
Poder-se-á dizer que isso é limitar a existência à animalidade. Até pode ser mas, o que somos afinal? Ao invés de nos sentirmos ofendidos com a nossa condição animal, devíamos congratularmo-nos com isso. Talvez fosse uma boa maneira de nos sentirmos irmãos dos restantes seres vivos!... E desse modo, respeitarmos mais o mundo.
Um dos grandes erros da humanidade têm sido o facto de nos termos desconectado da Natureza, achamos que somos uma espécie privilegiada. E, uma das razões que mais tem contribuído para tal é a ideia dada por algumas religiosas, principalmente as de raiz judaica. Logo no livro do Génesis, surge o fundamento: Deus cria o Mundo para servir o Homem e para ser controlado por Ele.
É portanto este divórcio que nos faz sentir amputados, o sentimento de perca e a necessidade de procura. Nas religiões animistas de alguns povos antigos, o Homem era um homem, um ser com iguais responsabilidades e direitos de existir na Terra-Mãe, havia uma harmonia entre si e o mundo que o rodeava. O que não quer dizer que não houvesse gente infeliz. Está claro que sim, porque os homens mesmo que não dominem a Natureza têm necessidade de se dominarem entre si. No entanto, julgo que não sentiriam tão pungentemente esta necessidade de procurar prazer. Viviam-no e não o questionavam!
A nossa História tem-se debatido entre desejar ser feliz e o medo de o ser. É a nossa insatisfação que nos faz ser infelizes e, afinal é só prendermo-nos ao fio que nos liga aos outros seres!
Portanto, aprendam a ser felizes!

Histórias de mim para ti ou histórias mágicas de reais acontecimentos


O Mago

Era uma vez um mago, grande, do tamanho de uma montanha, cujas ravinas deixavam escorrer um rio de barbas brancas. Era um mago, com um coração tão duro e frio quanto o granito dessa montanha.
Este mago tinha um castelo de cor cinzenta, no meio de rochedos cinzentos e, vivia acompanhado de aves cinzentas, do mesmo cinzento da lama que cobria o chão e que os seus pés pisavam.
Num dia de Inverno, o Sol despertou mais cedo e as aves, acordando sobressaltadas, tão atarantadas ficaram que voaram para além de tudo o que era cinzento.
Ao planar nos territórios vizinhos, descobriram as cores salpicadas em todos os campos. Curiosas, debicaram as sementes e na pressa de regressarem, trouxeram outras por entre as suas penas. Pelo que ao chegarem ao território do mago, as deixaram cair sem querer na terra ávida de vida.
Quando a primavera chegou, o mago rabugento, encostou-se ao parapeito da janela e viu um arco-íris espalhado por todo lado. Ao contrário do que possam pensar, o mago não sorriu nem se encantou, nem felicitou a Natureza, ficou tão irado que deixou o seu coração estalar e morreu ali mesmo.
É por isso que hoje, por entre o verde e as flores de uma floresta, ainda se vêem, grandes blocos de granito espalhados pelo chão.

Telmo, o marujo

Catarina, a incorruptível

Embora consciente do meu estado adulto, continuava a sentir-me incomodado por ter que abarca dois mundos diferentes; aquele de onde viera para onde iria em breve e, este no qual vivia temporariamente e que me dera o sentido de serviço e o conhecimento.
Quer quisesse, quer não, sentir-me-ia sempre deslocado em ambos. Tinha a certeza que, a liberdade e a paz que usufruía naquele momento, estavam ameaçadas pelo futuro cada vez mais próximo. Esta precariedade provocava uma ansiedade muito grande.
Portanto, aproveitava todo o meu tempo para acompanhar os Seguidores em suas tarefas, eram a minha família e eu queria estar o mais possível com eles.
Crescera por dentro e por fora, via a infância de uma forma remota mas sentia que jamais seria suficientemente confiante para me integrar em qualquer dos mundos.
Era frequente deambular pelo jardim meditando sobre o espaço que ocuparia no projecto dos Seguidores. A via mais estranha era a da Fé. Talvez por isso, um dia me enchi de coragem e procurei Catarina, também chamada a incorruptível.
Não tinha a beleza angélica de Gisela, a simpatia de Helena, nem o jeito maternal de Irene. À primeira vista não passava de uma mulher comum e discreta, de estatura média e traços vulgares, no entanto, esse aparente ar apagado acabou por me despertar a curiosidade.
Encontrei-a no lugar habitual, por cima do dormitório dos colaboradores. Era uma cela exígua pintada de branco. O único adereço para além da cama, era um tapete de lã colorida. De resto, era o despojamento absoluto.
Deixou-me ficar ali à porta, de pé, enquanto se mantinha de costas olhando um ponto vago para além da fresta que servia de janela. Eu sabia que ela dera pela minha presença e que ouvira a minha saudação, fiquei então aguardando respeitosamente que me dirigisse a palavra.
Quando me sentiu mais tranquilo convidou-me a entrar e a sentar-me junto dela no tapete.
- Seguidora, há muito que persigo esta dúvida: que nuance da Fé segues tu? Vejo-te com pouca frequência, vives praticamente isolada, como alcanças os teus objectivos?
- O que me está destinado fica do outro lado, daquele que oculta na noite… mas, reparando em ti vejo que já te encontras preparado para compreenderes. Vem comigo.
Olhou fixamente para mim e senti um impacto violento, quase doloroso. Soltei-me do corpo e logo me encontrei frente ao outro eu de Catarina. Durante algum tempo senti-me agoniado e numa vertigem, vi-me embrulhado num turbilhão de sensações. Apesar disso não senti medo porque Catarina estava a meu lado.








domingo, 15 de março de 2009

O suspiro de uma cadela


4. Valeu-me estar longe quando tudo aconteceu. Imagine-se que eu previa o que se passou!

Foi mais um daqueles tropeços que nos desviam da linha do destino. Nós a pensarmos que vamos bem por um caminho torto e, de repente, atravessa-se uma linha recta que nos leva serpenteantes para um outro final! Eu explico. Claro que não vos ia aqui atiçar a curiosidade por coisa nenhuma, por acaso até tinha graça! Fazia lembrar aqueles prestigiadores de vulgaridades que acabam por se esquecer dos coelhos na cartola!
Bom, o caso foi assim: andava eu à procura de umas côdeas sem quaisquer resultados, quando me se depara à frente um enorme alazão a arreganhar o dente e a fazer alarde do seu tamanho. Confesso que meti a cauda entre as pernas e fiquei tremelicante. No entanto ergui o focinho e fiz valer a minha veneranda idade rosnando cavamente. Durante algum tempo medimos as forças e a coragem mas, mal tínhamos começado o confronto quando um enorme estardalhaço cuspindo ferro e fogo, rebentou de dentro do casarão amarelo que fica ao pé do chafariz, onde costumo dormir nos dias de chuva. A confusão demoveu-nos de qualquer ajuste de contas e, obrigou-nos a refugiar por entre as rodas de um camião que ali se encontrava parado.
Passado um bocado a rua era um ror de gente, de carros a apitar, de jactos de água, de cinzas, de gemidos, de madeira queimada e de pedras caindo.
Eu e o meu inesperado companheiro, resolvemos safar-nos dali para fora. Barrigas roçando a calçada, orelhas coladas ao focinho e, ala, que se faz tarde! Logo que apanhámos uma ruela mais desimpedida, tratámos de correr. Corremos, corremos tanto que, acabámos por ir parar ao miradouro de um outro bairro antigo. Felizmente, charcos não faltavam, por isso bebemos gulosamente toda a água que pudemos. Saltámos para a relva dos jardins e espojamo-nos descontraidamente.
Tempo depois, não era mais dois desconhecidos e entrámos em confidências. Ele começou por pedir desculpa pela maneira como me tratara, não era por mal, era o jeito dele! Como fora criado no campo, num lugar onde a enormidade do número de cães vadios era tanta, a sua natureza levava-o ter que mostrar constantemente a mostrar-se forte e dominador. Claro que já tinha ouvido falar que com o sexo feminino, devia ser mais gentil, mas a verdade, é que se esquecia sempre desse pormenor, desses aprumos de civilidade. Era o hábito! Até porque não costumava fazer mal nem a uma mosca. As cadelas da sua terra natal não eram delicadas, eram cadelas de luta e que muitas vezes, mordiam à descarada. Também contou que fora criado ao Deus dará, aprendera as leis da vida e da sobrevivência à sua custa.
Era quase um cachorro, a impetuosidade própria da sua idade estava ali à vista: num momento agressivo, noutro, trémulo e inseguro. Não lhe fiz muitas perguntas, só as suficientes para que ele sentisse que podia falar à vontade. E ele via-se, coitado, que tinha necessidade de botar cá para fora toda aquela angústia que o estrangulava. É sempre assim! É muito mais fácil despirmo-nos das nossas máscaras com os estranhos do que com os próximos. Portanto, ele falou, parecia que era só a sua voz que ele queria ouvir, e eu, queda, deixava escapar de vez em quando um suspiro de verdadeira compaixão para que ele sentisse de facto que o estava ouvir.
A noite foi caindo aos poucos, àquela hora, com a luz mortiça, os estragos da minha idade tornavam-se quase invisíveis. Aproveitei também para esvaziar os meus pesos e confessar todas aquelas “coisinhas” que borboleteiam no na nossa consciência.
Cavalheirescamente e muito longe do que eu pudesse acreditar, o alazão acabou por se mostrar atento, sério, quase reverente para comigo, não me intimidei e, cá para nós, fez-me sentir um certo orgulho!
Já os gatos andavam em plena caçada e a noite se fechava, se sobressaltava com os ruídos sem nome, quando resolvemos procurar abrigo. Daí a pouco o orvalho frio da madrugada seria tanto que se transformaria numa capa branca com que cobriria as ervas. Se isso acontecesse, o desconforto alteraria por certo a nossa disposição e quebrar-se-ia o encanto.
Vagueámos então em silêncio. Aquela parte da cidade era-me tão desconhecida para mim como para ele, só que eu tinha a vantagem de ser uma citadina enquanto ele, só agora começava a desvendar este mundo. Descobrimos finalmente uma casa desabitada e gradeada dentro do jardim público, nos fundos encontramos uma quantidade enorme de ferramentas humanas que nos atravancava um pouco o espaço. Descobri um canto menos atafulhado e aproveitamos umas sacas de serapilheira para nos deitarmos.
Daí a poucochinho ele pediu-me licença para sair um bocadinho. Não demorou nada, trouxe dois belos ratos gordos para a nossa ceia, acho que lhe sorri, dentelhei um pouco da refeição, mas como já não tenho a fome de outrora, deixei-lhe o resto que ele aproveitou. Via-se bem que estava habituado a comer mais, mas não voltou a sair.
Ajeitámo-nos para um sono reparador. Ele adormeceu logo e eu, fiquei ali a observá-lo. Reparei em todos os seus músculos que subiam e despiam ao ritmo da respiração. Não era raro que de tempos a tempos, ele não soltasse um rosnear entrecortado de palavras sem sentido. Experimentei a ternura. Há tanto tempo que a não sentia!... o seu cheiro forte de macho perturbou-me a memória, não era só desejo que eu sentia, era algo mais, quase um sentimento incestuoso. Afinal ele poderia ser qualquer um dos meus filhos. Alguns dos quais seriam bem mais velhos do que ele, filhos! Devem andar por aí esquecidos do meu ventre e das minhas tetas! Se calhar não fui uma grande mãe, mas pari-os, alimentei-os, a todos, sem um queixume. E nunca nenhum me morreu por falta de cuidados. Eles cresceram, partiram. Encontraram outros caminhos que não são forçosamente perpendiculares ao meu. De todos os que eu tive e ficaram neste mundo armadilhado, só sei de dois.
Um, encontrei-o aqui há uns tempos, esguio e magro como eu, trotando obediente ao lado do dono caçador, chagou-se a mim, farejou-me e depois lá foi, satisfeito com a sua vidinha. O outro, mora não muito longe daqui, é um belo cão! Muito parecido com o pai, troncudo e coberto de um pêlo sedoso e dourado. Mas o garbo com que a natureza o dotou, não tem reflexos na sua personalidade…passa a vida atrelado a uma mulher saltitante, cego na sua fidelidade. Está um pouco gordo demais, provavelmente com o excesso de comida que a dona lhe dá. É tão perdidamente dedicado que ao passar por mim, se encosta às pernas da dona como se temesse que eu me chegue a ele. Confesso que a principio essa atitude me magoou, mas agora, aceito e compreendo-o.
Assim, olhando este jovem que podia ser meu filho, sinto-o menos estranho que os meus próprios filhos, e tudo porque ontem entrei no domínio das emoções e sentimentos e, partilhei com ele, a novidade da confidência.
Ainda não era manhã clara e cheia quando alguém com estrondo abriu o casinhoto onde nos encontrávamos. As imprecações acordaram-nos em sobressalto e saímos daquele lugar. O meu companheiro ainda tentou refilar mas eu empurrei-o levemente com o focinho e avançamos pela estrada granulosa do jardim à nossa frente.
Parámos junto à ponte que estende uma das pontas ao campo e outra à cidade. Ficámos ali calados, cheirando-nos mutuamente sem ruído. Vi nele o desejo contido na timidez genuína dos jovens e, então percebi que devia, de alguma forma, agradecer os breves momentos de quase felicidade que ele me trouxera. Toquei-lhe com explícita intenção e encorajei-o a dar ao corpo a alegria. Ele tomou-me desajeitadamente, demasiado rápido para uma despedida, mas perfeitamente ajustável à pressa que sentia. Não me emocionei e fingi graciosamente que sim. Ele não reparou, acreditou que tinha dado o seu melhor. Até nem era mentira! Só que o melhor dele não passava de mediocridade para mim. No entanto, não era o meu prazer que eu queria, era antes a vontade de lhe dar uma recompensa pela sua dedicação.
No momento da sua actuação, ainda murmurou a possibilidade de ficar comigo mais alguns dias, eu disse-lhe que não, que o recordaria melhor assim, que fora feliz por o ter encontrado. Ele acreditou.
Primeiro, lentamente, depois com agilidade e rapidez, partiu correndo para o outro lado da ponte. Ainda fiquei ali vendo o seu vulto tornar-se invisível, acabei por me virar para a cidade e recolhi-me nas ruínas do casarão amarelo.
Já nada restava, senão o amontoado de pedras e lixo, mas abanei as orelhas e a minha cauda em sinal de reconhecimento e, mais tarde, procurei outro lugar de guarida onde pudesse, tranquilamente, meditar no resto dos meus dias.

Vaso de varanda


Que gozo! Que prazer! Os lírios e os narcisos que plantei no Outono, enfeitam e perfumam agora a minha varanda.
A ter antepassados agricultores, estes são longínquos. O único contacto que tive com esta área na minha infância foi com a minha avó paterna, com quem fui criada, com a quantidade de vasos no “cantinho” do terraço mas, o apelo é grande!
Gosto do cheiro da terra, principalmente depois de um dia quente e depois da rega ou de uma chuvada. Gosto de lhe sentir a textura, observar a gradação da cor e encanta-me a ideia de um dia vir a possuir um pedaço dela para cultivar.
Nascida e criada na capital, bem em frente do magnífico Tejo, há coisas que não se explicam, este interesse pelas coisas mas simples, as montanhas agrestes, os campos cultivados, os sólidos e esguios ciprestes ou, as quase humanas oliveiras.
O meu lado capricorniano revela-se aqui, quem sabe se numa vida anterior, a agricultura foi o meu modo de subsistência? Quando se semeia ou planta e se vê crescerem as primeiras hastes verdes, existe como que uma identificação, quase uma parábola de nós mesma. Revemo-nos nesses seres delicados que saem da escura consistência material para se mostrarem mais acima manifestando-se em cor e em cheiro. Procuramos a luz solar, inspiramos o ar e alimentamo-nos de água. Eis os quatro elementos básicos da nossa transformação com os quais nos identificamos de corpo e alma.
O mundo construído de paredes e estradas desaparece, o aqui e o agora é um acto de Natureza e é ela que nos indica os caminhos e as oportunidades.
Mesmo em miniatura, o milagre da vida repete-se num vaso de varanda!

Histórias de mim para ti ou Histórias mágicas de reais acontecimentos


O burro

Era uma vez um burro. Um burro que logo à nascença foi separado de sua mãe e levado para um circo.
No circo viviam outros burros como ele, um pouco mais velhos, mas todos espertos e habilidosos.
O burro da nossa história era mais inteligente do que esperto, vivo, alegre, mas tremendamente crítico em relação à vida que levava. Isso criava á sua volta um ambiente tanto de admiração como de indignação.
Ainda o seu pêlo negro de jovem o cobria e, já ele descobrira que para o seu dono lhe dar coisas boas, era preciso que ele obedecesse cegamente, mesmo que não fosse essa a sua vontade! E também percebeu que as suas habilidades sobravam quase sempre porque o número era reduzido e os outros tinham também que trabalhar para que o tratador fosse reconhecido pelo público.
Na sua irreverência, provocava os seus companheiros, adorava escoicinhar para o ar ou fugir para os prados, gostava de se sentir solto para poder olhar os regatos de águas claras, cheirar as flores rasteiras ou simplesmente, trotar sem música e sem ordenança.
Um dia, o burro descobriu que o seu velho tratador se ia embora. Não gostava muito dele, mas era o único senhor que tivera e, por isso, ficou com pena quando o viu partir.
Os donos do circo retiram os burros do espectáculo e venderam-nos a quem os quis na feira de gado, ganhando com isso uma boa maquia à conta dos tais burros reformados.
Foi o nosso burrico então parar às mãos de um camponês brutal que queria fazer dele, uma vedeta, um simples animal de tiro. Para o ensinar, dava-lhe quanta vergastada podia. Ai quanto sofrimento sobre o seu lombo marcado! Ai quantas lágrimas…que os burros também choram…só que baixinho, baixinho, quase às escondidas!
Mas a revolta fazia parte do seu sangue, por isso, roeu a corda que o prendia e partiu para além, para a liberdade que o chamava, onde a voz do Homem o não o magoasse.
Foi já em terrenos florestados que encontrou um cavalo no seu caminho. Admirou-lhe a figura e a história, pois este dizia-se nobre, senhor de muitas aventuras passadas com cavaleiros andantes e campeão de provas de hipismo à mistura. Parecia até ter o poder de adivinhar o seu passado e o seu futuro num simples relinchar e piscar de olho!
O cavalo dizia-lhe que ele podia crescer, crescer tanto que chegaria a ser do seu tamanho. E, qual é o burro que não quer ser do tamanho de um cavalo? Portanto respeitava-o, embora não o temesse. Aprendera já que as hierarquias não são para desprezar, sobretudo se, se anda sozinho nesta vida.
Quando encontravam outros animais, o velho cavalo excedia-se na sua exuberância, abanava as crinas e amesquinhava e insultava o burro à frente de todos. Isto, em nome de o fazer crescer, claro!
O burro começou então a pensar se devia erguer a cabeça e morder-lhe o pescoço, mas depois, pensou melhor e reconheceu que o cavalo era inteligente e sábio, e que apesar de tudo o podia ensinar, portanto deixou-se ficar.
Habituou-se a ouvir calados os relinchos do outro e zurrava para dentro; às vezes de raiva, às vezes de conformação. Pensava: se desmascaro o cavalo à frente dos outros animais das duas, uma, ou eu fico por mentiroso e ingrato pois, a fama dele é maior que o seu tamanho, se o deixo cair em contradição, desgraço o coitado do velho que morrerá de vergonha. Se isso acontecesse, acho que morreria também de remorsos. A vingança é um acto iníquo, próprio dos homens, principalmente se ela se exerce sobre quem já não consegue defender-se. Assim, como assim, prefiro esperar que o fim do cavalo venha serenamente. Afinal, eu que não sou tão sábio como ele, prefiro chegar a velho com o coração leve e sem nada do que me arrependa. De que valerá toda a sua sabedoria se o meu coração for duro e a boca falsa? De que vale ter fama em vida e enterrá-la com o corpo?
E cogitando, o burro, vai caminhando, sofrendo ás vezes, escondendo a verdade para poupar o cavalo. Quem sabe se ele acorda da sua cegueira e descobre os seus erros e seja capaz de baixar os olhos para si?!
A erva é verde e a água abundante, está certo! Mas mais do que a erva e a água, há um azul imenso por cima das orelhas! É por isso que o burro quer conservar o seu coração puro. Quer poder um dia, ao atravessar o prado extenso e plano dos seus sonhos, encontrar um lugar onde os burros e os cavalos sejam todos do mesmo tamanho.

Temo, o marujo

A Ilha do Conhecimento (5ª parte)

A escola das Artes do Espírito ficava num amplo vale, todo ele um jardim! Cada árvore, cada canteiro de flores, formava uma unidade que nos proporcionava experiências emocionais. Diversas esculturas orlavam as alamedas e praças. Os edifícios também tinham para lá da sua função, uma traça diferente de modo a fazer um todo com o ambiente em que se situavam. Aqui o mais importante era a linguagem artística e, ela tão eloquente que pessoas como eu, sem qualquer conhecimento se sentia por vezes intimidadas. Descobri portanto que ainda teria muito que aprender naquela escola.
Não havia aulas formais, aliás, como nas escolas anteriores. Mas em todo o lado, a qualquer hora, havia concertos, bailados, saraus de poesia, representações dramáticas. Tanto nas paredes dos edifícios como no interior deles, expunham-se obras de arte que iam da pintura à escultura, da ourivesaria à cerâmica, enfim, era um mundo de coisas belas que acerava o espírito e abria as brechas da alma que levavam o espectáculo da vida para dentro de nós. Inundei-me de prazer e bons sentimentos, havia vezes que chorava sem saber porquê, lágrimas quentes e saborosas que escorriam por excesso de sentimentos, outras, tinha que me tocar par ter a certeza que estava acordado e não num sonho.
Hugo desta vez acompanhou-me durante todo o tempo que ali estive e por essa razão uni-me a ele muito mais do que aos outros Seguidores. Aprendi a manifestar os meus sentimentos e afectos com ele, não era raro passearmos juntos abraçados. Era um amor único! Um amor feito de cumplicidade e compreensão. Ainda bem que não havia a medição do tempo como no meu mundo natural, ali, não havia urgência, apenas o desfrutar das maravilhas.
Aprendi a reconhecer a vibração da minha alma ao som da música, das palavras ou das formas. E, quando me senti saciado terminei a minha formação. Quando saí, o mundo cá fora tinha outro sentido, um sentido que percepcionava de um modo mais inteiro toda a minha consciência. A Porta da Sabedoria entreabrira-se para mim, deixara-me espreitar um universo melhor porém, não me estava destinado ainda transpor o seu limiar…
Regressei pois com Hugo à Ilha dos Seguidores. Só agora reparava que o meu ombro roçava o ombro do meu amigo, as minhas passadas acompanhavam as suas, com a mesma força, a mesma segurança. Tinha-me feito homem quase sem dar por isso. Jovem é certo, mas um homem!
O futuro aguardava-me sem medos nem inquietações, a maré cheia das experiências tomava-me e o ondear que sentia dentro de mim era apenas o fluxo e o refluxo do meu pensamento e emoções. Desaguava agora num mar gigante que se estendia para lá do horizonte visível, um mar onde as rochas eram as poucas certezas da vida, e elas emergiam, altas, poderosas e sábias!