domingo, 7 de março de 2010

O evangelho de Íris


A expulsão




A turba enfurecida varre da cidade os vestígios da festa.
Os gritos de admoestação enfrentam os rostos da fantasia.
É preciso destruir a Palavra subversiva que destrói o equilíbrio da pirâmide. Chegados ao palanque iniciam o auto de fé usando como combustível os mantos coloridos.
É preciso eliminar a cor. A cor que exaltou os corações e fez nascer a inquietação.
- A Rainha falou no vermelho!- Grita o sumo sacerdote, iniciando o ofício.
- Sim- respondem os crentes- chamou-nos hipócritas e disse que o fogo nos redimiria e purificaria...
- Meus filhos, amar o fogo é um grande pecado!
- É pecado. É pecado!- Contritam-se gritando, os crentes.
- A Rainha falou no laranja?- continua o sumo sacerdote exortando à confissão.
- Sim- responderam os crentes- chamou-nos ignorantes e cobardes, e falou que o grande centauro nos defenderia, nos guiaria...
- Idolatrou o Centauro, ouviram? É pecado!
- A Rainha falou no amarelo...- Ironiza aquele que comanda os homens.
- Sim- respondem os crentes- fez-nos acreditar que nos poderíamos tornar estrelas e que essas estrelas seriam divinas!
E falou ainda- continua venenosamente o chefe- Que o fogo, o centauro e a estrela eram símbolos de força. De uma força que poderíeis controlar. Isso não é pecado, é blasfémia!
- É blasfémia! É blasfémia!- Desesperam-se os homens arrepelando os próprios cabelos!
Alterando a forma agressiva dos primeiros momentos, o sacerdote torna-se viperino e a voz sai-lhe como um silvo ameaçador.
- ...Mas a Rainha falou também no verde maduro da paciência...
- Sim- indignaram-se os homens- comparou-nos às plantas nas trevas incapazes de crescer onde queremos. Nós os privilegiados da criação divina!
- ... E a Rainha falou na suavidade do azul!
- Sim- troçaram os homens- comparou-nos a anjos flutuando no céu. Como se não trouxéssemos em nós o pecado original e o não resgatássemos já convosco, Senhor.
- ...Também, também falou no anil que vos tornaria iguais...
- Sim- arrogaram-se alguns- quase nos convidou à promiscuidade, como se não houvesse diferenças entre nós.
- A Rainha insinuou o violeta, a cor do ideal!
- Ah!- Queixaram-se os homens- Quase nos levou à exaltação através da Palavra. Quase que dominou as nossas mentes com a magia do seu discurso.
- Blasfémia! Blasfémia!
- Ergamos sobre ela o punho cerrado da indignação.
- Queimemos o seu rasto com a ortodoxia dos nossos pais.
- Destruamos a cor que nos confunde!

Íris, a Rainha das sete cores tornou-se mal amada.
Os homens da cidade perseguem-na, mas os sete espíritos coloridos enviados pelo divino, encandeiam-os e barram-lhes o caminho. Não chegou ainda a hora do sacrifício daquela que traz consigo a Palavra.
A cidade foi um logro.
Íris sabia-o desde o começo!
Agora já não está só, leva consigo as virtudes companheiras que não a abandonam.

O caminheiro


O valor do desconhecido



Acordou muito depois. Teriam passado dias ou horas? Agora já nem sabia o que era o tempo. Estava fraco, desiludido, completamente derrotado. O seu instinto de sobrevivência dizia-lhe que era necessário abrir as cortinas daquele sonho mas o seu pensamento ultrajado prendia-lhe os movimentos.
Todo o seu corpo lhe doía.
Lembrou-se então do pequeno livro e meteu a mão ao peito para o retirar. O livro ali estava, miraculosamente salvo depois de toda aquela aventura.
Abriu-o.
Leu.

“Toda a porta tem uma fechadura
da qual cada um possui a chave.
Se a tua alma se mantiver pura
é então possível que acabes
por encontrar a verdadeira saída.
Se choraste, é porque sofreste.
Abriste a sagrada ferida.
Meu irmão, então, venceste!”

Que vitória era esta que o fazia sentir-se perdido?
De dentro de si ouviu uma voz: “ quando se reconhece a dor é porque se está prestes a acordar.”
Uma angústia imensa envolveu-o. Uma tristeza amarga invadiu-o. E voltou a chorar. Agora silenciosamente, ininterruptamente, com lágrimas grossas escorrendo devagar por todo o seu rosto enquanto da sua mente se libertava um peso enorme.
Deixou de ouvir o burburinho da cidade, as imagens dissolveram-se numa atmosfera limpa e ele encontrou-se em frente a um ribeiro saltitante no meio de uma floresta antiga. Que lugar era aquele? Onde estavam a gruta e a praia que havia percorrido?
Era um novo sonho ou a sua vida real?
Percebeu que não valia a pena tentar compreender. A sua salvação estava no facto de aceitar sem questionar.
Deixou de sentir dores, de sentir medo, de sentir alguma coisa como sua... usufruía a partir de agora o Todo.
Aproximou-se do ribeiro e olhou-o atentamente. Reviu a sua imagem ondulando. Sorriu. Despiu-se e cuidadosamente pôs as suas roupas dobradas na margem. Entrou nas águas e deitou-se no seu leito. Uma imensa sensação de paz tomou conta dele.
Agora já não tinha visões, nem pensamentos. Agora só tinha emoções.
Sentiu-se forte, seguro, limpo. Fechou os olhos não para dormir mas, para poder receber ainda mais intensamente toda aquela calma e ternura.
“ Eu sou o que sou.”, pareceu-lhe ouvir, muito ao longe, como num eco perdido.
Quando saiu do banho purificador, vestiu-se e voltou a caminhar. Agora já não tinha mais nada de seu senão aquela roupa e aquele livro.
Ainda não tinha dado muitos passos quando à sua frente encontrou um homem. Cumprimentou-o. O outro respondeu-lhe.
- Para onde vai? – Perguntou.
- Ainda não sei. – Retorquiu o outro.
- Bom. Nesse caso acompanhá-lo-ei.
E foi assim que lado a lado os dois homens percorreram o caminho.
Nem um nem outro falaram.
Ambos pareciam cheios de algo que não partilhavam.
A noite apanhou-os desprevenidos em plena floresta. Acenderam
uma fogueira numa cúmplice decisão.
Cada um recostou-se ao tronco de uma árvore próxima mas nenhum foi capaz de falar. Nenhum descerrou as pálpebras. Ambos esperaram pela aurora doce e partiram.
No fim da estrada poeirenta havia uma bifurcação. Cumprimentando-se de novo, cada qual seguiu o seu rumo.
O Nada poderia estar em qualquer lado...

sexta-feira, 5 de março de 2010

Quimera



Nunca me perdi em tão grande quimera.
Nunca sorri tão feliz na Primavera.
E no entanto, que posso eu esperar?
O Inverno não tardará a chegar.
Aprendo agora que a vida não tem idade
Tudo o que nos sobra é já felicidade,
Aprendo agora que o tempo não tem medida
Que o que importa é passar de vida em vida.

Já corri, já caí, já me feri e morri.
Deixa-me pois sentir que renasci!
A estrada que me leva levanta o pó
No passar da minha passada triste e só.
E eu tusso, choro e espirro alergicamente,
Quero ser feliz, mesmo que tragicamente.

Sê por algum tempo a chuva conciliadora
Que apaga a fogueira que me devora.
Sê depois o sol espalhado e generoso
Para que o azul do céu rebrilhe radioso.

Nunca. Nunca me tomou tanta loucura!
Nunca desejei ser tão sábia e tão pura!

O Evangelho de Íris


A cor




Íris veste no primeiro dia um manto vermelho, ergue a voz e começa:
- Falo-vos hoje do vermelho. Do fogo vermelho que purifica e transmuta o minério mais pobre do mais nobre metal. Este fogo de que vos falo é o fogo redentor, aquele que separa a ganga dos vossos preconceitos da vossa pureza mais profunda. O fogo alimentado pela sinceridade, essa frágil chama que ora queima ora se apaga. Deixai que a destilação se faça dentro das vossas almas. Não permitais que ela arrefeça, cristalizando em vós a hipocrisia. Sede vermelhos. Vermelhos como o fogo e dai às noites o primeiro raio de sol de cada dia.
Sede fortes. Sede vermelhos. Sede puros e sinceros. deixai que o fogo de artifício faça uma festa dentro dos vossos corações. Rejubilai com a cor.
Sede vermelhos!

Íris veste no segundo dia um manto laranja, ergue a voz e começa:
- Fresca e doce. Luminosa e quente. Eis a cor que envolve em gargalhadas sonoras a promessa do dia seguinte.
Que cor é esta que ri, que invectiva a força na coragem de prosseguir? Que cor é esta que aquece os peitos e doira os corações dos homens afastando-lhes o medo?
Laranja. A cor do centauro incansável lutando contra a ignorância e a superstição.
É laranja o rasto colorido das vitórias. É laranja!
É essa a cor que deveis agarrar quando as forças vos faltarem. É dela que deveis vestir para vencerdes os obstáculos quando o cinzento vos ameaçar sujar a alma.
Ai mordei de prazer essa cor! Ai sugai esse suco que vos dessedenta e vos alimenta!
E amanhã, acordareis revigorados, alegres, preparados!
Não esqueçais nunca o laranja, pintai-o em vossos horizontes. E vencereis. Vencereis.

Íris tem no terceiro dia sobre os ombros o manto amarelo.
É com ele que nesse dia a sua voz se ergue para começar o discurso:
- A generosidade da cor amarela estende-se para além de tudo quanto é concebível. Com ela acredita-se que se é eterno e essa crença gera a fé em nós mesmos. O amarelo é intenso. é fluído. E inflama-nos sem nos ferir.
Olhai, olhai só por momentos, o Sol. Aquele Sol que ao meio-dia se torna pleno. Vede como ele nos abraça, nos acalenta, nos amima. Doce e generoso Sol que sustenta a vida!
Os campos de trigo, ondulando suaves no nosso imaginário, alimentam-nos o corpo. O mel escorrente dos favos encanta-nos os sentidos, embriaga-nos com o seu cheiro meigo. O âmbar que protege dos tempos, os fósseis dos nossos avós mais remotos. A gema do ovo que guarda a herança genética das espécies numa ternura de mãe. O ouro incorruptível, que torna as memórias do passado presentes.
São amarelos... Estão amarelos...

A divindade assenta a sua força no espectro do vermelho, do laranja e do amarelo. Essa força propulsora da vida, combustível dos actos da humanidade.
O ouro alquimíco cambia estas cores no cadinho do projecto. A divindade é uma estrela dourada que deixa os seus raios tocar-nos. Cá dentro... Cá dentro no microcosmos de nossas vidas.
Brilhai. Brilhai, vós sois super-novas de vós mesmos!

O ciclo da força terminou. Mas a cor entende também a sabedoria, por isso no quarto dia Íris veste o manto verde e, prepara a Palavra:
- Tenho-vos falado da força, da energia que cada um pode acender dentro de si e inflamar a humanidade inteira. No entanto toda essa chama se pode apagar perante as barreiras da vida e, num momento, deixar que o cinzento volte a reinar.
Por isso hoje tenho que vos dar a conhecer o verde. O verde da maturidade que nos ensina a paciência e a prudência.
Lembrai-vos que são verdes as algas do mar, as copas das árvores, as ervas do campo! Lembrai-vos que a natureza é verde...
O verde é lento no seu desabrochar e antes que tome cor vive uma eternidade no seio da terra húmida e escura. Ele é a promessa de vida onde há o vazio.
A semente que realiza em si o milagre deixa que se estendam as suas raízes, apalpando meticulosamente cada espaço que o seu equilíbrio requer. O tempo não conta porque a prudência lhe ensina que sem segurança jamais crescerá.
Depois, sabendo bem o que quer, ergue-se, pacientemente, perfurando a camada que a separa do exterior, expõe-se então, em toda a sua pujança, aliada ao tempo, ornando-se de mais verde numa tarefa nunca acabada.
É o verde que vos assegura a realização dos vossos desejos. Sem ele perder-vos -eis no caminho do sonho.
Podeis enfeitar-vos de todas as cores, mas sob os vossos pés terá de haver verde para avançardes.
Não esqueçais o verde que vos suportará a vida.
Adubai e semeai na terra as sementes que se tornarão verdes um dia.

Aqueles que rodeiam Íris, diluem-se na cidade.
A Palavra leva os homens, a partir de agora, a verem-se com olhos interiores e a cegueira a que estão habituados é difícil de recuperar.
O quinto dia já se cansa na voz de Íris, que se encontra coberta pelo manto azul, a sua voz sai-lhe mais lenta, mas expande-se até ouvidos recuados:
O que está em baixo é como o que está em cima. A imensidão do céu reflecte-se na imensidão líquida da terra. Azul cetim, que acaricia as almas numa envolvente duplicidade equilibrando a vida! Tudo o que existe flutua em azul. Esta é a cor maternal que harmoniosa e justa, ama sem contrapartidas e sussurra o divino impelindo à ascensão.
O ameno azul cobre as cidades e lugares oferecendo-se a todos em alegria e paz.
Estar azul é um estado de espírito capaz de abraçar de uma só vez toda a humanidade e ao mesmo tempo clarificar os limites da nossa vontade. É o finito espaço da nossa existência...
É preciso que esvoaceis nesse campo de luz, que percorreis toda a sua extensão para poderdes conhecer a dimensão da verdade.
Subi, para além de vós e tornai-vos azuis.

Está rouca a voz de íris.

Quem a escuta, debruça-se sobre si e alerta o sentido da audição. Alguns, veladamente, dormitam sem perturbar.
O manto está a seus pés. É anil, cor da noite, da noite que aconchega aqueles que não ousam mostrar-se de dia.
O anil- diz Íris- é a cor da humildade e do desapego, aquela que torna vultos de cor igual, os diferentes passantes. O anil partilha a sua tonalidade com todos os espíritos que se soltam e mostram a sua nudez mais pura. Sem pejo, sem arrogância, tornando-os reais. As máscaras do dia estão penduradas nas portas da rua, e os rostos, aliviados, resplandecem de emoção.
A mesa comum é larga e os convivas aconchegam-se na procura do calor.
Comungam do pão comum e do vinho de uma só taça. Átrio da Graça, lugar dos humildes que alcançaram a esperança. Vestem o anil da igualdade vendo mais perto o que está longe.
É a noite da consciência, da tranquilidade, preâmbulo da exaltação final.
Tão fácil e tão difícil tornar anil o branco das almas!

O sétimo dia chegou.
Junto de Íris, as suas companheiras estendem-se, rodeando-a. Contemplam-na e tentam perceber nos seus lábios a Palavra que fecha o ciclo das cores.
O último dia, veste-a de violeta, a cor feita de bondade e de tolerância.
Hoje é último dia do reinado de Íris na cidade que a festejou.

A Força empolgou os homens mas a Sabedoria estremeceu-os e acobardou-os.
Muitos foram os chamados, poucos os escolhidos que acolheram a Palavra.
O violeta reveste-lhes as auras e coloca-lhes no rosto um sorriso beato. O êxtase coloca-os acima do solo de pedras e torna-os mais próximos do divino.
A voz de Íris já não sai da sua boca, sai-lhe dos seus olhos, do seu rosto, das suas mãos, de todo o seu corpo em expressão.
Junto delas duas novas personagens esperam entrar no círculo. São Constância e Ema, as raparigas da cidade.
A aurora vem aí. A rotina vem aí.
Mas primeiro é preciso expurgar o sonho, por isso os rumores da multidão já ameaçam o lugar.
Íris que tem sobre o estrado os sete mantos do seu reinado reconhece a hora da partida. Levanta-se com as suas companheiras e prepara-se para a jornada.
O violeta não foi ouvido.
O violeta só veste quem tem já em si as cores da força e da sabedoria e os homens esqueceram-se de algumas...
É preciso sair da cidade.

O Caminheiro


A água espelho de si




Tudo o que via à sua volta eram rochas batidas com violência pelo Oceano agitado. Não fazia sentido! Aquele pequeno texto deveria ser profético. Como deveria ele orientar-se? Talvez estivesse demasiado cansado! Acomodou-se então o melhor possível e fechou os olhos na esperança que a meditação o levasse à resolução do problema.
A princípio só conseguiu ouvir a cadência das ondas, os gritos das gaivotas, o rastejar de um ou outro lagarto e o gemido das conchas a abrirem-se, o estalar do sal sobreaquecido. Depois como se alguém lhe sussurrasse uma mensagem, ouviu: “por vezes o que procuramos fora está dentro.” Sobressaltou-se um pouco mas voltou a sossegar o espírito. E continuou a ouvir: “ O espaço é multidimensional. Não procures sempre em frente.” Abriu então os olhos e com maior atenção olhou em todas as direcções. Quando se voltou para trás e viu a escuridão da gruta pensou: O mundo continua para além do infinito. A negrura da entrada da gruta chamou-o.
Entusiasmado, arrumou tudo e entrou na sua profundidade. Nunca tinha explorado grutas mas não teve medo.
A passagem era estreita e as arestas arranhavam-no. Acendeu um coto de vela e a sua luz frágil assustou os pequenos animais que ali viviam. Entrou numa espécie de túnel apertado e húmido percorrendo cautelosamente esse espaço com a esperança a empurrá-lo. O túnel fez-lhe perder a noção do tempo. Só quando se sentiu completamente esgotado lançou um grito à divindade. O grito ecoou por um tempo indeterminado e de repente uma corrente de água respondeu-lhe. As forças dobram-se-lhe e arrastaram-no aos tropeções até ao limite.
O que encontrou fê-lo suster a respiração. Sentiu a cabeça andar à roda e os músculos agitaram-se independentemente da sua vontade.
Encontrava-se num átrio de forma oval onde cascatas de água cristalina se desprendiam de uma enorme altura alimentando um lago que ficava situado no semicírculo menor daquela área. Uma vegetação de algas e fetos forrava as paredes. A própria rocha era raiada de cores brilhantes por causa da variedade de minérios seus desconhecidos. Variavam entre o azul, o verde e o turquesa, passando por um rosa pálido. Sentiu-se dentro de uma concha de madrepérola! Havia uma ténue luminosidade que ele não soube explicar, pois de onde se encontrava não via nenhuma abertura, nem sequer uma racha por mais fina que fosse.
Entrara ele no reino?
Estendeu a mão direita e tacteou demoradamente a polidez da rocha. Não era exactamente fria, talvez um pouco húmida e pareceu-lhe até que emanava um calor morno, como se de um ser vivo se tratasse. Esse contacto enturbilhou dentro de si ideias e sentimentos contraditórios. Se por um lado era maravilhoso estar ali a contemplar o que homem algum contemplara, por outro sentia uma espécie de ansiedade que o incitava a vir para fora clamar por toda a gente e mostrar orgulhoso o seu achado.
Senhor de um segredo pela primeira vez, sentiu-se único. Todavia se aquele era o reino, teria que o explorar ainda mais, conhecer todos os seus detalhes, intelectualizar os seus receios e espantos.
A água molhava-o agora por inteiro, escorria do seu braço levantado para dentro da sua roupa e metade de si estava completamente encharcada. Num impulso de curiosidade, estendeu também a outra mão, encostou todo o seu corpo à parede curva e ficou debaixo da cascata que o baptizava com mistério. Passo a passo percorreu todo o perímetro da sala.
Tinha dado quase a volta inteira quando encontrou rente ao chão uma outra entrada. Deitou-se e espreitou para ver se havia alguma possibilidade de descer. A abertura era triangular e o seu corpo cabia embora com algum esforço e habilidade. Primeiro enfiou as pernas balançando-as para ver se encontrava algum apoio. Não havia. Voltou a sair e debruçou-se desta vez de cabeça para baixo. À medida que os seus olhos se habituavam à escuridão, pode vislumbrar uma espécie de rampa diagonal por onde, arrastando-se e contorcendo-se, conseguiu finalmente deslizar. A descida era lenta e não fazia a menos ideia do que iria encontrar. Uma luz difusa indicou-lhe então a saída, ultrapassou-a ofegante.
Quando atingiu o outro lado entrou num mundo novo e desconhecido. Pareceu-lhe uma cidade. Centenas de pessoas andavam de um lado para o outro atarefadas nos seus afazeres diários. Pelo aspecto pareciam de um outro tempo, de um outro espaço, as suas roupas e calçado lembravam as gravuras que tinha visto num museu e que retratavam cenas da Idade Média, contudo possuíam apetrechos e tecnologia bem recente. Ouvia-os falar numa língua estranha e admirou-se com a agilidade dos seus movimentos. Aproximou-se delas mas ninguém parecia notar a sua presença. Quis chamar a atenção gesticulando, mas nada do que fizesse parecia ter resultado. Numa das ruas havia uma loja com caixotes de fruta à porta, ao ver tão belas maçãs sentiu-se salivar pegou numa delas para a levar à boca, mas ao fazê-lo a sua imagem desfez-se. ficou surpreendido e esfomeado, voltou a repetir o acto anterior com outros frutos mas tudo se desvanecia...
Pareceu-lhe uma tortura. Um pesadelo! No entanto a sua fome e o seu cansaço eram bem reais. Deambulou desesperado pela cidade e por todo o lado sentiu que não existia. Completamente exausto regressou à gruta. Não a encontrou. Então como um menino, chorou, chorou convulsivamente, gritando, batendo-se, insultando-se...
Caíra na armadilha dos Magos!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Profundo



Profundo
Tão fundo!
No submundo
Deste mundo...

És, no meu lodo semente
E deixas que ela dormente
Germine alegremente.

Alimento-a de mim em tuas águas
E faço com que as raízes me rasguem as mágoas.

Um dia, quando de mim restar o nada,
Ficará uma história
Que esvoaçará pelo vento, espalhada,
Ou se diluirá na chuva, ou na enxurrada.

Tu continuarás a viver contente
E eu virei ver-te, suavemente.

O Evangelho de Íris


A cidade


A cidade é um mundo próprio onde se misturam aqueles que procuram o seu clã.




A cidade está em festa. A festa durará a semana toda e receberá visitantes de todos os lados. Será uma semana que ficará guardada junto das outras semanas da sua recordação. Os anos contam-se através delas...
As ruas enfeitam-se de cores que iluminadas durante a noite se transformam num universo fantástico. Aspergida, a música envolve-se com os risos e enche os ouvidos de todos em qualquer lugar. Os cheiros das guloseimas e petiscos misturam-se ao suor e aos perfumes entontecendo quem o respira.
Nesta confusa alegria fabricada os homens despem o seu ar quotidiano e vestem-se de domingueiros fatos encontrados no baú das suas almas. Ébrios de gozo reinventam sortilégios e exorcizam os fantasmas dos outros dias. Juntam-se em pequenos magotes que sobem e descem as artérias, parando aqui e ali, dispersando-se ou aglutinando-se em outros grupos. Empurram-se, pisam-se, magoam-se, mas sempre com risos de cumplicidade.
O ano tem cinquenta e uma semanas cinzentas e aborrecidas, porque não uma vez por ano, haver uma que seja diferente para a festa?!

Este é o primeiro dia da primeira semana. É da tradição coroar o milésimo visitante e pô-lo a reinar durante sete dias. O povo excita-se com o acontecimento, vai esperá-lo à porta da cidade formando duas alas enormes adornadas de flores. A ansiedade aumenta enquanto os responsáveis gritam os números:
Novecentos e noventa e sete...
Os pescoços erguem-se, os olhos amiúdam-se no esforço de focar.
Novecentos e noventa e oito...
O silêncio parece imperar para que os ouvidos possam detectar.
Novecentos e noventa e nove...
Nas gargantas formam-se nós e a saliva enche as bochechas de excitação.
- Vem aí! Vem aí!
O foco principal ilumina o caminho de cinco personagens.
- É uma rainha!
- É uma rainha!
Montada num burrinho, Íris é ovacionada, colocam-lhe sobre a cabeça uma coroa de flores. O percurso até ao palanque do trono é atapetado por colchas de mil cores.
Aplausos. Gritos. Assobios. Aplausos.
- É a rainha!

Íris senta-se no trono macio colocado no cimo do palanque. Reinará durante sete dias. A sua Palavra será ouvida por toda a cidade. Durante sete dias aquele será o seu povo, como manso rebanho a seus pés, escutará a flauta da pastora.
A Sétima de Tamara da longínqua Geração, tornou-se hoje na milésima, a rainha da cidade.
O carreiro espinhoso revela-se agora num tapete colorido que a conduz ao trono.
E o silêncio de outrora, opressivo, é neste momento um silêncio reverente e terno.
Íris traz a Palavra. A Palavra daquele que gerou a vida.
A Palavra formada por todos os sons da música universal.
Quem a quiser ouvir, cale a sua própria voz e oiça.
Íris traz a emoção. A emoção feita de todos os sentimentos que vivem na alma de todos os seres.
Quem quiser sentir, aquiete o seu coração e, sinta.
O coro de apoiantes brame de inquietação e deixa que o ar estremeça de euforia, um coro que vibra da Terra ao Céu e do Céu à Terra.

Íris volta-se para as suas companheiras e diz-lhes baixinho:
- É só uma semana. Depois os ouvidos, os olhos e os corações tornarão a ser como eram, tal como o azeite voltará à superfície a sua mesquinhez e, ela manifestar-se-á nos homens com crueldade.
- É só uma semana!

O Caminheiro


A irreflexão




Toda a manhã arrastou os passos pelo terreno cada vez mais arenoso do lugar, ás vezes era interrompido por zonas de rochas e aproximava-se perigosamente do mar bravio que rugia lá em baixo, outras sentia a áspera dureza de um solo estéril que se recusava a dar mais do que espinhos e cactos.
O dia prolongou-se naquele desânimo e à noite dormiu ao relento aninhado num buraco de rochedo. Só no final do dia seguinte encontrou um casal composto de meia dúzia de casas que mais pareciam cabanas, pois estavam construídas de adobe e cobertas de folhas de palma amarelecidas. Entrou no terreiro e gritou um “faz favor” esperando que alguém o atendesse.
Uma mulher de meia idade saiu de uma das casa e pôs a mão em pala sobre os olhos por causa do sol baixo que incidia nela.
Educadamente, ele pediu para mudar a água do cantil e descansar ali naquela noite.
A mulher mostrou-lhe o poço que ficava nas traseiras e avisou-o de que a água não era grande coisa, mas que se servisse à vontade! Depois explicou que os familiares andavam nas rochas a apanhar lapas e que só viriam mais tarde. O único espaço disponível era uma espécie de barracão feito de lata onde estavam guardados alguns apetrechos de pesca e por ironia umas alfaias agrícolas que nunca deveriam ter sido usadas. Disse-lhe ainda que se servisse sem acanhamento das cebolas pois não tinha pão, mas com sorte talvez os seus irmãos e filhos trouxessem alguns peixes.
Ele agradeceu a boa vontade da mulher. Entrou no barracão e pousou o saco e a manta sobre uma trave baixa. O cheiro violento da maresia e mofo misturado com o das cebolas quase o sufocou. Lá estavam elas penduradas em réstias douradas! Era aquela a fortuna daquela gente!
Saiu o mais depressa que pode e respirou fundo, em seguida bebeu um gole de água. Era amarga!
A mulher já devia estar ocupada, o silêncio abafava tudo. Sentou-se no chão com as pernas estendidas e, fechou os olhos. Não pensava em
nada, não sentia sono, mas o cansaço dos últimos tempos provocava-lhe um certo torpor.
Algum tempo depois, cinco homens, três mulheres e seis crianças faziam a sua aparição. Vinham carregados de latas. A mulher saiu-lhes ao encontro e esteve a falar um pouco com eles apontando furtivamente para o lugar onde ele se encontrava. Podia perceber o abanar de cabeça de um dos homens em gesto de assentimento.
Depois as mulheres e as crianças entraram dentro das respectivas casas e os homens espalharam sobre uma espécie de peneira o marisco apanhado. Aquele com quem a mulher tinha falado veio até ele vagarosamente.
Ao vê-lo levantou-se e encarou-o, era difícil determinar-lhe uma idade. As rugas profundas partilhavam o rosto com um olhar negro, brilhante e jovem. Cumprimentaram-se formalmente, o chefe de família reiterou a oferta da irmã e convidou-o a colaborar na preparação do marisco. Ele aceitou, e depois de algumas explicações úteis desempenhou a tarefa com desembaraço. As mulheres acenderam o fogo cá fora e trataram do resto .
Comeram em silêncio, naturalmente, todos pareciam poupar as palavras, até as crianças se mantinham numa gravidade pouco usual.
A seguir os homens entraram no barracão e começaram a organizar as coisas para o dia seguinte. Com algumas redes acamadas fizeram-lhe a cama e despediram-se dele com simpatia.
Ao contrário do que havia pensado, adormeceu quase instantaneamente e acordou no dia seguinte com o ranger da areia debaixo dos botins dos homens. Levantou-se rapidamente, colocou as redes sobre as traves como as vira penduradas na véspera e saiu para o terreiro.
Pediu aos outros que lhe indicassem o caminho do mar. Eles acederam convidando-o a acompanhá-los até lá. Despediu-se das mulheres que nesse dia ficaram em casa e juntou-se ao grupo masculino. Os passos firmes e regulares levaram-no então aos primeiros rochedos. Foi ali que se separaram. Cada um dos homens procurou o seu lugar habitual, ele seguiu em direcção ao poente.
Era difícil a caminhada, tinha que escalar com frequência algumas rochas e em equilíbrio precário deixar-se escorregar por outras para atingir plataformas deslizantes. As mãos já lhe sangravam e os pés cortados por conchas e arestas ardiam com o sal. Tinha tirado as botas para melhor sentir o terreno, mas não estava certo se tinha feito a melhor opção! A meio da manhã encontrou uma gruta suficientemente espaçosa para descansar. Estaria ele no caminho certo?
Tirou então o livro que o alquimista lhe havia dado e abriu-o ao acaso:

“ Depois das montanhas ao Reino chegarás.
As fontes se tornarão em profundos lagos
E neles, debruçado e atento, encontrarás
As imagens sábias dos Grandes Magos.
Elas te indicarão o rumo a seguir.
Mas deves reconhecer também os enganos!
Pois os Magos gostam por vezes de se rir
Daqueles que por vaidade se tornam ufanos.”

Sorriu. À primeira vista pareceu-lhe uma charada. Uma espécie de jogo de crianças. No entanto soube que estava cedendo ao orgulho e retrocedeu na sua avaliação.
Ele tinha já atravessado as montanhas mas, o reino que encontrara não tinha fontes nem lagos! Teve dúvidas. Seria por ali a sua caminhada? E se fosse um engano? Talvez algum dos Magos se estivesse agora a sorrir...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Longa



Longa é a noite no meu sono inquieto
De fantasmas ruidosos perpassando
De palavras soltas, livres, penetrando
Na vigília do desassossego secreto.

Longa é a noite no meu sono cansado
Feito de mil voltas em busca de nada.

O Evangelho de Íris


Andreia


A coragem não se lança do alto até ao abismo, antes, é a voz do abismo que chega ao alto.





À porta da cidade está um circo. Um circo pobre de lonas remendadas e cores desbotadas de onde transpira uma música roufenha de altifalantes cansados.
O circo é o lugar privilegiado da Palavra. A Palavra que torna todas as cores e todas as formas em estrelas que encantam e seduzem na sua simplicidade. É também onde a coragem transforma em alegria o dia a dia cinzento de cada um. O circo é o lugar de Andreia.
Andreia como todos os outros da grande família, veste e despe os personagens numa corrida. É necessário parecer mais do que são. Camuflar a carência com a exuberância e lutar contra a monotonia que os invade tantas vezes.

O burro que Andreia monta, ungulado, torna-se um puro sangue. Ama-o apaixonadamente, deixa escorrer lágrimas emotivas sobre o focinho penugento, só não fala porque a natureza lhe não deu órgãos de fonação. O olhar compensa-o.
O burro de Andreia troteia ao som da música. Balança as crinas prateadas no bailado de homens. Deixa que Andreia o monte e o comande com uma ternura quase paternal.
Andreia serve esse amor com a mesma força. Os muitos irmãos e os muitos primos não lhe deixam espaço. Só o burro cinzento e amigo lhe reserva um lugar no seu carinho. O burro é toda a sua família, todos os seus bens. É o veículo da sua afectividade e impõe-se para além de toda a comunidade.
O burro de Andreia é a sua força materializada.

Andreia trapezista amarra o medo nas cordas no trapézio, sorri como fada e lança-se no vazio das suas emoções esquecendo as asas... Naquele desafio diário, Andreia disciplina a coragem. O balanço das cordas não permite hesitações. O espaço que as suas mãos agarram é o espaço que determina a vida.
O medo de Andreia nas suas pernas trepadoras, fica colado às cordas do alto. É preciso saltar, saltar, saltar e voar dando a ilusão que é possível tornar o sonho material.
O trapézio de Andreia fica no alto e a fantasia e a emoção dos outros fica em baixo, na arena da realidade...
Andreia palhaço limpa as rugas dos rostos contraídos. Limpa não, substitui-as por duas imensas pregas que dão forma às gargalhadas.
Andreia palhaço ri dos outros e de si própria e guarda no seu bolso mais fundo do casaco quadriculado, os sofrimentos e a fome.
Andreia palhaço faz nascer rosas nos lenços de várias cores e oferece-as a todos os presentes.
Andreia no rosto de palhaço tem as cores da vida, os traços da ilusão e o amargo da sua língua na garganta encolarinhada.
O palhaço é um anjo. Um anjo semi-deus que faz a ligação entre os homens e o Gerador.
A divindade fala pelo palhaço de Andreia.

Íris e as suas companheiras que entram pela fenda lateral e compreendem a sua linguagem, sorriem de felicidade e dizem:
- Como pode o circo alegrar-nos assim ? Como pode ele trazer esta vontade de ser feliz ?
Andreia que veio cumprimentá-las responde-lhes:
- Porque o circo é a voz que sai do abismo das nossas almas e nos faz ouvir a sua linguagem !
Íris, então, pousando a sua mão no ombro de Andreia, com suavidade convida-a:
- Vem Andreia, traz o circo que tens dentro de ti ao nosso grupo de párias. A Palavra só tem sentido se for gritada além de nós mesmas. És tu que tens o som dela no teu peito.
Andreia que tem preso pela arreata o seu burro, pergunta:
- Posso eu levar aquele que me dá força para gritar ?
Íris olha a abóbada de cores e durante alguns momentos espera a resposta. Por fim exclama:
- Será justo tirar a alma ao corpo quando este se confunde com ela ? Vem, traz o teu burro que faz parte de ti. A cidade está perto e a jornada está por acabar.
Fora da tenda que se desmorona, as cinco deixam-se rodear pelo espírito do conforto e entram na cidade...

O Caminheiro


O segredo


Um segredo é sempre algo que nos agita.
Ele não era diferente dos outros, depois de se emocionar com a história do velho e de se surpreender com a sua certeza em se encontrar consigo, pensou se seria digno de receber a sua mensagem. Por isso ficou calado!
O alquimista levantou-se e remexeu numa velha arca tirando dela várias lembranças até que chegou finalmente ao objectivo. Um pequeno e antiquíssimo livro. Cabia na palma da mão, tinha uma capa de pele endurecida e mosqueada, as folhas de pergaminho autênticas pareciam asas de borboletas sempre em perigo de se rasgarem!
O seu dono pegou-lhe com imenso carinho e, numa voz baixa e misteriosa, explicou:
- Este livro descreve em palavras o mundo que irá percorrer. Não é para o ler como se lê outros livros, deve apenas abri-lo ao acaso e ele aconselhá-lo-á. Mas...cuidado! A palavra tem sempre duas lâminas como numa espada, deverá sabê-la usar sem se ferir. Cada palavra tem um som. Um som que deve ser pronunciado correctamente, com ritmo, com harmonia, enfim com musicalidade! Se não o fizer a palavra deixa de ser a Palavra e pode enganá-lo. A palavra tem também um desenho próprio formado pelo grafismo das suas letras. Se se alongar ou encurtar demasiado os seus traços, o caminho passará a ser outro.
Pegue. Pegue nele e guarde-o consigo perto do coração. Leia bem sempre que precisar cada uma das suas palavras em voz alta, separando-as o mais possível para as reconhecer.
O homem pegou no livro com respeitosa reverência. As mãos tremeram-lhe um pouco, mas abriu a camisa e apertou-o ao peito. Olhou o ancião com um agradecimento sincero e profundo.
O dia lá fora estava bonito. Solarengo e morno. Suspirou. Estava na altura de se despedir. Voltou a expressar o seu agradecimento e, para seu espanto, o velho aproximou-se e beijou-o no rosto. As lágrimas correram-lhe então pela cara e, sorriu, sorriu por não sentir vergonha de amar aquele que servira de mestre.
Já na rua não se voltou para trás, firmou as pernas nos seus passos como se soubesse exactamente a direcção a tomar.
As dunas acenavam-lhe do horizonte.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Cego



Tu não reparas, não vês e não sentes
Que toda eu te anseio em ternura
Que neste sentimento a mistura
De mágoa e alegria, me tortura.

Tu não reparas, não vês e não sentes
Que me sobressalto a toda a hora
Que o meu espírito por ti chora
Calado no tempo da demora.

Tu não reparas, não vês e não sentes
Que despertaste em mim o alento
Que semeaste um sentimento
Que às vezes sozinha, chorando, lamento.

Não fora por ti não fora por ninguém
Porque antes de ti não há mais alguém
E porque és para mim último também.
Tu não reparas, não vês e não sentes.

O Evangelho de Íris


Vera

A verdade não é uma. Antes é una, porque é feita de muitas verdades que a completam.





O subúrbio da cidade é feito de lata e de madeira apodrecida que acoberta os homens.
Os seus trilhos são de lama mal-cheirosa mas servem de apoio aos passos cansados.
Os cães e os gatos disputam o lugar e ao mesmo tempo comungam do desalento.
No bairro das barracas há uma nudez que descobre as nódoas e os vincos das almas.
O horizonte do subúrbio é feito de estacas e silvas e fere...e fere...

Vende o seu corpo num bar da cidade. Uma troca que considera justa. Não finge o prazer nem disso é capaz !
Durante o dia serve outros senhores. Uma troca que considera injusta. Não finge o agrado porque isso não é capaz !
Vera é feita dessa verdade. Tem o corpo moído dessa escrava função. Mas mesmo nascida no lodo, Vera traz agarrado a si o cheiro das madressilvas do passado.
Vera recusa sempre a falsidade. Não entra na ilusão daqueles que mascaram a vida com químicos e éteres. Não se deixa embrulhar pela apatia dos que se defendem fugindo.
Vera é uma ponte que une o desejo à realidade. Sólida, ligação entre a vida e o sonho. A falta de esperança não a inibe, porque a sua esperança a empurra para a realidade quotidiana e a faz falar e agir com vigor.
Quem a rodeia não a teme. Vera não esconde nada. E ali é quase respeitada, quase amada, porque é nua, tão nua que se lhe vê a alma !

Quando Íris, Ofélia e Leonor entram no subúrbio, recebem dele o fedor da miséria. Pela primeira vez têm contacto com o pecado, mas não sabem o que é pecar. Recebem a esmola de quem nada tem para o seu sustento e, a indiferença que se molda nos rostos não as magoa. Na sua inocência não compreendem como pode a divindade estar presente ali ! No entanto, o vermelho espírito pairou sobre elas assinalando que aquele é também um lugar de recolha.
Sentadas no muro arruinado as três obedecem. Leonor tem nos seus olhos as lágrimas, Ofélia tem nas suas mãos o pão, e Íris no seu espírito, a vigia.
Esperam...

No crepúsculo da tarde, quando a luz do dia torna mais nítidas as formas, vêem Vera a regressar. Traz gravadas as expressões do dia. Os seus passos não se apressam nem se arrastam porque sabe que a esperam...
Quando se encontram, Vera é intuída pela voz da divindade:
- Viva quem de tão longe traz a Palavra e os Sentimentos. Não sei quem me guiou até vós, mas sei que em vós me completarei!
Íris levanta-se e sorri. Deita sobre ela a bênção do seu olhar e responde:
- Bem vinda sejas Vera. Esperávamos por ti. De nada vale a verdade senão ajudar o outro. De nada vale a verdade se não for vestida de compaixão e o inverso também é certo, a ajuda e a compaixão devem conter cada qual, parte da verdade.
- No entanto...- hesita pela primeira vez Vera- É visível a minha nudez. Nem sempre salvo com ela quem se ornamenta de ilusão e quase nunca a verdade se reconhece na Palavra.
- É para isso que aqui estamos. Para te levar connosco no caminho que nos indica a divindade.
Vera recebe de Leonor o sorriso e de Ofélia o seu abraço. Despede-se sem mágoa do bairro e descem o trilho que as conduzirá mais além.
A faixa vermelha do pôr-do-sol já escondeu o dia. Serão as estrelas e a Lua que a partir de agora as iluminarão.

O Caminheiro


Uma vida



Sabe, nasci nesta casa há setenta e oito anos. Foi herdada pelo meu pai de um tio solteirão que tinha fama de ser rico e avarento.
Os meus pais poderiam ter tido uma boa vida não fosse a doença da minha mãe. Nunca soube exactamente que tipo de doença era, só sei que me lembro dela passar os dias e as noites fechada no quarto aos gritos. Ás vezes escapava à vigilância do meu pai e fugia para a rua onde deambulava seminua.
Meu pai tratava-a pacientemente e com uma resignação única! Ouvi muitas vezes comentários maldosos à cerca da nossa situação mas nunca o ouvi queixar-se.
Talvez para me afastar desse ambiente, o meu pai enviou-me para o seminário. Tinha eu aproximadamente dez anos.
Naquele tempo era um estabelecimento de ensino acessível e com qualidade. Como eu era um garoto inteligente, obediente e sossegado, adaptei-me facilmente.
Quando acabei o correspondente ao ensino liceal, perguntaram-me se eu queria seguir a via sacerdotal e, até para surpresa minha, respondi claramente que não. Fui convidado a sair, está claro!
Entretanto a minha mãe falecera e o meu pai arrastava-se como podia aqui. Vim visitá-lo e falar-lhe da minha decisão. Não concordou nem deixou de concordar, limitou-se a falar de uma certa quantia depositada no Banco e no valor desta casa. Perguntou-me ainda qual era a minha ideia em termos de curso. Respondi-lhe que me inscrevera em Ciências. O meu pai acenou levemente a cabeça e sentenciou:
“- És tu que deves viver a tua vida. Por isso em nada te influenciarei.”
Fui pois para a Universidade. Os dois primeiros anos foram bem empregues, depois... depois entreguei-me aos desvarios, ás farras, deslumbrado com os novos amigos e o brilho da fama académica.
Levei quase sete anos a terminar a licenciatura e quando isso aconteceu não tinha um tostão no Banco.
Tive que me virar! Fui dar aulas para um liceu. Era mal pago, mas pela primeira vez comia o fruto do meu trabalho.
Foi por esse tempo que tive pela primeira vez contacto com uma organização de filosofia esotérica. Até aí nunca tinha pensado muito nesses assuntos, mas naquele momento senti uma necessidade enorme de compreender a minha própria existência.
Toda a doutrina aprendida no Seminário ficava-se pelo aspecto religioso, não me respondia, sentia-a como forma de repressão em vez de um meio de libertação das consciências. O meu espírito científico não se coadunava com dogmas.
Na altura em que frequentara a Universidade tinha-me assumido como agnóstico, era mais prático e ao mesmo tempo era uma espécie de reacção à educação que tinha tido.
No entanto, chegara o momento de perspectivar outro caminho. Só não sabia que esse caminho de busca era eterno, individual, evolutivo e extremamente doloroso no caso de o querer cumprir inteiramente.
Comecei como é evidente com conversas quase banais, depois pouco a pouco, um amigo aproveitou para me indicar alguns livros. Foi com um misto de curiosidade e desconfiança que os aceitei.
Ao começar a ler o primeiro não fui capaz de interromper, tudo era uma surpresa, uma revelação! A minha cabeça ficou um caos, mas o meu coração abriu uma porta que eu ignorava existir dentro de mim.
Falei com o meu amigo sobre os sentimentos que me assaltavam, a inquietação e o súbito reconhecimento da necessidade urgente de respostas a todas aquelas dúvidas que me haviam surgido.
Era como se uma comporta tivesse permitido uma avalanche de mistérios. E eu queria resolvê-los a todos! Com uma serenidade imensa, o meu amigo seleccionou as questões e as prioridades e ajudou-me a sistematizar a minha aprendizagem.
Ensinou-me sobretudo que livros daqueles não se liam assim de fôlego. Que capítulo a capítulo, parágrafo a parágrafo, frase a frase, palavra a palavra, eu deveria parar para, reflectir e meditar.
Confesso que me foi muito difícil essa aprendizagem. Naquele estado de ansiedade em que me encontrava era como parar a meio de uma corrida para recordar e reflectir sobre cada uma das minhas pegadas. Aprendi a anotar cada dúvida e cada pensamento que surgisse, aprendi a caminhar na corda bamba do pensamento sem me deixar cair.
Demorei quase dois anos recuando e recuperando, equilibrando-me!
Mas finalmente, estava preparado para ser um iniciado. Encontrei-me então numa casa situada num barro antigo da cidade. Uma casa por onde provavelmente teria passado milhares de vezes sem nunca suspeitar que estava destinada a pertencer ao meu destino.
Era uma bela noite de Verão. Jantamos ainda à luz do pôr-do-sol, tranquilamente, como se fôssemos tratar de assuntos vulgares. Depois, enquanto fumávamos, fizeram-me saber que uma das principais regras era o sigilo. Nesse tempo além de ser proibido pelo governo as “ seitas secretas”, também era arriscado passar por louco ou por feiticeiro. Assenti. Afinal quem era eu, acabado de entrar, que os contradissesse! Acima de tudo tinha que provar ser merecedor da confiança que depositavam em mim.
Quando se entra nestes ciclos dificilmente compreendemos a dimensão diferente que o conhecimento tem em relação aos conhecimentos adquiridos academicamente. A alquimia foi o ramo escolhido por mim para alcançar as respostas que procurava. E, a alquimia, é uma prática intensa que requer o treino da paciência e da persistência, aliadas a uma disciplina rígida da nossa conduta moral. É fácil sermos tentados a utilizar as nossas aprendizagens para resolver problemas comuns. É fácil sermos tentados pelo o nosso orgulho a destacarmo-nos dos outros. A primeira coisa que aprendemos é que tudo tem um tempo e uma medida certa que não depende inteiramente de nós. Mas o mais importante é que deveremos ser prudentes para não sermos enganados pela aparência. Sobretudo é preciso não uma, mas várias vidas de estudo intenso para se subir um degrau que seja. Descobrir o ouro alquímico é descobrir a perfeição espiritual e, essa não tem limites!
Uma guerra perdida, pensará você?! Talvez, mas repleta de pequenas batalhas que se vencem e nos dão o conhecimento. A “magia” aliada à manipulação dos elementos é uma forma de consubstanciar as ideias. Através dela chega-se à ciência perfeita porque agrega a física, a matemática, a química, a biologia, a ética. É a antiga filosofia, mãe do saber universal.
Enfim, apesar de tudo sou humano e, ao chegar aos trinta e cinco anos, senti-me de repente sozinho. Nunca me havia preocupado com esse aspecto até que conheci aquela que viria a ser a minha mulher. Foi uma revelação! Ela era a outra parte de mim. Conhecia-a por acaso. ( Como se o acaso existisse...), em casa de um médico meu conhecido que também fazia parte da organização.
Logo no primeiro olhar a reconheci. A ela aconteceu-lhe o mesmo. O curioso desta situação é que nunca falámos de amor, como se esse sentimento fosse tão evidente e conhecido de nós que nunca houve dúvidas. Era uma espécie de reencontro, sabíamos os dois o que esperar. Deste modo tivemos um namoro pouco convencional e no final do terceiro encontro propus-lhe casamento. Ela aceitou sem subterfúgios, era tão natural! Casámos precisamente três meses depois e foi nessa altura que lhe confessei que estava ligado a um grupo de estudos e que ela teria que me partilhar. Outra mulher talvez tivesse ficado assustada com a ideia, ou aborrecida... no entanto ela sorriu e disse-me que era melhor assim, porque aprenderia através de mim. Fiquei admirado com tanta compreensão mas com o decorrer do tempo entendi que afinal era ela que me ensinava a mim. No final do segundo ano apercebemo-nos que não poderíamos ter filhos. Não houve culpas e a minha mulher reagiu sentenciando:
-“ Se não nos é permitido ter filhos é porque teremos que amar de uma outra forma.”
Pedi transferência para o colégio da vila e viemos morar para esta casa. Eu ainda quis modificar alguns pormenores para a tornar mais cómoda, mas ela opôs-se dizendo que era nesta simplicidade que queria viver.
Começamos então a amar o nosso quintal. Plantámos árvores, fizemos a horta e o jardim. Construímos um pombal e umas colmeias. Aos poucos o nosso quintal foi-se tornando a nossa razão de viver, o nosso pequeno paraíso.
Eu continuava, como continuo, a trabalhar em alquimia. Ela entretinha-se neste lugar. Tudo o que fazia lhe dava prazer, nunca a ouvi dizer que trabalhava, mas sim, que se ocupava de...
Adoeceu há quatro anos, quis levá-la ao médico mas recusou-se. Disse-me que me preparasse porque estava na hora de nos despedirmos mais uma vez. Fiquei magoado e andei uns dias rabugento, sentia que me iam roubar um pedaço de mim. Mais uma vez, foi ela que me ensinou dizendo:
-“ Nada do que demos um ao outro pode ser tirado porque foi de alma para alma e não apenas de corpo para corpo.
Depois de partir ficarei contigo em cada canto desta casa, em cada flor do nosso jardim. Ter-me-ás quando comeres os frutos das nossas árvores ou os legumes da nossa horta. Afagar-me-ás quando afagares os nossos gatos, os nossos pombos. Cada átomo do ar que respiramos está aqui, no ar que ambos fecundámos. Um dia, quando tu partires também, e nos voltarmos a ver, perceberás como realmente somos um só!”
Partiu. Eu fiquei. Não lhe vou dizer que não sinto a sua falta, mas a recordação das suas últimas palavras acompanham-me.
As pessoas daqui nunca nos viram com bons olhos. Não estão habituadas à felicidade dos outros, nunca entenderam porque vivíamos no nosso mundo sem o partilhar com elas. Sabem que tenho um laboratório e então, na sua ignorância, chamam-me bruxo...
Não me preocupo. Afinal tenho a consciência que nunca os prejudiquei! Que falem, isso dá-lhes prazer!
Acho que estava à sua espera. Sabia que viria alguém ter comigo antes de terminado o meu tempo e que lhe teria que revelar algo. Obrigado por ter vindo. Obrigado por me ter escutado!
O que tenho que lhe dar é segredo. Um segredo que você usará da forma como entender. A responsabilidade é inteiramente sua e as consequências também. Percebeu?

domingo, 20 de dezembro de 2009

Misterioso




Para além dos mistérios e dos universos
Ondula esquivo o teu olhar de navegante
Em intensa, fantástica procura, constante
Vagueando no mundo das palavras em meus versos.

Cerrado no culto, qual solene oficiante
De ritos que esconjuram presságios adversos
Dominas meridianos e seus inversos
E fazes-te ao mar, como mareante.

Transportas, ainda mesmo que o não saibas dizer,
Arrastada, a indomável e estranha fera
Que se manifesta, tocando e me faz doer.

Enquanto que eu queda no porto da tua espera
Abrigo no colo aberto para te receber
A encarnação felina da enorme quimera.

O Evangelho de Iris


Leonor
Ainda que não se veja, a compaixão adormece as dores e suaviza os sofrimentos.




Leonor tem nos olhos o espelho do mar. É sua filha porque nasceu no barco que a viu crescer e que continua a ser o seu lar.
Dizem os homens da vila que Leonor tem pacto com a Lua, que aprendeu com ela o seu sorriso suave e que a luz do seu olhar aquece as almas tiritantes, que alumia a escuridão dos medos e domina as marés da revolta.
É mansa Leonor ! Tão mansa que o mar se encanta com ela !
Íris e Ofélia caminharam para a vila que se planta junto do mar. Recebem o seu cheiro como uma nova experiência, apetece-lhes mergulhar naquela imensidão bordada de ondas constantes. Têm os pés feridos da caminhada. Leonor vem até elas, chama-as para a beira-mar e lava-lhes as feridas com água salgada e beija-lhes os pés com meiguice.
Íris pergunta-lhe então:
- Queres tu espalhar a compaixão nos caminhos que percorrem o mundo e seguir-me para além de todos os carreiros?
- Quero. - Responde Leonor - Quero que o luar que habita em mim se espalhe na negrura dos caminhos.
- Queres tu com a tua compaixão ouvir todos aqueles que carregam fardos maiores do que eles ?
- Quero. Quero que o sal que se desprende de mim sare as feridas abertas dos que se queixam.
- Queres tu, juntamente connosco, levar a esperança e a caridade a quem desespera e sofre ?
- Quero. Quero que a liquidez do mar que me constitui envolva também os outros e que lhes naufrague o medo.
Então Íris junta nas suas as mãos de Leonor e Ofélia, pedem silêncio ao mar que é espelho do céu, as palavras. Fica parada no tempo da emoção e por fim murmura:
- Que a ajuda seja feita de compaixão e que a compaixão seja sempre de ajuda que ambas me sigam até à cidade onde a loucura dos tempos incendeia os vícios. Tu, Ofélia, sê a mão caridosa que segura e tu, Leonor, sê o sorriso que sustém o olhar de quem se sente perdido. Tornai-vos hoje filhas da divindade que nos indicará a jornada.
Ambas as discípulas se sentam agora no areal esperando com Íris, a Palavra.
Íris eleva a voz para as ondas e pede:
- Mar. Tu que és feito das águas do mundo; das fontes que correm para os ribeiros, dos ribeiros que enchem os rios, e que Te alimentam. Mar. Tu que és feito das lágrimas e do suor daqueles que se alimentam de Ti, diz-me o que tens a dizer !
Um búzio rola nas ondas e vem até junto delas, Leonor apanha-o e entrega-o a Íris que o coloca no ouvido e repete o seu recado, frase a frase com o vagar de quem medita:

- Felizes os que acreditam que um grão de areia os pode suster.
Eles sentir-se-ão seguros no seu caminhar.
- Felizes os que aceitam as tormentas sem revolta.
Eles também saberão sorrir à bonança.
- Felizes os que forem capazes de mergulhar na escuridão à procura de luz.
Eles encontrá-la-ão e serão por ela alumiados.
- Felizes os que sabem calar os seus segredos na caverna dos seus peitos.
Eles passarão a receber nessa caverna a voz do oceano que os tranquilizará.
- Felizes os que comparam o azul do céu ao azul do mar.
Eles estão no caminho certo.
- Felizes os que sabem que uma maré se segue a outra assim, sucessivamente, até ao fim dos tempos.
Eles serão eternos.
- Alegrai-vos pois porque vos escolhi como mensageiras da Palavra, do Socorro e da Compaixão.
Vós fareis parte de mim em pouco tempo.

As raparigas levantam-se e seguem pela marginal em silêncio. Ali os homens não tiveram medo. Ali a divindade não se vestiu de cor mas falou na língua do mar.
A cidade espera-as..

O caminheiro


Estranho contacto




A noite apanhou-o ainda no percurso.
A neblina envolveu-o criando um cenário de feitiço.
Não sabia onde estava, caminhava apenas tendo como orientação a cúpula de uma igreja longínqua levemente iluminada.
Daí a algum tempo os seus pés pisaram uma estrada. Era de terra batida, estreita e esburacada, mas tornava-se uma esperança de vida.
Uma casita aqui, outra além, e na escuridão acabou por encontrar uma pequena vila adormecida. Àquela hora não era provável que lhe dessem abrigo.
Por instinto encontrou a igreja que fora seu farol, recolheu-se num canto abrigado e adormeceu.
Sentiu que o abanavam com firmeza mas o seu corpo não respondia, estava entorpecido tanto pelo o sono como pelo esforço da véspera. Os olhos resistiam, cerrando-se ainda mais.
- Ó homem, homem! O que faz aqui a esta hora? Levante-se que ainda fica doente. Vá venha comigo, dentro da minha casa há um bom fogo onde se pode aquecer e um caldo acabado de fazer. Está a ouvir?
O calor prometido começou a despertá-lo, aos poucos foi reagindo, abriu as pernas e os braços, tornou a fechá-los e enfrentou o homem de idade avançada e magro que tinha na sua frente. A luz apesar de fraca deu para o observar. Tinha um rosto estranho, quase mítico, dele sobressaíam-lhe uns olhos escuros, muito vivos, um nariz e um queixo salientes e uma boca que se divertia discretamente.
- Então homem? O que faz por aqui? É forasteiro?
- Atravessei ontem toda a serra a pé e quando cheguei já não havia ninguém a quem pedir abrigo...
- Venha comigo, esta neblina dá cabo dos ossos de qualquer um. Eu moro já ali.
Ele levantou-se, as pernas doíam-lhe, tinha uma pressão incómoda na cervical. A posição em que adormecera fora castigadora. Atrás das passadas rápidas do homem, caminhou trôpego.
A casa ficava no outro lado do largo. Era relativamente pequena, na fachada havia apenas uma porta e um postigo. Quando entrou viu-se numa espécie de átrio empedrado e abobadado. O corredor em frente estendia-se até à cozinha. Pareceu-lhe ter entrado de repente num laboratório alquímico da Idade Média. A mesa comprida de madeira e mármore ocupava quase todo o compartimento, em cima dela estavam bicos de bisel, retortas, tubos de ensaio, toda a panóplia utilizada para experiências do género! Numa parede do fundo havia um forno encastrado, ao lado uma chaminé e uma lareira onde uma trempe suportava um caldeiro de ferro.
- Garanto-lhe que é caldo de hortaliça! Hoje não há sapos... ( riu o velho ao ver a sua cara de espanto)
- Parece que entrei noutro tempo!
- Sente-se, sente-se aí nesse canto.
- Se... se não se importasse gostava de lavar as mãos e... a cara.
- Além, olhe está a ver? Há ali uma pia, um jarro com água e sabão. Não tenho casa de banho. Para urinar saia essa porta que dá para o quintal. É o que lhe posso oferecer...
- Agradeço muito.
Saiu até ao quintal, para seu espanto viu um vasto espaço primorosamente cultivado. Havia desde árvores de fruto a ervas medicinais, passando é claro, pela horta. O sol começava a dar sinais de vida e todas as plantas estavam cobertas de orvalho.
- Que rico quintal o senhor tem aqui!
- Sou eu que trato dele. A sopa que vai comer é feita com legumes e hortaliças dele. Vai ver como lhe vai saber!
Lavou-se rapidamente e sentou-se à mesa. Um cheiro delicioso lembrou-lhe que já não comia há muitas horas.
O velho acompanhou-o, repetindo várias vezes e insistindo que ele ficasse à vontade.
Estava cansado, transpirava imenso, recostou-se na cadeira com a sensação de que ia desmaiar.
- Isso já passa, é da fraqueza. Deixe-se estar tranquilo.
O velho pegou nas tigelas e lavou-as. Veio sentar-se junto dele com as pernas esticadas para o lume. Acendeu o cachimbo e ofereceu-lhe. Ele recusou educadamente.
- Então já se sente melhor?
- Já sim, muito obrigado.
- Disse que tinha atravessado ontem a serra...
- Sim, precisava de fazer esse caminho!
- Os caminhos são para se cumprirem, e neles há paragens obrigatórias...
- O senhor é sempre assim tão hospitaleiro?
O outro riu. Uma gargalhada rouca de completa surpresa.
- Nunca me deram esse nome! A maior parte das vezes chama-me bruxo. É o preço de quem não se obriga a ser como os outros....
- É alquimista?
- Não, ainda não... vou dominando e transformando a matéria, mas dificilmente serei um dia alquimista!
- Vive sozinho?
- Que remédio! Enviuvei há quatro anos e não há por estas redondezas mulher que me ature!
- Afastou-se do mundo com o desgosto da perda?
- Não. Longe disso! Sabe, há muito tempo que não falo com ninguém. Pelo menos com alguém que valha a pena! Hoje estou bem disposto e penso que a minha história o ajudará.
- Porque diz isso? Não me conhece...
- Posso vê-lo como realmente é. A minha casa é uma paragem obrigatória no seu caminho.
- Talvez! Não tenho nada a perder!
O velho retirou do lume o caldeiro e pôs-se a fazer o café, com gestos regulares foi colocando as canecas e o açucareiro em cima da mesa.
Despejou o resto da sopa numa malga velha e assobiou. Três enormes gatos malhados apareceram de algures e atiraram-se à comida. O dono fez um afago a cada um deles.
O cheiro do café invadiu a cozinha e ambos se prepararam para o beber.
Depois de um demorado olhar, o velho começou:

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quero-te livre


Chagal
Com as asas abertas no limite do infinito
Querera eu ver-te planando sobre o destino.
No cimo de escarpas ao vento libertador
Querera eu ver-te dançando em seu redor.

Ver-te livre, livre, como águia ou falcão
Longe da rotina árdua da tua função.
Ou ainda, como onda em mar revolto,
Salpico de suspiro, salgado e solto.

Querera eu ver teu verde olhar desperto,
Teu sorriso endiabrado um pouco mais perto.
E sentir que os teus braços abraçavam viris
O universo inteiro, deixando-o feliz.

O Evangelho de íris


Ofélia

Há sempre um momento em que mesmo os mais fortes precisam de socorro e da ajuda do próximo.



Ofélia não tem sonhos. Mesmo que os tenha estão guardados no fundo do coração. Ofélia já não anda na escola, não conseguiu aprender mas dá em cada dia de vida uma lição de ajuda a quem a procura.
O corpo de Íris foi encontrado à porta da aldeia.
Trouxeram-na ao anoitecer ardendo de febre. Ofélia passa a noite a velar, refrescando-a, falando-lhe, tocando-a com o seu amor de menina.
Íris ouve-a, sente-se grata mas a voz parece ter-se perdido algures e não a encontra. Deixa que uma lágrima se solte e escorra na palidez do seu rosto. Com um dedo só Ofélia limpa a lágrima e limpa o medo.
A puberdade chega para Íris e estranha o seu corpo assim como estranha também aquele tagarelar à sua volta. O silêncio de Ofélia é agora cúmplice e doce. Não lhe faz perguntas somente deixa que as mãos lhe manifestem o carinho.
Aos poucos Íris começa a acreditar que a procuram. Dói-lhe, mas as palavras saem da boca sem pensar. Ofélia não entende as palavras mas compreende que a divindade de Íris não se reverencia, apenas se ama como se ama cada ser que existe.
O medo supersticioso dos aldeões começa a invadi-los.
Íris reconhece esse medo nos seus olhos, sabe que também terá de fugir daquele lugar.
Só tem em Ofélia a ajuda. Sabe que ela não a abandonará.
Procura ao amanhecer do Sol e ele no distante horizonte não lhe diz nada.
Procura no ribeiro as gargalhadas das fontes, mas só observa a água correndo apressada no seu destino.
Procura nas flores o seu perfume mas este mistura-se no ar com os outros cheiros e confunde-a.
Procura nos animais a sua alegria mas, eles enterraram-na nas luras mais profundas.
E as rochas estão sólidas, sem sorrisos, no mesmo lugar. Imutáveis. Só o medo dos homens é igual ao medo dos homens de Geração.
O espírito verde surge-lhe naquela manhã. Indica-lhe o caminho da estrada que a levará à vila. A estrada é mais larga que o carreiro mas não deixa de ser um caminho. Íris pede a Ofélia que a acompanhe, que deixe a aldeia para trás porque ali o medo torna os homens pequenos. Ofélia dá-lhe a mão, não se despede de ninguém porque os leva consigo na alma. Juntas iniciam a jornada. Em todas as estradas há um fim que se abre para uma nova aldeia. Em cada aldeia há homens que procurarão a palavra de Íris, a ajuda de Ofélia.

O caminheiro


Era manhã


Era manhã.
Nem ele nem ela dormiram a noite.
Fizeram amor sabendo que era a última vez.
Ela levantou-se e desculpou-se que tinha que ir à cidade.
Ele ainda perguntou se queria que a acompanhasse, mas ela calou-o com um beijo.
- Vai. Vai porque ficas. - Murmurou ela ao ouvido. - Para que a árvore possa dar bons frutos é necessário podá-la.
E saiu!
Saiu, deixando-o naquele quarto quente que o acolhera durante o Inverno.
Enrolou a esteira e a manta, meteu a roupa na mochila e desceu.
Fez alguns telefonemas e meteu o pouco dinheiro que trazia no bolso dentro da lata dos trocos.
Abriu a porta sem olhar para trás.
Em vez de tomar a estrada que o levaria até à cidade, preferiu seguir pelo carreiro que o levava à serra. O nevoeiro estava bastante cerrado, a humidade em breve trespassou-lhe a roupa e penetrou-lhe na pele. Era como se quisesse fazer parte dele mesmo! Escolheu as veredas traçadas pelos pés dos pastores da região. Elas o levariam a algum lugar. Já não fazia caminhadas há muito tempo e as folhas e os fetos molhados faziam-no escorregar com frequência. Agarrava-se aos ramos e arbustos naquela subida cada vez mais íngreme da montanha. A lama pesava-lhe nas botas, pegajosa... embora não conseguisse entrever animais, ele pressentia-os nas suas tocas, nos seus ninhos, nos seus charcos, e agradecia-lhes mentalmente a companhia.
Aos poucos a vegetação foi rareando dando lugar a grandes blocos de rocha desfeita, agrestes e traiçoeiros. Uma espécie de embriaguez tomou-o, ia marcando metas e investia todo o seu esforço em as alcançar. Quando o conseguia, parava, respirava profundamente e lançava o olhar para o pretérito despedindo-se dele com um grito selvagem.
O Sol acabou por vencer a resistência das nuvens, perfurou-as e surgiu amarelo e morno.
O vento no seu reino, fazia-se ouvir e sentir empurrando-o para o apressar.
Ele caminhava, sem sede, sem fome, sem cansaço...
Por volta do meio-dia atingiu o cume da primeira montanha. Então, olhando em redor, deu conta que dera o seu primeiro passo.
Ali estava ele no alto da serra, entre o céu que quase o tocava e o abismo que deixara. Entre a imobilidade do absoluto e a agitação de um vento teimoso e dançarino.
Ele estava ali. Ele!
O mundo revelava-se-lhe. Um mundo maternal, fecundantemente generoso! E chamava-se Terra!
Um repuxo? Não. Uma onda de sentimentos soltou-se do seu coração inundando-o, multiplicando-se em outras ondas que o tomavam por inteiro.
E ele... Ele fez a sua primeira oração:

Abençoada. Abençoada sejas tu, Terra Mãe
Porque te estendes assim em caridade,
Tudo de ti, por um imenso amor, vem.
Abençoada sejas por toda a eternidade!

Abençoado. Abençoado sejas tu, ó Sol
Porque aqueces a minha longa jornada,
Porque estendes sobre mim, o lençol
Que envolve, a minha alma cansada.

O dia ainda não tinha acabado. A sua visão estendeu-se para lá da imensidão dos montes e vales, de planícies... não havia caminhos traçados, seria ele a desbravá-los com a mesma força e tenacidade que o levara até ali. O seu passado ficava para Leste. Mesmo que a Norte uma cidade rica e poderosa o chamasse. Mesmo que a Sul uma praia dourada o convidasse. O seu caminho era em frente porque as montanhas ocultavam o fim.
Depois de alimentar o corpo e a alma, descansou, embalado pelo segredar dos ventos que o acarinhavam.
A tarde veio rápida e desceu sobre ele sem sombras.
Estava na hora de descer.