domingo, 10 de maio de 2009

Folhas soltas


Ad-Amin-Saul


I
É noite.
A cor da lua desnuda os corpos.
O silêncio corrompe os rostos.
Enquanto a brisa refresca.
O grupo evidencia a individualidade.

É noite.
Os homens não estão sós e não se confundem.
O grande espírito do deserto repousa sobre as rochas quartzianas.
Das túnicas agora secas desprende-se o odor do dia, do cansaço e da sede.
As mãos agora livres, esquecem-se no colo, aturdidas.
Já não há fome. Já não doem as pernas nem as costas no encosto do esquecimento da jornada.

É noite e vou ali!
II

Ad-Amin-Saul, poeta e contador das histórias dos seus avós, veste o branco sujo da poeira e calça nos pés as sandálias do caminheiro.
As barbas cinzento amareladas descem-lhe ao peito confundindo-se com os cabelos por onde passeiam gerações de piolhos.
Ad- Amin-Saul, já não tem idade.
Deixou passar o tempo...
Ali, iluminado pela lua, é mais um.
Perto de si dorme um dos seus filhos. É já avô. Depois os netos e os bisnetos.
Já não tem mulheres, enfastiou-se delas, e vestiu a pele da moralidade.
Ele é a voz da caravana, a voz do deserto ondulando.

Ad-Amin-Saul!

III

Vestem de lã e cobre. As mulheres
Remendam os trapos, cochilam, amamentam os filhos, catam os netos e falam suavemente num contínuo sussurro.

As mulheres.
Que o vento insulta e embravece são a continuidade.
Não têm honras, valem pouco mais que as cabras dos seus rebanhos.
Esperam o desejo dos homens. As mulheres.

Vestem-se da cor da noite.
Adornam-se de luar.
Enfeitam-se...
E enfeitiçam as areias que os pés dos homens pisam.
As mulheres!


IV

É cor-de rosa a manhã recém-vinda.
As dunas doiradas iluminam-se.

Ouve-se tosse, gritos, mescla de brados e risos, que o canto matinal acordou.
Enrolam-se os tapetes. Desmontam-se as tendas, desprendem-se os animais.
Voam abutres em redor dos restos.
Espojam-se os camelos.
Aliviam-se os úberes caprinos.

Alá seja louvado!

Canta Ad-Amin-Saul na direcção do berço solar.
Curvam-se os homens na oração.
De novo o dia.
De novo o deserto.

Marcha lesta a caravana!

V

Ad- Amin-Saul põe a mão direita sobre o ombro do primogénito.

Chegou a hora.
Não há tempo agora.

“ Segura tu meu filho a honra dos teus avós e deixa-me procurar o meu refúgio.
Alá prometeu-me a vida no oásis sagrado, onde as fontes brotam cristalinas e os frutos de doce sabor acalmam a vida de secura e fome.
Não há medo porque cumpri.
Orei e pratiquei o bem tal como o seu profeta, o Santo Maomé, nos ensinou.
Pega nos nossos rebanhos, nas nossas mulheres e nos filhos delas e, continua o teu caminho.
Já caminhei o necessário.
Agora és tu que segura o bordão.
Eu fico aqui.
O vento caridoso se encarregará de tapar o meu corpo com a areia que me empapou ao nascer.
O meu espírito não te seguirá pois encontrou já o seu repouso.
Vai!
Aí pela noite e pela manhã!
Aí pela tua pátria feita de panos!”

A caravana partiu.
O vento soprou.
O bando de abutres soube esperar.
A areia cumpriu o seu destino.

Alá seja louvado!

Histórias de mim para ti ou Histórias mágicas de reais acontecimentos


Estrela da Luz


Como hei-de começar a minha história sem dizer “Era uma vez…”, “há muito, muito tempo”… Ou ainda, “No tempo em que os animais falavam…”? Na verdade quero-vos falar de uma menina. Uma menina dos tempos de hoje que existe mesmo, que anda na escola, que brinca, chora e respira tal e qual como tu. Melhor, é do seu nome que quero falar, da forma como ele lhe foi dado e das consequências dele na sua vida e na dos outros.
Estrela da Luz tem um apelido da mãe e um apelido do pai como a maioria das pessoas, mas só quando vai à consulta é que a médica o diz completo, Estrela da Luz Ferreira Dias. De resto ninguém a chama assim, uns como a professora, dizem: Estrela, e acabou aí. Outros, como os avós e os tios, dizem: Estrelita. Só a mãe e o pai a chamam por Estrela da Luz. Seja como for, quem ouve o nome da menina pela primeira vez não pode deixar de estranhar, ainda mais porque ela tem um enorme sorriso luminoso a condizer. – Se calhar é filha de algum artista, ou poeta! - Dirão vocês - nada disso, a mãe trabalha num escritório de advogados e o pai numa sapataria. – Então, como é que eles se lembraram de lhe pôr esse nome? - Perguntarão com toda a razão. - Esperem lá um bocadinho que conto-vos já.
Uma noite, estava a mãe da menina a dormir e, como é natural, começou a sonhar. Sonhou com uma linda estrela cheia de luz que rodopiava sobre um berço quase igual ao que estava a ser preparado para receber o bebé, tão bonito foi o sonho que a mãe acordou, pegou na mão do pai, pousou-a sobre a sua grande barriga e acordou o marido: -“ Apresento-te a menina Estrela da Luz.” – O pai muito ensonado resmungou e disse:
- Como é que sabes que vai ser uma menina?
- Sei. – Respondeu a mãe com os olhos a brilhar e o bebé aos pulos dentro de si.
E pronto, quando a bebé nasceu, o pai não teve outro remédio senão pôr o nome escolhido pela mulher. E vendo bem, que outro nome lhe poderia ficar melhor? Ela era um sol nas suas vidas. A menina mais bonita que eles tinham visto na sua vida!
Estrela da Luz era como todos os bebés, fazia birras de sono, fazia cocó, fazia xixi, vomitava o leite, chorava de noite, depois começou a rir e a fazer. Bábábá, como todos! Mas para os pais ela era a mais limpinha, a mais sossegadinha, a mais esperta e, claro a mais bonita e simpática do mundo. Tal e qual como os vossos pais pensam de vós, não é?
Estrela da Luz crescia como todas as crianças mas numa coisa era realmente diferente. Sabia sonhar. – Grande coisa! Todos sabemos sonhar! – Responderão vocês. É verdade, mas sonhar como Estrela da Luz sonha, aposto que poucos saberão. Digo-vos isto porque sei. Porque tenho conhecido muitos meninos e meninas e porque também entendo um pouco de sonhos. Podem acreditar que ainda não vi ninguém sonhar como Estrela da Luz! Ela sonha quando quer, nem precisa de fechar os olhos, basta-lhe desejar… e são tão belos os seus sonhos!
Qual é a diferença dos sonhos de Estrela da Luz e os nossos? Bem… e se eu vos disser que quando ela sonha tudo se modifica para melhor, na realidade?
Dei por isso quando um dia fui jantar a sua casa convidada pelos seus pais, de quem sou amiga. A televisão estava ligada, a dada altura, no telejornal, falaram de uma família que vivia numa casa toda em ruínas, cheia de bichos, húmida e feia. Os meninos que lá viviam estavam sempre doentes, dois deles até se encontravam internados no hospital, os pais desempregados, não sabiam o que fazer e pediam ajuda.
Estrela da Luz, pediu licença aos pais para se levantar da mesa e foi sentar-se no sofá declarando que ia sonhar. E sonhou!
Nesse sonho, viu que um grupo bondoso de pessoas ouvira o pedido de ajuda e decidira limpar, consertar e pintar a casa. Que o dono de uma fábrica ali perto, oferecera um emprego aos pais e que estes, apesar de terem um ordenado baixo, podiam pelo menos fazer face às despesas do dia-a-dia. Também sonhou que os meninos melhoravam e haviam recebido roupa, livros e brinquedos novos.
Eu sei, eu sei que qualquer um de nós podia sonhar uma coisa parecida! Mas o que aconteceu é que ao fim de alguns dias, no telejornal, vieram dizer que a família agradecia a todos que haviam ajudado, e tudo se passara tal e qual como Estrela da Luz havia sonhado. Connosco isso não acontece, pois não? Pois com ela é sempre assim, quando sonha ajudar uma menina doente a curar-se, um velhinho solitário a receber a visita de um filho que vive longe, ou uma mãe a ter a casa limpa e arrumada quando chega cansada do trabalho, tudo se realiza.
É, Estrela da Luz só costuma sonhar para o bem-estar dos outros, para ela, só tem um sonho, adivinham qual é? É de um dia deixar de sonhar. Porquê? Por que isso significaria que toda a gente seria feliz!







As dores


Isto de estar meio imobilizada é tremendo! Eu que gosto tanto de andar de um lado para o outro, de dançar com o meu neto ao colo, de brincar com ele no chão, sinto-me completamente frustrada.
Da maneira que eu tenho estado nem sequer posso estar sentada a fazer os meus trabalhos de malha. Na rua, os meus passos são curtos e hesitantes, no computador só posso estar alguns minutos de cada vez.
Só damos valor às nossas capacidades quando as perdemos, mesmo que seja por alguns dias. Falo por mim e falo por todos. O nosso tempo fica recheado de suspiros e pena de nós mesmos e, quando isso acontece, perdemos o contacto com o mundo exterior. Passamos o tempo a olhar para nós, egoisticamente, vitiminizando-nos.
Ninguém gosta de estar doente, pois claro! Mas o que dizer daqueles que vivem sempre doentes? Daqueles que nascem já com limitações e convivem toda a sua vida com dores atrozes? Nem nos passa ela cabeça o seu sofrimento! A dor é mais dor quando está mais perto, principalmente quando é nossa!
Quero reagir, sacudir de mim a pena, quero voltar a cirandar sem medo que a dor me faça parar. Tenho que pôr a minha mente a funcionar, a escolher o melhor que a vida me dá. Até lá recuso-me a lamuriar!

Telmo, o marujo

Estela, a Esposa Sagrada


Ao fundo da alameda orlada de carvalhos divisava-se uma luz cintilante. Ainda não era noite, já não era dia.
Hélio, mostrava-se tão agitado quanto eu. Estela era a sua esposa, uma das damas que dirigia o Reino da Felicidade Suprema. Pelo que percebi era sempre um momento de grande emoção quando os dois esposos se encontravam. Até ali nunca tinha percebido que os Seguidores se casassem, senti curiosidade sobre o modo como o faziam e como viviam essas uniões.
- O casamento é um compromisso livre e espontâneo entre dois seres que se amam e se fundem no mesmo ideal. Estela e eu, num tempo remotíssimo, encontrámo-nos e percebemos que fazíamos parte da mesma unidade espiritual, que comungávamos dos mesmos objectivos e que fazíamos parte do mesmo traço de evolução. Comprometemo-nos então e tornámo-nos um ser uno e pleno que se manifesta em pólos complementares, o feminino e o masculino. Ambos seguimos o Caminho da Fé, um tem à sua responsabilidade as Portas Sagradas, o outro abre o Reino da Felicidade Suprema.
Sorri enternecido. O meu velho amigo parecia um adolescente apaixonado pela maneira como falava do seu amor privado.
Quando chegámos à clareira, ali estava ela! A mulher mais perfeita que vira até ao momento! Tinha contornos suavemente e femininamente arredondados. Estendeu os braços para Hélio e ambos se abraçaram num comovente enlaço. Desprendia-se de ambos uma espécie de raios de luz coloridos e sobre as suas cabeças, uma espécie de nuvem de um branco puríssimo, rebrilhava. As vozes confundiram-se numa só.
-Telmo, vês como é possível o verdadeiro amor e a felicidade? Tu que cresceste com os Seguidores do Serviço e do Conhecimento, atingiste a altura de conheceres a Fé e mergulhares no Mundo Pleno!
- O meu coração rejubila, o meu corpo impacienta-se, a minha alma está preparada, querida estela! – Respondi eu tão naturalmente como se estivesse avisado para o que me estava destinado!
- Meu jovem (a sua voz soou como gorjeio de pássaro) - Em breve voltarás à tua cidade. Não será fácil pois as provações serão constantes, mas temos a certeza que te sairás bem de todas elas. Usa como armas a prudência e a coragem. A Fé será a tua maior força, a tua ferramenta para cumprires o teu Serviço e completares a tua obra.
Não hesitei mas estremeci. Hélio e Estela confiavam em mim e eu desejava do fundo de mim mesmo jamais os desiludir.





sábado, 25 de abril de 2009

Mário Eloy Pereira
























































O Caminheiro


A vitória sobre os pássaros



1.O Mundo parou agora


O Mundo parou agora.
Acabou de se preparar para a reflexão.
Os sonhos adormeceram por enquanto e ficaram guardados atrás do alçapão da memória.
Neste momento inspira e expira para iniciar o transe. Devagar. Muito devagar, para que a transição se faça sem dor.
O tempo coalhou-se formando pequenos grânulos de nuvens. Já houve tempo em que o céu azul se rendilhava de branco! Hoje não! Agora é o próprio tempo que se inquieta.
Tudo permanece em silêncio. Um silêncio que fala sozinho consigo mesmo, onde a fronteira do que é real e do que é irreal se esbatem, como um horizonte, distante, estendido para além de tudo o que os sentidos físicos possam perceber.
Ali está ele levitando ligeiramente.
O pó debaixo dele comprime-se contra a terra.
Os ramos da árvore que o cobrem nem estremecem.
Nenhum insecto se atreve a perturbá-lo.
O seu corpo toma a forma da escultura que, esculpida e polida, se exibe em perspectiva de movimento. Não se desvia um milímetro da forma inicial.
Ele está e não está.
Para além de si próprio percorre em velocidade vertiginosa o espaço indimensionável.
Um espaço em que tudo o que acontece só é penetrável no seu espírito. A razão aqui não existe. É transportada no ar para mais tarde se materializar.
Mas há limites? Sim. O limite do querer que fica ainda desperto. Aonde vai?

Histórias de mim para ti ou Histórias mágicas de reais acontecimentos


As fadas



Vocês acreditam em fadas? Pois, eu acredito. Eu já vi fadas, já falei com elas, fadas a sério! Eu conto-vos como foi:
Um dia de manhã muito cedo, ainda o céu estava cor-de-rosa, resolvi fazer um passeio pelo pinhal que fica perto da minha casa. A princípio não aconteceu nada de especial, ia muito tranquila por um caminhozito de areia, acompanhada apenas pelos pássaros, alguns coelhos esquivos e umas quantas abelhas que teimavam em me cumprimentar. Depois, não sei porquê, assustei-me. Ouvi uns risos, umas cantilenas, umas vozinhas. Curiosa como sou, desviei-me do trilho e entrei pelo mato adentro. Não tinha dado ainda uma dezena de passos, quando à minha frente distingui perfeitamente, três lindíssimas meninas. Pareciam crianças, pelo menos pelo tamanho, estavam de mãos dadas fazendo uma roda, não deram logo por mim, por isso pude assistir àquilo que me parecia uma brincadeira. De repente, uma delas olhou para mim. Todas pararam e, depois de me observarem por uns momentos acenaram-me. Fui ter com elas, eram tão engraçadas!
Perguntaram-me em coro o que é que eu estava ali a fazer, e eu tentei explicar que andava a passear e que fora atraída pelas vozes delas. Acho que entenderam, mas uma segredou qualquer coisa às outras e a seguir pediram que me apresentasse.
- Bem, chamo-me Luísa, moro aqui perto, como é Primavera e o tempo está bom, resolvi apanhar o ar fresco da manhã.
- E tu não sabes que este lugar é proibido aos homens?
- Mas eu não sou homem, sou uma mulher! Não se nota?
- Quando dizemos homens, queremos dizer seres humanos. Não és um ser humano?
- Agora quem fica confusa sou eu! Claro que sou! E vocês o que são?
- Somos fadas! O que é que achavas que éramos?
- Fadas? Fadas a sério?
- É estranho…- disse uma que tinha o cabelo todo aos caracóis castanho muito escuros e uns olhos rasgados em forma de amêndoa.
- Lá isso é! Os humanos não costumam ver-nos… - acrescentou outra que tinha cabelos louros, muito lisos e compridos que faziam lembrar uma cortina de fios de ouro. Essa tinha os olhos redondos, tão azuis como o azul do céu em dis de Verão.
- Mas já que nos vê e nos ouve, penso que tem todo o direito de saber mais coisas sobre nós. – Decidiu a terceira que era ruiva, de cabelo cor de mogno separado em duas tranças que lhe chegavam à cintura e cujos olhos eram verdes, verdes como o fundo de uma lagoa.
Eu estava abismada, completamente boquiaberta. Não sabia se estava a a sonhar ou se era mesmo verdade o que estava a acontecer. Mas não dei parte fraca, mantive-me no meu lugar, direitinha, com o ar mais natural deste mundo.
Convidaram-me a sentar-me junto delas numas pedras que ali estavam.
Sentei-me. Então a fada do cabelo castanho apresentou-me as outras, indicando primeiro, a do cabelo louro e depois a do cabelo ruivo.
- Eu sou a Fada da Madrugada, esta é a Fada da Meia-Noite e esta é a Fada do Entardecer. Ficas já a saber que quando um homem, ou mulher, nos vê, tem o direito a receber um favor nosso. Portanto cada uma de nós vai conceder-te um desejo.
Devo ter aberto e fechado a minha boca e feito uma cara muito esquisita, porque as três começaram a rir às gargalhadas.
A Fada da Meia-Noite perguntou-me então que desejos, queria eu ver satisfeitos. Fiquei atrapalhada. Passamos a vida toda a ter desejos, a maioria, sonhos que nunca os vimos realizados e, agora, de um momento para o outro, as fadas propunham-se a realizar três deles. Nem sabia o que escolher…
- Despacha-te, daqui a pouco temos que nos ir embora. E não podes perder esta oportunidade!
Primeiro pensei em pedir saúde, trabalho e amor como toda a pessoa sensata, mas vi passar ao longe um cão com a perna a arrastar a perna ferida, sem medir o que ia pedir, desejei que o cão se curasse. A seguir reparei que grande parte do pinhal estava deserto por causa do incêndio do Verão passado e desejei que todo aquele espaço se transformasse num local muito verde e vivo, finalmente, reparei que quase não havia ninhos nas poucas árvores que sobreviveram e desejei que todo o pinhal se tornasse num paraíso para as aves e para todos os animais que ainda conseguiam viver ali. Fechei os olhos e as fadas desapareceram sem que eu desse por isso.
Quando os abri, ouvi o ladrar satisfeito do cão que corria para mim e me veio lamber as pernas e as mãos. Sorri porque ele tinha recuperado a sua perna. Voltei para casa e à hora do almoço, o meu filho mais novo chegou a casa muito excitado porque no local onde tinha havido o incêndio cresciam agora novas árvores. À noite, quando me preparava para fazer um serão, ouvi um leve batimento no vidro da janela da sala, era um enorme bando de pássaros que numa coreografia mostravam o seu agradecimento.
Confesso que as lágrimas me vieram aos olhos, e disse baixinho:
- Bem hajam, fadas amigas!
A partir daí passei a acreditar em fadas.
E vocês? Agora também já acreditam nelas?

25 de Abril


Já passaram tantos anos e eu nem tenho dado por isso!
Ainda não tinha vinte anos quando nesse dia de Abril acordei para uma nova vida.
Ontem fui a uma escola falar do 25 de Abril, é estranho mas ainda se me embarga a voz quando falo do primeiro dia de liberdade, do primeiro dia em que vi os portugueses acordarem e descobrirem que também tinham voz e podiam orgulhar-se do seu país.
Os meninos da escola que visitei são meninos de um bairro social, os seus pais não sabem muito de política, têm pouca instrução mas, quando lhes perguntei porque era tão importante festejar a liberdade, um deles soube responder-me que antes não havia.
Talvez eles não saibam o que é isso de liberdade e democracia, talvez não entendam ainda que a liberdade é o par de asas que nos deram para poder voar, que esse voo depende apenas de nós mesmos e que a rota que escolhemos é de nossa inteira responsabilidade.
Talvez eles não saibam que a democracia é mais do que ter eleições de tempos a tempos, que é uma maneira de estar na vida, de participar nela, de a construir mas… todos os adultos saberão?
Às vezes fico triste quando sinto a indiferença do povo português quanto à sua cidadania, quando sei que os movimentos neofascistas proliferam no centro norte da Europa e na Itália, que os homens que tiveram sonhos estão calados.
Às vezes assusta-me esta contra volta de pensamentos, preocupa-me os rugidos das hienas prontas a abocanhar de novo o poder, zango-me com a acção dos partidos políticos.
Mas… quando oiço Abril cantado por vozes infantis, o meu coração bate feliz e as lágrimas assomem discretas nos meus olhos.
Há esperança num Mundo Novo! E é isso que Abril nos trouxe!

Telmo, o marujo

Hélio, o Guardião das Portas Sagradas

Ele sorriu, passou sobre os meus olhos a palma da sua mão, e logo, uma brisa fresca e húmida me roçou!
Quando abri os olhos, estava pisando a areia dourada de uma praia beijada por ondas de espuma branca. Um grande sol amarelo estendia os seus raios sobre a superfície líquida azul e emprestava-lhe reflexos prateados.
Despi a túnica e corri para ele. Mergulhei de cabeça e quando emergi nadei furiosamente por todo o seu comprimento. Voltei a mergulhar e misturei-me com os cardumes que por ali passavam, afaguei cautelosamente alguns corais, só subia quando o meu fôlego se esgotava e nessa altura, lançava para o ar gritos selvagens de pura alegria.
Só depois de muito cansado é que regressei para junto do Guardião e me estendi no areal recebendo em cheio o calor meigo do meu astro amigo.
-Hélio, que mais posso eu desejar para estar em inteira harmonia com o Cosmos?
- Não sejas precipitado Telmo, volta aos poucos à tua consciência e vê dentro dela outros momentos de felicidade.
Virei-me de borco escondendo a cabeça nos meus braços, fechei os olhos e respirei com lentidão. Senti-me elevado.
Um alvoroço imenso veio até mim. Era um cais repleto de gente numa cidade que eu vagamente reconhecia. Deslizei até à amurada do navio em que me encontrava. Havia mais elementos da tripulação. Do outro lado do cais podia aperceber-me dos brados e acenos de familiares. Dada a ordem de desembarque, desci a prancha e pisei… a minha velha cidade.
- Hélio! - Gritei, como se tivesse acordado de um sonho. - É este o meu futuro?
- Está na hora de regressarmos, meu filho, vem, vem conhecer a minha esposa. Ela te dará a chave do teu destino.
Ergui-me e, como um rapazinho, falei de todos os meus sonhos, de todos os meus sentimentos, de todas as coisas que tinha guardado dentro de mim em todo aquele tempo que tinha vivido com os Seguidores.












sábado, 18 de abril de 2009

Chagall


Continua...