sábado, 18 de abril de 2009

O suspiro de uma cadela


9. A pardacenta nuvem que me aconchega ameaça escurecer de vez. Não faz mal, a ressurreição surge sempre! Tenho que me recordar como é…

Chove sem parar há três dias e, há três dias que vagueio pelos meus pensamentos. Não há mais nada que fazer! Há três dias que estou completamente só e não me lembro de ninguém.
Há pouco tempo, porem, um ventinho doce e meigo varreu as pedras da calçada e os regueiros sujos, animou-me. Sacudi-me com a maior energia de que fui capaz e propus-me a procurar alimento. Não sentia fome mas forcei-me a ir para não voltar a cair na modorra. Dantes o exercício dava-me forças e prazer mas agora, que já não luto por muito, a tentação de ficar e morrer apanha-me constantemente.
Vou até ao campo. Pensei. E fui.
Já tinha percorrido umas quantas veredas quando me deparei com quatro cachorrinhos malhados, de olhos recém-abertos que latiam desajeitadamente enquanto disputavam as tetas da mãe. A cadela sem brilho, nem se mexia. Não os desinquietei, fiquei ali a olhar os pequenotes que pareciam querer beber todo o universo no leite materno.
Uma espécie de dor aguda perfurou-me o peito e a barriga. De repente senti uma nostalgia enorme. Ah quanto tempo sofri eu, as ferroadas trémulas de meus filhos?! Aquela sensação de me dar toda no leite que escorre?! Suspirei. Um suspiro que desceu até ao fundo da minha juventude.
Enquanto mamavam mantive-me discreta a observá-los, temia assustá-los. Depois, quando a cadela se levantou deixando no ninho o rancho adormecido, meti conversa. Ficámos ali as duas a falar dessa coisa que se chama maternidade. De gravidezes goradas e de outras bem sucedidas, de partos fáceis e difíceis, de cuidados e ralações, de prazeres e emoções. Acabei por ficar surpreendida com o que eu sabia partilhar. Daí a pouco, como todas as crias, os cachorros acordaram e vieram cheirar-me sem inibições, alguns chegaram a lamber-me, o que, vejam lá, me comoveu bastante! No final da tarde, separarmo-nos e não tive coragem de voltar a casa logo. Por esse motivo resolvi revisitar a falésia. De lá, olhei para o mar líquido que me pareceu disposto a abraçar a terra. E, uivei. Uivei afirmando a mim mesma que estava viva. Ainda viva…
Então o luar desceu sobre mim e vestiu-me com a sua luz pálida, os cheiros dos frutos silvestres dessa tarde voltaram ao meu nariz descendo e perfumando-me por dentro. Estava viva e sentia. Sentia e estava viva!
Na minha mente rasgou-se uma cortina que eu ignorara e todas as minhas perguntas obtiveram resposta. Viver é isto. Partilhar sentidos e descobrir que há intimidade. Lançar o maior uivo de todos para que esse grito se repercuta nos elementos que nos rodeiam. Acreditar que o tempo que nos falta cumprir deve ser cheio, pleno de nós até ao fim.
Então esperei que o céu mudasse de cor e rosasse o princípio da noite. Marquei aquele lugar com o meu cheiro e senti consciente, que me multiplicara eternamente e que portanto eu existiria sempre. O vento despenteou-me o pêlo voltei enfim ao encontro com a cidade.
Senti os olhos húmidos, as patas transformaram-se em asas e a minha cauda, tantas vezes mordida, encontrava-se agora esticada até ao limite do universo. Sem uma única pelada, pelo contrário, nunca a vira tão lisa, comprida, lustrosa! Toda a sua extensão abraçava a vida de que me esquecera. Agora eu sentia-a na minha boca. Eu tornava-me nela e, projectava-me em sentido inverso ao da morte. Agora sim, era verdadeiramente livre! Suspirei!






histórias de mim para ti ou Histórias mágicas de reais acontecimentos


O amigo de Carolina



A Carolina é uma menina mais ou menos da vossa idade. Também anda na escola da freguesia, é uma aluna razoável que gosta de brincar mas sabe que dentro da sala de aula é preciso estar atenta para aprender tudo muito bem.
A dada altura começou a sentir-se infeliz porque havia problemas em casa. O pai ficara desempregado e só arranjava trabalho de vez em quando e, a mãe, que andava nas limpezas, passara a trabalhar mais. Carolina tinha um irmão mais velho, mas ele andava na escola da cidade e também estava pouco tempo com ela.
Carolina passou a ficar sozinha em casa, tentava fazer algumas coisas para ajudar a mãe, mas a vida tornara-se muito aborrecida. Um dia, depois da escola, estava ela no quintal, a brincar com a terra, apareceu-lhe um rapazinho que lhe pediu para brincar também. Ela sabia que os pais não gostavam que ela falasse com estranhos, mas o rapazinho tinha um ar meigo e ela aceitou.
Foi uma tarde maravilhosa! O rapaz tinha boas ideias e também lhe ensinou muitas coisas. Disse-lhe que conhecia o mundo todo. Que sabia de meninos que viviam em países onde havia guerra, que tinham fome e medo. Também lhe falou de meninos doentes. Não de doenças como as que ela já tivera que passavam com os xaropes e os comprimidos, doenças a sério, daquelas que até os médicos desconhecem a cura, e de outros meninos que viviam nas ruas, ao Deus, dará! Mas que em todo o lado, os meninos, apesar das suas mágoas, sabiam rir, sabiam brincar.
Quando a noite chegou e Carolina foi para a cama, começou a pensar nas palavras do rapazinho, afinal de tudo ela tinha uma família que a amava, uma casa agradável, podia ir para a escola sem medo de tiros e não tinha doenças. Ficou contente com isso.
Na manha seguinte, ao atravessar a rua para ir para a escola, ouviu um carro que vinha com grande velocidade aproximar-se. Ficou assustada e não conseguiu mexer-se. De repente, apareceu o rapazinho que lhe deu a mão e a puxou para o passeio. Foi tudo muito rápido, ela só se apercebeu realmente do que se tinha passado quando os vizinhos lhe contaram. Ela então perguntou pelo menino, mas ninguém o vira. Levantou os olhos para o céu e, lá estava ele a fazer adeus.
Nunca mais o viu, mas hoje, quando a tristeza ameaça aparecer, ela olha para o céu e lembra-se daquela tarde em que foi tão feliz.

A beleza


A beleza é um conceito estético e subjectivo que se torna ideal de épocas e culturas diferentes. É algo que permite vibrar agradavelmente as fibras do nosso espírito mas que se transmite e se ensina de geração em geração.
A beleza está relacionada com todas as artes, com os sentimentos, com as emoções, que associa tanta vezes o aspecto físico ao aspecto emocional.
Deve haver arquétipos de beleza no nosso eu mais escondido, assim se pode explicar por que nos deixamos enlevar pelas manifestações artísticas do passado. Desde a arquitectura à escultura, da música à dança, da poesia à epopeia, somos levados a ser cúmplices de nossos avós.
A beleza está ainda ligada a valores morais assim como as artes e as escolas de pensamento. Não está imune da manipulação política ou religiosa. Toda a vida assim foi! Os grandes monumentos, a decoração dos espaços colectivos e privados, os hinos unificadores, tudo isso em prol de alguém ou de ideias. Qualquer um que deseje o poder sobre os outros o sabe. Reveja-se os grandes ditadores da História, os grandes senhores fundadores de impérios, todos eles recorreram a ideais de beleza e os promoveram de forma propagandística. E, a importância que era ser opositores mesmos? Correu sangue, morreu gente, exilaram-se alguns e ostracizaram-se outros, tudo por que não pensavam de igual modo com o que estava instituído!
Como pode a beleza ser responsabilizada por tal?

A beleza é o reflexo de um raio de luz no cristal da nossa alma!

Telmo, o Marujo

Hélio, o Guardião das Portas Sagradas
- Não Telmo, tu já não és frágil. E, quanto às tentações e medos, dominá-los-ás como aprendeste. O espaço que alcançares depende do que tu decidires. Ninguém te imporá nenhum, é a tua liberdade e a tua intuição que decidirão.
- Acreditas que estou pronto?... então estou. Acredito hoje mais em vós do que acreditava em menino.
- Vem então, meu filho. – Hélio ergueu-se e fez um sinal para que eu o seguisse. Dirigimo-nos ao Portões Dourados.
Eu não escondia a emoção, não sentia medo porque me sentia protegido mas, conjecturava de mim para mim sobre o que haveria por detrás daquelas portas.
Com um gesto quase dramático, Hélio agarrou as maçanetas e puxou-as. Sem qualquer ruído elas abriram-se de par em par, deixando-nos passar para depois, se fecharem de novo.
Um vasto campo verde e amarelo estendia-se à nossa frente. Um caminho desenhado em arenito branco traçava-nos o destino. O ar que se respirava era puro, quase se sentia um sabor doce em cada inspiração. E, para minha alegria, o céu era azul! Azul forte como o azul luminosos da minha infância!
- Este é o campo do mundo onde os seres são apenas felizes. Aqui não há anseios, nem perguntas, nem decisões. É um espaço apenas que serve a contemplação e que permite ao espírito que se exercite. Esta é a estrada que nos leva à Casa da Luz Eterna. Ainda não poderás entrar nela mas, poderás apreciá-la de fora e, se passares as provas, poderás um dia ser seu convidado e repousares sob o seu tecto. Vem, vem visitar os seus jardins, sentar-te à beira dos seus lagos, beber, se quiseres, das suas fontes. Vem conhecer um pouco da felicidade suprema que te espera um dia.
Eu sabia que Hélio era um Seguidor da Fé, tal como Jerónimo, mas nunca me passara pela cabeça ser através dele que iria conhecer a Felicidade.
- Diz-me por favor: esta felicidade só é possível com o seguimento da Fé? Eu ainda a desconheço…
- Tu já conheces muitas coisas, coisas que te tens esquecido de recordar, a Fé é a certeza de todo o Conhecimento e de todo o Serviço. Lembras-te quando tu eras uma criança de te sentares na muralha da tua cidade à espera do navio que te levasse pelo oceano fora? Às vezes limitavas-te a observar mas outras vezes, descias até eles e tocava-os como se os afagasses. Lembras como acreditavas que um dia partirias num deles?
- Lembro-me… Foi há tanto tempo…
- Lembras da convicção com que defendeste o teu desejo e mesmo contra a vontade da tua mãe e pai, embarcaste?
- Sim, ninguém podia arrebatar-me o sonho…
- Lembras-te como viveste os momentos de confusão de toda a tripulação e arranjaste forças para resistir e desviares-te das ciladas?
- Sim, Hélio, lembro-me de tudo isso!
- Pois, meu amigo, foi a Fé que te guiou. A Fé que te deu argumentos e energia para alcançar o objectivo a que te propuseste. Quando acreditamos tudo é possível!
- No entanto eu não tinha fé no sentido religioso, pelo menos do tipo a que a religião de meus pais exigia. Uma fé feita de dogmas sem sentido e à revelia dos sentimentos!
-Os dogmas foram impostos por homens diferentes de ti. As razões da Fé não se explicam, só as das crenças, porque essas vêm de um passado longínquo que se transmitem de pais para filhos. Por isso não tinhas a que te agarrar e fizeste do mar a resposta à tua Fé.
Os valores desenvolvem a dimensão da Fé e ela, alimenta-os, sublima-os.
Hoje tens conhecimentos em que não usas somente os teus sentidos físicos. Que outros sentidos existem em ti e que proporcionam outras formas de percepção? Quanto mais evoluído é o ser vivente, mais ele utiliza esses sentidos subtis deixando que os materiais adormeçam. Com a Fé aprenderás a conhecê-los melhor e verás mais longe.
- E, é aqui, neste lugar que eu vou aprender a reconhecer a minha fé?
- Telmo, vieste aqui apenas para vislumbrar a tua felicidade e descobrir como podes escolher o cenário da tua nova vida. Eu dei-te no entanto, a felicidade que conheces. Sabia a saudade que tinhas do teu céu azul, dos espaços verdes e cultivados, dos caminhos de areia. Foi isso que encontraste. A felicidade é desenhada por nós mesmos, embora às vezes o não saibamos!
- Então eu posso perspectivar a felicidade com a inha imaginação individual?
- Sim, e com a Fé em a alcançares!
- Ah, Hélio, leva-me depressa a uma praia de águas azuis e verdes e deixa-me mergulhar nelas como outrora!












sábado, 11 de abril de 2009

O suspiro de uma cadela


8. Ruidoso, violento, agressivo, era o vento, batendo em rajadas por toda a cidade estremecida!

Há muito tempo que um temporal não desencadeava tanto pânico. Nas ruas não se via vivalma, acobertadas que estavam no seu medo. E nós, os cães de rua, encolhidos nos recantos mais escondidos, enrolávamo-nos tiritantes uns nos outros.
Juntamente com a ventania, o céu desfazia-se em bátegas furiosas que doíam nos corpos e inundavam as sarjetas. E era Abril!
Éramos cinco enrodilhados juntos, tentado rijamente não nos deixarmos levar pelo vendaval. Conhecíamo-nos intimamente e, naquele momento era preciso que formássemos um muro sólido contra a intempérie.
O Inverno passara, as defesas já se tinham alargado, o pêlo já secara, ninguém previra esta loucura, fôramos apanhados na ratoeira do tempo, porque era Abril.
O dia tornara-se noite debaixo da negrura das nuvens. A pacatez tinha dado lugar à aflição e, sobretudo o medo, escancarava-se escandalosamente na cidade. Houvesse o que houvesse, éramos cinco. O universo que nos parecia pequeno até há pouco, tornava-nos, agora pequenininhos. Os raios rasgavam a cidade de lado a lado, abria-nos os olhos com a sua luz acutilante. A cada ribombar todo o nosso tamanho diminuía, ninguém se atrevia a erguer o focinho. Mas como éramos jovens, acreditávamos que no final da tempestade viria a bonança, tal como nossos avós nos ensinaram. Mesmo que essa tempestade tivesse vindo na primavera. Por isso, logo que tudo amainou, ladramos alegremente e percorremos as ruas em ar de desafio. O ar, cheirava bem, como se tivesse acabado de tomar um banho, e sol riscou com uma força nova o nosso olhar. Era Abril!
Durante os dias que se seguiram os homens pareceram-nos generosos porque repartiram connosco os restos das suas riquezas. Afagavam-nos, falavam-nos e riam para nós. De manha, ou de tarde, ou de noite, ou de madrugada, passeávamos pela cidade e convivíamos em boa paz tanto com os gatos como com os ratos. Era Abril e a primavera espicaçava-nos a alegria.
Éramos cinco, depois fomos cinquenta, e creio que chegámos rapidamente aos quinhentos, tanta era a nossa ânsia em ladrarmos em coro e copularmos numa comunhão total. Era bom. Tão bom que guardei na memória, dentro de mim, esses risos e abanares de cauda. Como era belo o Abril de outros tempos!

Histórias de mimpara ti ou histórias mágicas de reais acontecimentos


Colibri

Era uma vez um menino como tantos outros meninos do mundo. Tinha os olhos despertos, os ouvidos apurados e uma boca rasgada em sorrisos.
Não me lembro da cor do seu cabelo, nem da sua pele, mas sei que as suas bochechas eram macias quando o beijava e, os cabelos de seda, bons de passar os dedos.
Eese menino tinha um nome, melhor, tinha dois nomes, um dado pelos pais e, outro que eu lhe dei. Colibri.
Sabem por que lhe pus esse nome? Porque o colibri é a ave mais pequena que existe, tem o tamanho de uma borboleta, penas coloridas e um bico comprido que enfia nas corolas das flores para lhes sugar o néctar. O colibri tem muita energia, bate as asas tão depressa que fica suspenso no ar. Ora o menino de que falo também sabia aproveitar as coisas bonitas da vida, força para lutar, sem magoar ninguém, e era muito alegre.
O menino cresceu, é o que acontece a todos os meninos! E encontrou na vida, homens diferentes de si. Uns eram seus amigos mas outros desprezavam-no por ele ser parecido com uma borboleta.
Colibri, apesar de ter crescido, de trabalhar para se sustentar, continuava a achar que o mundo era um jardim.
Um dia, um dos homens que não gostavam dele, inventou uma mentira muito grande sobre ele, envenenando todos à sua volta. Colibri deixou de andar de um lado para o outro a sugar o mel da amizade ficou doente, muito doente! No canteiro da sua casa e nos jardins da sua terra, as flores, deram por falta dele e, uma a uma, deixaram-se morrer.
Uma das fadas que o acompanhava desde que tinha nascido resolveu tomar conta dele. Levou-o pelos ares até ao maior jardim do mundo que fica no vale da sabedoria, entre as montanhas da Razão e da Paixão. Ao encontrar-se naquele lugar, Colibri ficou curado, beijou todas as flores e trouxe nas penas as suas sementes.
Quando chegou a casa, estava exausto, mas não descansou sem depositar em todos os canteiros e jardins que conhecia, as sementes que trouxera. A Primavera nem esperou por Março, veio logo no dia seguinte, e toda a gente ficou espantada com as cores e os perfumes novos que alegraram de novo as suas vidas.
Os homens que amavam Colibri, riam de contentes, e os que não gostavam dele, acabaram por aceitar a derrota porque não queriam ir contra a opinião da maioria.
Colibri morreu. Todos os colibris morrem um dia. Mas o seu nome ficou conhecido de toda a gente porque todos os anos, nascem centenas de flores na Primavera.
E, eu sei, que hoje há outros colibris que nasceram e continuam a enfeitar o mundo com a sua generosidade e simpatia.

Páscoa



Não me considero católica apostólica romana já que não comungo de muitos dos seus dogmas. Embora educada, como o comum dos portugueses, sob a orientação da Igreja Católica, nunca consenti em depender totalmente dela.
Tem graça, durante toda a minha vida tenho passado momentos de aproximação e outros de afastamento em relação à Igreja Católica. Reconheço a sua importância na orientação moral e social da sociedade e o seu papel histórico que desenhou a geografia política do mundo em que vivemos. Não podemos portanto ignorar.
Na minha deriva pelo espiritual, pela ética e pela tentativa de me encontrar interiormente, procurei aprender o máximo sobre outras religiões e cheguei à conclusão que a fé é um sentimento transversal a todas, que a necessidade de contactar a divindade é igual, que o poder hierárquico de todas a igrejas comete os mesmos erros e tem as mesmas ambições. Que os crentes apenas querem ver resolvidos os seus problemas materiais e espirituais, que nem sempre agem em consciência ou são coerentes com o que aprenderam nas suas doutrinas. No entanto, não posso deixar de reconhecer que a Igreja Católica é ainda aquela que permite maior liberdade de ser e de estar.
Isto veio à baila porque hoje é Sábado de Aleluia e aqui em Braga, a Páscoa é festejada com um vigor ainda maior que o Natal. De facto, é a Páscoa que cimenta o dogma da ressurreição e a divindade de Jesus. Logo, é natural que seja esta a maior festa dos cristãos. A Igreja, desde os seus primórdios, demonstrou grande inteligência na escolha dos tempos e lugares a santificar por isso, aproveitou a época da Primavera para esta festa. É o momento da renovação da natureza, o tempo em que se torna visível o resultado do trabalho dos homens. É um tempo de fecundidade e alegria, da promessa dos dias de abundância. Mesmo os menos sensíveis sentem que esta época lhes proporciona um bem-estar diferente, uma espécie de euforia.
É também a resposta e o incentivo para que cada homem se renove, se redima dos seus erros e se proponha a uma nova vida. Depois do recolhimento que a Quaresma oferece, existe a possibilidade de se limpar e, qual “noivo” poder entrar numa nova vida. É interessante, todo este pensamento, em que cada um de nós tem a oportunidade de agarrar novos desígnios. Não há dúvida que dois milénios de estudo e organização têm os seus efeitos!
O cristianismo soube ir buscar ao pensamento da Antiguidade a base com que consolidou a sua doutrina, no fundo não trouxe ensinamentos novos, mas conseguiu aquilo que outras religiões não conseguiram; a acessibilidade da religião. Soube agregar o pensamento e a cultura de todos os povos e aplicar os seus dogmas de forma a tornarem-se universais.
Não está portanto aqui em causa o que penso da Páscoa como acto religioso mas, o que penso da Páscoa como símbolo. É realmente o OVO, o princípio material do gene pré-existente do Ser. E isso é que é fabuloso continuar a viver.
Feliz Páscoa para todos nós.

Telmo, o marujo

Hélio, o Guardião das Portas sagradas

Ceávamos todos juntos como há muito o não fazíamos, lembrei-me a primeira vez que o fizemos, ainda eu era pouco mais que uma criança.
Os seguidores não eram as criaturas desconhecidas e distantes de outros tempos, naquele momento sentia-os parte de mim, respiravam comigo o mesmo ar e comíamos os mesmos alimentos.
Hélio, o Guardião das Portas Sagradas e representante do grupo, pareceu-me um pouco diferente do costume. Estava eufórico e a maioria de nós desconhecia a razão. Talvez apenas Jerónimo soubesse o que se passava pois, comentava de vez em quando que as Portas Sagradas em breve se abririam.
A minha curiosidade estava espicaçada ao máximo. Durante toda a minha estada jamais vira abrirem-se as Portas e nunca entendera muito bem o que nos separava. Hélio era o único a poder tocá-las e isso tornava-o o detentor do mistério.
Como sempre, o velho Seguidor apresentava-se de modo sóbrio com a sua túnica azul comprida a cobri-lhe o corpo imponente. No peito rebrilhava um enorme círculo dourado raiado de diamantes, jóia que nenhum dos outros possuía. A sua barba cobria somente o queixo saliente dando-lhe um ar distinto.
Por norma ele era pouco comunicativo mas naquele dia estava muito falador e risonho, no fim da ceia quando todos estavam bem-dispostos, fez o anúncio solene:
- Meus irmãos, sei que não consigo disfarçar a minha alegria, que o meu entusiasmo transborda por isso quero esclarecer-vos sobre o que se passa. Quero partilhar convosco a minha felicidade e, acima de tudo, dar a Telmo o maior presente que alguma vez recebeu.
Fiquei atónito, era a última coisa que esperava! Que fosse eu o objecto da sua generosidade! Até porque não percebia qual era a razão de tal dádiva!
Com um olhar carinhoso, Hélio, esclareceu-me:
- Meu filho, quando chegaste aqui eras apenas uma criança curiosa e valente, sonhadora e persistente, qualidades essas que percebemos logo serem as indicadas para cresceres. Hoje, maior do que tu próprio ousarias pensar, encontras-te próximo das tuas provas finais. Foste alimentado e treinado para as passar e nós acreditamos que não nos decepcionarás.
- Mas… Guardião, a que provas me exporão? Que espaço alcançarei depois delas? E… se eu falhar? Sou apenas humano, frágil de nascença e sujeito a tentações e medos.






sábado, 4 de abril de 2009

O suspiro de uma cadela


7. O largo da feira é o meu mar de descobertas. Um mundo de cores, ruídos e aromas que entontecem e estimulam os meus sentidos e me agitam perante a indiferença.

O dia estava esplêndido, por isso resolvi ir por novos caminhos e descobrir as coisas perdidas.
No meu passo miúdo, revisitei a feira que fica pendurada na colina que serve de colo à cidade.
O mundão de gente, animais e tralha, atravanca mas não atrapalha os avanços, ate porque não fui para andar em frente mas, para rondear as tendas, gincanar os espaços, enfim, cirandar, cirandar…
Nariz levantado, absorvendo o ar, caminhava como num exercício de memória de olfactos. Alem do mais há sempre umas guloseimazinhas caídas no chão. É sempre bom andar assim sem cuidados, sem pressas e sem medos.
Ali estava eu cheirando uns, cheirando outros, muitos que não via há um ror de tempo, quando deparei com uma das minhas irmãs. Estava prenha de novo (segundo parece tem sido uma boa parideira) mas estava gorda, luzidia e, como se diz, de olhos límpidos. Nem parece minha irmã gémea, fez-me sentir mais velha! Também vive na cidade mas raramente nos encontramos. Como vai a tua vida? O que fazes? Perguntas de quem não tem muito para contar. Vive, já lá vão três anos, com o mesmo macho, um cão grande e gordo que antes de a conhecer guiava um cego. Diz que foi amor à primeira vista, largou ela a velha do pátio, largou ele o cego e ala, lá foram eles viver para perto do porto. Habituou-se bem àquela vida, traz sempre os cachorros debaixo dos olhos, é feliz! Naquele dia vinha à procura de um mimo especial para o seu cão. – Sabes, ele é tão bom para mim! – Ladrava ela, sem disfarçar um certo desprezo pela minha situação. Acreditasse ou não, fiquei satisfeita por a rever e saber da sua felicidade. Eu não a invejo, apesar da minha solidão não me imagino a viver apenas para o “meu cão” e para “os meus cachorrinhos”. Prefiro mil vezes esta liberdade e esta disponibilidade que tenho e que, me proporciona vaguear por todos os lados. Claro que ela me considera irresponsável, a vergonha da classe canina! Pensa que a evolução da raça passa por imitar os humanos e a sua sociedade plena de esquemas complexos.
Na curta conversa que tive com ela, fez-me o relato sobre a vida indecorosa da nossa outra irmã. Vê-a com frequência, disse-me que está escanzelada, ainda mais do que eu, que é constantemente requisitada por cães a qualquer hora do dia e da noite. Notei-lhe uma pontinha de despeito mas disfarcei e escutei apenas.
No final, vejam lá! Aconselhou-me juízo e que procurasse um cão que me protegesse. Anuí só para não a ouvir e despedi-me sem mágoa, digo mais, até com algum alívio. Prometi que a iria visitar para conhecer a sua família, promessa, essa, que não penso cumprir.
Depois continuei a andarilhar pela feira com um gosto renovado pela minha independência!
Ao regressar a casa passei por um tanque pouco fundo onde me lavei do pó, da gordura, do açúcar acumulados durante o dia. Sentia-me verdadeiramente cansada, mas em paz! Ah como é bom regressar ao nosso canto preferido e poder dormir sem cuidados!
Afinal o sono não veio tão depressa como eu julgara, de olhos fechados via passar a uma velocidade imensa os acontecimentos do dia, mas não era eu que caminhava, eram as imagens que vinham até mim e que depois disparavam em direcções diversas. Todo o filme era acompanhado pelo latir constante da minha irmã, do companheiro e dos filhos, sentia-me enjoada. Tão mal disposta me encontrava que sacudi do meu corpo a minha sonolência vomitando aquela girândola de recordações. Desatei a correr à toa pelas ruas rosnando atrevida para todos os gatos que encontrei. Acho que precisava de dar folga às minhas emoções, gritar bem alto que esta era, a minha vida! Toda a vida, com todos os sofrimentos e crises de identidade que fazem também parte dela, ninguém, nem nada maior do que eu poderia alterar isso. Era livre, com todas as consequências que a liberdade nos dá!
Acabei estoirada no degrau de um edifício moderno e adormeci então profundamente até à manha seguinte.

História d mim para ti ou histórias mágicas de reais acontecimentos


O gato comeu-te a língua?

Era sempre a mesma coisa. De mão dada com o pai ou com a mãe, Isabel Maria, ficava “muda” quando os estranhos lhe perguntavam coisas. E depois de insistirem, acabavam invariavelmente por lhe perguntar: - “então? O gato comeu-te a língua?”
Isabel Maria não compreendia por que é que os adultos tinham sempre que fazer tantas perguntas, ainda por cima algumas completamente parvas! Por exemplo: como te chamas? Para que é que eles queriam saber o nome? Depois em vez de dizerem: a Isabel Maria, diziam sempre; a filha do João ou a filha da graça! Outra pergunta que a irritava profundamente era sobre a sua idade. Não percebia qual a razão de a querem saber, só se era para confirmar que eram bem mais velhos do que ela! E ainda havia mais, como: sabes que és muito bonita? Claro que era bonita! Ela tinha espelhos em casa! Sabia, no entanto que havia pessoas mais bonitas do que ela, como a Marta ou a Ana. Por que não lhes diziam isso? Se calhar porque não as conheciam! Mas a pior, a pior de todas era quando se lembravam de lhe perguntar se ela queria ir para casa deles! Então ela não tinha pai e mãe? Não tinha casa? Não era nenhum boneco que se emprestasse aos outros! Além disso, sabia perfeitamente que os pais nunca a deixariam ir, disso tinha a certeza!
Não conseguia compreender os adultos. A mãe quando ela fazia aquela cara séria e ficava calada, desculpava-a com:”sabes, é muito tímida!”.Tímida, nada! O que ela não queria mesmo era responder aos amigos dos pais. Mas a mãe, naquela maneira de ser, sempre simpática, ia respondendo por ela. O pai, era pior. Ficava muito aborrecido, dizia que era má educação não responder às perguntas que lhe faziam. Bem gostava de ver se os pais também sabiam dizer se eram bonitos ou feios, gordos ou magros, ou quantos anos tinham! Algumas vezes tinha vontade de também ela perguntar aos pais se as perguntas dos adultos também eram educadas!
Isabel Maria, queixou-se disso às melhores amigas lá da escola, a Marta que é toda despachada, manifestou a sua opinião: “ Coitados dos adultos! Não têm imaginação! Mas a Ana, interveio dizendo: “Eles querem ser simpáticos connosco, só não sabem o que hão-de dizer!”
Mas Isabel Maria não ficou satisfeita e, um dia resolveu inverter os papéis. Por acaso estavam a almoçar no restaurante. Uma das amigas da mãe que também, lá estava, veio ter com eles à mesa. Os pais convidaram-na a sentar-se e acompanhá-los no almoço e o convite foi aceite imediatamente. Era uma mulher grande, com o cabelo pintado de louro, uma boca que ia quase de orelha a orelha. Logo que se instalou, Isabel Maria, com um ar muito sorridente perguntou:
- Como te chamas? - A mulher que estava desprevenida, gaguejou mas respondeu que se chamava Joana. Isabel Maria continuou:
É parecida com o seu pai ou com a sua mãe? - Desta vez foi a mãe que abriu a boca. Mas a tal Joana respondeu:
- Dizem que é com a minha mãe.
- Quantos anos, tem? – O pai até deixou cair o garfo ao chão.
- Trinta e quatro.
- Olhe que não parece! A minha mãe tem a sua idade e parece mais nova, porque é que pinta o cabelo?
- Bem…sabes…porque gosto.
- Deve ter amigas mais bonitas do que a senhora. – Os pais estavam vermelhos sem saber o que fazer.
- Não quer ir viver lá para nossa casa?
Silencio total.
- Não responde? Será que o gato lhe comeu a língua?

as alergias



Tenho estado com aquelas crises alérgicas que me tomam na Primavera de cada ano. Eu e milhares de outras pessoas somos atacados pelos pólenes obrigando-nos a sofrer os espirros, as irritações cutâneas, as dores de cabeça, de garganta, a comichão irritante dos ouvidos, enfim todos os sintomas que não matam mas chateiam!
Este ano pus-me a pensar durante a mocada que os anti-histamínicos nos dão, sobre a razão pela qual somos cada vez mais vítimas destes desconfortos. Cá para mim é uma vingançazinha da Mãe Natureza. E vá lá, que ela o faz com relativa suavidade! Nós que passamos o tempo a feri-la, a explorá-la, a magoá-la, até nem nos podemos queixar muito.
À força de nos considerarmos a obra divina mais perfeita, de pensarmos que somos o pico da criação, estremecemos quando a base alargada do reino vegetal ou dos animais, como os ácaros, nos atacam. É o preço da nossa soberba.
Assim, só há duas coisas a fazer: ou começamos a conviver com maior cuidado com os nossos irmãos terrenos ou, inventamos uma vacina contra tudo o que não é humano.
Este dilema urge ser resolvido, pois corremos o risco de nos extinguirmos com a força de um espirro ou de um ataque de tosse. Pela minha parte, quando a minha cabeça estiver menos embrulhada comprometo-me a pensar no assunto.

Telmo, o marujo

Catarina, a incorromptível
Depois de um breve repouso, eu e Catarina continuamos o nosso trabalho. Desta vez dirigimo-nos a um bordel, onde uma mulher de aspecto doente se oferecia sem paixão ao acto sexual, pago à hora. Perturbei-me com a cena e desviei o olhar.
- Não é por deixarmos de ver que as coisas deixam de existir, Telmo. Para corrigir erros e aprender, é necessário saber o que nos leva a prevaricar. – Disse-me Catarina.
Consumado o acto, o homem partiu e a mulher ficou. Dela exalava o cheiro da doença e do sémen desperdiçado. Na solidão em que se julgava, rompeu num choro convulso resultado da impotência e do desespero.
Catarina aproximou-se dela e acariciou-lhe o rosto e suavizando-lhe as dores. A mulher parecia uma menina desamparada e, mesmo sem perceber quem a acarinhava, deixou-se embalar pela Seguidora. O hálito Que Catarina soprou sobre ela fez com que a desgraçada fechasse os olhos e se desprendesse.
Rapidamente a beleza da mulher se tornou evidente e os estragos da vida a que entregara se desvaneceram. Ergueu-se mas, quando nos viu, caiu de joelhos envergonhada e deixou que as suas lágrimas rolassem silenciosas de um modo sincero. Mostrou-se grata pela nossa presença.
A Seguidora ergueu-a docemente e abraçou-a até que alguém que a mulher reconheceu, veio ter com ela e a levou para outro lugar. Sobre o colchão, o corpo jazia sem vida. Tapei-lhe o rosto com o lençol encardido e limpei os meus olhos.
- Ela agora está em paz. O véu de carne rasgou-se e deixou-a livre. Acabou-se tudo com a sua morte. – Disse eu em jeito de conclusão.
- Não. Não é bem assim, Telmo. Nem todos despertam. Nem todos os sofrimentos trazem amanhãs felizes. Depende sempre de como se encara o sofrimento. Só aqueles que o entendem como etapas do seu crescimento, é que conseguem reconhecer outros caminhos.
- Eu sei, Catarina! Mas fico admirado como é que tu lidando constantemente com a miséria humana te manténs tão pura! Posso perguntar-te porque escolheste tu, este serviço e que tem ele a ver com a via do Conhecimento? Entendia-o melhor com Helena ou Irene!
- Não. Sou eu que desperto os homens para o Conhecimento real. É através de mim que as imagens e sensações do passado, desfilam nas horas mais críticas, para que todos possam recordar quem verdadeiramente são. É verdade que me chamam Incorruptível, mas eu não me considero assim. O facto de permanecer muito tempo nas zonas sombrias e degradadas leva-me a aprender estratégias de acção e, não me corrompo porque, ao invés de os considerar menores, os tenho como iguais. Eu mesma, numa época remota, também sofri e fiz sofrer como eles.
Sei o que é o prazer doloroso do vício e do poder. Sei o que significa a violação das regras, porque um ia também me sujei nesse lodo e aprendi dolorosamente a reconhecer os meus erros e a evitar cair no abismo. Não me julgues isenta de tentações, e não tenho caído de novo, é porque já conheço as ciladas. O meu nome não significa pureza, mas a força e o conhecimento que afastam do que está errado. Conquistei-o como se lapidasse um diamante e, doeu muito a consegui-lo!... Cada golpe, cada raspagem… me limpou!
- Mas agora, rebrilhas, reflectes o sol em cada uma das tuas faces. Quem me dera absorver essa luz e ser também eu, uma jóia do tesouro divino! Compreendo agora que o Conhecimento só pode ser adquirido com o exercício da coragem e do amor incondicional. Realmente de que serve ele não nos levar a desejar uma luz mais pura!
Foste tu, que ao roçar entre os tojos, deixaste nos seus espinhos parte de ti. Eles são sinais de esperança para aqueles que os encontram. E, és também, a água límpida do rio que lava a lama e descobre as pepitas de oiro que enobrecem a vida. Oh Catarina, escondida no teu corpo modesto, és ainda mais bela!
- Meu caro Telmo, quanta exaltação nesses teus comentários! Apenas faço parte e um plano que permite aos homens transformarem-se. Hoje fui mansa e terna mas, às vezes a minha justiça é dura. Se for preciso também sou capaz de empurrar os homens para as ravinas provocando o susto e a dor. Se isso lhes mostrar a verdade, claro!
Sorri e passei-lhe o braço sobre os seus ombros e murmurei ao seu ouvido:
- Que forte és, frágil Catarina!

domingo, 29 de março de 2009

o suspiro de uma cadela


6. Era tão bom que tivéssemos todos, um dono que provesse as nossas necessidades, que sorrisse benevolente quando das nossas faltas e, nos afagasse o pêlo do lombo nos momentos de desilusão!

Foi só uma vez na minha vida que tive alguém a quem me apeteceu chamar dono!
No fim de um dia chato, quente e abafado, que ainda recordo a dificuldade que tinha em respirar e mexer, procurei um lugar fresco e encontrei-o, debaixo de um arco, numa viela esconsa e escura. Tinha a minha língua de fora, arquejava, quando de repente, vi na à minha frente, duas mãos encardidas com uma tigela rachada cheia de água. Bebi sofregamente todo o líquido e de novo, essas mãos me voltaram a pôr uma quantidade igual da minha salvação. Quando me senti saciada, levantei os olhos e vi um velho barbado e sujo, tresandando o cheiro enjoativo dos humanos. – “Pobre cadelinha! Tens muita sede, não tens? Toma, toma que também és filha de Deus.” _ Embora não tivesse conhecido o meu pai, creio que não deve ser o tal Deus, por acaso até nem sei se ele tinha algum nome, não o conheci! Nunca percebi muito bem, quem é esse deus que os homens passam a vida a falar, mas naquele momento, acreditei que devia ser alguém muito bom pois, em seu nome, o velho me oferecia água e me salvava. Filha de Deus! Parece que ainda o estou a ouvir!
Deixei que o velho me afagasse porque ele parecia feliz com isso, e sinceramente, também não me senti nada mal! O homem falava, falava comigo num palavreado que não percebi, mas deixei-o falar porque me pareceu que falava mais para si do que para mim. Depois disso, chamou-me para eu ir com ele, acompanhei-o à porta de uma taberna mas não entrei. Ele passado um bocadinho, veio até à porta trazer uns “restozinhos” para eu me entreter. Senti-me na obrigação de o seguir quando ele, trôpego, saiu de lá e caminhou pelas vielas murmurando sem parar. Ele à frente e eu atrás, nada de confusões porque ainda não o conhecia bem! Por fim deitou-se num banco de pedra e eu também me deitei por debaixo dele. Falava, acariciava-me, falava, julgo que mesmo a dormir ele falava!
Tomei o hábito de o seguir, já lhe conhecia o cheiro e o passo arrastado, até que um dia as coisas mudaram. Talvez nem tivesse passado uma semana, pois havia um dia certo que eu costumava ir às traseiras de um restaurante onde todos os cães se encontravam para rilhar os ossos e pôr a conversa em dia e ainda, não lhes falara do meu novo companheiro. Seguia-o como de costume naquele dia, primeiro percorremos a avenida, depois atravessaríamos a rua e por fim esgueirar-nos-íamos até à rua do arco onde nos tínhamos encontrado pela primeira vez se não acontecesse o que aconteceu. O trânsito parecia louco e o velho arriscou atravessar a rua apesar da insegurança do seu andar. Ainda lhe puxei com os dentes uma das pernas, mas ele sacudiu-me rindo. Recuei sem saber porquê e foi então que ouvi um barulho horrível que me fez estremecer. Ouvi gritos e apesar de meio desorientada corri para o corpo do velho empapado em sangue, em pouco tempo percebi que estava rodeada por uma multidão de pessoas e que elas faziam comentários sobre mim e o velho. Foi então que percebi que perdera num instante, aquele a quem um dia poderia chamar dono. Gani e uivei como nunca o fizera, lambi-lhe as mãos e o rosto como se antes de ele partir pudesse levar consigo a minha gratidão. Pareceu-me que ele se erguia, agora mais limpo, quase brilhante, que falava uma vez mais comigo, até lhe ladrei com satisfação, mas deixei de o ver quase logo quando um carro a apitar se aproximou e de lá saíram uns homens que levaram o corpo. Atirei-me contra a parede de pernas e corri sem parar até à “nossa rua”, deitei-me debaixo do banco de pedra e pareceu-me, uma vez mais, que as suas mãos me tocavam.
Uma cadela não costuma sorrir por isso dei ao rabo com quanta energia tinha. Durante muito tempo, foi aquele o lugar preferido para dormir as minhas noites. Ainda hoje, quando me sinto mais só, percorro a cidade para me encontrar sob aquele banco e, às vezes desejo um dia de calor sufocante e umas mãos sujas a darem água numa tigela rachada.

Histórias de mim para ti ou histórias mágicas de reais acontecimentos


A andorinha



Um dia, uma andorinha negra, solitária, voou, voou muito alto.
Deitou-se numa nuvem cor-de-rosa, uma nuvem tapete, bem esticada, de malhas ralinhas que deixavam ver tudo cá em baixo. Como via bem as suas irmãs a esvoaçarem de um lado para o outro, levando alimento para os seus bebés-andorinhas!
A negra avezinha rio, enrolou-se na nuvem fazendo dela um rolinho de algodão e rebolou, rebolou pela estrada azul. Quando se cansou daquela brincadeira, foi buscar outros pedaços de nuvens e construiu um castelo muito grande, muito grande!
Depois, desceu até junto das suas amigas e levou-as com ela até ao castelo. Oh! Como se divertiram! Como nadaram na espuma de todas as cores! Zumba que zumba, as andorinhas pulavam, nem repararam que o Sol se fora embora e a Lua já sorria para elas.
De repente, uma das andorinhas-mãe. Lembrou-se dos seus filhos e, aos guinchos, alertou as companheiras que, aos trambolhões, desceram para os seus ninhos. Encontraram as suas crias cheias de fome e, embora estivessem cansadas, levaram a noite inteira a procurar comida para dar aos seus filhos.
De manhã, ao sol nascente, quando os olhos se levantaram ao céu, reparam num ponto negro que saltava sem parar numa nuvem esbranquiçada. Mas o ponto, foi aumentando, aumentando, até cair junto delas, a andorinha negra solitária com o bico entreaberto num sorriso infinito.

Mais uma semana



Mais uma semana e o ramerrame dos dias a impedirem-me de ser mais assídua aqui no blog.
Dediquei dois dias para ir às escolas no âmbito do mês da leitura, faz bem voltar àqueles espaços tão ligados a mim, faz bem voltar a falar e ler para as crianças. Para elas basta um pouco de atenção e um sorriso para se abrirem e corresponderem, mas fico triste com o desânimo que impera no todo que se chama escola. Principalmente o ar cansado e desmoralizado que as minhas colegas trazem estampado no rosto e a sua necessidade de desabafarem.
Sinto que a escola por que tanto lutei está a morrer aos poucos. O domínio político-administrativo sobre elas coarcta os laços e as ideias transformando o professor num funcionário sem asas. Falta-lhes aquela chama que os fazia discutir, de um modo convicto, acerca da coisa comum, a escola em que passavam os dias e as propostas pedagógicas que defendiam.
As crianças hoje estão mais sós. Não no sentido físico, nesse até parece que estão atrelados aos adultos, mas no sentido da sua autonomia, da sua criatividade e da sua comunicabilidade! Tudo é programado, testado, registado como se a vida real fosse assim. Que será delas no futuro? Quando tiverem que se desenvencilharem sozinhas? Sem ninguém para lhes servir o pacote de soluções? Dá ideia que se está a preparar uma geração para servir, sem ser capaz de decidir! Isto não tem nada a ver com teorias de conspiração, mas o medo inflado nelas vai torná-las dóceis, obedientes, moles… tipo animais domésticos! As mais rebeldes tornar-se-ão agressivas, paranóicas ou tiranas.
É isto que a sociedade deseja? Um poder global onde uma elite diminuta controle a grande maioria colonizada? E os mais velhos que se habituaram à liberdade e à acção? Serão, no futuro, considerados agitadores? Personas não gratas? Que lhes farão? Eu por mim já acredito ter um dia que passar à clandestinidade! Se for preciso, morrerei pela liberdade e pela razão, acho que não tenho medo, porque sei que outros como eu continuaremos a lutar por ela. E, como diz o povo, não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe!

Telmo, o marujo

Catarina, a incorruptível

Atravessámos um túnel nebuloso que desembocava na escuridão da noite. Fogos-fátuos elevavam-se no ar contrastando com o negro da noite.
Planámos sobre o subúrbio da cidade onde a vizinhança de uma lixeira emprestava um fedor intenso que entrou pelo meu nariz e quase me fez sufocar. Ouviam-se gemidos, gritos e imprecações que magoavam a alma, tudo era desolação, miséria e tristeza. Nunca havia presenciado tanta violência nem tanto sofrimento, as trevas ocultavam os rostos mas eu sentia as suas presenças através da sua respiração ofegante junto de mim. Mãos invisíveis agarravam e arrancavam em desespero as minhas vestes imateriais.
Vultos passavam por mim como fantasmas, vagueando sem destino e desaparecendo numa espécie de becos. Que poderia eu aprender em tal mundo?
Catarina apontou-me um recanto e mostrou-me uma roda de homens em volta de um velho agonizante. Este, estrebuchava com febre e dores, dos seus lábios corria um fio de sangue pastoso e escuro e, os seus olhos, se bem que abertos, estavam secos e cegos!
Com a nossa aproximação, os homens apartaram-se alguns desapareceram, outros permaneceram num misto de curiosidade e desafio. Em todos eles, havia marcas dos seus percursos, golpes, nódoas cicatrizes, e os seus olhares frios deixavam perceber os ódios e rancores. A seguidora não lhes deu demasiada importância, abeirou-se do velho e impôs as mãos sobre ele iniciando o ritual de desprendimento. Apesar der fraco, ele debatia-se agarrando-se ainda à mísera vida e tentava afastar Catarina. Não se lhe reconhecia qualquer sentimento de contrição, pelo contrário, havia como que uma resistência superior às suas próprias forças.
Apesar disso, Catarina persistia em emitir as energias manifestadas em cor, tentando com isso transmitir-lhe alguma paz. Aquela era uma luta do bem contra o mal e, estava a decorrer ante os meus olhos, para que percebesse quão importante era a tarefa de Catarina. Nessa altura tive consciência do embate das forças negativas sobre ela e então, aproximei-me mais e resolvi colaborar fazendo o possível para pôr em prática tudo o que tinha aprendido. Procurei dentro do meu peito os mais amorosos sentimentos, centrei-me no mesmo objectivo de Catarina e, lancei para fora o que de melhor tinha em mim. Um brado enorme ecoou pelo subúrbio, já fora do seu corpo, o velho recuperou as forças e juntou-se à horda e preparava-se para se vingar em nós.
A Seguidora deu-me a mão serenamente e eu, qual cavaleiro defendendo sua dama, enfrentei-os com o ar firme de quem está convicto dos seus actos. Num átomo de tempo foi determinada a vitória e a derrota e eles caíram de joelhos, prostrados e chorando como crianças arrependidas. Algumas silhuetas luminosas surgiram entretanto e encaminharam aqueles homens para um lugar diferente. Suspirei de alivio e compreendi qual a cruzada de Catarina.

domingo, 22 de março de 2009

O suspiro de uma cadela


5. Não há volumes. Só superfícies no reflexo das nossas relações. E, apesar disso, bastava que eu ou tu, nos projectássemos um pouco para além de nós!

Esta tem sido, toda a vida, a minha política. Porém, na maior parte das vezes, só consigo arranhar a polidez dos outros com a minha tacteante ternura. E, quantas? Quantas vezes se aproveitam dela num breve movimento para me roubarem?! Penso reconhecer a protuberância dos outros, mas a minha mola está demasiado lassa pelo hábito de me esticar e acabo por não me encolher…
Foi há três dias que encontrei este lugar, recolhia a minha necessidade de me isolar do vai e vem da cidade. Nunca gostei muito de praia, mas nesta época, o areal está húmido e encontra-se quase deserto. Por isso, não é desagradável.
Acho que andava a precisar de sentir novos cheiros, espojar-me em espaços abertos e, coçar-me, coçar-me como poucas vezes o faço, nestes espinheiros que crescem nas dunas. Além disso, este marulhar repetido do mar, embala-me, apaga-me os contornos mais ásperos do pensamento e ajudam-me a mergulhar fundo, bem fundo do fundo de mim mesma.
Estar aqui, é estar no vestíbulo da eternidade, prepara-nos a entrada, sem a agudeza dos opostos. Uma cadela como eu, já pouco mais pode esperar do que um terminar sereno e, precisa sem dúvidas, de se treinar para a solidão.
A perversidade que nos mantém presos à realidade é demasiado objectiva, acredito que passei anónima pela vida, isso incomoda-me! Talvez porque sinto cada vez mais curta e apertada a trela que me segura ao mundo, talvez…
Quando mergulho na minha história, curiosamente nunca a vejo igual. Encontro dezenas, senão centenas de outros cães e cadelas que para além do cheiro, não me deixaram mais nada. São, como hei-de dizer, ornamentos de memória!
Baixo o focinho por entre as patas na areia da beira-mar e deixo que a espuma das ondas desmaiadas mo beijem.
De olhos abertos, cego-me para o que está próximo e projecto-me para além do horizonte.
Imagino – um cão também pode ter imaginação! – Vultos caninos que me parecem familiares, acenam-me, chamam-me, apelam ao meu corpo mole. Um deles faz-me lembrar a minha mãe, uma cadela tão magra como eu, que vagueava nas ruas e generosamente servia os machos das redondezas. Tinha fama de mansa, só quando tinha crias se arrebitava toda na fúria de as proteger. Não faço ideia, em qual das ninhadas nasci, sei que houve muitas antes da minha e que depois de eu a deixar, continuou a gerá-las.
Lembro-me apenas que éramos quatro. Três fêmeas e um macho. Todos amarelos, híbridos de um galgo. O nosso tamanho em breve superou o dela, o que claramente, dificultava a disciplina e o respeito entre nós. O meu irmão em breve perdeu o domínio porque cegou, não me lembro porquê. Sei apenas que deambulava sem segurança e um dia, desapareceu para sempre. O conflito entre nós, as cadelas, tornava-se cada vez maior, principalmente quando chegava a época do cio, cada uma de nós queria o melhor macho, hoje já nem sei bem para quê! Mas não durou muito essa luta, pois cada uma seguiu o seu destino. Nem sequer nos despedimos umas das outras, partimos, simplesmente!
A minha mãe lá ficou no seu território, não sei por quanto tempo. Talvez os laços familiares entre cães não sejam assim tão apertados! Eu procurava mais que um breve lamber ou mordiscadela. A maioria dos cães que se cruzaram comigo aproveitou bem essa ânsia de afecto, aproveitavam o melhor que podiam e logo que se sentiam satisfeitos, afastavam-se apagando todos os episódios do passado recente. Confesso, que me desiludi, passei então a lutar pelos direitos dos outros, a servir de confidente, a socorrer os menos capazes, a lamber as feridas de uns quantos. Alguns aproveitavam a minha acção para em seguida me tentarem dominar, roubar ou magoar, outros, vá lá, afastavam-se e esqueciam-me.
Por vezes rebentava dentro de mim uma revolta tão grande que passava as noites a uivar, a morder o meu próprio rabo. Agora, quando penso nisso, e estou no epílogo da minha passagem por aqui, já não faço caso, vivo mais comigo mesmo, se tiver que ajudar um cachorro ou um cão perdido do dono, é porque me faz melhor a mim do que a eles. Já não estranho as partidas precipitadas, nem os silêncios comprometidos, fico até admirada quando algum se lembra de agradecer.
Hoje, quando me projecto tenho a certeza que é um reflexo instintivo que me impede a indiferença perante os que me rodeiam, assim, defendo a minha existência de um sono sem sonhos e resguardo-me das sombras.

O que nos faz ser felizes




É quando existe a suspensão temporária das nossas necessidades básicas que nos apercebemos que, com a sua satisfação, obtemos os maiores prazeres. E são os prazeres mais elementares que equilibram o todo que somos; física, intelectual e emocionalmente.
Não precisamos de ir de aventura em aventura procurar experiências num hedonismo desesperado, basta repararmos o que está em falta.
O sono, a alimentação, a higiene, a drenagem os resíduos corporais, a respiração, a recuperação dos sentidos que por qualquer motivo se viram impedidos de funcionar em plenitude, são necessidades que ao verem-se satisfeitas nos fazem encantar com a vida. Significa isso que a vida podia ser muito mais fácil e tranquila.
Poder-se-á dizer que isso é limitar a existência à animalidade. Até pode ser mas, o que somos afinal? Ao invés de nos sentirmos ofendidos com a nossa condição animal, devíamos congratularmo-nos com isso. Talvez fosse uma boa maneira de nos sentirmos irmãos dos restantes seres vivos!... E desse modo, respeitarmos mais o mundo.
Um dos grandes erros da humanidade têm sido o facto de nos termos desconectado da Natureza, achamos que somos uma espécie privilegiada. E, uma das razões que mais tem contribuído para tal é a ideia dada por algumas religiosas, principalmente as de raiz judaica. Logo no livro do Génesis, surge o fundamento: Deus cria o Mundo para servir o Homem e para ser controlado por Ele.
É portanto este divórcio que nos faz sentir amputados, o sentimento de perca e a necessidade de procura. Nas religiões animistas de alguns povos antigos, o Homem era um homem, um ser com iguais responsabilidades e direitos de existir na Terra-Mãe, havia uma harmonia entre si e o mundo que o rodeava. O que não quer dizer que não houvesse gente infeliz. Está claro que sim, porque os homens mesmo que não dominem a Natureza têm necessidade de se dominarem entre si. No entanto, julgo que não sentiriam tão pungentemente esta necessidade de procurar prazer. Viviam-no e não o questionavam!
A nossa História tem-se debatido entre desejar ser feliz e o medo de o ser. É a nossa insatisfação que nos faz ser infelizes e, afinal é só prendermo-nos ao fio que nos liga aos outros seres!
Portanto, aprendam a ser felizes!

Histórias de mim para ti ou histórias mágicas de reais acontecimentos


O Mago

Era uma vez um mago, grande, do tamanho de uma montanha, cujas ravinas deixavam escorrer um rio de barbas brancas. Era um mago, com um coração tão duro e frio quanto o granito dessa montanha.
Este mago tinha um castelo de cor cinzenta, no meio de rochedos cinzentos e, vivia acompanhado de aves cinzentas, do mesmo cinzento da lama que cobria o chão e que os seus pés pisavam.
Num dia de Inverno, o Sol despertou mais cedo e as aves, acordando sobressaltadas, tão atarantadas ficaram que voaram para além de tudo o que era cinzento.
Ao planar nos territórios vizinhos, descobriram as cores salpicadas em todos os campos. Curiosas, debicaram as sementes e na pressa de regressarem, trouxeram outras por entre as suas penas. Pelo que ao chegarem ao território do mago, as deixaram cair sem querer na terra ávida de vida.
Quando a primavera chegou, o mago rabugento, encostou-se ao parapeito da janela e viu um arco-íris espalhado por todo lado. Ao contrário do que possam pensar, o mago não sorriu nem se encantou, nem felicitou a Natureza, ficou tão irado que deixou o seu coração estalar e morreu ali mesmo.
É por isso que hoje, por entre o verde e as flores de uma floresta, ainda se vêem, grandes blocos de granito espalhados pelo chão.

Telmo, o marujo

Catarina, a incorruptível

Embora consciente do meu estado adulto, continuava a sentir-me incomodado por ter que abarca dois mundos diferentes; aquele de onde viera para onde iria em breve e, este no qual vivia temporariamente e que me dera o sentido de serviço e o conhecimento.
Quer quisesse, quer não, sentir-me-ia sempre deslocado em ambos. Tinha a certeza que, a liberdade e a paz que usufruía naquele momento, estavam ameaçadas pelo futuro cada vez mais próximo. Esta precariedade provocava uma ansiedade muito grande.
Portanto, aproveitava todo o meu tempo para acompanhar os Seguidores em suas tarefas, eram a minha família e eu queria estar o mais possível com eles.
Crescera por dentro e por fora, via a infância de uma forma remota mas sentia que jamais seria suficientemente confiante para me integrar em qualquer dos mundos.
Era frequente deambular pelo jardim meditando sobre o espaço que ocuparia no projecto dos Seguidores. A via mais estranha era a da Fé. Talvez por isso, um dia me enchi de coragem e procurei Catarina, também chamada a incorruptível.
Não tinha a beleza angélica de Gisela, a simpatia de Helena, nem o jeito maternal de Irene. À primeira vista não passava de uma mulher comum e discreta, de estatura média e traços vulgares, no entanto, esse aparente ar apagado acabou por me despertar a curiosidade.
Encontrei-a no lugar habitual, por cima do dormitório dos colaboradores. Era uma cela exígua pintada de branco. O único adereço para além da cama, era um tapete de lã colorida. De resto, era o despojamento absoluto.
Deixou-me ficar ali à porta, de pé, enquanto se mantinha de costas olhando um ponto vago para além da fresta que servia de janela. Eu sabia que ela dera pela minha presença e que ouvira a minha saudação, fiquei então aguardando respeitosamente que me dirigisse a palavra.
Quando me sentiu mais tranquilo convidou-me a entrar e a sentar-me junto dela no tapete.
- Seguidora, há muito que persigo esta dúvida: que nuance da Fé segues tu? Vejo-te com pouca frequência, vives praticamente isolada, como alcanças os teus objectivos?
- O que me está destinado fica do outro lado, daquele que oculta na noite… mas, reparando em ti vejo que já te encontras preparado para compreenderes. Vem comigo.
Olhou fixamente para mim e senti um impacto violento, quase doloroso. Soltei-me do corpo e logo me encontrei frente ao outro eu de Catarina. Durante algum tempo senti-me agoniado e numa vertigem, vi-me embrulhado num turbilhão de sensações. Apesar disso não senti medo porque Catarina estava a meu lado.