quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Caminheiro


O segredo


Um segredo é sempre algo que nos agita.
Ele não era diferente dos outros, depois de se emocionar com a história do velho e de se surpreender com a sua certeza em se encontrar consigo, pensou se seria digno de receber a sua mensagem. Por isso ficou calado!
O alquimista levantou-se e remexeu numa velha arca tirando dela várias lembranças até que chegou finalmente ao objectivo. Um pequeno e antiquíssimo livro. Cabia na palma da mão, tinha uma capa de pele endurecida e mosqueada, as folhas de pergaminho autênticas pareciam asas de borboletas sempre em perigo de se rasgarem!
O seu dono pegou-lhe com imenso carinho e, numa voz baixa e misteriosa, explicou:
- Este livro descreve em palavras o mundo que irá percorrer. Não é para o ler como se lê outros livros, deve apenas abri-lo ao acaso e ele aconselhá-lo-á. Mas...cuidado! A palavra tem sempre duas lâminas como numa espada, deverá sabê-la usar sem se ferir. Cada palavra tem um som. Um som que deve ser pronunciado correctamente, com ritmo, com harmonia, enfim com musicalidade! Se não o fizer a palavra deixa de ser a Palavra e pode enganá-lo. A palavra tem também um desenho próprio formado pelo grafismo das suas letras. Se se alongar ou encurtar demasiado os seus traços, o caminho passará a ser outro.
Pegue. Pegue nele e guarde-o consigo perto do coração. Leia bem sempre que precisar cada uma das suas palavras em voz alta, separando-as o mais possível para as reconhecer.
O homem pegou no livro com respeitosa reverência. As mãos tremeram-lhe um pouco, mas abriu a camisa e apertou-o ao peito. Olhou o ancião com um agradecimento sincero e profundo.
O dia lá fora estava bonito. Solarengo e morno. Suspirou. Estava na altura de se despedir. Voltou a expressar o seu agradecimento e, para seu espanto, o velho aproximou-se e beijou-o no rosto. As lágrimas correram-lhe então pela cara e, sorriu, sorriu por não sentir vergonha de amar aquele que servira de mestre.
Já na rua não se voltou para trás, firmou as pernas nos seus passos como se soubesse exactamente a direcção a tomar.
As dunas acenavam-lhe do horizonte.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Cego



Tu não reparas, não vês e não sentes
Que toda eu te anseio em ternura
Que neste sentimento a mistura
De mágoa e alegria, me tortura.

Tu não reparas, não vês e não sentes
Que me sobressalto a toda a hora
Que o meu espírito por ti chora
Calado no tempo da demora.

Tu não reparas, não vês e não sentes
Que despertaste em mim o alento
Que semeaste um sentimento
Que às vezes sozinha, chorando, lamento.

Não fora por ti não fora por ninguém
Porque antes de ti não há mais alguém
E porque és para mim último também.
Tu não reparas, não vês e não sentes.

O Evangelho de Íris


Vera

A verdade não é uma. Antes é una, porque é feita de muitas verdades que a completam.





O subúrbio da cidade é feito de lata e de madeira apodrecida que acoberta os homens.
Os seus trilhos são de lama mal-cheirosa mas servem de apoio aos passos cansados.
Os cães e os gatos disputam o lugar e ao mesmo tempo comungam do desalento.
No bairro das barracas há uma nudez que descobre as nódoas e os vincos das almas.
O horizonte do subúrbio é feito de estacas e silvas e fere...e fere...

Vende o seu corpo num bar da cidade. Uma troca que considera justa. Não finge o prazer nem disso é capaz !
Durante o dia serve outros senhores. Uma troca que considera injusta. Não finge o agrado porque isso não é capaz !
Vera é feita dessa verdade. Tem o corpo moído dessa escrava função. Mas mesmo nascida no lodo, Vera traz agarrado a si o cheiro das madressilvas do passado.
Vera recusa sempre a falsidade. Não entra na ilusão daqueles que mascaram a vida com químicos e éteres. Não se deixa embrulhar pela apatia dos que se defendem fugindo.
Vera é uma ponte que une o desejo à realidade. Sólida, ligação entre a vida e o sonho. A falta de esperança não a inibe, porque a sua esperança a empurra para a realidade quotidiana e a faz falar e agir com vigor.
Quem a rodeia não a teme. Vera não esconde nada. E ali é quase respeitada, quase amada, porque é nua, tão nua que se lhe vê a alma !

Quando Íris, Ofélia e Leonor entram no subúrbio, recebem dele o fedor da miséria. Pela primeira vez têm contacto com o pecado, mas não sabem o que é pecar. Recebem a esmola de quem nada tem para o seu sustento e, a indiferença que se molda nos rostos não as magoa. Na sua inocência não compreendem como pode a divindade estar presente ali ! No entanto, o vermelho espírito pairou sobre elas assinalando que aquele é também um lugar de recolha.
Sentadas no muro arruinado as três obedecem. Leonor tem nos seus olhos as lágrimas, Ofélia tem nas suas mãos o pão, e Íris no seu espírito, a vigia.
Esperam...

No crepúsculo da tarde, quando a luz do dia torna mais nítidas as formas, vêem Vera a regressar. Traz gravadas as expressões do dia. Os seus passos não se apressam nem se arrastam porque sabe que a esperam...
Quando se encontram, Vera é intuída pela voz da divindade:
- Viva quem de tão longe traz a Palavra e os Sentimentos. Não sei quem me guiou até vós, mas sei que em vós me completarei!
Íris levanta-se e sorri. Deita sobre ela a bênção do seu olhar e responde:
- Bem vinda sejas Vera. Esperávamos por ti. De nada vale a verdade senão ajudar o outro. De nada vale a verdade se não for vestida de compaixão e o inverso também é certo, a ajuda e a compaixão devem conter cada qual, parte da verdade.
- No entanto...- hesita pela primeira vez Vera- É visível a minha nudez. Nem sempre salvo com ela quem se ornamenta de ilusão e quase nunca a verdade se reconhece na Palavra.
- É para isso que aqui estamos. Para te levar connosco no caminho que nos indica a divindade.
Vera recebe de Leonor o sorriso e de Ofélia o seu abraço. Despede-se sem mágoa do bairro e descem o trilho que as conduzirá mais além.
A faixa vermelha do pôr-do-sol já escondeu o dia. Serão as estrelas e a Lua que a partir de agora as iluminarão.

O Caminheiro


Uma vida



Sabe, nasci nesta casa há setenta e oito anos. Foi herdada pelo meu pai de um tio solteirão que tinha fama de ser rico e avarento.
Os meus pais poderiam ter tido uma boa vida não fosse a doença da minha mãe. Nunca soube exactamente que tipo de doença era, só sei que me lembro dela passar os dias e as noites fechada no quarto aos gritos. Ás vezes escapava à vigilância do meu pai e fugia para a rua onde deambulava seminua.
Meu pai tratava-a pacientemente e com uma resignação única! Ouvi muitas vezes comentários maldosos à cerca da nossa situação mas nunca o ouvi queixar-se.
Talvez para me afastar desse ambiente, o meu pai enviou-me para o seminário. Tinha eu aproximadamente dez anos.
Naquele tempo era um estabelecimento de ensino acessível e com qualidade. Como eu era um garoto inteligente, obediente e sossegado, adaptei-me facilmente.
Quando acabei o correspondente ao ensino liceal, perguntaram-me se eu queria seguir a via sacerdotal e, até para surpresa minha, respondi claramente que não. Fui convidado a sair, está claro!
Entretanto a minha mãe falecera e o meu pai arrastava-se como podia aqui. Vim visitá-lo e falar-lhe da minha decisão. Não concordou nem deixou de concordar, limitou-se a falar de uma certa quantia depositada no Banco e no valor desta casa. Perguntou-me ainda qual era a minha ideia em termos de curso. Respondi-lhe que me inscrevera em Ciências. O meu pai acenou levemente a cabeça e sentenciou:
“- És tu que deves viver a tua vida. Por isso em nada te influenciarei.”
Fui pois para a Universidade. Os dois primeiros anos foram bem empregues, depois... depois entreguei-me aos desvarios, ás farras, deslumbrado com os novos amigos e o brilho da fama académica.
Levei quase sete anos a terminar a licenciatura e quando isso aconteceu não tinha um tostão no Banco.
Tive que me virar! Fui dar aulas para um liceu. Era mal pago, mas pela primeira vez comia o fruto do meu trabalho.
Foi por esse tempo que tive pela primeira vez contacto com uma organização de filosofia esotérica. Até aí nunca tinha pensado muito nesses assuntos, mas naquele momento senti uma necessidade enorme de compreender a minha própria existência.
Toda a doutrina aprendida no Seminário ficava-se pelo aspecto religioso, não me respondia, sentia-a como forma de repressão em vez de um meio de libertação das consciências. O meu espírito científico não se coadunava com dogmas.
Na altura em que frequentara a Universidade tinha-me assumido como agnóstico, era mais prático e ao mesmo tempo era uma espécie de reacção à educação que tinha tido.
No entanto, chegara o momento de perspectivar outro caminho. Só não sabia que esse caminho de busca era eterno, individual, evolutivo e extremamente doloroso no caso de o querer cumprir inteiramente.
Comecei como é evidente com conversas quase banais, depois pouco a pouco, um amigo aproveitou para me indicar alguns livros. Foi com um misto de curiosidade e desconfiança que os aceitei.
Ao começar a ler o primeiro não fui capaz de interromper, tudo era uma surpresa, uma revelação! A minha cabeça ficou um caos, mas o meu coração abriu uma porta que eu ignorava existir dentro de mim.
Falei com o meu amigo sobre os sentimentos que me assaltavam, a inquietação e o súbito reconhecimento da necessidade urgente de respostas a todas aquelas dúvidas que me haviam surgido.
Era como se uma comporta tivesse permitido uma avalanche de mistérios. E eu queria resolvê-los a todos! Com uma serenidade imensa, o meu amigo seleccionou as questões e as prioridades e ajudou-me a sistematizar a minha aprendizagem.
Ensinou-me sobretudo que livros daqueles não se liam assim de fôlego. Que capítulo a capítulo, parágrafo a parágrafo, frase a frase, palavra a palavra, eu deveria parar para, reflectir e meditar.
Confesso que me foi muito difícil essa aprendizagem. Naquele estado de ansiedade em que me encontrava era como parar a meio de uma corrida para recordar e reflectir sobre cada uma das minhas pegadas. Aprendi a anotar cada dúvida e cada pensamento que surgisse, aprendi a caminhar na corda bamba do pensamento sem me deixar cair.
Demorei quase dois anos recuando e recuperando, equilibrando-me!
Mas finalmente, estava preparado para ser um iniciado. Encontrei-me então numa casa situada num barro antigo da cidade. Uma casa por onde provavelmente teria passado milhares de vezes sem nunca suspeitar que estava destinada a pertencer ao meu destino.
Era uma bela noite de Verão. Jantamos ainda à luz do pôr-do-sol, tranquilamente, como se fôssemos tratar de assuntos vulgares. Depois, enquanto fumávamos, fizeram-me saber que uma das principais regras era o sigilo. Nesse tempo além de ser proibido pelo governo as “ seitas secretas”, também era arriscado passar por louco ou por feiticeiro. Assenti. Afinal quem era eu, acabado de entrar, que os contradissesse! Acima de tudo tinha que provar ser merecedor da confiança que depositavam em mim.
Quando se entra nestes ciclos dificilmente compreendemos a dimensão diferente que o conhecimento tem em relação aos conhecimentos adquiridos academicamente. A alquimia foi o ramo escolhido por mim para alcançar as respostas que procurava. E, a alquimia, é uma prática intensa que requer o treino da paciência e da persistência, aliadas a uma disciplina rígida da nossa conduta moral. É fácil sermos tentados a utilizar as nossas aprendizagens para resolver problemas comuns. É fácil sermos tentados pelo o nosso orgulho a destacarmo-nos dos outros. A primeira coisa que aprendemos é que tudo tem um tempo e uma medida certa que não depende inteiramente de nós. Mas o mais importante é que deveremos ser prudentes para não sermos enganados pela aparência. Sobretudo é preciso não uma, mas várias vidas de estudo intenso para se subir um degrau que seja. Descobrir o ouro alquímico é descobrir a perfeição espiritual e, essa não tem limites!
Uma guerra perdida, pensará você?! Talvez, mas repleta de pequenas batalhas que se vencem e nos dão o conhecimento. A “magia” aliada à manipulação dos elementos é uma forma de consubstanciar as ideias. Através dela chega-se à ciência perfeita porque agrega a física, a matemática, a química, a biologia, a ética. É a antiga filosofia, mãe do saber universal.
Enfim, apesar de tudo sou humano e, ao chegar aos trinta e cinco anos, senti-me de repente sozinho. Nunca me havia preocupado com esse aspecto até que conheci aquela que viria a ser a minha mulher. Foi uma revelação! Ela era a outra parte de mim. Conhecia-a por acaso. ( Como se o acaso existisse...), em casa de um médico meu conhecido que também fazia parte da organização.
Logo no primeiro olhar a reconheci. A ela aconteceu-lhe o mesmo. O curioso desta situação é que nunca falámos de amor, como se esse sentimento fosse tão evidente e conhecido de nós que nunca houve dúvidas. Era uma espécie de reencontro, sabíamos os dois o que esperar. Deste modo tivemos um namoro pouco convencional e no final do terceiro encontro propus-lhe casamento. Ela aceitou sem subterfúgios, era tão natural! Casámos precisamente três meses depois e foi nessa altura que lhe confessei que estava ligado a um grupo de estudos e que ela teria que me partilhar. Outra mulher talvez tivesse ficado assustada com a ideia, ou aborrecida... no entanto ela sorriu e disse-me que era melhor assim, porque aprenderia através de mim. Fiquei admirado com tanta compreensão mas com o decorrer do tempo entendi que afinal era ela que me ensinava a mim. No final do segundo ano apercebemo-nos que não poderíamos ter filhos. Não houve culpas e a minha mulher reagiu sentenciando:
-“ Se não nos é permitido ter filhos é porque teremos que amar de uma outra forma.”
Pedi transferência para o colégio da vila e viemos morar para esta casa. Eu ainda quis modificar alguns pormenores para a tornar mais cómoda, mas ela opôs-se dizendo que era nesta simplicidade que queria viver.
Começamos então a amar o nosso quintal. Plantámos árvores, fizemos a horta e o jardim. Construímos um pombal e umas colmeias. Aos poucos o nosso quintal foi-se tornando a nossa razão de viver, o nosso pequeno paraíso.
Eu continuava, como continuo, a trabalhar em alquimia. Ela entretinha-se neste lugar. Tudo o que fazia lhe dava prazer, nunca a ouvi dizer que trabalhava, mas sim, que se ocupava de...
Adoeceu há quatro anos, quis levá-la ao médico mas recusou-se. Disse-me que me preparasse porque estava na hora de nos despedirmos mais uma vez. Fiquei magoado e andei uns dias rabugento, sentia que me iam roubar um pedaço de mim. Mais uma vez, foi ela que me ensinou dizendo:
-“ Nada do que demos um ao outro pode ser tirado porque foi de alma para alma e não apenas de corpo para corpo.
Depois de partir ficarei contigo em cada canto desta casa, em cada flor do nosso jardim. Ter-me-ás quando comeres os frutos das nossas árvores ou os legumes da nossa horta. Afagar-me-ás quando afagares os nossos gatos, os nossos pombos. Cada átomo do ar que respiramos está aqui, no ar que ambos fecundámos. Um dia, quando tu partires também, e nos voltarmos a ver, perceberás como realmente somos um só!”
Partiu. Eu fiquei. Não lhe vou dizer que não sinto a sua falta, mas a recordação das suas últimas palavras acompanham-me.
As pessoas daqui nunca nos viram com bons olhos. Não estão habituadas à felicidade dos outros, nunca entenderam porque vivíamos no nosso mundo sem o partilhar com elas. Sabem que tenho um laboratório e então, na sua ignorância, chamam-me bruxo...
Não me preocupo. Afinal tenho a consciência que nunca os prejudiquei! Que falem, isso dá-lhes prazer!
Acho que estava à sua espera. Sabia que viria alguém ter comigo antes de terminado o meu tempo e que lhe teria que revelar algo. Obrigado por ter vindo. Obrigado por me ter escutado!
O que tenho que lhe dar é segredo. Um segredo que você usará da forma como entender. A responsabilidade é inteiramente sua e as consequências também. Percebeu?

domingo, 20 de dezembro de 2009

Misterioso




Para além dos mistérios e dos universos
Ondula esquivo o teu olhar de navegante
Em intensa, fantástica procura, constante
Vagueando no mundo das palavras em meus versos.

Cerrado no culto, qual solene oficiante
De ritos que esconjuram presságios adversos
Dominas meridianos e seus inversos
E fazes-te ao mar, como mareante.

Transportas, ainda mesmo que o não saibas dizer,
Arrastada, a indomável e estranha fera
Que se manifesta, tocando e me faz doer.

Enquanto que eu queda no porto da tua espera
Abrigo no colo aberto para te receber
A encarnação felina da enorme quimera.

O Evangelho de Iris


Leonor
Ainda que não se veja, a compaixão adormece as dores e suaviza os sofrimentos.




Leonor tem nos olhos o espelho do mar. É sua filha porque nasceu no barco que a viu crescer e que continua a ser o seu lar.
Dizem os homens da vila que Leonor tem pacto com a Lua, que aprendeu com ela o seu sorriso suave e que a luz do seu olhar aquece as almas tiritantes, que alumia a escuridão dos medos e domina as marés da revolta.
É mansa Leonor ! Tão mansa que o mar se encanta com ela !
Íris e Ofélia caminharam para a vila que se planta junto do mar. Recebem o seu cheiro como uma nova experiência, apetece-lhes mergulhar naquela imensidão bordada de ondas constantes. Têm os pés feridos da caminhada. Leonor vem até elas, chama-as para a beira-mar e lava-lhes as feridas com água salgada e beija-lhes os pés com meiguice.
Íris pergunta-lhe então:
- Queres tu espalhar a compaixão nos caminhos que percorrem o mundo e seguir-me para além de todos os carreiros?
- Quero. - Responde Leonor - Quero que o luar que habita em mim se espalhe na negrura dos caminhos.
- Queres tu com a tua compaixão ouvir todos aqueles que carregam fardos maiores do que eles ?
- Quero. Quero que o sal que se desprende de mim sare as feridas abertas dos que se queixam.
- Queres tu, juntamente connosco, levar a esperança e a caridade a quem desespera e sofre ?
- Quero. Quero que a liquidez do mar que me constitui envolva também os outros e que lhes naufrague o medo.
Então Íris junta nas suas as mãos de Leonor e Ofélia, pedem silêncio ao mar que é espelho do céu, as palavras. Fica parada no tempo da emoção e por fim murmura:
- Que a ajuda seja feita de compaixão e que a compaixão seja sempre de ajuda que ambas me sigam até à cidade onde a loucura dos tempos incendeia os vícios. Tu, Ofélia, sê a mão caridosa que segura e tu, Leonor, sê o sorriso que sustém o olhar de quem se sente perdido. Tornai-vos hoje filhas da divindade que nos indicará a jornada.
Ambas as discípulas se sentam agora no areal esperando com Íris, a Palavra.
Íris eleva a voz para as ondas e pede:
- Mar. Tu que és feito das águas do mundo; das fontes que correm para os ribeiros, dos ribeiros que enchem os rios, e que Te alimentam. Mar. Tu que és feito das lágrimas e do suor daqueles que se alimentam de Ti, diz-me o que tens a dizer !
Um búzio rola nas ondas e vem até junto delas, Leonor apanha-o e entrega-o a Íris que o coloca no ouvido e repete o seu recado, frase a frase com o vagar de quem medita:

- Felizes os que acreditam que um grão de areia os pode suster.
Eles sentir-se-ão seguros no seu caminhar.
- Felizes os que aceitam as tormentas sem revolta.
Eles também saberão sorrir à bonança.
- Felizes os que forem capazes de mergulhar na escuridão à procura de luz.
Eles encontrá-la-ão e serão por ela alumiados.
- Felizes os que sabem calar os seus segredos na caverna dos seus peitos.
Eles passarão a receber nessa caverna a voz do oceano que os tranquilizará.
- Felizes os que comparam o azul do céu ao azul do mar.
Eles estão no caminho certo.
- Felizes os que sabem que uma maré se segue a outra assim, sucessivamente, até ao fim dos tempos.
Eles serão eternos.
- Alegrai-vos pois porque vos escolhi como mensageiras da Palavra, do Socorro e da Compaixão.
Vós fareis parte de mim em pouco tempo.

As raparigas levantam-se e seguem pela marginal em silêncio. Ali os homens não tiveram medo. Ali a divindade não se vestiu de cor mas falou na língua do mar.
A cidade espera-as..

O caminheiro


Estranho contacto




A noite apanhou-o ainda no percurso.
A neblina envolveu-o criando um cenário de feitiço.
Não sabia onde estava, caminhava apenas tendo como orientação a cúpula de uma igreja longínqua levemente iluminada.
Daí a algum tempo os seus pés pisaram uma estrada. Era de terra batida, estreita e esburacada, mas tornava-se uma esperança de vida.
Uma casita aqui, outra além, e na escuridão acabou por encontrar uma pequena vila adormecida. Àquela hora não era provável que lhe dessem abrigo.
Por instinto encontrou a igreja que fora seu farol, recolheu-se num canto abrigado e adormeceu.
Sentiu que o abanavam com firmeza mas o seu corpo não respondia, estava entorpecido tanto pelo o sono como pelo esforço da véspera. Os olhos resistiam, cerrando-se ainda mais.
- Ó homem, homem! O que faz aqui a esta hora? Levante-se que ainda fica doente. Vá venha comigo, dentro da minha casa há um bom fogo onde se pode aquecer e um caldo acabado de fazer. Está a ouvir?
O calor prometido começou a despertá-lo, aos poucos foi reagindo, abriu as pernas e os braços, tornou a fechá-los e enfrentou o homem de idade avançada e magro que tinha na sua frente. A luz apesar de fraca deu para o observar. Tinha um rosto estranho, quase mítico, dele sobressaíam-lhe uns olhos escuros, muito vivos, um nariz e um queixo salientes e uma boca que se divertia discretamente.
- Então homem? O que faz por aqui? É forasteiro?
- Atravessei ontem toda a serra a pé e quando cheguei já não havia ninguém a quem pedir abrigo...
- Venha comigo, esta neblina dá cabo dos ossos de qualquer um. Eu moro já ali.
Ele levantou-se, as pernas doíam-lhe, tinha uma pressão incómoda na cervical. A posição em que adormecera fora castigadora. Atrás das passadas rápidas do homem, caminhou trôpego.
A casa ficava no outro lado do largo. Era relativamente pequena, na fachada havia apenas uma porta e um postigo. Quando entrou viu-se numa espécie de átrio empedrado e abobadado. O corredor em frente estendia-se até à cozinha. Pareceu-lhe ter entrado de repente num laboratório alquímico da Idade Média. A mesa comprida de madeira e mármore ocupava quase todo o compartimento, em cima dela estavam bicos de bisel, retortas, tubos de ensaio, toda a panóplia utilizada para experiências do género! Numa parede do fundo havia um forno encastrado, ao lado uma chaminé e uma lareira onde uma trempe suportava um caldeiro de ferro.
- Garanto-lhe que é caldo de hortaliça! Hoje não há sapos... ( riu o velho ao ver a sua cara de espanto)
- Parece que entrei noutro tempo!
- Sente-se, sente-se aí nesse canto.
- Se... se não se importasse gostava de lavar as mãos e... a cara.
- Além, olhe está a ver? Há ali uma pia, um jarro com água e sabão. Não tenho casa de banho. Para urinar saia essa porta que dá para o quintal. É o que lhe posso oferecer...
- Agradeço muito.
Saiu até ao quintal, para seu espanto viu um vasto espaço primorosamente cultivado. Havia desde árvores de fruto a ervas medicinais, passando é claro, pela horta. O sol começava a dar sinais de vida e todas as plantas estavam cobertas de orvalho.
- Que rico quintal o senhor tem aqui!
- Sou eu que trato dele. A sopa que vai comer é feita com legumes e hortaliças dele. Vai ver como lhe vai saber!
Lavou-se rapidamente e sentou-se à mesa. Um cheiro delicioso lembrou-lhe que já não comia há muitas horas.
O velho acompanhou-o, repetindo várias vezes e insistindo que ele ficasse à vontade.
Estava cansado, transpirava imenso, recostou-se na cadeira com a sensação de que ia desmaiar.
- Isso já passa, é da fraqueza. Deixe-se estar tranquilo.
O velho pegou nas tigelas e lavou-as. Veio sentar-se junto dele com as pernas esticadas para o lume. Acendeu o cachimbo e ofereceu-lhe. Ele recusou educadamente.
- Então já se sente melhor?
- Já sim, muito obrigado.
- Disse que tinha atravessado ontem a serra...
- Sim, precisava de fazer esse caminho!
- Os caminhos são para se cumprirem, e neles há paragens obrigatórias...
- O senhor é sempre assim tão hospitaleiro?
O outro riu. Uma gargalhada rouca de completa surpresa.
- Nunca me deram esse nome! A maior parte das vezes chama-me bruxo. É o preço de quem não se obriga a ser como os outros....
- É alquimista?
- Não, ainda não... vou dominando e transformando a matéria, mas dificilmente serei um dia alquimista!
- Vive sozinho?
- Que remédio! Enviuvei há quatro anos e não há por estas redondezas mulher que me ature!
- Afastou-se do mundo com o desgosto da perda?
- Não. Longe disso! Sabe, há muito tempo que não falo com ninguém. Pelo menos com alguém que valha a pena! Hoje estou bem disposto e penso que a minha história o ajudará.
- Porque diz isso? Não me conhece...
- Posso vê-lo como realmente é. A minha casa é uma paragem obrigatória no seu caminho.
- Talvez! Não tenho nada a perder!
O velho retirou do lume o caldeiro e pôs-se a fazer o café, com gestos regulares foi colocando as canecas e o açucareiro em cima da mesa.
Despejou o resto da sopa numa malga velha e assobiou. Três enormes gatos malhados apareceram de algures e atiraram-se à comida. O dono fez um afago a cada um deles.
O cheiro do café invadiu a cozinha e ambos se prepararam para o beber.
Depois de um demorado olhar, o velho começou:

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quero-te livre


Chagal
Com as asas abertas no limite do infinito
Querera eu ver-te planando sobre o destino.
No cimo de escarpas ao vento libertador
Querera eu ver-te dançando em seu redor.

Ver-te livre, livre, como águia ou falcão
Longe da rotina árdua da tua função.
Ou ainda, como onda em mar revolto,
Salpico de suspiro, salgado e solto.

Querera eu ver teu verde olhar desperto,
Teu sorriso endiabrado um pouco mais perto.
E sentir que os teus braços abraçavam viris
O universo inteiro, deixando-o feliz.

O Evangelho de íris


Ofélia

Há sempre um momento em que mesmo os mais fortes precisam de socorro e da ajuda do próximo.



Ofélia não tem sonhos. Mesmo que os tenha estão guardados no fundo do coração. Ofélia já não anda na escola, não conseguiu aprender mas dá em cada dia de vida uma lição de ajuda a quem a procura.
O corpo de Íris foi encontrado à porta da aldeia.
Trouxeram-na ao anoitecer ardendo de febre. Ofélia passa a noite a velar, refrescando-a, falando-lhe, tocando-a com o seu amor de menina.
Íris ouve-a, sente-se grata mas a voz parece ter-se perdido algures e não a encontra. Deixa que uma lágrima se solte e escorra na palidez do seu rosto. Com um dedo só Ofélia limpa a lágrima e limpa o medo.
A puberdade chega para Íris e estranha o seu corpo assim como estranha também aquele tagarelar à sua volta. O silêncio de Ofélia é agora cúmplice e doce. Não lhe faz perguntas somente deixa que as mãos lhe manifestem o carinho.
Aos poucos Íris começa a acreditar que a procuram. Dói-lhe, mas as palavras saem da boca sem pensar. Ofélia não entende as palavras mas compreende que a divindade de Íris não se reverencia, apenas se ama como se ama cada ser que existe.
O medo supersticioso dos aldeões começa a invadi-los.
Íris reconhece esse medo nos seus olhos, sabe que também terá de fugir daquele lugar.
Só tem em Ofélia a ajuda. Sabe que ela não a abandonará.
Procura ao amanhecer do Sol e ele no distante horizonte não lhe diz nada.
Procura no ribeiro as gargalhadas das fontes, mas só observa a água correndo apressada no seu destino.
Procura nas flores o seu perfume mas este mistura-se no ar com os outros cheiros e confunde-a.
Procura nos animais a sua alegria mas, eles enterraram-na nas luras mais profundas.
E as rochas estão sólidas, sem sorrisos, no mesmo lugar. Imutáveis. Só o medo dos homens é igual ao medo dos homens de Geração.
O espírito verde surge-lhe naquela manhã. Indica-lhe o caminho da estrada que a levará à vila. A estrada é mais larga que o carreiro mas não deixa de ser um caminho. Íris pede a Ofélia que a acompanhe, que deixe a aldeia para trás porque ali o medo torna os homens pequenos. Ofélia dá-lhe a mão, não se despede de ninguém porque os leva consigo na alma. Juntas iniciam a jornada. Em todas as estradas há um fim que se abre para uma nova aldeia. Em cada aldeia há homens que procurarão a palavra de Íris, a ajuda de Ofélia.

O caminheiro


Era manhã


Era manhã.
Nem ele nem ela dormiram a noite.
Fizeram amor sabendo que era a última vez.
Ela levantou-se e desculpou-se que tinha que ir à cidade.
Ele ainda perguntou se queria que a acompanhasse, mas ela calou-o com um beijo.
- Vai. Vai porque ficas. - Murmurou ela ao ouvido. - Para que a árvore possa dar bons frutos é necessário podá-la.
E saiu!
Saiu, deixando-o naquele quarto quente que o acolhera durante o Inverno.
Enrolou a esteira e a manta, meteu a roupa na mochila e desceu.
Fez alguns telefonemas e meteu o pouco dinheiro que trazia no bolso dentro da lata dos trocos.
Abriu a porta sem olhar para trás.
Em vez de tomar a estrada que o levaria até à cidade, preferiu seguir pelo carreiro que o levava à serra. O nevoeiro estava bastante cerrado, a humidade em breve trespassou-lhe a roupa e penetrou-lhe na pele. Era como se quisesse fazer parte dele mesmo! Escolheu as veredas traçadas pelos pés dos pastores da região. Elas o levariam a algum lugar. Já não fazia caminhadas há muito tempo e as folhas e os fetos molhados faziam-no escorregar com frequência. Agarrava-se aos ramos e arbustos naquela subida cada vez mais íngreme da montanha. A lama pesava-lhe nas botas, pegajosa... embora não conseguisse entrever animais, ele pressentia-os nas suas tocas, nos seus ninhos, nos seus charcos, e agradecia-lhes mentalmente a companhia.
Aos poucos a vegetação foi rareando dando lugar a grandes blocos de rocha desfeita, agrestes e traiçoeiros. Uma espécie de embriaguez tomou-o, ia marcando metas e investia todo o seu esforço em as alcançar. Quando o conseguia, parava, respirava profundamente e lançava o olhar para o pretérito despedindo-se dele com um grito selvagem.
O Sol acabou por vencer a resistência das nuvens, perfurou-as e surgiu amarelo e morno.
O vento no seu reino, fazia-se ouvir e sentir empurrando-o para o apressar.
Ele caminhava, sem sede, sem fome, sem cansaço...
Por volta do meio-dia atingiu o cume da primeira montanha. Então, olhando em redor, deu conta que dera o seu primeiro passo.
Ali estava ele no alto da serra, entre o céu que quase o tocava e o abismo que deixara. Entre a imobilidade do absoluto e a agitação de um vento teimoso e dançarino.
Ele estava ali. Ele!
O mundo revelava-se-lhe. Um mundo maternal, fecundantemente generoso! E chamava-se Terra!
Um repuxo? Não. Uma onda de sentimentos soltou-se do seu coração inundando-o, multiplicando-se em outras ondas que o tomavam por inteiro.
E ele... Ele fez a sua primeira oração:

Abençoada. Abençoada sejas tu, Terra Mãe
Porque te estendes assim em caridade,
Tudo de ti, por um imenso amor, vem.
Abençoada sejas por toda a eternidade!

Abençoado. Abençoado sejas tu, ó Sol
Porque aqueces a minha longa jornada,
Porque estendes sobre mim, o lençol
Que envolve, a minha alma cansada.

O dia ainda não tinha acabado. A sua visão estendeu-se para lá da imensidão dos montes e vales, de planícies... não havia caminhos traçados, seria ele a desbravá-los com a mesma força e tenacidade que o levara até ali. O seu passado ficava para Leste. Mesmo que a Norte uma cidade rica e poderosa o chamasse. Mesmo que a Sul uma praia dourada o convidasse. O seu caminho era em frente porque as montanhas ocultavam o fim.
Depois de alimentar o corpo e a alma, descansou, embalado pelo segredar dos ventos que o acarinhavam.
A tarde veio rápida e desceu sobre ele sem sombras.
Estava na hora de descer.