sexta-feira, 5 de março de 2010

O Evangelho de Íris


A cor




Íris veste no primeiro dia um manto vermelho, ergue a voz e começa:
- Falo-vos hoje do vermelho. Do fogo vermelho que purifica e transmuta o minério mais pobre do mais nobre metal. Este fogo de que vos falo é o fogo redentor, aquele que separa a ganga dos vossos preconceitos da vossa pureza mais profunda. O fogo alimentado pela sinceridade, essa frágil chama que ora queima ora se apaga. Deixai que a destilação se faça dentro das vossas almas. Não permitais que ela arrefeça, cristalizando em vós a hipocrisia. Sede vermelhos. Vermelhos como o fogo e dai às noites o primeiro raio de sol de cada dia.
Sede fortes. Sede vermelhos. Sede puros e sinceros. deixai que o fogo de artifício faça uma festa dentro dos vossos corações. Rejubilai com a cor.
Sede vermelhos!

Íris veste no segundo dia um manto laranja, ergue a voz e começa:
- Fresca e doce. Luminosa e quente. Eis a cor que envolve em gargalhadas sonoras a promessa do dia seguinte.
Que cor é esta que ri, que invectiva a força na coragem de prosseguir? Que cor é esta que aquece os peitos e doira os corações dos homens afastando-lhes o medo?
Laranja. A cor do centauro incansável lutando contra a ignorância e a superstição.
É laranja o rasto colorido das vitórias. É laranja!
É essa a cor que deveis agarrar quando as forças vos faltarem. É dela que deveis vestir para vencerdes os obstáculos quando o cinzento vos ameaçar sujar a alma.
Ai mordei de prazer essa cor! Ai sugai esse suco que vos dessedenta e vos alimenta!
E amanhã, acordareis revigorados, alegres, preparados!
Não esqueçais nunca o laranja, pintai-o em vossos horizontes. E vencereis. Vencereis.

Íris tem no terceiro dia sobre os ombros o manto amarelo.
É com ele que nesse dia a sua voz se ergue para começar o discurso:
- A generosidade da cor amarela estende-se para além de tudo quanto é concebível. Com ela acredita-se que se é eterno e essa crença gera a fé em nós mesmos. O amarelo é intenso. é fluído. E inflama-nos sem nos ferir.
Olhai, olhai só por momentos, o Sol. Aquele Sol que ao meio-dia se torna pleno. Vede como ele nos abraça, nos acalenta, nos amima. Doce e generoso Sol que sustenta a vida!
Os campos de trigo, ondulando suaves no nosso imaginário, alimentam-nos o corpo. O mel escorrente dos favos encanta-nos os sentidos, embriaga-nos com o seu cheiro meigo. O âmbar que protege dos tempos, os fósseis dos nossos avós mais remotos. A gema do ovo que guarda a herança genética das espécies numa ternura de mãe. O ouro incorruptível, que torna as memórias do passado presentes.
São amarelos... Estão amarelos...

A divindade assenta a sua força no espectro do vermelho, do laranja e do amarelo. Essa força propulsora da vida, combustível dos actos da humanidade.
O ouro alquimíco cambia estas cores no cadinho do projecto. A divindade é uma estrela dourada que deixa os seus raios tocar-nos. Cá dentro... Cá dentro no microcosmos de nossas vidas.
Brilhai. Brilhai, vós sois super-novas de vós mesmos!

O ciclo da força terminou. Mas a cor entende também a sabedoria, por isso no quarto dia Íris veste o manto verde e, prepara a Palavra:
- Tenho-vos falado da força, da energia que cada um pode acender dentro de si e inflamar a humanidade inteira. No entanto toda essa chama se pode apagar perante as barreiras da vida e, num momento, deixar que o cinzento volte a reinar.
Por isso hoje tenho que vos dar a conhecer o verde. O verde da maturidade que nos ensina a paciência e a prudência.
Lembrai-vos que são verdes as algas do mar, as copas das árvores, as ervas do campo! Lembrai-vos que a natureza é verde...
O verde é lento no seu desabrochar e antes que tome cor vive uma eternidade no seio da terra húmida e escura. Ele é a promessa de vida onde há o vazio.
A semente que realiza em si o milagre deixa que se estendam as suas raízes, apalpando meticulosamente cada espaço que o seu equilíbrio requer. O tempo não conta porque a prudência lhe ensina que sem segurança jamais crescerá.
Depois, sabendo bem o que quer, ergue-se, pacientemente, perfurando a camada que a separa do exterior, expõe-se então, em toda a sua pujança, aliada ao tempo, ornando-se de mais verde numa tarefa nunca acabada.
É o verde que vos assegura a realização dos vossos desejos. Sem ele perder-vos -eis no caminho do sonho.
Podeis enfeitar-vos de todas as cores, mas sob os vossos pés terá de haver verde para avançardes.
Não esqueçais o verde que vos suportará a vida.
Adubai e semeai na terra as sementes que se tornarão verdes um dia.

Aqueles que rodeiam Íris, diluem-se na cidade.
A Palavra leva os homens, a partir de agora, a verem-se com olhos interiores e a cegueira a que estão habituados é difícil de recuperar.
O quinto dia já se cansa na voz de Íris, que se encontra coberta pelo manto azul, a sua voz sai-lhe mais lenta, mas expande-se até ouvidos recuados:
O que está em baixo é como o que está em cima. A imensidão do céu reflecte-se na imensidão líquida da terra. Azul cetim, que acaricia as almas numa envolvente duplicidade equilibrando a vida! Tudo o que existe flutua em azul. Esta é a cor maternal que harmoniosa e justa, ama sem contrapartidas e sussurra o divino impelindo à ascensão.
O ameno azul cobre as cidades e lugares oferecendo-se a todos em alegria e paz.
Estar azul é um estado de espírito capaz de abraçar de uma só vez toda a humanidade e ao mesmo tempo clarificar os limites da nossa vontade. É o finito espaço da nossa existência...
É preciso que esvoaceis nesse campo de luz, que percorreis toda a sua extensão para poderdes conhecer a dimensão da verdade.
Subi, para além de vós e tornai-vos azuis.

Está rouca a voz de íris.

Quem a escuta, debruça-se sobre si e alerta o sentido da audição. Alguns, veladamente, dormitam sem perturbar.
O manto está a seus pés. É anil, cor da noite, da noite que aconchega aqueles que não ousam mostrar-se de dia.
O anil- diz Íris- é a cor da humildade e do desapego, aquela que torna vultos de cor igual, os diferentes passantes. O anil partilha a sua tonalidade com todos os espíritos que se soltam e mostram a sua nudez mais pura. Sem pejo, sem arrogância, tornando-os reais. As máscaras do dia estão penduradas nas portas da rua, e os rostos, aliviados, resplandecem de emoção.
A mesa comum é larga e os convivas aconchegam-se na procura do calor.
Comungam do pão comum e do vinho de uma só taça. Átrio da Graça, lugar dos humildes que alcançaram a esperança. Vestem o anil da igualdade vendo mais perto o que está longe.
É a noite da consciência, da tranquilidade, preâmbulo da exaltação final.
Tão fácil e tão difícil tornar anil o branco das almas!

O sétimo dia chegou.
Junto de Íris, as suas companheiras estendem-se, rodeando-a. Contemplam-na e tentam perceber nos seus lábios a Palavra que fecha o ciclo das cores.
O último dia, veste-a de violeta, a cor feita de bondade e de tolerância.
Hoje é último dia do reinado de Íris na cidade que a festejou.

A Força empolgou os homens mas a Sabedoria estremeceu-os e acobardou-os.
Muitos foram os chamados, poucos os escolhidos que acolheram a Palavra.
O violeta reveste-lhes as auras e coloca-lhes no rosto um sorriso beato. O êxtase coloca-os acima do solo de pedras e torna-os mais próximos do divino.
A voz de Íris já não sai da sua boca, sai-lhe dos seus olhos, do seu rosto, das suas mãos, de todo o seu corpo em expressão.
Junto delas duas novas personagens esperam entrar no círculo. São Constância e Ema, as raparigas da cidade.
A aurora vem aí. A rotina vem aí.
Mas primeiro é preciso expurgar o sonho, por isso os rumores da multidão já ameaçam o lugar.
Íris que tem sobre o estrado os sete mantos do seu reinado reconhece a hora da partida. Levanta-se com as suas companheiras e prepara-se para a jornada.
O violeta não foi ouvido.
O violeta só veste quem tem já em si as cores da força e da sabedoria e os homens esqueceram-se de algumas...
É preciso sair da cidade.

O Caminheiro


A água espelho de si




Tudo o que via à sua volta eram rochas batidas com violência pelo Oceano agitado. Não fazia sentido! Aquele pequeno texto deveria ser profético. Como deveria ele orientar-se? Talvez estivesse demasiado cansado! Acomodou-se então o melhor possível e fechou os olhos na esperança que a meditação o levasse à resolução do problema.
A princípio só conseguiu ouvir a cadência das ondas, os gritos das gaivotas, o rastejar de um ou outro lagarto e o gemido das conchas a abrirem-se, o estalar do sal sobreaquecido. Depois como se alguém lhe sussurrasse uma mensagem, ouviu: “por vezes o que procuramos fora está dentro.” Sobressaltou-se um pouco mas voltou a sossegar o espírito. E continuou a ouvir: “ O espaço é multidimensional. Não procures sempre em frente.” Abriu então os olhos e com maior atenção olhou em todas as direcções. Quando se voltou para trás e viu a escuridão da gruta pensou: O mundo continua para além do infinito. A negrura da entrada da gruta chamou-o.
Entusiasmado, arrumou tudo e entrou na sua profundidade. Nunca tinha explorado grutas mas não teve medo.
A passagem era estreita e as arestas arranhavam-no. Acendeu um coto de vela e a sua luz frágil assustou os pequenos animais que ali viviam. Entrou numa espécie de túnel apertado e húmido percorrendo cautelosamente esse espaço com a esperança a empurrá-lo. O túnel fez-lhe perder a noção do tempo. Só quando se sentiu completamente esgotado lançou um grito à divindade. O grito ecoou por um tempo indeterminado e de repente uma corrente de água respondeu-lhe. As forças dobram-se-lhe e arrastaram-no aos tropeções até ao limite.
O que encontrou fê-lo suster a respiração. Sentiu a cabeça andar à roda e os músculos agitaram-se independentemente da sua vontade.
Encontrava-se num átrio de forma oval onde cascatas de água cristalina se desprendiam de uma enorme altura alimentando um lago que ficava situado no semicírculo menor daquela área. Uma vegetação de algas e fetos forrava as paredes. A própria rocha era raiada de cores brilhantes por causa da variedade de minérios seus desconhecidos. Variavam entre o azul, o verde e o turquesa, passando por um rosa pálido. Sentiu-se dentro de uma concha de madrepérola! Havia uma ténue luminosidade que ele não soube explicar, pois de onde se encontrava não via nenhuma abertura, nem sequer uma racha por mais fina que fosse.
Entrara ele no reino?
Estendeu a mão direita e tacteou demoradamente a polidez da rocha. Não era exactamente fria, talvez um pouco húmida e pareceu-lhe até que emanava um calor morno, como se de um ser vivo se tratasse. Esse contacto enturbilhou dentro de si ideias e sentimentos contraditórios. Se por um lado era maravilhoso estar ali a contemplar o que homem algum contemplara, por outro sentia uma espécie de ansiedade que o incitava a vir para fora clamar por toda a gente e mostrar orgulhoso o seu achado.
Senhor de um segredo pela primeira vez, sentiu-se único. Todavia se aquele era o reino, teria que o explorar ainda mais, conhecer todos os seus detalhes, intelectualizar os seus receios e espantos.
A água molhava-o agora por inteiro, escorria do seu braço levantado para dentro da sua roupa e metade de si estava completamente encharcada. Num impulso de curiosidade, estendeu também a outra mão, encostou todo o seu corpo à parede curva e ficou debaixo da cascata que o baptizava com mistério. Passo a passo percorreu todo o perímetro da sala.
Tinha dado quase a volta inteira quando encontrou rente ao chão uma outra entrada. Deitou-se e espreitou para ver se havia alguma possibilidade de descer. A abertura era triangular e o seu corpo cabia embora com algum esforço e habilidade. Primeiro enfiou as pernas balançando-as para ver se encontrava algum apoio. Não havia. Voltou a sair e debruçou-se desta vez de cabeça para baixo. À medida que os seus olhos se habituavam à escuridão, pode vislumbrar uma espécie de rampa diagonal por onde, arrastando-se e contorcendo-se, conseguiu finalmente deslizar. A descida era lenta e não fazia a menos ideia do que iria encontrar. Uma luz difusa indicou-lhe então a saída, ultrapassou-a ofegante.
Quando atingiu o outro lado entrou num mundo novo e desconhecido. Pareceu-lhe uma cidade. Centenas de pessoas andavam de um lado para o outro atarefadas nos seus afazeres diários. Pelo aspecto pareciam de um outro tempo, de um outro espaço, as suas roupas e calçado lembravam as gravuras que tinha visto num museu e que retratavam cenas da Idade Média, contudo possuíam apetrechos e tecnologia bem recente. Ouvia-os falar numa língua estranha e admirou-se com a agilidade dos seus movimentos. Aproximou-se delas mas ninguém parecia notar a sua presença. Quis chamar a atenção gesticulando, mas nada do que fizesse parecia ter resultado. Numa das ruas havia uma loja com caixotes de fruta à porta, ao ver tão belas maçãs sentiu-se salivar pegou numa delas para a levar à boca, mas ao fazê-lo a sua imagem desfez-se. ficou surpreendido e esfomeado, voltou a repetir o acto anterior com outros frutos mas tudo se desvanecia...
Pareceu-lhe uma tortura. Um pesadelo! No entanto a sua fome e o seu cansaço eram bem reais. Deambulou desesperado pela cidade e por todo o lado sentiu que não existia. Completamente exausto regressou à gruta. Não a encontrou. Então como um menino, chorou, chorou convulsivamente, gritando, batendo-se, insultando-se...
Caíra na armadilha dos Magos!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Profundo



Profundo
Tão fundo!
No submundo
Deste mundo...

És, no meu lodo semente
E deixas que ela dormente
Germine alegremente.

Alimento-a de mim em tuas águas
E faço com que as raízes me rasguem as mágoas.

Um dia, quando de mim restar o nada,
Ficará uma história
Que esvoaçará pelo vento, espalhada,
Ou se diluirá na chuva, ou na enxurrada.

Tu continuarás a viver contente
E eu virei ver-te, suavemente.

O Evangelho de Íris


A cidade


A cidade é um mundo próprio onde se misturam aqueles que procuram o seu clã.




A cidade está em festa. A festa durará a semana toda e receberá visitantes de todos os lados. Será uma semana que ficará guardada junto das outras semanas da sua recordação. Os anos contam-se através delas...
As ruas enfeitam-se de cores que iluminadas durante a noite se transformam num universo fantástico. Aspergida, a música envolve-se com os risos e enche os ouvidos de todos em qualquer lugar. Os cheiros das guloseimas e petiscos misturam-se ao suor e aos perfumes entontecendo quem o respira.
Nesta confusa alegria fabricada os homens despem o seu ar quotidiano e vestem-se de domingueiros fatos encontrados no baú das suas almas. Ébrios de gozo reinventam sortilégios e exorcizam os fantasmas dos outros dias. Juntam-se em pequenos magotes que sobem e descem as artérias, parando aqui e ali, dispersando-se ou aglutinando-se em outros grupos. Empurram-se, pisam-se, magoam-se, mas sempre com risos de cumplicidade.
O ano tem cinquenta e uma semanas cinzentas e aborrecidas, porque não uma vez por ano, haver uma que seja diferente para a festa?!

Este é o primeiro dia da primeira semana. É da tradição coroar o milésimo visitante e pô-lo a reinar durante sete dias. O povo excita-se com o acontecimento, vai esperá-lo à porta da cidade formando duas alas enormes adornadas de flores. A ansiedade aumenta enquanto os responsáveis gritam os números:
Novecentos e noventa e sete...
Os pescoços erguem-se, os olhos amiúdam-se no esforço de focar.
Novecentos e noventa e oito...
O silêncio parece imperar para que os ouvidos possam detectar.
Novecentos e noventa e nove...
Nas gargantas formam-se nós e a saliva enche as bochechas de excitação.
- Vem aí! Vem aí!
O foco principal ilumina o caminho de cinco personagens.
- É uma rainha!
- É uma rainha!
Montada num burrinho, Íris é ovacionada, colocam-lhe sobre a cabeça uma coroa de flores. O percurso até ao palanque do trono é atapetado por colchas de mil cores.
Aplausos. Gritos. Assobios. Aplausos.
- É a rainha!

Íris senta-se no trono macio colocado no cimo do palanque. Reinará durante sete dias. A sua Palavra será ouvida por toda a cidade. Durante sete dias aquele será o seu povo, como manso rebanho a seus pés, escutará a flauta da pastora.
A Sétima de Tamara da longínqua Geração, tornou-se hoje na milésima, a rainha da cidade.
O carreiro espinhoso revela-se agora num tapete colorido que a conduz ao trono.
E o silêncio de outrora, opressivo, é neste momento um silêncio reverente e terno.
Íris traz a Palavra. A Palavra daquele que gerou a vida.
A Palavra formada por todos os sons da música universal.
Quem a quiser ouvir, cale a sua própria voz e oiça.
Íris traz a emoção. A emoção feita de todos os sentimentos que vivem na alma de todos os seres.
Quem quiser sentir, aquiete o seu coração e, sinta.
O coro de apoiantes brame de inquietação e deixa que o ar estremeça de euforia, um coro que vibra da Terra ao Céu e do Céu à Terra.

Íris volta-se para as suas companheiras e diz-lhes baixinho:
- É só uma semana. Depois os ouvidos, os olhos e os corações tornarão a ser como eram, tal como o azeite voltará à superfície a sua mesquinhez e, ela manifestar-se-á nos homens com crueldade.
- É só uma semana!

O Caminheiro


A irreflexão




Toda a manhã arrastou os passos pelo terreno cada vez mais arenoso do lugar, ás vezes era interrompido por zonas de rochas e aproximava-se perigosamente do mar bravio que rugia lá em baixo, outras sentia a áspera dureza de um solo estéril que se recusava a dar mais do que espinhos e cactos.
O dia prolongou-se naquele desânimo e à noite dormiu ao relento aninhado num buraco de rochedo. Só no final do dia seguinte encontrou um casal composto de meia dúzia de casas que mais pareciam cabanas, pois estavam construídas de adobe e cobertas de folhas de palma amarelecidas. Entrou no terreiro e gritou um “faz favor” esperando que alguém o atendesse.
Uma mulher de meia idade saiu de uma das casa e pôs a mão em pala sobre os olhos por causa do sol baixo que incidia nela.
Educadamente, ele pediu para mudar a água do cantil e descansar ali naquela noite.
A mulher mostrou-lhe o poço que ficava nas traseiras e avisou-o de que a água não era grande coisa, mas que se servisse à vontade! Depois explicou que os familiares andavam nas rochas a apanhar lapas e que só viriam mais tarde. O único espaço disponível era uma espécie de barracão feito de lata onde estavam guardados alguns apetrechos de pesca e por ironia umas alfaias agrícolas que nunca deveriam ter sido usadas. Disse-lhe ainda que se servisse sem acanhamento das cebolas pois não tinha pão, mas com sorte talvez os seus irmãos e filhos trouxessem alguns peixes.
Ele agradeceu a boa vontade da mulher. Entrou no barracão e pousou o saco e a manta sobre uma trave baixa. O cheiro violento da maresia e mofo misturado com o das cebolas quase o sufocou. Lá estavam elas penduradas em réstias douradas! Era aquela a fortuna daquela gente!
Saiu o mais depressa que pode e respirou fundo, em seguida bebeu um gole de água. Era amarga!
A mulher já devia estar ocupada, o silêncio abafava tudo. Sentou-se no chão com as pernas estendidas e, fechou os olhos. Não pensava em
nada, não sentia sono, mas o cansaço dos últimos tempos provocava-lhe um certo torpor.
Algum tempo depois, cinco homens, três mulheres e seis crianças faziam a sua aparição. Vinham carregados de latas. A mulher saiu-lhes ao encontro e esteve a falar um pouco com eles apontando furtivamente para o lugar onde ele se encontrava. Podia perceber o abanar de cabeça de um dos homens em gesto de assentimento.
Depois as mulheres e as crianças entraram dentro das respectivas casas e os homens espalharam sobre uma espécie de peneira o marisco apanhado. Aquele com quem a mulher tinha falado veio até ele vagarosamente.
Ao vê-lo levantou-se e encarou-o, era difícil determinar-lhe uma idade. As rugas profundas partilhavam o rosto com um olhar negro, brilhante e jovem. Cumprimentaram-se formalmente, o chefe de família reiterou a oferta da irmã e convidou-o a colaborar na preparação do marisco. Ele aceitou, e depois de algumas explicações úteis desempenhou a tarefa com desembaraço. As mulheres acenderam o fogo cá fora e trataram do resto .
Comeram em silêncio, naturalmente, todos pareciam poupar as palavras, até as crianças se mantinham numa gravidade pouco usual.
A seguir os homens entraram no barracão e começaram a organizar as coisas para o dia seguinte. Com algumas redes acamadas fizeram-lhe a cama e despediram-se dele com simpatia.
Ao contrário do que havia pensado, adormeceu quase instantaneamente e acordou no dia seguinte com o ranger da areia debaixo dos botins dos homens. Levantou-se rapidamente, colocou as redes sobre as traves como as vira penduradas na véspera e saiu para o terreiro.
Pediu aos outros que lhe indicassem o caminho do mar. Eles acederam convidando-o a acompanhá-los até lá. Despediu-se das mulheres que nesse dia ficaram em casa e juntou-se ao grupo masculino. Os passos firmes e regulares levaram-no então aos primeiros rochedos. Foi ali que se separaram. Cada um dos homens procurou o seu lugar habitual, ele seguiu em direcção ao poente.
Era difícil a caminhada, tinha que escalar com frequência algumas rochas e em equilíbrio precário deixar-se escorregar por outras para atingir plataformas deslizantes. As mãos já lhe sangravam e os pés cortados por conchas e arestas ardiam com o sal. Tinha tirado as botas para melhor sentir o terreno, mas não estava certo se tinha feito a melhor opção! A meio da manhã encontrou uma gruta suficientemente espaçosa para descansar. Estaria ele no caminho certo?
Tirou então o livro que o alquimista lhe havia dado e abriu-o ao acaso:

“ Depois das montanhas ao Reino chegarás.
As fontes se tornarão em profundos lagos
E neles, debruçado e atento, encontrarás
As imagens sábias dos Grandes Magos.
Elas te indicarão o rumo a seguir.
Mas deves reconhecer também os enganos!
Pois os Magos gostam por vezes de se rir
Daqueles que por vaidade se tornam ufanos.”

Sorriu. À primeira vista pareceu-lhe uma charada. Uma espécie de jogo de crianças. No entanto soube que estava cedendo ao orgulho e retrocedeu na sua avaliação.
Ele tinha já atravessado as montanhas mas, o reino que encontrara não tinha fontes nem lagos! Teve dúvidas. Seria por ali a sua caminhada? E se fosse um engano? Talvez algum dos Magos se estivesse agora a sorrir...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Longa



Longa é a noite no meu sono inquieto
De fantasmas ruidosos perpassando
De palavras soltas, livres, penetrando
Na vigília do desassossego secreto.

Longa é a noite no meu sono cansado
Feito de mil voltas em busca de nada.

O Evangelho de Íris


Andreia


A coragem não se lança do alto até ao abismo, antes, é a voz do abismo que chega ao alto.





À porta da cidade está um circo. Um circo pobre de lonas remendadas e cores desbotadas de onde transpira uma música roufenha de altifalantes cansados.
O circo é o lugar privilegiado da Palavra. A Palavra que torna todas as cores e todas as formas em estrelas que encantam e seduzem na sua simplicidade. É também onde a coragem transforma em alegria o dia a dia cinzento de cada um. O circo é o lugar de Andreia.
Andreia como todos os outros da grande família, veste e despe os personagens numa corrida. É necessário parecer mais do que são. Camuflar a carência com a exuberância e lutar contra a monotonia que os invade tantas vezes.

O burro que Andreia monta, ungulado, torna-se um puro sangue. Ama-o apaixonadamente, deixa escorrer lágrimas emotivas sobre o focinho penugento, só não fala porque a natureza lhe não deu órgãos de fonação. O olhar compensa-o.
O burro de Andreia troteia ao som da música. Balança as crinas prateadas no bailado de homens. Deixa que Andreia o monte e o comande com uma ternura quase paternal.
Andreia serve esse amor com a mesma força. Os muitos irmãos e os muitos primos não lhe deixam espaço. Só o burro cinzento e amigo lhe reserva um lugar no seu carinho. O burro é toda a sua família, todos os seus bens. É o veículo da sua afectividade e impõe-se para além de toda a comunidade.
O burro de Andreia é a sua força materializada.

Andreia trapezista amarra o medo nas cordas no trapézio, sorri como fada e lança-se no vazio das suas emoções esquecendo as asas... Naquele desafio diário, Andreia disciplina a coragem. O balanço das cordas não permite hesitações. O espaço que as suas mãos agarram é o espaço que determina a vida.
O medo de Andreia nas suas pernas trepadoras, fica colado às cordas do alto. É preciso saltar, saltar, saltar e voar dando a ilusão que é possível tornar o sonho material.
O trapézio de Andreia fica no alto e a fantasia e a emoção dos outros fica em baixo, na arena da realidade...
Andreia palhaço limpa as rugas dos rostos contraídos. Limpa não, substitui-as por duas imensas pregas que dão forma às gargalhadas.
Andreia palhaço ri dos outros e de si própria e guarda no seu bolso mais fundo do casaco quadriculado, os sofrimentos e a fome.
Andreia palhaço faz nascer rosas nos lenços de várias cores e oferece-as a todos os presentes.
Andreia no rosto de palhaço tem as cores da vida, os traços da ilusão e o amargo da sua língua na garganta encolarinhada.
O palhaço é um anjo. Um anjo semi-deus que faz a ligação entre os homens e o Gerador.
A divindade fala pelo palhaço de Andreia.

Íris e as suas companheiras que entram pela fenda lateral e compreendem a sua linguagem, sorriem de felicidade e dizem:
- Como pode o circo alegrar-nos assim ? Como pode ele trazer esta vontade de ser feliz ?
Andreia que veio cumprimentá-las responde-lhes:
- Porque o circo é a voz que sai do abismo das nossas almas e nos faz ouvir a sua linguagem !
Íris, então, pousando a sua mão no ombro de Andreia, com suavidade convida-a:
- Vem Andreia, traz o circo que tens dentro de ti ao nosso grupo de párias. A Palavra só tem sentido se for gritada além de nós mesmas. És tu que tens o som dela no teu peito.
Andreia que tem preso pela arreata o seu burro, pergunta:
- Posso eu levar aquele que me dá força para gritar ?
Íris olha a abóbada de cores e durante alguns momentos espera a resposta. Por fim exclama:
- Será justo tirar a alma ao corpo quando este se confunde com ela ? Vem, traz o teu burro que faz parte de ti. A cidade está perto e a jornada está por acabar.
Fora da tenda que se desmorona, as cinco deixam-se rodear pelo espírito do conforto e entram na cidade...

O Caminheiro


O segredo


Um segredo é sempre algo que nos agita.
Ele não era diferente dos outros, depois de se emocionar com a história do velho e de se surpreender com a sua certeza em se encontrar consigo, pensou se seria digno de receber a sua mensagem. Por isso ficou calado!
O alquimista levantou-se e remexeu numa velha arca tirando dela várias lembranças até que chegou finalmente ao objectivo. Um pequeno e antiquíssimo livro. Cabia na palma da mão, tinha uma capa de pele endurecida e mosqueada, as folhas de pergaminho autênticas pareciam asas de borboletas sempre em perigo de se rasgarem!
O seu dono pegou-lhe com imenso carinho e, numa voz baixa e misteriosa, explicou:
- Este livro descreve em palavras o mundo que irá percorrer. Não é para o ler como se lê outros livros, deve apenas abri-lo ao acaso e ele aconselhá-lo-á. Mas...cuidado! A palavra tem sempre duas lâminas como numa espada, deverá sabê-la usar sem se ferir. Cada palavra tem um som. Um som que deve ser pronunciado correctamente, com ritmo, com harmonia, enfim com musicalidade! Se não o fizer a palavra deixa de ser a Palavra e pode enganá-lo. A palavra tem também um desenho próprio formado pelo grafismo das suas letras. Se se alongar ou encurtar demasiado os seus traços, o caminho passará a ser outro.
Pegue. Pegue nele e guarde-o consigo perto do coração. Leia bem sempre que precisar cada uma das suas palavras em voz alta, separando-as o mais possível para as reconhecer.
O homem pegou no livro com respeitosa reverência. As mãos tremeram-lhe um pouco, mas abriu a camisa e apertou-o ao peito. Olhou o ancião com um agradecimento sincero e profundo.
O dia lá fora estava bonito. Solarengo e morno. Suspirou. Estava na altura de se despedir. Voltou a expressar o seu agradecimento e, para seu espanto, o velho aproximou-se e beijou-o no rosto. As lágrimas correram-lhe então pela cara e, sorriu, sorriu por não sentir vergonha de amar aquele que servira de mestre.
Já na rua não se voltou para trás, firmou as pernas nos seus passos como se soubesse exactamente a direcção a tomar.
As dunas acenavam-lhe do horizonte.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Cego



Tu não reparas, não vês e não sentes
Que toda eu te anseio em ternura
Que neste sentimento a mistura
De mágoa e alegria, me tortura.

Tu não reparas, não vês e não sentes
Que me sobressalto a toda a hora
Que o meu espírito por ti chora
Calado no tempo da demora.

Tu não reparas, não vês e não sentes
Que despertaste em mim o alento
Que semeaste um sentimento
Que às vezes sozinha, chorando, lamento.

Não fora por ti não fora por ninguém
Porque antes de ti não há mais alguém
E porque és para mim último também.
Tu não reparas, não vês e não sentes.

O Evangelho de Íris


Vera

A verdade não é uma. Antes é una, porque é feita de muitas verdades que a completam.





O subúrbio da cidade é feito de lata e de madeira apodrecida que acoberta os homens.
Os seus trilhos são de lama mal-cheirosa mas servem de apoio aos passos cansados.
Os cães e os gatos disputam o lugar e ao mesmo tempo comungam do desalento.
No bairro das barracas há uma nudez que descobre as nódoas e os vincos das almas.
O horizonte do subúrbio é feito de estacas e silvas e fere...e fere...

Vende o seu corpo num bar da cidade. Uma troca que considera justa. Não finge o prazer nem disso é capaz !
Durante o dia serve outros senhores. Uma troca que considera injusta. Não finge o agrado porque isso não é capaz !
Vera é feita dessa verdade. Tem o corpo moído dessa escrava função. Mas mesmo nascida no lodo, Vera traz agarrado a si o cheiro das madressilvas do passado.
Vera recusa sempre a falsidade. Não entra na ilusão daqueles que mascaram a vida com químicos e éteres. Não se deixa embrulhar pela apatia dos que se defendem fugindo.
Vera é uma ponte que une o desejo à realidade. Sólida, ligação entre a vida e o sonho. A falta de esperança não a inibe, porque a sua esperança a empurra para a realidade quotidiana e a faz falar e agir com vigor.
Quem a rodeia não a teme. Vera não esconde nada. E ali é quase respeitada, quase amada, porque é nua, tão nua que se lhe vê a alma !

Quando Íris, Ofélia e Leonor entram no subúrbio, recebem dele o fedor da miséria. Pela primeira vez têm contacto com o pecado, mas não sabem o que é pecar. Recebem a esmola de quem nada tem para o seu sustento e, a indiferença que se molda nos rostos não as magoa. Na sua inocência não compreendem como pode a divindade estar presente ali ! No entanto, o vermelho espírito pairou sobre elas assinalando que aquele é também um lugar de recolha.
Sentadas no muro arruinado as três obedecem. Leonor tem nos seus olhos as lágrimas, Ofélia tem nas suas mãos o pão, e Íris no seu espírito, a vigia.
Esperam...

No crepúsculo da tarde, quando a luz do dia torna mais nítidas as formas, vêem Vera a regressar. Traz gravadas as expressões do dia. Os seus passos não se apressam nem se arrastam porque sabe que a esperam...
Quando se encontram, Vera é intuída pela voz da divindade:
- Viva quem de tão longe traz a Palavra e os Sentimentos. Não sei quem me guiou até vós, mas sei que em vós me completarei!
Íris levanta-se e sorri. Deita sobre ela a bênção do seu olhar e responde:
- Bem vinda sejas Vera. Esperávamos por ti. De nada vale a verdade senão ajudar o outro. De nada vale a verdade se não for vestida de compaixão e o inverso também é certo, a ajuda e a compaixão devem conter cada qual, parte da verdade.
- No entanto...- hesita pela primeira vez Vera- É visível a minha nudez. Nem sempre salvo com ela quem se ornamenta de ilusão e quase nunca a verdade se reconhece na Palavra.
- É para isso que aqui estamos. Para te levar connosco no caminho que nos indica a divindade.
Vera recebe de Leonor o sorriso e de Ofélia o seu abraço. Despede-se sem mágoa do bairro e descem o trilho que as conduzirá mais além.
A faixa vermelha do pôr-do-sol já escondeu o dia. Serão as estrelas e a Lua que a partir de agora as iluminarão.