sábado, 4 de abril de 2009

as alergias



Tenho estado com aquelas crises alérgicas que me tomam na Primavera de cada ano. Eu e milhares de outras pessoas somos atacados pelos pólenes obrigando-nos a sofrer os espirros, as irritações cutâneas, as dores de cabeça, de garganta, a comichão irritante dos ouvidos, enfim todos os sintomas que não matam mas chateiam!
Este ano pus-me a pensar durante a mocada que os anti-histamínicos nos dão, sobre a razão pela qual somos cada vez mais vítimas destes desconfortos. Cá para mim é uma vingançazinha da Mãe Natureza. E vá lá, que ela o faz com relativa suavidade! Nós que passamos o tempo a feri-la, a explorá-la, a magoá-la, até nem nos podemos queixar muito.
À força de nos considerarmos a obra divina mais perfeita, de pensarmos que somos o pico da criação, estremecemos quando a base alargada do reino vegetal ou dos animais, como os ácaros, nos atacam. É o preço da nossa soberba.
Assim, só há duas coisas a fazer: ou começamos a conviver com maior cuidado com os nossos irmãos terrenos ou, inventamos uma vacina contra tudo o que não é humano.
Este dilema urge ser resolvido, pois corremos o risco de nos extinguirmos com a força de um espirro ou de um ataque de tosse. Pela minha parte, quando a minha cabeça estiver menos embrulhada comprometo-me a pensar no assunto.

Telmo, o marujo

Catarina, a incorromptível
Depois de um breve repouso, eu e Catarina continuamos o nosso trabalho. Desta vez dirigimo-nos a um bordel, onde uma mulher de aspecto doente se oferecia sem paixão ao acto sexual, pago à hora. Perturbei-me com a cena e desviei o olhar.
- Não é por deixarmos de ver que as coisas deixam de existir, Telmo. Para corrigir erros e aprender, é necessário saber o que nos leva a prevaricar. – Disse-me Catarina.
Consumado o acto, o homem partiu e a mulher ficou. Dela exalava o cheiro da doença e do sémen desperdiçado. Na solidão em que se julgava, rompeu num choro convulso resultado da impotência e do desespero.
Catarina aproximou-se dela e acariciou-lhe o rosto e suavizando-lhe as dores. A mulher parecia uma menina desamparada e, mesmo sem perceber quem a acarinhava, deixou-se embalar pela Seguidora. O hálito Que Catarina soprou sobre ela fez com que a desgraçada fechasse os olhos e se desprendesse.
Rapidamente a beleza da mulher se tornou evidente e os estragos da vida a que entregara se desvaneceram. Ergueu-se mas, quando nos viu, caiu de joelhos envergonhada e deixou que as suas lágrimas rolassem silenciosas de um modo sincero. Mostrou-se grata pela nossa presença.
A Seguidora ergueu-a docemente e abraçou-a até que alguém que a mulher reconheceu, veio ter com ela e a levou para outro lugar. Sobre o colchão, o corpo jazia sem vida. Tapei-lhe o rosto com o lençol encardido e limpei os meus olhos.
- Ela agora está em paz. O véu de carne rasgou-se e deixou-a livre. Acabou-se tudo com a sua morte. – Disse eu em jeito de conclusão.
- Não. Não é bem assim, Telmo. Nem todos despertam. Nem todos os sofrimentos trazem amanhãs felizes. Depende sempre de como se encara o sofrimento. Só aqueles que o entendem como etapas do seu crescimento, é que conseguem reconhecer outros caminhos.
- Eu sei, Catarina! Mas fico admirado como é que tu lidando constantemente com a miséria humana te manténs tão pura! Posso perguntar-te porque escolheste tu, este serviço e que tem ele a ver com a via do Conhecimento? Entendia-o melhor com Helena ou Irene!
- Não. Sou eu que desperto os homens para o Conhecimento real. É através de mim que as imagens e sensações do passado, desfilam nas horas mais críticas, para que todos possam recordar quem verdadeiramente são. É verdade que me chamam Incorruptível, mas eu não me considero assim. O facto de permanecer muito tempo nas zonas sombrias e degradadas leva-me a aprender estratégias de acção e, não me corrompo porque, ao invés de os considerar menores, os tenho como iguais. Eu mesma, numa época remota, também sofri e fiz sofrer como eles.
Sei o que é o prazer doloroso do vício e do poder. Sei o que significa a violação das regras, porque um ia também me sujei nesse lodo e aprendi dolorosamente a reconhecer os meus erros e a evitar cair no abismo. Não me julgues isenta de tentações, e não tenho caído de novo, é porque já conheço as ciladas. O meu nome não significa pureza, mas a força e o conhecimento que afastam do que está errado. Conquistei-o como se lapidasse um diamante e, doeu muito a consegui-lo!... Cada golpe, cada raspagem… me limpou!
- Mas agora, rebrilhas, reflectes o sol em cada uma das tuas faces. Quem me dera absorver essa luz e ser também eu, uma jóia do tesouro divino! Compreendo agora que o Conhecimento só pode ser adquirido com o exercício da coragem e do amor incondicional. Realmente de que serve ele não nos levar a desejar uma luz mais pura!
Foste tu, que ao roçar entre os tojos, deixaste nos seus espinhos parte de ti. Eles são sinais de esperança para aqueles que os encontram. E, és também, a água límpida do rio que lava a lama e descobre as pepitas de oiro que enobrecem a vida. Oh Catarina, escondida no teu corpo modesto, és ainda mais bela!
- Meu caro Telmo, quanta exaltação nesses teus comentários! Apenas faço parte e um plano que permite aos homens transformarem-se. Hoje fui mansa e terna mas, às vezes a minha justiça é dura. Se for preciso também sou capaz de empurrar os homens para as ravinas provocando o susto e a dor. Se isso lhes mostrar a verdade, claro!
Sorri e passei-lhe o braço sobre os seus ombros e murmurei ao seu ouvido:
- Que forte és, frágil Catarina!

domingo, 29 de março de 2009

o suspiro de uma cadela


6. Era tão bom que tivéssemos todos, um dono que provesse as nossas necessidades, que sorrisse benevolente quando das nossas faltas e, nos afagasse o pêlo do lombo nos momentos de desilusão!

Foi só uma vez na minha vida que tive alguém a quem me apeteceu chamar dono!
No fim de um dia chato, quente e abafado, que ainda recordo a dificuldade que tinha em respirar e mexer, procurei um lugar fresco e encontrei-o, debaixo de um arco, numa viela esconsa e escura. Tinha a minha língua de fora, arquejava, quando de repente, vi na à minha frente, duas mãos encardidas com uma tigela rachada cheia de água. Bebi sofregamente todo o líquido e de novo, essas mãos me voltaram a pôr uma quantidade igual da minha salvação. Quando me senti saciada, levantei os olhos e vi um velho barbado e sujo, tresandando o cheiro enjoativo dos humanos. – “Pobre cadelinha! Tens muita sede, não tens? Toma, toma que também és filha de Deus.” _ Embora não tivesse conhecido o meu pai, creio que não deve ser o tal Deus, por acaso até nem sei se ele tinha algum nome, não o conheci! Nunca percebi muito bem, quem é esse deus que os homens passam a vida a falar, mas naquele momento, acreditei que devia ser alguém muito bom pois, em seu nome, o velho me oferecia água e me salvava. Filha de Deus! Parece que ainda o estou a ouvir!
Deixei que o velho me afagasse porque ele parecia feliz com isso, e sinceramente, também não me senti nada mal! O homem falava, falava comigo num palavreado que não percebi, mas deixei-o falar porque me pareceu que falava mais para si do que para mim. Depois disso, chamou-me para eu ir com ele, acompanhei-o à porta de uma taberna mas não entrei. Ele passado um bocadinho, veio até à porta trazer uns “restozinhos” para eu me entreter. Senti-me na obrigação de o seguir quando ele, trôpego, saiu de lá e caminhou pelas vielas murmurando sem parar. Ele à frente e eu atrás, nada de confusões porque ainda não o conhecia bem! Por fim deitou-se num banco de pedra e eu também me deitei por debaixo dele. Falava, acariciava-me, falava, julgo que mesmo a dormir ele falava!
Tomei o hábito de o seguir, já lhe conhecia o cheiro e o passo arrastado, até que um dia as coisas mudaram. Talvez nem tivesse passado uma semana, pois havia um dia certo que eu costumava ir às traseiras de um restaurante onde todos os cães se encontravam para rilhar os ossos e pôr a conversa em dia e ainda, não lhes falara do meu novo companheiro. Seguia-o como de costume naquele dia, primeiro percorremos a avenida, depois atravessaríamos a rua e por fim esgueirar-nos-íamos até à rua do arco onde nos tínhamos encontrado pela primeira vez se não acontecesse o que aconteceu. O trânsito parecia louco e o velho arriscou atravessar a rua apesar da insegurança do seu andar. Ainda lhe puxei com os dentes uma das pernas, mas ele sacudiu-me rindo. Recuei sem saber porquê e foi então que ouvi um barulho horrível que me fez estremecer. Ouvi gritos e apesar de meio desorientada corri para o corpo do velho empapado em sangue, em pouco tempo percebi que estava rodeada por uma multidão de pessoas e que elas faziam comentários sobre mim e o velho. Foi então que percebi que perdera num instante, aquele a quem um dia poderia chamar dono. Gani e uivei como nunca o fizera, lambi-lhe as mãos e o rosto como se antes de ele partir pudesse levar consigo a minha gratidão. Pareceu-me que ele se erguia, agora mais limpo, quase brilhante, que falava uma vez mais comigo, até lhe ladrei com satisfação, mas deixei de o ver quase logo quando um carro a apitar se aproximou e de lá saíram uns homens que levaram o corpo. Atirei-me contra a parede de pernas e corri sem parar até à “nossa rua”, deitei-me debaixo do banco de pedra e pareceu-me, uma vez mais, que as suas mãos me tocavam.
Uma cadela não costuma sorrir por isso dei ao rabo com quanta energia tinha. Durante muito tempo, foi aquele o lugar preferido para dormir as minhas noites. Ainda hoje, quando me sinto mais só, percorro a cidade para me encontrar sob aquele banco e, às vezes desejo um dia de calor sufocante e umas mãos sujas a darem água numa tigela rachada.

Histórias de mim para ti ou histórias mágicas de reais acontecimentos


A andorinha



Um dia, uma andorinha negra, solitária, voou, voou muito alto.
Deitou-se numa nuvem cor-de-rosa, uma nuvem tapete, bem esticada, de malhas ralinhas que deixavam ver tudo cá em baixo. Como via bem as suas irmãs a esvoaçarem de um lado para o outro, levando alimento para os seus bebés-andorinhas!
A negra avezinha rio, enrolou-se na nuvem fazendo dela um rolinho de algodão e rebolou, rebolou pela estrada azul. Quando se cansou daquela brincadeira, foi buscar outros pedaços de nuvens e construiu um castelo muito grande, muito grande!
Depois, desceu até junto das suas amigas e levou-as com ela até ao castelo. Oh! Como se divertiram! Como nadaram na espuma de todas as cores! Zumba que zumba, as andorinhas pulavam, nem repararam que o Sol se fora embora e a Lua já sorria para elas.
De repente, uma das andorinhas-mãe. Lembrou-se dos seus filhos e, aos guinchos, alertou as companheiras que, aos trambolhões, desceram para os seus ninhos. Encontraram as suas crias cheias de fome e, embora estivessem cansadas, levaram a noite inteira a procurar comida para dar aos seus filhos.
De manhã, ao sol nascente, quando os olhos se levantaram ao céu, reparam num ponto negro que saltava sem parar numa nuvem esbranquiçada. Mas o ponto, foi aumentando, aumentando, até cair junto delas, a andorinha negra solitária com o bico entreaberto num sorriso infinito.

Mais uma semana



Mais uma semana e o ramerrame dos dias a impedirem-me de ser mais assídua aqui no blog.
Dediquei dois dias para ir às escolas no âmbito do mês da leitura, faz bem voltar àqueles espaços tão ligados a mim, faz bem voltar a falar e ler para as crianças. Para elas basta um pouco de atenção e um sorriso para se abrirem e corresponderem, mas fico triste com o desânimo que impera no todo que se chama escola. Principalmente o ar cansado e desmoralizado que as minhas colegas trazem estampado no rosto e a sua necessidade de desabafarem.
Sinto que a escola por que tanto lutei está a morrer aos poucos. O domínio político-administrativo sobre elas coarcta os laços e as ideias transformando o professor num funcionário sem asas. Falta-lhes aquela chama que os fazia discutir, de um modo convicto, acerca da coisa comum, a escola em que passavam os dias e as propostas pedagógicas que defendiam.
As crianças hoje estão mais sós. Não no sentido físico, nesse até parece que estão atrelados aos adultos, mas no sentido da sua autonomia, da sua criatividade e da sua comunicabilidade! Tudo é programado, testado, registado como se a vida real fosse assim. Que será delas no futuro? Quando tiverem que se desenvencilharem sozinhas? Sem ninguém para lhes servir o pacote de soluções? Dá ideia que se está a preparar uma geração para servir, sem ser capaz de decidir! Isto não tem nada a ver com teorias de conspiração, mas o medo inflado nelas vai torná-las dóceis, obedientes, moles… tipo animais domésticos! As mais rebeldes tornar-se-ão agressivas, paranóicas ou tiranas.
É isto que a sociedade deseja? Um poder global onde uma elite diminuta controle a grande maioria colonizada? E os mais velhos que se habituaram à liberdade e à acção? Serão, no futuro, considerados agitadores? Personas não gratas? Que lhes farão? Eu por mim já acredito ter um dia que passar à clandestinidade! Se for preciso, morrerei pela liberdade e pela razão, acho que não tenho medo, porque sei que outros como eu continuaremos a lutar por ela. E, como diz o povo, não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe!

Telmo, o marujo

Catarina, a incorruptível

Atravessámos um túnel nebuloso que desembocava na escuridão da noite. Fogos-fátuos elevavam-se no ar contrastando com o negro da noite.
Planámos sobre o subúrbio da cidade onde a vizinhança de uma lixeira emprestava um fedor intenso que entrou pelo meu nariz e quase me fez sufocar. Ouviam-se gemidos, gritos e imprecações que magoavam a alma, tudo era desolação, miséria e tristeza. Nunca havia presenciado tanta violência nem tanto sofrimento, as trevas ocultavam os rostos mas eu sentia as suas presenças através da sua respiração ofegante junto de mim. Mãos invisíveis agarravam e arrancavam em desespero as minhas vestes imateriais.
Vultos passavam por mim como fantasmas, vagueando sem destino e desaparecendo numa espécie de becos. Que poderia eu aprender em tal mundo?
Catarina apontou-me um recanto e mostrou-me uma roda de homens em volta de um velho agonizante. Este, estrebuchava com febre e dores, dos seus lábios corria um fio de sangue pastoso e escuro e, os seus olhos, se bem que abertos, estavam secos e cegos!
Com a nossa aproximação, os homens apartaram-se alguns desapareceram, outros permaneceram num misto de curiosidade e desafio. Em todos eles, havia marcas dos seus percursos, golpes, nódoas cicatrizes, e os seus olhares frios deixavam perceber os ódios e rancores. A seguidora não lhes deu demasiada importância, abeirou-se do velho e impôs as mãos sobre ele iniciando o ritual de desprendimento. Apesar der fraco, ele debatia-se agarrando-se ainda à mísera vida e tentava afastar Catarina. Não se lhe reconhecia qualquer sentimento de contrição, pelo contrário, havia como que uma resistência superior às suas próprias forças.
Apesar disso, Catarina persistia em emitir as energias manifestadas em cor, tentando com isso transmitir-lhe alguma paz. Aquela era uma luta do bem contra o mal e, estava a decorrer ante os meus olhos, para que percebesse quão importante era a tarefa de Catarina. Nessa altura tive consciência do embate das forças negativas sobre ela e então, aproximei-me mais e resolvi colaborar fazendo o possível para pôr em prática tudo o que tinha aprendido. Procurei dentro do meu peito os mais amorosos sentimentos, centrei-me no mesmo objectivo de Catarina e, lancei para fora o que de melhor tinha em mim. Um brado enorme ecoou pelo subúrbio, já fora do seu corpo, o velho recuperou as forças e juntou-se à horda e preparava-se para se vingar em nós.
A Seguidora deu-me a mão serenamente e eu, qual cavaleiro defendendo sua dama, enfrentei-os com o ar firme de quem está convicto dos seus actos. Num átomo de tempo foi determinada a vitória e a derrota e eles caíram de joelhos, prostrados e chorando como crianças arrependidas. Algumas silhuetas luminosas surgiram entretanto e encaminharam aqueles homens para um lugar diferente. Suspirei de alivio e compreendi qual a cruzada de Catarina.

domingo, 22 de março de 2009

O suspiro de uma cadela


5. Não há volumes. Só superfícies no reflexo das nossas relações. E, apesar disso, bastava que eu ou tu, nos projectássemos um pouco para além de nós!

Esta tem sido, toda a vida, a minha política. Porém, na maior parte das vezes, só consigo arranhar a polidez dos outros com a minha tacteante ternura. E, quantas? Quantas vezes se aproveitam dela num breve movimento para me roubarem?! Penso reconhecer a protuberância dos outros, mas a minha mola está demasiado lassa pelo hábito de me esticar e acabo por não me encolher…
Foi há três dias que encontrei este lugar, recolhia a minha necessidade de me isolar do vai e vem da cidade. Nunca gostei muito de praia, mas nesta época, o areal está húmido e encontra-se quase deserto. Por isso, não é desagradável.
Acho que andava a precisar de sentir novos cheiros, espojar-me em espaços abertos e, coçar-me, coçar-me como poucas vezes o faço, nestes espinheiros que crescem nas dunas. Além disso, este marulhar repetido do mar, embala-me, apaga-me os contornos mais ásperos do pensamento e ajudam-me a mergulhar fundo, bem fundo do fundo de mim mesma.
Estar aqui, é estar no vestíbulo da eternidade, prepara-nos a entrada, sem a agudeza dos opostos. Uma cadela como eu, já pouco mais pode esperar do que um terminar sereno e, precisa sem dúvidas, de se treinar para a solidão.
A perversidade que nos mantém presos à realidade é demasiado objectiva, acredito que passei anónima pela vida, isso incomoda-me! Talvez porque sinto cada vez mais curta e apertada a trela que me segura ao mundo, talvez…
Quando mergulho na minha história, curiosamente nunca a vejo igual. Encontro dezenas, senão centenas de outros cães e cadelas que para além do cheiro, não me deixaram mais nada. São, como hei-de dizer, ornamentos de memória!
Baixo o focinho por entre as patas na areia da beira-mar e deixo que a espuma das ondas desmaiadas mo beijem.
De olhos abertos, cego-me para o que está próximo e projecto-me para além do horizonte.
Imagino – um cão também pode ter imaginação! – Vultos caninos que me parecem familiares, acenam-me, chamam-me, apelam ao meu corpo mole. Um deles faz-me lembrar a minha mãe, uma cadela tão magra como eu, que vagueava nas ruas e generosamente servia os machos das redondezas. Tinha fama de mansa, só quando tinha crias se arrebitava toda na fúria de as proteger. Não faço ideia, em qual das ninhadas nasci, sei que houve muitas antes da minha e que depois de eu a deixar, continuou a gerá-las.
Lembro-me apenas que éramos quatro. Três fêmeas e um macho. Todos amarelos, híbridos de um galgo. O nosso tamanho em breve superou o dela, o que claramente, dificultava a disciplina e o respeito entre nós. O meu irmão em breve perdeu o domínio porque cegou, não me lembro porquê. Sei apenas que deambulava sem segurança e um dia, desapareceu para sempre. O conflito entre nós, as cadelas, tornava-se cada vez maior, principalmente quando chegava a época do cio, cada uma de nós queria o melhor macho, hoje já nem sei bem para quê! Mas não durou muito essa luta, pois cada uma seguiu o seu destino. Nem sequer nos despedimos umas das outras, partimos, simplesmente!
A minha mãe lá ficou no seu território, não sei por quanto tempo. Talvez os laços familiares entre cães não sejam assim tão apertados! Eu procurava mais que um breve lamber ou mordiscadela. A maioria dos cães que se cruzaram comigo aproveitou bem essa ânsia de afecto, aproveitavam o melhor que podiam e logo que se sentiam satisfeitos, afastavam-se apagando todos os episódios do passado recente. Confesso, que me desiludi, passei então a lutar pelos direitos dos outros, a servir de confidente, a socorrer os menos capazes, a lamber as feridas de uns quantos. Alguns aproveitavam a minha acção para em seguida me tentarem dominar, roubar ou magoar, outros, vá lá, afastavam-se e esqueciam-me.
Por vezes rebentava dentro de mim uma revolta tão grande que passava as noites a uivar, a morder o meu próprio rabo. Agora, quando penso nisso, e estou no epílogo da minha passagem por aqui, já não faço caso, vivo mais comigo mesmo, se tiver que ajudar um cachorro ou um cão perdido do dono, é porque me faz melhor a mim do que a eles. Já não estranho as partidas precipitadas, nem os silêncios comprometidos, fico até admirada quando algum se lembra de agradecer.
Hoje, quando me projecto tenho a certeza que é um reflexo instintivo que me impede a indiferença perante os que me rodeiam, assim, defendo a minha existência de um sono sem sonhos e resguardo-me das sombras.

O que nos faz ser felizes




É quando existe a suspensão temporária das nossas necessidades básicas que nos apercebemos que, com a sua satisfação, obtemos os maiores prazeres. E são os prazeres mais elementares que equilibram o todo que somos; física, intelectual e emocionalmente.
Não precisamos de ir de aventura em aventura procurar experiências num hedonismo desesperado, basta repararmos o que está em falta.
O sono, a alimentação, a higiene, a drenagem os resíduos corporais, a respiração, a recuperação dos sentidos que por qualquer motivo se viram impedidos de funcionar em plenitude, são necessidades que ao verem-se satisfeitas nos fazem encantar com a vida. Significa isso que a vida podia ser muito mais fácil e tranquila.
Poder-se-á dizer que isso é limitar a existência à animalidade. Até pode ser mas, o que somos afinal? Ao invés de nos sentirmos ofendidos com a nossa condição animal, devíamos congratularmo-nos com isso. Talvez fosse uma boa maneira de nos sentirmos irmãos dos restantes seres vivos!... E desse modo, respeitarmos mais o mundo.
Um dos grandes erros da humanidade têm sido o facto de nos termos desconectado da Natureza, achamos que somos uma espécie privilegiada. E, uma das razões que mais tem contribuído para tal é a ideia dada por algumas religiosas, principalmente as de raiz judaica. Logo no livro do Génesis, surge o fundamento: Deus cria o Mundo para servir o Homem e para ser controlado por Ele.
É portanto este divórcio que nos faz sentir amputados, o sentimento de perca e a necessidade de procura. Nas religiões animistas de alguns povos antigos, o Homem era um homem, um ser com iguais responsabilidades e direitos de existir na Terra-Mãe, havia uma harmonia entre si e o mundo que o rodeava. O que não quer dizer que não houvesse gente infeliz. Está claro que sim, porque os homens mesmo que não dominem a Natureza têm necessidade de se dominarem entre si. No entanto, julgo que não sentiriam tão pungentemente esta necessidade de procurar prazer. Viviam-no e não o questionavam!
A nossa História tem-se debatido entre desejar ser feliz e o medo de o ser. É a nossa insatisfação que nos faz ser infelizes e, afinal é só prendermo-nos ao fio que nos liga aos outros seres!
Portanto, aprendam a ser felizes!

Histórias de mim para ti ou histórias mágicas de reais acontecimentos


O Mago

Era uma vez um mago, grande, do tamanho de uma montanha, cujas ravinas deixavam escorrer um rio de barbas brancas. Era um mago, com um coração tão duro e frio quanto o granito dessa montanha.
Este mago tinha um castelo de cor cinzenta, no meio de rochedos cinzentos e, vivia acompanhado de aves cinzentas, do mesmo cinzento da lama que cobria o chão e que os seus pés pisavam.
Num dia de Inverno, o Sol despertou mais cedo e as aves, acordando sobressaltadas, tão atarantadas ficaram que voaram para além de tudo o que era cinzento.
Ao planar nos territórios vizinhos, descobriram as cores salpicadas em todos os campos. Curiosas, debicaram as sementes e na pressa de regressarem, trouxeram outras por entre as suas penas. Pelo que ao chegarem ao território do mago, as deixaram cair sem querer na terra ávida de vida.
Quando a primavera chegou, o mago rabugento, encostou-se ao parapeito da janela e viu um arco-íris espalhado por todo lado. Ao contrário do que possam pensar, o mago não sorriu nem se encantou, nem felicitou a Natureza, ficou tão irado que deixou o seu coração estalar e morreu ali mesmo.
É por isso que hoje, por entre o verde e as flores de uma floresta, ainda se vêem, grandes blocos de granito espalhados pelo chão.

Telmo, o marujo

Catarina, a incorruptível

Embora consciente do meu estado adulto, continuava a sentir-me incomodado por ter que abarca dois mundos diferentes; aquele de onde viera para onde iria em breve e, este no qual vivia temporariamente e que me dera o sentido de serviço e o conhecimento.
Quer quisesse, quer não, sentir-me-ia sempre deslocado em ambos. Tinha a certeza que, a liberdade e a paz que usufruía naquele momento, estavam ameaçadas pelo futuro cada vez mais próximo. Esta precariedade provocava uma ansiedade muito grande.
Portanto, aproveitava todo o meu tempo para acompanhar os Seguidores em suas tarefas, eram a minha família e eu queria estar o mais possível com eles.
Crescera por dentro e por fora, via a infância de uma forma remota mas sentia que jamais seria suficientemente confiante para me integrar em qualquer dos mundos.
Era frequente deambular pelo jardim meditando sobre o espaço que ocuparia no projecto dos Seguidores. A via mais estranha era a da Fé. Talvez por isso, um dia me enchi de coragem e procurei Catarina, também chamada a incorruptível.
Não tinha a beleza angélica de Gisela, a simpatia de Helena, nem o jeito maternal de Irene. À primeira vista não passava de uma mulher comum e discreta, de estatura média e traços vulgares, no entanto, esse aparente ar apagado acabou por me despertar a curiosidade.
Encontrei-a no lugar habitual, por cima do dormitório dos colaboradores. Era uma cela exígua pintada de branco. O único adereço para além da cama, era um tapete de lã colorida. De resto, era o despojamento absoluto.
Deixou-me ficar ali à porta, de pé, enquanto se mantinha de costas olhando um ponto vago para além da fresta que servia de janela. Eu sabia que ela dera pela minha presença e que ouvira a minha saudação, fiquei então aguardando respeitosamente que me dirigisse a palavra.
Quando me sentiu mais tranquilo convidou-me a entrar e a sentar-me junto dela no tapete.
- Seguidora, há muito que persigo esta dúvida: que nuance da Fé segues tu? Vejo-te com pouca frequência, vives praticamente isolada, como alcanças os teus objectivos?
- O que me está destinado fica do outro lado, daquele que oculta na noite… mas, reparando em ti vejo que já te encontras preparado para compreenderes. Vem comigo.
Olhou fixamente para mim e senti um impacto violento, quase doloroso. Soltei-me do corpo e logo me encontrei frente ao outro eu de Catarina. Durante algum tempo senti-me agoniado e numa vertigem, vi-me embrulhado num turbilhão de sensações. Apesar disso não senti medo porque Catarina estava a meu lado.