domingo, 28 de março de 2010

O Caminheiro


Vaidades



Como é estranho o sucesso dos homens! Do baú tinha nascido o reconhecimento material e social da sua vida. E, enquanto seu nome era falado ele ia calando cada vez mais o segredo da sua caminhada.
O regresso às obrigações do trabalho tornara-o a pouco e pouco insensível, sobretudo em relação ao seu mistério íntimo.
No tempo em que falara do seu baú ainda fora capaz de tocar os sentimentos, mas agora, que escrevia sobre os baús dos outros, a memória deles era filtrada por uma mente racional e fria.
Vendia bem as histórias. O público prefere histórias vulgares que apenas rocem as suas próprias histórias. Nada de muito profundo...
O tempo antes não tinha dimensão, agora perdia-se escoado nas alíneas da agenda. Como é estranho o sucesso dos homens!

Naquela noite quando chegou a casa, encontrou sobre a secretária um telegrama. Suspirou, tirou o casaco, desapertou o nó da gravata e por fim abriu-o e leu-o: PAI FALECIDO ESTA MANHÃ. Nunca a morte lhe tinha sido tão próxima. Com uma espécie de desconfiança e os dedos incertos carregou nas teclas do telefone.
Foi a mãe que o atendeu.
- Mãe?
- Filho!
- Só o soube agora. Acabei de chegar... Como foi?
- Naturalmente, meu filho, suavemente...
- Mas...assim? Estava doente?
- Não. Porque é que há-de haver razões para a morte? Morre-se e pronto!
- Há tanto tempo que não estava convosco!
- Mas nós estivemos sempre contigo!
- Mãe?
- Sim?
- Amanhã estarei aí.
- Esperarei por ti.
Pousou o auscultador. Custava-lhe a acreditar... sentou-se no sofá e ficou muito tempo sem conseguir ordenar as ideias. As imagens do pai assomavam constantemente. Parecia-lhe ainda ouvir a voz dele, levemente arrastada, e sentir, sentir as mãos de pele áspera de encontro ao seu rosto, cheirando a coiro. E ele que abominava o cheiro do coiro! Agora entrava-lhe pelo o nariz e arranhava-lhe a garganta, e ele gostava!

Só as lágrimas é que não vieram ter com ele, teimavam e negavam-se a correr, ou então, corriam dentro dele como lava quente queimando-o por dentro.

Logo que amanheceu, comunicou a um colega o sucedido, e preparou-se para sair. Pegou numa pequena maleta de coiro e enfiou lá para dentro alguma roupa juntamente com os objectos de higiene. Depois ficou parado algum tempo remirando-a poderia ter sido feita pelo pai, mas tinha uma marca estrangeira e custara bastante dinheiro. Porque nunca pedira ele ao pai que lhe fizesse uma mala como aquela?

Fez-se à estrada. Agora já não andava de mochila às costas. Conduzia um bom automóvel e seguia pela estrada asfaltada em grande velocidade apesar do especial cuidado que esta exigia. Admirou-se consigo mesmo. Estava tão calmo e seguro que aparentava frieza. À medida que se ia aproximando mais rígido parecia. Porque não conseguia chorar? Como se comportaria na hora do funeral? Acusava-se intimamente da pouca assistência que lhe dera. Quem teria tratado de todas as formalidades? A mãe? Apesar da idade continuava enérgica e cheia de sangue frio. Mas... naquela hora de perda...amando o marido como só ela fora capaz. Teria tido coragem? Talvez algum dos vizinhos?... Quem sabe? Um dos seus irmãos?... Achava pouco provável que algum tivesse essa iniciativa. Era a ele que lhe competia a tarefa, a mais ninguém, afinal era seu pai, não era o pai dos seus irmãos.
Quando entrou no prédio, a D. Mingas nem o deixou tocar à porta, era a vizinha do rés-do-chão, abraçou-o a chorar comovidíssima e comunicou-lhe que o corpo estava na capela mortuária da igreja do bairro. Ele agradeceu, desembaraçou-se como pode do abraço e dirigiu-se para lá.
O cheiro adocicado e crepitante das velas misturado com o perfume das flores irritaram de imediato as suas narinas obrigando-o a uma série de espirros ruidosos. A mãe reconheceu-o e veio ter com ele.
Olharam-se com ternura, nos olhos, e ampararam os corpos um no outro, sem se apertarem, apenas de forma que eles confirmassem a materialidade da sua existência.
A mãe vestia de negro com a mesma naturalidade com que vestia qualquer cor, talvez estivesse um pouco mais pálida, mas de resto, parecia tranquila. Ela dando-lhe a mão, levou-o até a galeria dos amigos e parentes afastados sentados cerimoniosamente nas altas cadeiras de espaldar. Todos aqueles rostos pareciam esculpidos de conveniência, nem um só gesto desajustado, nem uma só expressão menos correcta. Nada fugia às normas convencionais.
Sem dar por isso deixou escapar um leve sorriso, não era um sorriso de alegria, claro! Mas um sorriso nervoso de quem não está habituado aqueles cenários.
Depois, com naturalidade, dirigiu-se à urna do pai.
Era de madeira escura e pesada, forrada de cetim azul claro. À sua volta uma moldura de flores torneava-lhe a cabeça e o corpo. Poucas vezes tinha visto o pai sem óculos e estremeceu ao notar como eram grandes as semelhanças entre si e ele. Era como se estivesse a presenciar o seu próprio futuro! O pai estava vestido com o melhor fato que tinha, o cinzento escuro, uma camisa imaculadamente branca e uma gravata azul escura e branca que ele lhe oferecera num Natal distante. Aquele não parecia ser o pai, estava habituado a vê-lo com roupa de trabalho, sobretudo com o enorme avental de couro enegrecido. Aproximou-se um pouco mais e estendeu a sua mão direita sobre as mãos dele que estavam cruzadas no peito. Sim. Aquelas eram as suas mãos! Mãos que não souberam mascarar a vida e que traziam com elas as cicatrizes da sovela e do fio. Mãos endurecidas e, no entanto, tão delicadas, tão cheias de carinho.
Em pensamento dedicou-lhe as palavras de amor que nunca lhe expressara claramente, pediu perdão pela negligência que tivera nos últimos tempos e viu-se de repente a confidenciar-lhe os últimos projectos. Tudo em silêncio! Depois sentou-se ao lado da mãe e passou-lhe o braço pelos ombros. Ficaram quietos, calados, sem lágrimas nem inquietações.
Uma hora depois chegaram dois dos seus irmãos com as respectivas mulheres e filhos. Nunca haviam sido muito chegados ao padrasto, mas soube-lhe bem que tivessem vindo para confortar a mãe. Desculparam a irmã, dizendo que ela vivia longe demais e o marido estava fora, mas traziam da parte dela palavras sinceras de condolências. A mãe abraçou-os e parecendo quase feliz.
Depois do funeral propriamente dito, os irmãos chamaram-no. Era a primeira vez que o tratavam como irmão verdadeiro, e a questão principal era saber exactamente o que deviam fazer com a mãe, pois com a idade que tinha já não convinha ficar tão sozinha. Ele nunca pensara nisso, por isso respondeu que o melhor seria falar com ela logo que fosse possível. Talvez aquele momento não fosse o ideal para o fazer. No entanto não acreditava que a mãe, sempre tão independente, quisesse ficar em casa de algum deles. Os outros desculparam-se imediatamente com o facto de terem casas demasiado pequenas e, provavelmente porque a sua solidão seria maior pois, as respectivas mulheres trabalhavam também, e ela desse modo, ficaria sem ninguém durante todo o dia. Mas o mais grave seria o desenraizamento. Ela vivera quase toda a vida naquele prédio, naquele bairro, naquela cidade. O mais sensato seria que ele, solteiro, e um escritor famoso, com melhores condições económicas do que eles, pudesse assumir o encargo financeiro de manter alguém de confiança junto dela.
Teve vontade de os mandar passear, mas conteve-se. Descansou-os, dizendo que sim, que assumiria esse compromisso com toda a alegria, que ficassem tranquilos quanto a isso. Percebeu os seus suspiros de alívio e nem sequer ousou criticá-los.
A mãe voltou para casa com os vizinhos, ele precisava de espairecer um bocado e sobretudo preparar a conversa com ela de modo a não a magoar.
Quando entrou no carro sentiu uma enorme necessidade de rolar pela cidade sem rumo definido. Parou por fim na parte alta e sem saber como, rompeu num pranto. Não chorava a morte do pai. Uma vida inteira de generosidade e pureza. Chorava o desmembrar do casal feliz que os seus pais tinham formado.
Esgotado pelo esforço do choro, reclinou a cabeça e fechou os olhos. Sentiu o cheiro a cabedal, o afago no alto da cabeça que o pai gostava de lhe fazer, olhou para o lado. Ali estava ele, de camisola azul e calças cinzentas de algodão. Estava a rir. Parecia estar a fazer pouco dele. Quis dizer-lhe alguma coisa mas a voz embargou-se-lhe. Não teve medo mas sentiu-se atrapalhado pela presença etérea do pai.
O velho piscou-lhe o olho como se dissesse: - Desta já me escapei! – E ele riu.
Com mais segurança perguntou-lhe:
- E agora? E a mãe?
- Agora nada! Vou viver a minha verdadeira vida! A tua mãe? Bom, ela é forte, saberá encontrar pensamentos de conforto. É uma grande mulher, sabes?
- Sei.
- É contigo que me preocupo, meu filho.
- Comigo?
- Sim. Procuras sempre fora o que tens dentro de ti. Arriscas-te a perder no meio da ilusão que criaste para ti. Tens fama, tens sucesso, serás cada vez mais solicitado para te integrares nesta sociedade de bem estar material. Dessa forma irás perder tudo. Tem cuidado, não te desiludas a ti próprio!
- Que hei-de fazer, meu pai?

O pai esfumou-se sem palavras.

sábado, 20 de março de 2010

O nascimento de uma flor


2. A haste verde que estende os braços



Pouco maior que o musgo atapetando o chão, encarei o orvalho e fiquei a recebê-lo…. Bebi-o até não poder mais, numa atitude cortês de quem recebe um prémio.
Estava tão cheia de orgulho de mim mesma que nem reparei na minha mãe longínqua plantada naquele vasto lugar.
Interessava-me rever e reaprender tudo. Sobretudo voltar a sentir o perturbante enleio que vinha do ar; os cheiros, os sons, os toques macios e ásperos das brisas e dos ventos, do calor do sol filtrado por entre as minhas irmãs.
Tinha urgência em abraçar o universo. Quem chegava era eu e vinha de novo para o mundo que entrava em mim. Havia que estender os meus braços e estender-me à vida. Em breve, um pequeno animal, um grão de terra, vieram cumprimentar-me trazendo-me as suas mensagens através de folhas desprendidas…Do meu corpo então em alvoroço estendi o verde da minha folhagem

O Evangelho de Íris


Lectícia




A alegria dá à vida o brilho com que se destacam os pormenores da neutralidade dos factos.





Íris não dorme, fica ali sentada, vigiando, junto das suas companheiras. Acompanha o percurso da noite e recebe de seus pais intemporais a mensagem do dia próximo.
Quando o horizonte muda de tom não pode evitar um sorriso de bem estar. Acorda as companheiras deixando que a energia transmitida pela paisagem lhes toque a alma. Correm para as águas cantantes que correm no ribeiro, mergulham nelas e lavam nelas as tristezas do passado.
Com a voracidade juvenil comem todos os frutos que podem oferecidos pelos arbustos e as árvores. É preciso dar alimento ao corpo que as transporta.
A aurora do dia chega plena de luz, desperta os bandos de aves que repousam nos ramos e enche as margens do ribeiro com criaturas diversas, dispostas a viver mais um dia. O sol ainda se orna de rosa, mas aquece já o orvalho que se eleva no ar formando uma neblina baixa e mágica que encanta. Cheira a pinheiros, fetos e violetas. Uma mistura de aromas que inebria os sentidos. O vale coberto de musgo abraça e recebe a graça divina de uma primavera benevolente.
Apetece gritar bem alto:
Bom dia! Bom dia!

Da encosta do monte desce a voz de uma pastora que canta. Cantiga simples em que as palavras jogam com os sons da rima quebrada, mas, a música, vem de dentro, sobe e desce e volteja no ar como trinados. O eco repete-a como um coro no espaço. A pastora pensa que está só em intimidade com a natureza, por isso se despe de todo o pudor e através da voz se mostra nua.
O grupo faz-se encontrado e ela recebe-o surpreendida. O breve momento de hesitação desvanece-se e abre o seu sorriso franco. Oferece então o pão da partilha e o leite das suas ovelhas.
Emocionada com a simplicidade da jovem, Íris pergunta-lhe o nome. O nome é fundamental porque imprime no espírito a personalidade.
- Lectícia.
- Lectícia!- Repetem em conjunto as companheiras.
Íris convida-as a todas a sentarem-se, dá a mão a Lectícia e, virando-se para o grupo, explica:
- Lectícia é a alegria. A alegria que nos falta tantas vezes. Toda a caridade, toda a verdade, toda a coragem e acção devem ser feitas com alegria. Agradece-se a oportunidade de viver, demonstrando a alegria, porque ela filtra a luz que entra no coração dos homens e torna maior a dimensão em que vivemos.
Tu, que és pastora, que estás longe das estradas e das cidades, que vês o mundo do alto dos montes e o céu inteiro do fundo dos vales, tu que aprendes com os pássaros a voar com a tua voz para além de todas as dores e de todas as dúvidas, tu que calcas as ervas que atapetam o solo, és outro elo da cadeia que arrasto e com a qual desejo prender o mundo de meu pai ao de minha mãe, vem. Vem connosco espalhar generosamente os teus risos e deixa, Lectícia, que eu ria também contigo, que eu aprenda contigo a tua música e dance, dance até à exaustão, o bailado, que o Divino coreografou!
Talvez Lectícia não perceba todo o sentido das palavras que ouve, Talvez se acanhe perante aquela que veste todas as cores. Mas sente no seu corpo o desejo de ir. Olha, uma a uma, cada uma das presentes e vê nelas a mesma ansiedade que vê em Íris.
Mas e o rebanho? Que contas dará dele?
Não pode haver alegria sem liberdade diz-lhe Íris.
- Homens! Eis que a Palavra se mistura com o som da música no meu peito.
Homens! Ouvi comigo a canção e deixai que o vosso corpo se contagie de ritmos e baile...baile...
Homens, aquela que foi escolhida também me acolhe, como acolherá a vós se quiserdes!
Glória. Glória à Vida. Deixai que o Sol solte uma risada e vos aqueça até ao fim dos tempos. A alegria chegou!

O Caminheiro


O Próximo




A corrente de ar deslizou fria por cima dos seus cabelos arrepiando-os. Depois muito lentamente afagou todo o seu rosto passando em seguida para o peito. Aí, foi aumentando a temperatura tornando-se tão quente que lhe abrasou todo o corpo. Gemeu. Depois, desceu arrefecida, pelo seu ventre, pelas suas pernas, terminando na ponta dos pés e, fluiu como se de um rio de suor se tratasse. Suspirou. Daí a pouco um novo fluxo fez o percurso inverso enchendo-o de força e de paz. Uma paz a que não estava habituado.
O conjunto das vozes em confusão foi deixando distinguir alguns termos técnicos sobre o seu estado de saúde. Até que uma mais forte disse: - Abre!
Foi então que as vozes passaram a ter rostos.
Eram homens e mulheres de idade e aspecto diferentes que tinham apenas em comum o estar vestidos com uma espécie de túnica verde-água que lhes escondia o corpo de modo que os contornos se perdiam em pregas soltas.
Reparando mais atentamente, pode verificar que algumas das formas não eram humanas, tratavam-se de criaturas com feições bizarras mas que apesar disso inspiravam confiança e bondade.
Uma delas, com cerca de um palmo de altura e olhos encovados de uma cor violeta deslumbrante, levitou até junto da sua fronte. À sua volta havia um halo luminoso amarelo dourado que lhe acariciou o coração.
- Pronto. Daqui a pouco poderás descansar, agora no entanto é necessário que aguentes a dor para teu próprio bem. Depois disto compreenderás muitas coisas que te estavam vedadas.
Foi o que percebeu! Pois a voz que ouvia não tinha som, apenas entrava nele como um pensamento.
De repente, aquilo que lhe pareceu ser um dedo comprido e delgado, tocou-lhe um ponto entre as sobrancelhas. Uma dor aguda e ardente violou-lhe todo o crânio. Vulcões de fogo, explosões de estrelas, ondas gigantescas de lava, encheram-lhe a visão. Durou uma eternidade!
Quando acordou verificou que tinham passado apenas quinze minutos desde a última vez que olhara para as horas. Tinha a certeza absoluta disso porque o seu velho relógio de parede continuava fiel na marcação do tempo. Já não sentia dores nem calor excessivo, embora estivesse completamente transpirado. Sentia um torpor agradável que o embalava.
Com incredulidade reparou que tudo à sua volta estava rodeado de auras luminosas que se exprimiam em cores e intensidades diferentes. Algumas dessas auras, como as das plantas do vaso sobre o parapeito da janela, pareciam intermitentes, outras, eram pálidas e pouco definidas.
Quando a mãe voltou a entrar, vinha rodeada de um largo espectro. Azul. Verde. Matizando-se com um dourado fascinante. Emocionou-se. Um nó na garganta impediu-o de falar. E ao sentir as suas mãos magras a afagá-lo, teve vontade de chorar.
A mãe. Quem era aquela mulher?
Tivera-o em fase adiantada da vida, no entanto a diferença de idades nunca obstara a um óptimo relacionamento e até a uma certa cumplicidade. Ela compreendia porque razão aquele filho tinha tanta necessidade de se afastar e de viver uma vida solitária porque o aceitava e o amava tal como ele era.
Fora sempre uma grande mulher, a mãe! Tivera uma infância pobre e com poucas oportunidades, casara muito cedo com um homem doente e agressivo. Criara três filhos dele com imensas dificuldades e muita instabilidade afectiva. Quando o marido morreu de forma atroz, ela ficou sozinha com todas as responsabilidades e sem ajuda de ninguém, mas o mais grave, sem um trabalho que lhe garantisse o sustento dela e dos filhos. Desembaraçou-se. Fez limpezas, costurou para fora, dormia e comia muito pouco para que nada faltasse. Encontrou então um homem tranquilo e bondoso que por amor dela aceitou o encargo de uma família já formada. Casaram. Sem exigências, apenas com a ternura de bagagem. Os filhos cresceram e tomaram conta dos seus próprios destinos. Nunca souberam agradecer à mãe e ao padrasto a vida que puderam usufruir.
O nascimento dele fora aceite de má vontade, como se o considerassem um intruso. Um bastardo. O que fazia sofrer aquela mãe divida entre o amor dos primeiros e a paixão do último.
Tanto o pai como a mãe pareciam ter sido talhados à medida um do outro. Tinham uma delicadeza de trato que mesmo nas horas de maiores dificuldades se fazia sentir. Nunca os ouvira queixar um do outro, nunca se apercebera dos defeitos de um através da crítica do outro. Eles amavam-no e mimavam-no com alegria. Deram-lhe todas as possibilidades de progredir e desenvolver as capacidades. Sem grandes recursos contudo, tornaram-lhe a infância feliz e tranquila. Com o seu exemplo, ensinaram-lhe a ser tolerante, generoso e respeitador para com toda a gente. Fora um privilegiado!
Agora voltar à casa paterna era reaprender os afectos.
- Então, meu filho, como te sentes? – perguntou a mãe suavemente.
- Bem, obrigado, minha mãe. Perdoe o trabalho que lhe estou a dar!
- Ora filho, que trabalho? O que me fez mal foi o susto que nos pregaste. Já não somos novos e situações destas perturbam-nos muito.
Ficou envergonhado. A última coisa que desejava era fazer mal àqueles dois seres maravilhosos.
- Eu sei que já és adulto e tens a tua própria vida, mas filho, ficamos tanto tempo sem ter notícias tuas!
- Não é por indiferença, mãe, sabe que não é por mal! É que o meu trabalho não tem horário fixo... nem lugar...
- E os outros teus colegas que têm família? Será que a abandonam assim?
- O que eu faço é diferente. Sou repórter.
- Quando telefonei para o jornal, ninguém sabia dar resposta. Disseram também que havias deixado de enviar trabalho há algum tempo. O que se passa? Confia em mim!
- O segredo é alma do negócio, não é? – Disse para desviar a atenção- E sabe, tenho andado todo este tempo à procura do sentido da vida. Quero escrever sobre ele.
- O sentido da vida? Porquê? A vida não tem que ter um sentido! Talvez seja bom que o não o conheçamos. O melhor é viver. O ontem de uma maneira, o hoje de outra , e o amanhã ... Bom o amanhã logo se verá! Para que queres tu complicar as coisas? E ainda por cima escrever sobre isso? A tua vida é tão importante como a dos outros! Só tu é que a vês diferente...
Era verdade. A mãe sempre fora uma mulher muito prática. Nunca tivera tempo para problemas existenciais. Sorriu. Que mais poderia fazer? Prometeu à mãe que voltaria a trabalhar e a pôr em ordem as suas ideias. Talvez fosse interessante falar da vida dos outros, daquilo que aprendera a conhecer neles. Sim, falaria dos homens e das mulheres que encontrara no caminho.
A mãe respirou fundo aliviada e convencida que ele a havia escutado.
Assim que ela saiu, retirou o livro do peito e passou a mão pela sua capa macia e lustrosa. Que lhe diriam agora aquelas páginas de sabedoria?

“ Nas angústias do Ser há sempre um cais.
Um cais onde o Homem pode aportar
E, olhar o horizonte, e exigir dele mais,
Estendendo a mão de modo a poder agarrar.
Em cada viagem há outros companheiros
Que de tão próximos de nós são esquecidos,
São como nós, também, caminheiros,
E dão-nos a comparação do que sentimos.”

Fechou os olhos e compreendeu. O seu orgulho de homem convencido foi rasgado pelas lágrimas da compreensão.
A mãe, o pai, eram os eus próximos que havia esquecido. Nunca lhes soubera agradecer realmente a oferta da sua vida. Pensara que ela era só sua!

A vida! Agora entendia-a como o entrelaçar de todas as vidas.



Passado o tempo da convalescência era preciso voltar à vida activa. Tinha deixado de ganhar dinheiro durante a sua aventura e precisava de voltar a tê-lo para subsistir, tornava-se urgente voltar à redacção, rever os colegas e sobretudo concretizar as ideias que germinavam dentro de si.
Preparou-se para sair de casa naquela manhã com a sensação de ter fechado um parêntesis na sua vida. A mãe abeirou-se com a sabedoria dos anos e o hábito velho de o aconselhar: Estava nevoeiro, não convinha uma recaída, que tivesse cuidado, que se agasalhasse... ele abraçou-a com a ternura feita de reconhecimento. Era bom!
A rua agora parecia-lhe um lugar mágico, envoltos como estavam, os contornos do que via.
Apanhou o autocarro e saiu em frente da porta castanha do edifício decadente que o esperava. O cheiro familiar do papel e da tinta, do fumo e do suor, escorregou-lhe pela garganta, obrigando-o a tossir.
À sua entrada, os colegas de trabalho regozijaram-se com o seu regresso, como se ele fora um filho pródigo! Palmadas nas costas, piadinhas salgadas, e apertos de mão viris e sinceros. Sentiu-se amado, sentiu-se protegido, no seu lugar.
O chefe da secção ainda não tinha chegado por isso a confusão soava alto. Mas poucos minutos depois, o “Riscos” apareceu e a sua voz rouca surpreendeu-os como a meninos apanhados em falta. Todos voltaram as suas mesas de trabalho para voltar a martelar textos. Só ele ficou em pé à espera de ordens e... talvez um cumprimento!
“Riscos”, sem o olhar, disse:
- Duas colunas sobre as condições hospitalares. Estiveste internado, não foi? Um gajo como tu deve ter percebido muitas coisas. Ao meio-dia quero tudo pronto.
E foi sentar-se na sua velha secretária. Preparou a máquina e ficou à espera. Que havia para dizer? Dois terços do tempo estivera a dormir, o outro terço entre a vida e a morte! Pediu com jeitinho ao seu cérebro que se recordasse e o ajudasse. Uma enxurrada de palavras soltou-se e pespegou-se no papel. Quando terminou de escrever eram onze e meia. Levantou-se e foi mostrar o trabalho ao chefe.
O velho leu em silêncio e depois tirou de trás da orelha o famoso lápis vermelho e desatou a riscar. – O “Riscos”- remontava o texto e acrescentava, encavalitando, algumas palavras.
- Continuas o mesmo literário! Mais objectividade, menino! Bem, passa isto a limpo e envia para baixo.
Quando ia a sair ouviu:
- Depois volta aqui que quero propor-te uma coisa. É bom ter-te de novo!
Ele sorriu e levou a mão à cabeça em jeito de continência.

Escrever contos para o jornal? Era uma ideia aliciante. Sempre sonhara ser escritor de verdade e aquela era uma óptima oportunidade para começar.
Logo que chegou a casa revirou a secretária para encontrar os seus cadernos. Leu-os de um fôlego, a mãe até lhe veio trazer o jantar num tabuleiro, porque ele não conseguia interromper a leitura.
Os olhos ardiam-lhe e a noite estava já cerrada quando concluiu com uma certa decepção que todos aqueles contos religiosamente guardados eram imaturos, quase infantis. Ficou desconsolado e deitou-se sobre a cama. Escrever sobre o quê?
De repente a sua atenção foi desviada para o baú onde guardava os despojos da sua vida: brinquedos, cartas, fotografias, etc. tudo era tão vulgarmente raro! Tudo estava tão impregnado de história! Da sua história, da história dos outros!..
E se escrevesse sobre esses objectos?
Naquele momento tudo se tornou mágico, as palavras que lhe vieram à memória encheram de vida as vidas antigas desenhando-se nas páginas brancas do caderno recém aberto.

terça-feira, 16 de março de 2010

O nascimento de uma flor


1. Rompendo a terra escura

Acordei a consciência de mim quando, imobilizada no quente torrão, me abrigara no meu milagre.
Embora incomodada naquela prisão, eu trazia em mim o registo da liberdade, encontrava-o ainda na minha memória desprendendo-se de uma corola!
Era apenas um começo. Mais um! Por isso decidi utilizar o meu esforço em direcções opostas afundando-me em múltiplas raízes que tacteavam o silêncio e na escuridão procuravam equilíbrios e…me seguravam. Foi dessa parte de mim que saciei de seiva, alimento que me trouxe um novo alor e me fez prosseguir. Depois, absorvendo o ar que chegava até mim, elevei-me em altura, e iniciei o exercício de subir arranhando-me nos grãos de terra áspera que me envolviam.
Eu sabia que esse era o meu destino; por um lado prendia-me a terra, por outro, libertava-me da minha forma inicial.
A distância media-se em tempo, em dor, em ansiedade. O importante era chegar segura e forte ao novo mundo que me receberia. O importante era testemunhar que existia e que viveria de forma material para despertar nem que fosse apenas por um só sorriso.
Faltava-me apenas romper a barreira. E assim… numa madrugada, despontei!

O Evangelho de Íris


Constância e Ema



A perseverança e o trabalho são as chaves que abrem a porta ao sonho para este entrar no real.




Constância é coxa. Tem uma perna mais curta que a outra, mas isso não a impede de percorrer quilómetros na cidade e de estar sempre onde é necessária. Teimosa, não desiste nunca dos seus objectivos. Inventa todas as formas que dão corpo aos desejos dos outros.
Ema, qual abelha laboriosa, não pára nunca. Obreira incansável, tem no ócio o seu pior inimigo. Constrói e reconstrói mil vezes a matéria sólida que sustenta a vida.
Num mundo de multidões como é a cidade, tratam por tu toda a gente e chamam-lhes amigos.
Quase não têm vida própria, as suas vidas são as vidas de quem servem, como se fossem essas as suas únicas missões. Por isso são procuradas por todos e esquecidas em seguida. Porém o despeito não entra nos seus corações. Aceitam essa atitude, naturalmente, sem esperar nada em troca.
Durante o reinado de Íris ouviram os seus discursos e sentiram o impulso de a seguir. Modestamente, colocam-se na retaguarda das peregrinas, prestando-se nas suas virtudes, sem palavras. Como oásis no deserto, servem os alimentos simples e a água fresca que revigoram o equilíbrio daquela que jejuara toda a semana.
Íris está fraca, triste e sem voz. Mas tem o braço de Ofélia que a ampara. Mas tem o ombro de Leonor onde chora. Mas tem as palavras consoladoras e animosas de Vera e Andreia e, tem agora os membros do seu corpo em Constância e Ema.
Os sete raios iluminam a sua cabeça.

No lugar onde repousam há água limpa e frutos maduros.
No lugar onde repousam há uma lapinha que as abriga do sol e da chuva.
O lugar onde repousam fica situado numa colina e daí, lobriga-se a extensão da terra até ao limite de outras colinas.
Íris e as companheiras estão saciadas.
Íris e as companheiras, na amenidade do lugar, reflectem sobre a cidade e...turbam-se.
Íris e as companheiras lançam o olhar para além do vale e interrogam-se entre si se devem continuar a semear a Palavra na terra.
- Como podemos levar aos homens o socorro e a ajuda nas suas dores, se eles vestem couraças de orgulho?- Pergunta Ofélia de voz tremida.
Constância que penteia os cabelos de Íris responde:
- Em todas as couraças há costuras. Em todas as costuras, orifícios, onde uma agulha fina penetra e entra. Sejam as nossas palavras agulhas penetrando no seu orgulho e elas percorrerão o corpo inteiro dos homens.
- Como podemos nós levar o consolo aos homens, se o sofrimento lhes endurece os rostos e trava-lhes as lágrimas?- Pergunta Leonor de voz magoada.
Constância que entrança os cabelos de Íris responde:
O sofrimento abre nos corações dos homens a compreensão, no entanto quando ele é demasiado, fecha-os e cerra-lhes os maxilares de desespero. O sofrimento deve ser dado em doses certas. Cada um, por isso, deve aliviar as dores dos outros. Só dessa forma as lágrimas se enxugarão e as bocas se abrirão coniventes num sorriso.
- A verdade, minhas irmãs, a verdade é que os homens sustentam dentro de si monstros escuros que iludem a verdade e os induzem ao erro. Outros, antes de nós vieram e falaram. Cegos os homens não os expulsaram!- Grita Vera revoltada.
Constância que enfeita as tranças de Íris, pára um momento e coloca sobre o ombro de Vera, a mão. Depois responde:
- Não há monstros nos peitos dos homens. Se os houver, também há anjos, que os incitam para a verdade. Os homens são seres frágeis por isso os que vieram antes de nós e nós mesmas, temos que os auxiliar a verem claro.
Quando o conseguimos, Vera, os homens calam os monstros e deixam os anjos falar.
- É isso!- exalta-se Andreia- É isso. A nossa função é abrir os olhos, abrir os ouvidos e abrir as suas mentes para que distingam correctamente as diferentes vias e possam escolher livremente e sem medo.
Constância corre a abraçar Andreia e diz com embargo na voz:
- Querida irmã corajosa, como sabes bem o que é preciso fazer! O que é preciso é não desistir, fazer e refazer um milhão de vezes se for necessário. Outros virão depois de nós para continuar a mudar o rumo dos transviados. Somos nós que temos que recolher os pedaços de ilusão e colá-los de novo tornando-os no primordial objecto.
Só assim o Divino nos poderá enviar o conhecimento através da certeza do nosso pensamento.
Ema, que estivera calada todo o tempo, providenciando o conforto de cada uma, sente que é a sua vez de falar e dela saem palavras serenas:
- Alegra-me ouvi-las nas vossas resoluções. Alegra-me ouvi-las nas vossas certezas. Mas além deste lugar, há outros lugares que ainda não acolheram os nossos passos. É preciso que a Palavra ande, não fique só no ar que respiramos.
Levemo-la connosco sem tardança. Urge o tempo de a lançar.
Íris aplaude emocionada as suas amigas. Resolve que é hora de regressar ao mundo dos homens. Abraça uma a uma agradecendo-lhes e dá ordem de partida.
O sol, que até aí estivera encoberto pelas nuvens, desvia-se e lança lá de cima a luz branca e quente que as anima.

O Caminheiro


O mergulho total




A sua estrada desaguava numa outra, uma estrada de asfalto, barulhenta e movimentada.
A mudança de ambiente fê-lo estremecer. Tinha-se desabituado a viver naquele alvoroço. Apesar de já ter trepado montanhas e descido a vales, caminhado por areia e rochas, o piso desta nova estrada fazia-lhe doer as pernas e sentir-se cansado. Era demasiado plana!
Pela primeira vez em muitos dias preocupou-se com o seu aspecto. Quem o visse julgá-lo-ia um mendigo, um vagabundo. A barba e o cabelo haviam-lhe crescido desordenadamente e em resultado da exposição ao sol apresentavam um tom amarelecido e baço. A pele estava queimada e seca como se tivesse vivido toda a vida ao ar livre e a roupa esfarrapada e suja. A cor das calças já não se podia adivinhar...
Tinha deixado tudo para trás, agora era completamente anónimo.
Estendeu o braço e pediu boleia. Durante muito tempo ninguém lhe prestou a menor atenção até que um camião de gado parou a uns cinquenta metros à sua frente fazendo chiar horrivelmente os pneus. Lançou-se numa pequena corrida e parando junto da cabina abriu a porta. O motorista era um rapaz gordo e boçal.
- Vou até ao mercado. Queres vir?
- Se fizer favor. Agradeço.
O outro ficou admirado com a delicadeza dele. Com o seu aspecto devia estar à espera de um outro tipo de linguagem.
- Que fazes aqui na estrada? Não me pareces um vadio qualquer! – Disse enquanto punha o camião de novo em andamento.
- Ando em viagem...sem rumo...
- Hum! Trazes pouca bagagem. Foste assaltado?
- Não. Deixei-a para trás. Não era necessária.
- Aposto que és daqueles tipos malucos que têm tudo e só se lembram de experimentar ser pobres!
- Mais ou menos.
- Se calhar nem conheces a cidade para onde te levo!
- Não. Mas isso não me interessa.
- Eu vou lá três vezes por semana. E chega!
- Ainda falta muito?
- Mais hora e meia de caminho. De que é que vives? Tens uma profissão, não?
- Sou jornalista. – Soaram-lhe estranhas estas palavras aos seus próprios ouvidos, há muito tempo que não trabalhava. Nem acreditava já que fosse voltar a sê-lo.
- Ah! Se calhar estás a fazer uma daquelas reportagens malucas sobre a vida das pessoas!
- Não é bem isso... (é mais sobre a minha vida) pensou ele!
- Olha eu cá não entendo como é que um tipo é capaz de escrever tanto. Eu quando tenho que escrever fico completamente estúpido. Não me saem as palavras... eu sei o que quero dizer. Mas escrevê-las... também não leio muito. Os títulos dos jornais... e se forem de desporto! Chateia-me a política, não ligo nenhuma às notícias, quero lá saber quem morreu, quem casou ou quem roubou! Quero é saber da minha vida e, pronto.
- Ele sorriu. Fechou os olhos. A trepidação do camião estava a fazê-lo enjoar.
- Estás mal?
- Um pouco... isto já passa. Não se preocupe.
- Abre a janela e apanha ar.
Foi o que fez.
O estômago vazio parecia acumular rios de espuma. Sentia-a ao longo do esófago, da garganta. Uma acidez incrível! A cabeça andava à roda e só conseguia aguentar com os olhos fechados e o corpo quieto.
O outro continuava a tagarelar, não se apercebendo da realidade do seu estado. Ele tinha a certeza que se tentasse responder largaria o vómito ali mesmo.
Quando entraram na cidade, ele pediu que o deixasse ficar ali mesmo. Agradeceu balbuciante e, logo que pôs os pés no chão, dobrou-se para a frente e vomitou.
O suor cobriu-lhe o corpo inteiro, as pernas tremeram-lhe. Nunca se tinha sentido tão mal!
Quando conseguiu recuperar, respirou diversas vezes com força para tentar acalmar-se mas os cheiros da cidade penetravam-lhe o nariz e sufocavam-no.
Há muito tempo que não comia. E ainda por cima sem dinheiro algum. Todos os seus documentos perdidos. Sentia-se fraco. Só lhe restava pedir esmola. Nunca o fizera, mas agora, era uma questão de sobrevivência. Quando se dirigiu aos transeuntes sentiu o medo deles revelar-se nas esquivas negativas ou nas ofertas apressadas. Nunca ninguém tivera medo dele! Era uma sensação esquisita!
Só a meio da manhã conseguiu juntar uns trocos e entrar num supermercado para comprar pão e água. O segurança perseguiu-o descaradamente. A empregada da caixa mostrou-se irritada por contar tantas moedas e, mesmo assim, mirou e remirou algumas não fossem elas falsas!
Acabou por se sentar num banco de pedra do jardim raquítico ali perto. Mastigou o pão lentamente para que o estômago não reclamasse. O sol pálido veio adormecê-lo.
Acordou sobressaltado ao sentir-se apalpado. Era um velho nojento que tresandava a alcool e a roupa suja.
- Desculpe...
Ele reparou que lhe faltava o livro. Provavelmente ao tirá-lo pensara que fosse uma carteira.
- Desculpe... pode entregar-me o meu livro?
O velho descaradamente e sem sequer se mostrar comprometido tirou-o do bolso e devolveu-o sem pressa. Depois levantou-se lentamente com um riso cínico e foi-se embora.
Ele, ficou ali. Sentado sob o calor morno do sol da manhã. Passou a mão em forma de afago na capa do livro. E quase inconsciente abriu de novo as suas páginas.

“ Para que te eleves ao cume sagrado
Deves descer ao negro abismo
Respirares o seu ar envenenado
E libertares-te do dragão do egoísmo.
É que no doentio pântano fedendo
Encontrarás a essência do teu ser
Só nele lavarás o teu espírito doente
E poderás finalmente renascer”

Leu com dificuldade aquelas palavras, como se cada uma aprofundasse o seu mal-estar. Elas diziam-lhe quem era ele na realidade, e que os seus monstros escondidos, calcados pela educação e pelos preconceitos intelectuais, ainda urravam dentro de si. Ó! Que juízo benevolente sempre fizera de si! Não se lembrava te ter magoado alguém propositadamente, de ter roubado, agredido, invejado, ofendido... mas, na verdade tudo lhe tinha sido dado de graça, fora sempre um privilegiado, nunca sofrera privações, a sua família protegera-o de tudo. Agora estava sendo posto à prova, duramente, tornando-o um indigente numa cidade estranha, tendo apenas como arma a sua inteligência e a sua moral!
O céu cobriu-se entretanto de nuvens cinzentas e pesadas e o vento começou a soprar frio e raivoso. Frio. Não sabia ao certo se ele vinha de fora ou de dentro de si... era inquietante!
Deambulou durante o resto do dia pelas ruas irreconhecíveis e a noite veio apanhá-lo de surpresa na margem de um rio poluído que as atravessava sem música, enquanto luzes da cidade se acenderam sinistras dando forma aos fantasmas, diluindo a materialidade da sua existência.
Uma prostituta aproximou-se dele, já não era jovem, mas o seu rosto tinha ainda vestígios da sua beleza anterior. Olhou-a nos olhos, estavam aureolados de roxo e amarelo, e no entanto eram de um castanho puro, tão doces, que o fez sorrir com simpatia. A voz da mulher, rouca e sem entoação, fez-se ouvir no convite óbvio, ele voltou a sorrir, que tinha ele para lhe dar em troca?
A prostituta percebeu, encolheu os ombros, encostou-se ao muro de costas voltadas para o rio. Puxou por um cigarro, acendeu-o, e ofereceu-lhe. Ele aceitou. Partilhou assim o fumo e o fôlego da sua alma!
Ficaram ali durante muito tempo, sem uma palavra, cada qual guardando o seu próprio mundo. Ainda lhe passara pela cabeça fazer perguntas, como por exemplo o porquê daquela escolha, mas sentiu-se ridículo, tinha a certeza que em breve estaria a pregar-lhe um sermão sobre a dignidade da vida. E quem era ele afinal para o fazer? Acaso tinha o direito de se julgar melhor do que ela? Calou-se a tempo. Um carro parou em frente dos dois, a mulher correu para a janela do veículo e conseguiu o que esperava. Partiu. Antes, porém, olhou-o e acenou-lhe sorrindo. Não era um sorriso feio! Era um sorriso-sorriso feito de simpatia e de cumplicidade. Ele guardou-o como guardava sempre os olhares, as palavras e os gestos que passavam na sua vida.
O corpo começou a sentir a fadiga do dia, e arrastou-o mais uma vez na procura de um abrigo. Encontrou-se num beco escuro e húmido cheirando a restos de comida e a urina de gato. Ajeitou-se o melhor que pode num portal de uma casa em ruínas. O frio voltava a atormentá-lo, não tinha sequer uma manta ou uma caixa de cartão que o agasalhasse. Mas o sono veio, fechou os olhos e adormeceu.
Despertou com dores horríveis provocados pelos pontapés e empurrões de um homem de frágil estatura mas grande ódio. Aquele era o território dele e não estava disposto a cedê-lo a ninguém. Atarantado, desalojou-se do seu coito e arrastou-se para o outro lado com o sangue escorrendo da boca. À socapa mirava o outro que também o vigiava sorrateiramente. A lei do mais forte impunha-se, ele era apenas um recém chegado às ruas, o que sabia ele? Ficou ali encolhido à espera que o rei adormecesse. Um rato passou a chiar e o gato que o perseguia. Nunca mais conseguiu que o sono viesse, para agravar todo o seu corpo lhe doía e a fome desassossegava-o.
Quando a luz da manhã voltou ergueu-se com dificuldade e procurou uma fonte que vira na véspera. Mergulhou a cabeça nela na esperança de aliviar a dores. Depois, já sem relutância, resolveu mendigar o pão daquele dia. Porém as pessoas passavam apressadas e desviavam-se de si. Observou então outros que também por ali vagueavam e reparou como se desenvencilhavam. Estava perto do mercado, por isso não era difícil subtrair com relativa destreza uma peças de fruta para o pequeno-almoço. Comeu algumas avidamente, sem culpas, sem medos.
A meio da manhã começou a sentir a garganta seca e um calor intenso. Depois vieram as tonturas e a fraqueza nas pernas. Sentava-se de vez em quando para respirar, todavia o seu estado agravou-se e a dada altura caiu. Teve consciência de que passavam junto de si, de ouvir comentários maldosos e de desprezo. Quis falar, dizer que não era nada daquilo que estavam a pensar, mas as palavras não saíam do seu cérebro e cada vez mais se perdiam no labirinto do seu pensamento.
Não soube como nem quando o levaram para o hospital mas teve a nítida consciência que estava num. Sentiu o cheiro peculiar desse espaço, as vozes e os gemidos, a corrente de ar, a agulha espetada no seu braço. A imobilidade.
Por instinto levou a mão ao peito. Lá estava o livro, não lho tinham tirado!
- Vamos levá-lo para o serviço – ouviu a voz masculina.
- As camas estão todas ocupadas, doutor – respondeu a voz feminina.
- O tipo não pode ficar aqui. Dá mau aspecto. Levem-no para cima, lavem-no e mantenham-no sob vigilância. Se for preciso dêem-lhe um tranquilizante.
- A febre já baixou. É provável que deixe de ter convulsões. Vou ver o que se pode fazer.
Sentiu-se empurrado por corredores até ao elevador. Não conseguia abrir os olhos, ver quem o transportava daquela forma tão impessoal. Mas afinal o que é que isso importava?
Aos solavancos lá se encontrou um lugar para a maca estacionar. Ficou no corredor da enfermaria dos homens entre a casa de banho e o gabinete dos enfermeiros.
Distinguia o tilintar metálico dos instrumentos, a água correndo de um autoclismo avariado, queixumes de alguém que devia estar no fundo. O que o mais o irritava era não conseguir abrir os olhos! Parecia que as pálpebras estavam coladas, pesadas.
Chegou-lhe ao nariz o aroma de sopa de legumes. Só isso já o repugnava.
- Quer uma sopinha? – disse uma mulher próxima de si.
Abanou a cabeça, negando.
- Vá, tem que comer qualquer coisa, está muito fraco!
Voltou a dizer que não com a cabeça. Os lábios e a língua estavam secos demais para falar.
Sentiu de repente uma toalha húmida esfregar-lhe o rosto. Abriu os olhos. Viu a auxiliar que carinhosamente o tratava. Fez um esforço, entreabriu os lábios sorrindo à laia de agradecimento.
- Daqui a pouco já o levo para o quarto. Agora tem que ficar limpinho e bonito. Vou também barbeá-lo. Vai ver que as mulheres até farão bicha para o ver!
- Obrigado – Conseguiu então dizer.
Por um lado era incómodo sentir alguém estranho lavar-lhe o corpo. Tocar-lhe. Por outro, as mãos hábeis que o viravam com cautela , firmeza e ainda, as palavras amáveis, comoviam-no.
Ela vestiu-lhe um pijama lavado de flanela grossa que talvez fosse azul, talvez fosse cinzento. Penteou-lhe os cabelos gentilmente porque alem de estar muito comprido, estava também terrivelmente embaraçado. Fez-lhe a barba com sabão, o que lhe deixou um certo ardor no rosto, ali não havia luxos! Enquanto executava estas tarefas ia também falando com os colegas de trabalho. A dada altura deixou de a escutar, estava tonto de tantas voltas... quase desmaiou. Quando um maqueiro o veio buscar para o levar ao quarto.
Deitaram-no numa cama acabada de fazer, entalaram-lhe a roupa e ajeitaram-lhe a almofada.
- Agora vai descansar, vou trazer-lhe um pão com manteiga e um copo de café com leite. Amanhã os doutores vêm vê-lo.
- Está – murmurou obediente como um menino. Depois sobressaltou-se e perguntou aflito:
- O meu livro? Viu o meu livro?
- Está aqui, não se preocupe, pegue-o. – disse a mulher retirando-o do bolso da bata. – quer que o ponha aqui em cima da mesa?
- Não, não. Dê-mo por favor!
Assim que ela saiu os doentes da esquerda e da direita ergueram quase em simultâneo as cabeças e observaram-no.
Começaram a tecer comentários. Pareciam entendidos no assunto. Não falavam directamente com ele mas, como se ele ali não estivesse, por isso não foi capaz de esclarecê-los.
O tranquilizante proporcionou-lhe um sono profundo e vazio de sonhos, como já não tinha há muito. Acordou de madrugada. Tudo era silêncio. Uma luz ténue de presença indicava a porta do quarto. O corredor mantinha uma luminosidade fraca. O doente da esquerda ressonava, o da direita proferia palavras indistintas. Tinha vontade de urinar, não sabia que fazer, tinha medo de acordar os outros... ainda tentou erguer a cabeça, mas uma vertigem obrigou-o a recostar-se de novo.
Apertou as pernas. Uma dorzita acentuou-se na zona da bexiga e depois nos rins. Precisava de alguém que o ajudasse! Nunca estivera tão dependente!
Lembrou-se de que havia de existir uma forma qualquer de chamar a enfermeira. Levantou o braço e tacteou atrás de si. Encontrou uma campainha, premiu o botão uma, duas vezes. A espera pareceu-lhe imensa!
A enfermeira afinal veio rapidamente e, quase em segredo, ele disse-lhe o que precisava. Ela pegou num urinol guardado na mesa e destramente abriu-lhe as calças e colocou o seu pénis no recipiente. Ficou envergonhado, não disse nada, mas demorou muito tempo até conseguir descontrair-se e a expulsar a urina. Pensou que a quantidade seria superior à capacidade do urinol e que transbordaria, mas a enfermeira adivinhando o seu medo sossegou-o. Aos poucos foi ficando mais aliviado e a dor desapareceu. Assim que acabou, a enfermeira retirou-se e ele suspirou.
Assistiu ao amanhecer no hospital, ao seu crescendo de movimento e barulhos, enfermeiros, auxiliares andavam numa roda viva para pôr tudo em ordem para a visita médica. Os doentes que se podiam levantar, arrastavam-se de toalha ao ombro, sabonete numa mão e copo de dentes na outra, o pente ia enfiado no bolso do casaco ou do roupão. Passavam por ele sem o olhar. Regressavam e enfiavam-se na cama já feita de lavado.
A seguir veio uma rapariga com um aspirador para limpar o chão. Alguns doentes meteram-se com ela que se ria e respondia às provocações com um ar ligeiramente brejeiro. Parecia que toda a gente fazia o possível para tornar mais leve o ambiente.
Só depois de tomar o pequeno-almoço é que vieram os médicos. Vinham a rir, a falar alto, de vez em quando paravam mais demoradamente junto das camas e reliam os processos, observavam os doentes, faziam-lhes perguntas, sentenciavam:
- Mais dois dias e depois pode ir embora.
- Alta? Homessa você não sabe o que está a pedir!
- Sim senhor. Você pode ir hoje mas, cuidado! Não o quero ver aqui nestes tempos mais próximos! Trate de fazer tudo direitinho...
- Então amigo? É desta vez que vai fazer a desintoxicação? A sua família já não aguenta!
- Quem é este?
- Foi o que chegou ontem.
- Hum! Pneumonia. As análises... não estão mal! Como se chama?
Ele respondeu timidamente.
- Você não trazia identificação nenhuma?
- Perdi a mochila com os meus documentos.
- A polícia disse-nos que andava a vadiar no mercado. O que é que você faz?
- Sou... jornalista.
Vários pares de olhos se fixaram nele com a surpresa. Um jornalista vadio? Sem dinheiro e sem documentos? Fizeram-lhe um inquérito cerrado sobre as razões que o haviam levado ao hospital.
Ele respondeu cautelosamente. Contou uma história simples. Andava a fazer uma reportagem original e acabara por se perder e perder as suas coisas. O médico mais velho ia anotando tudo. Mais tarde confirmaria. Aconselhou-o a descansar e a cumprir as prescrições. Garantiu-lhe que numa semana estaria apto a voltar para a rua.
Ele pediu para telefonar à família. Precisava de roupa, dinheiro e sobretudo de confirmar os dados de identificação que havia dado. Tudo lhe foi concedido com amabilidade. Afinal era um senhor jornalista!
A mãe apareceu no dia seguinte extremamente preocupada, trazia-lhe tudo quanto ele pedira menos os documentos. Fora ao pai que coubera essa tarefa.
Apesar do seu sorriso havia uma censura no seu olhar. Aquele filho nunca lhe dera cuidados na infância nem na adolescência e agora, que era um homem, dava em meter-se à estrada sozinho e sem explicações!
Só ao fim de oito dias é que teve alta. Os pais vieram-no buscar e tratavam-no como um menino, ele sentiu-se realmente constrangido!
A viagem foi toda feita em silêncio e, quando chegou a casa deitou-se na cama e adormeceu.
A mãe entrou pouco depois para lhe ajeitar os cobertores e beijou-lhe os cabelos.
O livro estava escondido debaixo da almofada.

domingo, 7 de março de 2010

O evangelho de Íris


A expulsão




A turba enfurecida varre da cidade os vestígios da festa.
Os gritos de admoestação enfrentam os rostos da fantasia.
É preciso destruir a Palavra subversiva que destrói o equilíbrio da pirâmide. Chegados ao palanque iniciam o auto de fé usando como combustível os mantos coloridos.
É preciso eliminar a cor. A cor que exaltou os corações e fez nascer a inquietação.
- A Rainha falou no vermelho!- Grita o sumo sacerdote, iniciando o ofício.
- Sim- respondem os crentes- chamou-nos hipócritas e disse que o fogo nos redimiria e purificaria...
- Meus filhos, amar o fogo é um grande pecado!
- É pecado. É pecado!- Contritam-se gritando, os crentes.
- A Rainha falou no laranja?- continua o sumo sacerdote exortando à confissão.
- Sim- responderam os crentes- chamou-nos ignorantes e cobardes, e falou que o grande centauro nos defenderia, nos guiaria...
- Idolatrou o Centauro, ouviram? É pecado!
- A Rainha falou no amarelo...- Ironiza aquele que comanda os homens.
- Sim- respondem os crentes- fez-nos acreditar que nos poderíamos tornar estrelas e que essas estrelas seriam divinas!
E falou ainda- continua venenosamente o chefe- Que o fogo, o centauro e a estrela eram símbolos de força. De uma força que poderíeis controlar. Isso não é pecado, é blasfémia!
- É blasfémia! É blasfémia!- Desesperam-se os homens arrepelando os próprios cabelos!
Alterando a forma agressiva dos primeiros momentos, o sacerdote torna-se viperino e a voz sai-lhe como um silvo ameaçador.
- ...Mas a Rainha falou também no verde maduro da paciência...
- Sim- indignaram-se os homens- comparou-nos às plantas nas trevas incapazes de crescer onde queremos. Nós os privilegiados da criação divina!
- ... E a Rainha falou na suavidade do azul!
- Sim- troçaram os homens- comparou-nos a anjos flutuando no céu. Como se não trouxéssemos em nós o pecado original e o não resgatássemos já convosco, Senhor.
- ...Também, também falou no anil que vos tornaria iguais...
- Sim- arrogaram-se alguns- quase nos convidou à promiscuidade, como se não houvesse diferenças entre nós.
- A Rainha insinuou o violeta, a cor do ideal!
- Ah!- Queixaram-se os homens- Quase nos levou à exaltação através da Palavra. Quase que dominou as nossas mentes com a magia do seu discurso.
- Blasfémia! Blasfémia!
- Ergamos sobre ela o punho cerrado da indignação.
- Queimemos o seu rasto com a ortodoxia dos nossos pais.
- Destruamos a cor que nos confunde!

Íris, a Rainha das sete cores tornou-se mal amada.
Os homens da cidade perseguem-na, mas os sete espíritos coloridos enviados pelo divino, encandeiam-os e barram-lhes o caminho. Não chegou ainda a hora do sacrifício daquela que traz consigo a Palavra.
A cidade foi um logro.
Íris sabia-o desde o começo!
Agora já não está só, leva consigo as virtudes companheiras que não a abandonam.

O caminheiro


O valor do desconhecido



Acordou muito depois. Teriam passado dias ou horas? Agora já nem sabia o que era o tempo. Estava fraco, desiludido, completamente derrotado. O seu instinto de sobrevivência dizia-lhe que era necessário abrir as cortinas daquele sonho mas o seu pensamento ultrajado prendia-lhe os movimentos.
Todo o seu corpo lhe doía.
Lembrou-se então do pequeno livro e meteu a mão ao peito para o retirar. O livro ali estava, miraculosamente salvo depois de toda aquela aventura.
Abriu-o.
Leu.

“Toda a porta tem uma fechadura
da qual cada um possui a chave.
Se a tua alma se mantiver pura
é então possível que acabes
por encontrar a verdadeira saída.
Se choraste, é porque sofreste.
Abriste a sagrada ferida.
Meu irmão, então, venceste!”

Que vitória era esta que o fazia sentir-se perdido?
De dentro de si ouviu uma voz: “ quando se reconhece a dor é porque se está prestes a acordar.”
Uma angústia imensa envolveu-o. Uma tristeza amarga invadiu-o. E voltou a chorar. Agora silenciosamente, ininterruptamente, com lágrimas grossas escorrendo devagar por todo o seu rosto enquanto da sua mente se libertava um peso enorme.
Deixou de ouvir o burburinho da cidade, as imagens dissolveram-se numa atmosfera limpa e ele encontrou-se em frente a um ribeiro saltitante no meio de uma floresta antiga. Que lugar era aquele? Onde estavam a gruta e a praia que havia percorrido?
Era um novo sonho ou a sua vida real?
Percebeu que não valia a pena tentar compreender. A sua salvação estava no facto de aceitar sem questionar.
Deixou de sentir dores, de sentir medo, de sentir alguma coisa como sua... usufruía a partir de agora o Todo.
Aproximou-se do ribeiro e olhou-o atentamente. Reviu a sua imagem ondulando. Sorriu. Despiu-se e cuidadosamente pôs as suas roupas dobradas na margem. Entrou nas águas e deitou-se no seu leito. Uma imensa sensação de paz tomou conta dele.
Agora já não tinha visões, nem pensamentos. Agora só tinha emoções.
Sentiu-se forte, seguro, limpo. Fechou os olhos não para dormir mas, para poder receber ainda mais intensamente toda aquela calma e ternura.
“ Eu sou o que sou.”, pareceu-lhe ouvir, muito ao longe, como num eco perdido.
Quando saiu do banho purificador, vestiu-se e voltou a caminhar. Agora já não tinha mais nada de seu senão aquela roupa e aquele livro.
Ainda não tinha dado muitos passos quando à sua frente encontrou um homem. Cumprimentou-o. O outro respondeu-lhe.
- Para onde vai? – Perguntou.
- Ainda não sei. – Retorquiu o outro.
- Bom. Nesse caso acompanhá-lo-ei.
E foi assim que lado a lado os dois homens percorreram o caminho.
Nem um nem outro falaram.
Ambos pareciam cheios de algo que não partilhavam.
A noite apanhou-os desprevenidos em plena floresta. Acenderam
uma fogueira numa cúmplice decisão.
Cada um recostou-se ao tronco de uma árvore próxima mas nenhum foi capaz de falar. Nenhum descerrou as pálpebras. Ambos esperaram pela aurora doce e partiram.
No fim da estrada poeirenta havia uma bifurcação. Cumprimentando-se de novo, cada qual seguiu o seu rumo.
O Nada poderia estar em qualquer lado...

sexta-feira, 5 de março de 2010

Quimera



Nunca me perdi em tão grande quimera.
Nunca sorri tão feliz na Primavera.
E no entanto, que posso eu esperar?
O Inverno não tardará a chegar.
Aprendo agora que a vida não tem idade
Tudo o que nos sobra é já felicidade,
Aprendo agora que o tempo não tem medida
Que o que importa é passar de vida em vida.

Já corri, já caí, já me feri e morri.
Deixa-me pois sentir que renasci!
A estrada que me leva levanta o pó
No passar da minha passada triste e só.
E eu tusso, choro e espirro alergicamente,
Quero ser feliz, mesmo que tragicamente.

Sê por algum tempo a chuva conciliadora
Que apaga a fogueira que me devora.
Sê depois o sol espalhado e generoso
Para que o azul do céu rebrilhe radioso.

Nunca. Nunca me tomou tanta loucura!
Nunca desejei ser tão sábia e tão pura!