sábado, 25 de abril de 2009

Mário Eloy Pereira
























































O Caminheiro


A vitória sobre os pássaros



1.O Mundo parou agora


O Mundo parou agora.
Acabou de se preparar para a reflexão.
Os sonhos adormeceram por enquanto e ficaram guardados atrás do alçapão da memória.
Neste momento inspira e expira para iniciar o transe. Devagar. Muito devagar, para que a transição se faça sem dor.
O tempo coalhou-se formando pequenos grânulos de nuvens. Já houve tempo em que o céu azul se rendilhava de branco! Hoje não! Agora é o próprio tempo que se inquieta.
Tudo permanece em silêncio. Um silêncio que fala sozinho consigo mesmo, onde a fronteira do que é real e do que é irreal se esbatem, como um horizonte, distante, estendido para além de tudo o que os sentidos físicos possam perceber.
Ali está ele levitando ligeiramente.
O pó debaixo dele comprime-se contra a terra.
Os ramos da árvore que o cobrem nem estremecem.
Nenhum insecto se atreve a perturbá-lo.
O seu corpo toma a forma da escultura que, esculpida e polida, se exibe em perspectiva de movimento. Não se desvia um milímetro da forma inicial.
Ele está e não está.
Para além de si próprio percorre em velocidade vertiginosa o espaço indimensionável.
Um espaço em que tudo o que acontece só é penetrável no seu espírito. A razão aqui não existe. É transportada no ar para mais tarde se materializar.
Mas há limites? Sim. O limite do querer que fica ainda desperto. Aonde vai?

Histórias de mim para ti ou Histórias mágicas de reais acontecimentos


As fadas



Vocês acreditam em fadas? Pois, eu acredito. Eu já vi fadas, já falei com elas, fadas a sério! Eu conto-vos como foi:
Um dia de manhã muito cedo, ainda o céu estava cor-de-rosa, resolvi fazer um passeio pelo pinhal que fica perto da minha casa. A princípio não aconteceu nada de especial, ia muito tranquila por um caminhozito de areia, acompanhada apenas pelos pássaros, alguns coelhos esquivos e umas quantas abelhas que teimavam em me cumprimentar. Depois, não sei porquê, assustei-me. Ouvi uns risos, umas cantilenas, umas vozinhas. Curiosa como sou, desviei-me do trilho e entrei pelo mato adentro. Não tinha dado ainda uma dezena de passos, quando à minha frente distingui perfeitamente, três lindíssimas meninas. Pareciam crianças, pelo menos pelo tamanho, estavam de mãos dadas fazendo uma roda, não deram logo por mim, por isso pude assistir àquilo que me parecia uma brincadeira. De repente, uma delas olhou para mim. Todas pararam e, depois de me observarem por uns momentos acenaram-me. Fui ter com elas, eram tão engraçadas!
Perguntaram-me em coro o que é que eu estava ali a fazer, e eu tentei explicar que andava a passear e que fora atraída pelas vozes delas. Acho que entenderam, mas uma segredou qualquer coisa às outras e a seguir pediram que me apresentasse.
- Bem, chamo-me Luísa, moro aqui perto, como é Primavera e o tempo está bom, resolvi apanhar o ar fresco da manhã.
- E tu não sabes que este lugar é proibido aos homens?
- Mas eu não sou homem, sou uma mulher! Não se nota?
- Quando dizemos homens, queremos dizer seres humanos. Não és um ser humano?
- Agora quem fica confusa sou eu! Claro que sou! E vocês o que são?
- Somos fadas! O que é que achavas que éramos?
- Fadas? Fadas a sério?
- É estranho…- disse uma que tinha o cabelo todo aos caracóis castanho muito escuros e uns olhos rasgados em forma de amêndoa.
- Lá isso é! Os humanos não costumam ver-nos… - acrescentou outra que tinha cabelos louros, muito lisos e compridos que faziam lembrar uma cortina de fios de ouro. Essa tinha os olhos redondos, tão azuis como o azul do céu em dis de Verão.
- Mas já que nos vê e nos ouve, penso que tem todo o direito de saber mais coisas sobre nós. – Decidiu a terceira que era ruiva, de cabelo cor de mogno separado em duas tranças que lhe chegavam à cintura e cujos olhos eram verdes, verdes como o fundo de uma lagoa.
Eu estava abismada, completamente boquiaberta. Não sabia se estava a a sonhar ou se era mesmo verdade o que estava a acontecer. Mas não dei parte fraca, mantive-me no meu lugar, direitinha, com o ar mais natural deste mundo.
Convidaram-me a sentar-me junto delas numas pedras que ali estavam.
Sentei-me. Então a fada do cabelo castanho apresentou-me as outras, indicando primeiro, a do cabelo louro e depois a do cabelo ruivo.
- Eu sou a Fada da Madrugada, esta é a Fada da Meia-Noite e esta é a Fada do Entardecer. Ficas já a saber que quando um homem, ou mulher, nos vê, tem o direito a receber um favor nosso. Portanto cada uma de nós vai conceder-te um desejo.
Devo ter aberto e fechado a minha boca e feito uma cara muito esquisita, porque as três começaram a rir às gargalhadas.
A Fada da Meia-Noite perguntou-me então que desejos, queria eu ver satisfeitos. Fiquei atrapalhada. Passamos a vida toda a ter desejos, a maioria, sonhos que nunca os vimos realizados e, agora, de um momento para o outro, as fadas propunham-se a realizar três deles. Nem sabia o que escolher…
- Despacha-te, daqui a pouco temos que nos ir embora. E não podes perder esta oportunidade!
Primeiro pensei em pedir saúde, trabalho e amor como toda a pessoa sensata, mas vi passar ao longe um cão com a perna a arrastar a perna ferida, sem medir o que ia pedir, desejei que o cão se curasse. A seguir reparei que grande parte do pinhal estava deserto por causa do incêndio do Verão passado e desejei que todo aquele espaço se transformasse num local muito verde e vivo, finalmente, reparei que quase não havia ninhos nas poucas árvores que sobreviveram e desejei que todo o pinhal se tornasse num paraíso para as aves e para todos os animais que ainda conseguiam viver ali. Fechei os olhos e as fadas desapareceram sem que eu desse por isso.
Quando os abri, ouvi o ladrar satisfeito do cão que corria para mim e me veio lamber as pernas e as mãos. Sorri porque ele tinha recuperado a sua perna. Voltei para casa e à hora do almoço, o meu filho mais novo chegou a casa muito excitado porque no local onde tinha havido o incêndio cresciam agora novas árvores. À noite, quando me preparava para fazer um serão, ouvi um leve batimento no vidro da janela da sala, era um enorme bando de pássaros que numa coreografia mostravam o seu agradecimento.
Confesso que as lágrimas me vieram aos olhos, e disse baixinho:
- Bem hajam, fadas amigas!
A partir daí passei a acreditar em fadas.
E vocês? Agora também já acreditam nelas?

25 de Abril


Já passaram tantos anos e eu nem tenho dado por isso!
Ainda não tinha vinte anos quando nesse dia de Abril acordei para uma nova vida.
Ontem fui a uma escola falar do 25 de Abril, é estranho mas ainda se me embarga a voz quando falo do primeiro dia de liberdade, do primeiro dia em que vi os portugueses acordarem e descobrirem que também tinham voz e podiam orgulhar-se do seu país.
Os meninos da escola que visitei são meninos de um bairro social, os seus pais não sabem muito de política, têm pouca instrução mas, quando lhes perguntei porque era tão importante festejar a liberdade, um deles soube responder-me que antes não havia.
Talvez eles não saibam o que é isso de liberdade e democracia, talvez não entendam ainda que a liberdade é o par de asas que nos deram para poder voar, que esse voo depende apenas de nós mesmos e que a rota que escolhemos é de nossa inteira responsabilidade.
Talvez eles não saibam que a democracia é mais do que ter eleições de tempos a tempos, que é uma maneira de estar na vida, de participar nela, de a construir mas… todos os adultos saberão?
Às vezes fico triste quando sinto a indiferença do povo português quanto à sua cidadania, quando sei que os movimentos neofascistas proliferam no centro norte da Europa e na Itália, que os homens que tiveram sonhos estão calados.
Às vezes assusta-me esta contra volta de pensamentos, preocupa-me os rugidos das hienas prontas a abocanhar de novo o poder, zango-me com a acção dos partidos políticos.
Mas… quando oiço Abril cantado por vozes infantis, o meu coração bate feliz e as lágrimas assomem discretas nos meus olhos.
Há esperança num Mundo Novo! E é isso que Abril nos trouxe!

Telmo, o marujo

Hélio, o Guardião das Portas Sagradas

Ele sorriu, passou sobre os meus olhos a palma da sua mão, e logo, uma brisa fresca e húmida me roçou!
Quando abri os olhos, estava pisando a areia dourada de uma praia beijada por ondas de espuma branca. Um grande sol amarelo estendia os seus raios sobre a superfície líquida azul e emprestava-lhe reflexos prateados.
Despi a túnica e corri para ele. Mergulhei de cabeça e quando emergi nadei furiosamente por todo o seu comprimento. Voltei a mergulhar e misturei-me com os cardumes que por ali passavam, afaguei cautelosamente alguns corais, só subia quando o meu fôlego se esgotava e nessa altura, lançava para o ar gritos selvagens de pura alegria.
Só depois de muito cansado é que regressei para junto do Guardião e me estendi no areal recebendo em cheio o calor meigo do meu astro amigo.
-Hélio, que mais posso eu desejar para estar em inteira harmonia com o Cosmos?
- Não sejas precipitado Telmo, volta aos poucos à tua consciência e vê dentro dela outros momentos de felicidade.
Virei-me de borco escondendo a cabeça nos meus braços, fechei os olhos e respirei com lentidão. Senti-me elevado.
Um alvoroço imenso veio até mim. Era um cais repleto de gente numa cidade que eu vagamente reconhecia. Deslizei até à amurada do navio em que me encontrava. Havia mais elementos da tripulação. Do outro lado do cais podia aperceber-me dos brados e acenos de familiares. Dada a ordem de desembarque, desci a prancha e pisei… a minha velha cidade.
- Hélio! - Gritei, como se tivesse acordado de um sonho. - É este o meu futuro?
- Está na hora de regressarmos, meu filho, vem, vem conhecer a minha esposa. Ela te dará a chave do teu destino.
Ergui-me e, como um rapazinho, falei de todos os meus sonhos, de todos os meus sentimentos, de todas as coisas que tinha guardado dentro de mim em todo aquele tempo que tinha vivido com os Seguidores.












sábado, 18 de abril de 2009

Chagall


Continua...

























































































O suspiro de uma cadela


9. A pardacenta nuvem que me aconchega ameaça escurecer de vez. Não faz mal, a ressurreição surge sempre! Tenho que me recordar como é…

Chove sem parar há três dias e, há três dias que vagueio pelos meus pensamentos. Não há mais nada que fazer! Há três dias que estou completamente só e não me lembro de ninguém.
Há pouco tempo, porem, um ventinho doce e meigo varreu as pedras da calçada e os regueiros sujos, animou-me. Sacudi-me com a maior energia de que fui capaz e propus-me a procurar alimento. Não sentia fome mas forcei-me a ir para não voltar a cair na modorra. Dantes o exercício dava-me forças e prazer mas agora, que já não luto por muito, a tentação de ficar e morrer apanha-me constantemente.
Vou até ao campo. Pensei. E fui.
Já tinha percorrido umas quantas veredas quando me deparei com quatro cachorrinhos malhados, de olhos recém-abertos que latiam desajeitadamente enquanto disputavam as tetas da mãe. A cadela sem brilho, nem se mexia. Não os desinquietei, fiquei ali a olhar os pequenotes que pareciam querer beber todo o universo no leite materno.
Uma espécie de dor aguda perfurou-me o peito e a barriga. De repente senti uma nostalgia enorme. Ah quanto tempo sofri eu, as ferroadas trémulas de meus filhos?! Aquela sensação de me dar toda no leite que escorre?! Suspirei. Um suspiro que desceu até ao fundo da minha juventude.
Enquanto mamavam mantive-me discreta a observá-los, temia assustá-los. Depois, quando a cadela se levantou deixando no ninho o rancho adormecido, meti conversa. Ficámos ali as duas a falar dessa coisa que se chama maternidade. De gravidezes goradas e de outras bem sucedidas, de partos fáceis e difíceis, de cuidados e ralações, de prazeres e emoções. Acabei por ficar surpreendida com o que eu sabia partilhar. Daí a pouco, como todas as crias, os cachorros acordaram e vieram cheirar-me sem inibições, alguns chegaram a lamber-me, o que, vejam lá, me comoveu bastante! No final da tarde, separarmo-nos e não tive coragem de voltar a casa logo. Por esse motivo resolvi revisitar a falésia. De lá, olhei para o mar líquido que me pareceu disposto a abraçar a terra. E, uivei. Uivei afirmando a mim mesma que estava viva. Ainda viva…
Então o luar desceu sobre mim e vestiu-me com a sua luz pálida, os cheiros dos frutos silvestres dessa tarde voltaram ao meu nariz descendo e perfumando-me por dentro. Estava viva e sentia. Sentia e estava viva!
Na minha mente rasgou-se uma cortina que eu ignorara e todas as minhas perguntas obtiveram resposta. Viver é isto. Partilhar sentidos e descobrir que há intimidade. Lançar o maior uivo de todos para que esse grito se repercuta nos elementos que nos rodeiam. Acreditar que o tempo que nos falta cumprir deve ser cheio, pleno de nós até ao fim.
Então esperei que o céu mudasse de cor e rosasse o princípio da noite. Marquei aquele lugar com o meu cheiro e senti consciente, que me multiplicara eternamente e que portanto eu existiria sempre. O vento despenteou-me o pêlo voltei enfim ao encontro com a cidade.
Senti os olhos húmidos, as patas transformaram-se em asas e a minha cauda, tantas vezes mordida, encontrava-se agora esticada até ao limite do universo. Sem uma única pelada, pelo contrário, nunca a vira tão lisa, comprida, lustrosa! Toda a sua extensão abraçava a vida de que me esquecera. Agora eu sentia-a na minha boca. Eu tornava-me nela e, projectava-me em sentido inverso ao da morte. Agora sim, era verdadeiramente livre! Suspirei!






histórias de mim para ti ou Histórias mágicas de reais acontecimentos


O amigo de Carolina



A Carolina é uma menina mais ou menos da vossa idade. Também anda na escola da freguesia, é uma aluna razoável que gosta de brincar mas sabe que dentro da sala de aula é preciso estar atenta para aprender tudo muito bem.
A dada altura começou a sentir-se infeliz porque havia problemas em casa. O pai ficara desempregado e só arranjava trabalho de vez em quando e, a mãe, que andava nas limpezas, passara a trabalhar mais. Carolina tinha um irmão mais velho, mas ele andava na escola da cidade e também estava pouco tempo com ela.
Carolina passou a ficar sozinha em casa, tentava fazer algumas coisas para ajudar a mãe, mas a vida tornara-se muito aborrecida. Um dia, depois da escola, estava ela no quintal, a brincar com a terra, apareceu-lhe um rapazinho que lhe pediu para brincar também. Ela sabia que os pais não gostavam que ela falasse com estranhos, mas o rapazinho tinha um ar meigo e ela aceitou.
Foi uma tarde maravilhosa! O rapaz tinha boas ideias e também lhe ensinou muitas coisas. Disse-lhe que conhecia o mundo todo. Que sabia de meninos que viviam em países onde havia guerra, que tinham fome e medo. Também lhe falou de meninos doentes. Não de doenças como as que ela já tivera que passavam com os xaropes e os comprimidos, doenças a sério, daquelas que até os médicos desconhecem a cura, e de outros meninos que viviam nas ruas, ao Deus, dará! Mas que em todo o lado, os meninos, apesar das suas mágoas, sabiam rir, sabiam brincar.
Quando a noite chegou e Carolina foi para a cama, começou a pensar nas palavras do rapazinho, afinal de tudo ela tinha uma família que a amava, uma casa agradável, podia ir para a escola sem medo de tiros e não tinha doenças. Ficou contente com isso.
Na manha seguinte, ao atravessar a rua para ir para a escola, ouviu um carro que vinha com grande velocidade aproximar-se. Ficou assustada e não conseguiu mexer-se. De repente, apareceu o rapazinho que lhe deu a mão e a puxou para o passeio. Foi tudo muito rápido, ela só se apercebeu realmente do que se tinha passado quando os vizinhos lhe contaram. Ela então perguntou pelo menino, mas ninguém o vira. Levantou os olhos para o céu e, lá estava ele a fazer adeus.
Nunca mais o viu, mas hoje, quando a tristeza ameaça aparecer, ela olha para o céu e lembra-se daquela tarde em que foi tão feliz.

A beleza


A beleza é um conceito estético e subjectivo que se torna ideal de épocas e culturas diferentes. É algo que permite vibrar agradavelmente as fibras do nosso espírito mas que se transmite e se ensina de geração em geração.
A beleza está relacionada com todas as artes, com os sentimentos, com as emoções, que associa tanta vezes o aspecto físico ao aspecto emocional.
Deve haver arquétipos de beleza no nosso eu mais escondido, assim se pode explicar por que nos deixamos enlevar pelas manifestações artísticas do passado. Desde a arquitectura à escultura, da música à dança, da poesia à epopeia, somos levados a ser cúmplices de nossos avós.
A beleza está ainda ligada a valores morais assim como as artes e as escolas de pensamento. Não está imune da manipulação política ou religiosa. Toda a vida assim foi! Os grandes monumentos, a decoração dos espaços colectivos e privados, os hinos unificadores, tudo isso em prol de alguém ou de ideias. Qualquer um que deseje o poder sobre os outros o sabe. Reveja-se os grandes ditadores da História, os grandes senhores fundadores de impérios, todos eles recorreram a ideais de beleza e os promoveram de forma propagandística. E, a importância que era ser opositores mesmos? Correu sangue, morreu gente, exilaram-se alguns e ostracizaram-se outros, tudo por que não pensavam de igual modo com o que estava instituído!
Como pode a beleza ser responsabilizada por tal?

A beleza é o reflexo de um raio de luz no cristal da nossa alma!

Telmo, o Marujo

Hélio, o Guardião das Portas Sagradas
- Não Telmo, tu já não és frágil. E, quanto às tentações e medos, dominá-los-ás como aprendeste. O espaço que alcançares depende do que tu decidires. Ninguém te imporá nenhum, é a tua liberdade e a tua intuição que decidirão.
- Acreditas que estou pronto?... então estou. Acredito hoje mais em vós do que acreditava em menino.
- Vem então, meu filho. – Hélio ergueu-se e fez um sinal para que eu o seguisse. Dirigimo-nos ao Portões Dourados.
Eu não escondia a emoção, não sentia medo porque me sentia protegido mas, conjecturava de mim para mim sobre o que haveria por detrás daquelas portas.
Com um gesto quase dramático, Hélio agarrou as maçanetas e puxou-as. Sem qualquer ruído elas abriram-se de par em par, deixando-nos passar para depois, se fecharem de novo.
Um vasto campo verde e amarelo estendia-se à nossa frente. Um caminho desenhado em arenito branco traçava-nos o destino. O ar que se respirava era puro, quase se sentia um sabor doce em cada inspiração. E, para minha alegria, o céu era azul! Azul forte como o azul luminosos da minha infância!
- Este é o campo do mundo onde os seres são apenas felizes. Aqui não há anseios, nem perguntas, nem decisões. É um espaço apenas que serve a contemplação e que permite ao espírito que se exercite. Esta é a estrada que nos leva à Casa da Luz Eterna. Ainda não poderás entrar nela mas, poderás apreciá-la de fora e, se passares as provas, poderás um dia ser seu convidado e repousares sob o seu tecto. Vem, vem visitar os seus jardins, sentar-te à beira dos seus lagos, beber, se quiseres, das suas fontes. Vem conhecer um pouco da felicidade suprema que te espera um dia.
Eu sabia que Hélio era um Seguidor da Fé, tal como Jerónimo, mas nunca me passara pela cabeça ser através dele que iria conhecer a Felicidade.
- Diz-me por favor: esta felicidade só é possível com o seguimento da Fé? Eu ainda a desconheço…
- Tu já conheces muitas coisas, coisas que te tens esquecido de recordar, a Fé é a certeza de todo o Conhecimento e de todo o Serviço. Lembras-te quando tu eras uma criança de te sentares na muralha da tua cidade à espera do navio que te levasse pelo oceano fora? Às vezes limitavas-te a observar mas outras vezes, descias até eles e tocava-os como se os afagasses. Lembras como acreditavas que um dia partirias num deles?
- Lembro-me… Foi há tanto tempo…
- Lembras da convicção com que defendeste o teu desejo e mesmo contra a vontade da tua mãe e pai, embarcaste?
- Sim, ninguém podia arrebatar-me o sonho…
- Lembras-te como viveste os momentos de confusão de toda a tripulação e arranjaste forças para resistir e desviares-te das ciladas?
- Sim, Hélio, lembro-me de tudo isso!
- Pois, meu amigo, foi a Fé que te guiou. A Fé que te deu argumentos e energia para alcançar o objectivo a que te propuseste. Quando acreditamos tudo é possível!
- No entanto eu não tinha fé no sentido religioso, pelo menos do tipo a que a religião de meus pais exigia. Uma fé feita de dogmas sem sentido e à revelia dos sentimentos!
-Os dogmas foram impostos por homens diferentes de ti. As razões da Fé não se explicam, só as das crenças, porque essas vêm de um passado longínquo que se transmitem de pais para filhos. Por isso não tinhas a que te agarrar e fizeste do mar a resposta à tua Fé.
Os valores desenvolvem a dimensão da Fé e ela, alimenta-os, sublima-os.
Hoje tens conhecimentos em que não usas somente os teus sentidos físicos. Que outros sentidos existem em ti e que proporcionam outras formas de percepção? Quanto mais evoluído é o ser vivente, mais ele utiliza esses sentidos subtis deixando que os materiais adormeçam. Com a Fé aprenderás a conhecê-los melhor e verás mais longe.
- E, é aqui, neste lugar que eu vou aprender a reconhecer a minha fé?
- Telmo, vieste aqui apenas para vislumbrar a tua felicidade e descobrir como podes escolher o cenário da tua nova vida. Eu dei-te no entanto, a felicidade que conheces. Sabia a saudade que tinhas do teu céu azul, dos espaços verdes e cultivados, dos caminhos de areia. Foi isso que encontraste. A felicidade é desenhada por nós mesmos, embora às vezes o não saibamos!
- Então eu posso perspectivar a felicidade com a inha imaginação individual?
- Sim, e com a Fé em a alcançares!
- Ah, Hélio, leva-me depressa a uma praia de águas azuis e verdes e deixa-me mergulhar nelas como outrora!