quarta-feira, 26 de maio de 2010

Esclarecimento


Tenho andado com muitas actividades e com problemas de saúde que me têm impedido de manter a regularidade deste blog. É coisa passageira. logo que possível retomo, de Acordo?

sábado, 3 de abril de 2010

O nascimento de uma flor


4. A terra, o vento, a chuva e o sol



Passavam os dias e eu, cada vez mais presa à terra, continuava o meu percurso ascendente enquanto me fortalecia e me tornava maior.
A terra quase negra segredava-me confidências num diálogo íntimo… daqueles que acontecem quando nos reconhecemos próximos!
Naquele mesmo espaço, dizia ela, haviam já nascido muitas plantas que ela sustentara. Vira-as nascer, crescer e morrer. Isso desencantava-a porque tinha sempre que despedir-se quando encontrava!
Não havia revolta nela, apenas uma tristeza, uma conformação por não poder manter quem amava!
Expliquei-lhe que talvez fosse essa a sua missão; permitir que a vida se manifeste, mesmo que por pouco tempo e, sublinhando a sua generosidade, valorizei o seu serviço.
Ela não me respondeu logo mas por fim perguntou:
- Será que sou de facto como me vês? Não ocultarei eu desejos inconfessados de domínio sobre aqueles que me são entregues? Não serei apenas um instrumento com que a natureza se dotou para dar a outras formas de vida o valor que não tenho? Quem sou afinal? Uma amálgama de rochas desfeitas e restos de podridão material de seres que já cumpriram!
Sorri, sacudindo o orvalho que se depositara em excesso nas minhas folhas.
- Os outros ver-te-ão como tu te quiseres mostrar, porém aconselho-te a não te deslumbrares com o brilho fugaz das vidas que contemplas. Temes o desejo de possuir mas, somos nós que te possuímos enquanto vivemos aqui! Sem ti não desabrocharíamos, ficaríamos eternamente numa semente anunciadora… o que serias tu sem o nosso ciclo de nascimento/morte/renascimento? É isso que te torna tão diferente das areias estéreis. Tu és abrigo, calor, segurança, alimento. Sem ti nada seria como é e nada poderia realmente manifestar-se neste lugar… mesmo que por breves momentos!
A terra soluçou comovida ao descobrir a grandeza que tinha em si, ela que sempre se considerara um meio e não uma entidade plena, ao ter consciência disso percebeu que tinha uma responsabilidade maior, tornava-se cúmplice do processo transcendente que é a vida. Era-lhe difícil assumir, assim de imediato, esta nova personalidade, quase doloroso! Porém, humilde como era, a terra encheu-se de brios e passou a acreditar que todas as coisas eram importantes a partir desse momento. Deste modo perdeu o desejo de possuir e ganhou o conceito de contribuir.

(continua)




O Evangelho de Íris


Paula


A humildade é a virtude que torna os pequenos homens em grandes sábios ou anjos.





Ali, no alto da colina, há um casal que é banhado pelo sol assim que nasce o dia.
Ali, onde a subsistência obriga a um trabalho contínuo, há um canteiro mimado. O canteiro de Paula. É ela que prepara a terra, a rega, é ela que o planta e semeia para depois, a cada milagre de cor e perfume dar um nome, um carinho, através dos gestos e sussurros sorridentes.
Paula não desvenda mistérios nem medita na criação. Basta-lhe presenciá-los, aceitá-los, com o amor genuíno das almas simples.
Paula não sente a nostalgia pelo passado nem ansiedade pelo futuro. Pisa com alegria o presente. Vive. Vive cada momento da sua vida com singeleza e quietude.
Esta manhã, descortina na planície circundante um grupo de jovens que têm um aspecto diferente das demais raparigas que conhece. Não é hábito receber visitas, ainda por cima a uma hora destas e com este número! Porém, estende os braços e acolhe-as no seu lar. Convida-as a entrar e oferece-lhes alimento e água fresca, numa franqueza própria de quem não tem malícia.
Quando estas se sentam, cansadas e empoadas pela jornada, num impulso irresistível, ajoelha-se a seus pés e lava-os com água perfumada por pétalas das suas rosas. As companheiras de Íris esquivam-se envergonhadas, julgam que esse gesto resulta do seu aspecto pouco limpo. Mas Íris sorri docemente e diz-lhes:
- Abençoada seja aquela que se ajoelha perante os seus iguais, porque ao curvar-se, se eleva para além do tamanho de todos. Esta é a violeta rasteira e sombria que exalta o jardim com o seu aroma!
A seguir, Íris dá-lhe a mão e ergue-a, senta-a junto de si e oferece-lhe ela própria, a sua tigela de leite.
A conversa entre as nove é agradável e risonha. Todas tentam explicar a Paula os seus percursos e Íris fala-lhe que aquelas mulheres estão atadas por um nó que as aperta e torna fortes, capazes de reunirem todas as virtudes humanas e elevá-las até à divindade.
Paula não entende exactamente o sentido das palavras mas intui a verdade, por isso se comove e deixa que as lágrimas caiam e escorram no seu rosto.
Os dedos de Íris não resistem a enxugá-las e passam ternos sobre a rosada e suave face de Paula, num acto de amor tão espontâneo que ela própria se surpreende.

Paula perfuma até a própria alma!

Há mais de uma semana que o grupo se acolhe na colina. Há mais de uma semana que partilha as tarefas e se senta à tardinha junto do canteiro, falando de coisas simples e quotidianas. Durante este tempo recuperam as forças, ganham energia e preparam-se para a próxima etapa.
Íris parece feliz, quase voltou a ser menina. Mas esta tarde está mais séria. Sente que é chegado o momento de partir. Sabe que todas a seguirão mas, está apreensiva quanto a Paula. Esta, tem uma vida quieta, não tem dúvidas nem parece aspirar a mais nada do que já possui. Paula está incluída no seu projecto desde o princípio, pela primeira vez, vacila em pedir-lhe que a siga. Isso significa deixar tudo para trás, viver ao sabor dos ventos e dos trilhos, sofrer as agruras do descrédito, sentir o desprezo dos acomodados. No entanto, a virtude de Paula tornaria as outras mais firmes...
Sai por fim do seu encanto, indica que está pronta a partir. Obedientes, todas as outras se erguem. Despedem-se de Paula e seguem Íris pelo campo.
Ainda não tinham descido a encosta, quando Íris olha para trás. o fim de todas, na cauda do grupo, segue saltitante Paula. Olha para o céu e murmura feliz:
-Paula perfuma as nossas almas!

O Caminheiro


O tapete vermelho



A mãe, como já era previsto, preferiu ficar na sua própria casa, rodeada pela sua gente. Gente que a vira lutar, vencer e ganhar a paz que trazia consigo. Ele responsabilizava-se para que nada lhe faltasse e tivesse sempre quem a ajudasse nas tarefas do dia a dia. Sempre que podia visitava-a. A mãe elogiava-o sempre, dizendo a todos o bom filho que ele era, mas interiormente ele sentia que não era o suficiente. Um enorme complexo de culpa invadia-o de vez em quando e corria para ela. Tinha medo, um medo terrível que lhe acontecesse o que tinha acontecido com ao pai.
Entretanto o seu nome era cada vez mais conhecido, um produtor de cinema tinha-o abordado para fazer alguns trabalhos baseados nos seus contos. O contrato era aliciante e ele não foi capaz de dizer que não, mesmo sabendo que teria ainda menos tempo disponível. Em breve a sua vida voltava a tornar-se num corrupio incessante sem horas para nada nem para ninguém. Tinha-se mesmo tornado antipático com as pessoas. Trajava agora o fato de luzes, o mundo girava à sua volta, enquanto as folhas do calendário caiam uma a uma sem que ele se apercebesse disso.
Muitas eram as mulheres que o procuravam, que o desejavam, que dormiam com ele porque sabiam que ele estava bem relacionado com o mundo das artes e dos espectáculos. Claro que ele sabia isso, mas já nada lhe importava! Embalado na dança do socialmente aceitável, lá andava de um lado para o outro, esquecendo-se de si próprio e esculpindo a imagem de um homem-estrela.
Poucos eram os amigos verdadeiros, os mais fieis sentiam-se acabrunhados pelo peso da sua nova imagem. E ele não reparava...
Ufano, impunha a todos um comportamento de subserviência e quantas vezes tinha para com os seus colaboradores uma atitude tirânica!
Se por acaso alguma vez parava e olhava o espelho não era a sua imagem real que via mas, a caricatura de um homem que fora um dia.
Uma tarde, sem saber bem porquê, sentiu-se só, estava cansado das letras do seu nome imprimidas nos cartazes que enfeitavam os escaparates das livrarias, que iluminavam os cinemas, que se arrastavam nas folhas de jornal perdidas no chão da cidade.
Sentiu o vazio que construíra e, lembrou-se das palavras do pai.
Não dormiu nessa noite e, ainda madrugada, dirigiu-se até à praia mais próxima. Não era sequer primavera, mas o sol brilhava contente brincando com a areia fina e dourada. As ondas esverdeadas, vinham uma após outra, desfazer-se em espuma nos seus pés. Não havia ninguém e as gaivotas aproveitavam para deixar as marcas tridentes à beira-mar. Os gritos delas rasgavam o ar feito de vento frio e leve. E ele aproveitou e gritou também. Gritou tanto que a voz enrouqueceu . Deixou que o ar puro e salgado lhe entrasse pelos pulmões limpando-lhe a alma.
De repente o desejo de liberdade invadiu-o e fê-lo mergulhar no oceano e deixar-se levar pela corrente.
Era como se sentisse de novo livre!
Cansado, tremendo de frio, voltou para o carro e embrulhou-se numa manta que ali estava. Lembrou-se dos tempos da procura. Da caminhada.
Que passos havia ele dado então desde aí?
Recordou o livro das mensagens. Onde estaria? Em sua casa ou na casa da mãe? Subitamente toda a urgência estava em encontrá-lo.

Regressou rapidamente a casa e revirou-a de uma ponta a outra, como o não encontrou, deslocou-se ainda nesse dia a casa da mãe. Admirada, esta perguntou-lhe ao que vinha e ele nem sequer respondeu, dirigiu-se de imediato ao seu antigo quarto, abriu e fechou quantas gavetas havia nele. Estava a ficar desesperado quando, finalmente, por detrás de uma fotografia sua de criança, o encontrou.
Tremeu de emoção, pegou no livro cuja capa quase se desfazia, e sentou-se aos pés da cama com ele.
Assustava-o a ideia de que as palavras se tivessem apagado durante a sua ausência. Teve medo simplesmente de não conseguir ler e entender. Por fim, sustendo a respiração, abriu o livro.

“Os teus pés calcam agora a fortuna
O teu corpo arrasta-se na falsa ilusão
A tua alma sofre a eterna secura
E tu, só encontras a solidão.
Tens os teus ombros carregados
Com a miragem do teu sucesso
E os teus sonhos foram relegados
P’ros confins d’outro universo”

Os pensamentos enturbilharam-se no seu cérebro. O coração arrítmico abrandou tanto que quase parou. A mágoa. A mágoa emergiu manifestando-se num mal-estar esquecido. Que caminho tomara ele? Em que beco se perdera? Mentalmente murmurou: - Não sou digno da esperança que foi confiada! Não soube encontrar-me... – e abriu de novo o livro. Nunca o fizera duas vezes seguidas. Estava desesperado!



“Do caos nasce a nova ordem
Porque não mergulhas nele?
Volta à primordial viagem
E pede ao Espírito que vele.
Terás nas tuas mãos um tesouro
Vislumbrá-lo-ás rebrilhando
Mas só serás senhor desse ouro
Enquanto a tua alma for clamando”

Esta era a réstia de esperança que lhe davam!
Sim. Ele teria que voltar a caminhar, ser o nómada do deserto do entendimento. Por isso, guardou o livro consigo e inventou uma desculpa ao despedir-se da mãe.
Voltou à cidade e demorou dois dias para suspender todos os assuntos pendentes. Não deu explicações a ninguém. Para quê? Alguém o poderia entender?
Uma última oportunidade tinha-lhe sido dado e desta vez ele não a queria desperdiçada. Sabia que a caminhada seria dura e dolorosa, mas era a sua caminhada. E sem ela, jamais se encontraria.

domingo, 28 de março de 2010

O nascimento de uma flor


1. A cor que grita: Esperem por mim




Estava eu toda verde quando passou a manhã e veio a tarde. Revesti-me de exuberância e multipliquei o prazer de me ver assim! O vento roçava-me com ternura sem saber, o sol beijava-me morno e o dia avançava com o respirar de todas as coisas vivas.
Eu também estava viva! Sentia que sempre o estivera. Mas agora a força que me animava era outra, mais material e mais física, fazia-me agarrar ao mundo onde estava! Projectei a minha sombra no chão e vi como a dimensão dela fazia uma curva diferente.
Um bando de pássaros passou por ali. Conversámos longamente sobre primaveras vividas antes e eles trouxeram consigo as lembranças de ninhos em escarpas frígidas.
- Ter asas e voar é mais do que uma função, não é? - Perguntei eu.
Um dos pássaros olhou para mim enquanto catava a base das asas e respondeu-me:
- Quando voamos vemos o mundo e aprendemos com ele. Que conheces tu dele e dos seus contrastes? Dos desertos e das florestas, dos céus e dos mares, dos campos e das cidades? Só conheces o perímetro de ti mesma…
- Eu não preciso de asas para aprender sobre o mundo, ele vem até mim através das emoções dos outros, de maneira intocável é certo, pois estou presa à terra, mas repara, como se ergue a minha cor para além do solo! Aprendo o mundo através dos elementos que vêm até mim.
- Nesse caso tudo o que aprendes vem travestido, não é autêntico, vem transformado pela percepção dos outros… que tens realmente de teu no teu conhecimento?
- Tudo! Eu pertenço a este todo e partilho-o sem medo de perder o meu poder. Para que me serviria o teu conhecimento? A tua sabedoria serve para dominar, eu porque comungo da vida, desejo apenas estar viva e ser feliz.
O pássaro pareceu não concordar comigo e para mostrar todo o seu poder, convidou o bando a um voo uníssono e levantaram-se do chão formando uma nuvem anónima pelo céu.
De facto esqueci-me de lhe dizer que pensar individualmente era importante mas não evitava que eles agissem assim sincronizada e impessoalmente. Eu ao menos, oferecia-me de forma única. E isso era o mais importante.
Perdoando-os, ainda lhes gritei:
- Ei! Esperem por mim! Levem o meu verde pelo mundo fora!

O Evangelho de Íris


Sofia


O conhecimento é o conjunto de saberes, mesmo daqueles que ainda não pertencem ao nosso universo.





O recorte do litoral neste lugar é de falésia. Ela estende-se a dado momento por uma faixa estreita e prolonga-se pelo mar dentro. No seu limite está um farol. Tão velho e sólido que o mar apesar da sua fúria o respeita. O vigia luminoso passa de geração em geração sempre na mesma família. A solidão é um vício. O caminho rochoso é batido violentamente pelas águas que ora abrem fendas, ora o cumulam de areia e lodo como presentes.
O farol é um lugar de romagem obrigatório para Íris. Ela sabe-o e sabe também que só ela será protegida na sua passagem e, mesmo assim...
Pede então ao grupo que a acompanhe que fique em terra esperando. Que aguarde e vele. Pede ainda que aproveitem o tempo para sentir a vibração divina da voz das águas e reflictam um pouco na existência do horizonte.
A sombra da tarde já ilude o olhar, confunde os vultos e torna mágicos os elementos. A distância não é longa mas apenas pode vislumbrar a silhueta de quem a espera à porta.
É Sofia, aquela que rege o mundo das trevas através da luz rotativa que se espalha em raios de claridade. Sofia que adivinha já o seu encontro e que põe sobre os seus olhos a mão em pala como forma de dirigir a sombra até si.
Quando as duas se encontram não são precisas palavras. São os seus pensamentos que falam, se encontram e reconhecem.
As mãos tocam-se. Certificam-se de que é material a sua presença.
Quando entram na construção cónica, sóbria e sólida, sobem até à cúpula e esperam caladas que a primeira estrela anoiteça o céu.

- Esperei por ti toda a minha vida, mesmo antes de saber que vivia...-sussurra Sofia confidente.
- Estive sempre aqui. Mesmo sem saber que era aqui o teu lugar - responde Íris no mesmo tom.
- No entanto é longa a jornada que tens feito!...
- Mais longa será o resto dela...
- Íris, como podes ser filha da mulher se a tua semente veio de além, onde é impronunciável o nome? És semente divina, Íris?
- Todas as sementes são divinas, todas as mães são mulheres. São elas que dão corpo e forma à existência. Sem elas a divindade ficaria eternamente no seu casulo adormecida.
- Eu também sou semente divina! Lembras-te? Lembras-te quando antes nos fundíamos e éramos aspectos diferentes de uma mesma identidade? Lembras-te como éramos antes de sermos como somos?
- Lembro Sofia. Lembro. Mas foi necessário separarmo-nos para nos reencontrarmos. Eu vim trazer a Palavra e ela só pode ser dita através da voz e do gesto, de modo a que todos a compreendam. Tu conheces a Palavra porque fazes parte dela como eu. Mas...eles, os homens, continuam a procurar-nos mesmo depois de nos conhecer.
Mas foste concebida sem acto carnal enquanto, bem, nasci de um homem e de uma mulher.
- Foste mais feliz do que eu! Nasceste do amor entre dois seres iguais. Foi o amor que te ungiu e nada há de mais belo neste lugar que o amor entre um homem e uma mulher que dão forma e corpo à semente adormecida!
Eu, fui a escolhida. Tornei-me mensageira, nunca estive em nenhum lugar nem nunca saí de algum lugar. Sou como um arco, uma ponte, que une as margens e não as toca...
- Íris, tu sofres?
- Tudo o que é matéria sofre, porque ela limita o espírito e torna espessas as ideias. O meu sofrimento faz parte do Inominável. É ele que torna o conhecimento visível e claro aos homens.
- Eu não sofro...
- Não. Tu vives na solidão desde que nasceste. E quem tem como gémea a solidão não sofre. Tens todo o tempo para ti. Quando partirmos e nos reencontrarmos, quando a nossa existência se fundir de novo, verás como cada uma terá alargado a sua verdade. E como seremos grandes depois!
Sofia e Íris esperam a madrugada comungando do crepúsculo. É necessário voltar de novo a estar juntas.
Íris regressa para o pé das companheiras. Elas dormem um sono profundo. Íris deixa escapar, leve, uma censura:
- Então não foram capazes de ficar acordadas ao menos uma hora?

É preciso estar de novo com Sofia. Íris deve voltar ao farol. Por isso separa-se do grupo na tarde do dia começado e avança pelo cabo pedregoso. O sol baixo que ilumina a sua imagem pinta-lhe a aura de dourado.
Juntas, Sofia e Íris, assistem agora ao declínio do dia, quando o primeiro luar as toca, voltam a retomar o diálogo do dia anterior.
- Sofia, o tempo ainda não está esgotado. Faltam ainda fios com que é necessário tecer a corda que rebocará a humanidade. Ainda falta percorrer parte do arco circular deste caminho. é por isso que estou aqui!
- Não compreendo Íris! Como pode a divindade enviar-te se os homens continuam sem ouvir? Todos os que vieram antes de ti tiveram dois destinos: ou foram imolados ou foram idolatrados. Qual é o teu destino Íris?
- Já te disse Sofia, o meu destino é a passagem. É deixar no meu rasto o espectro luminoso da Palavra. Somente isso! Será a última prova, a última fase da sublimação do meu ser.
- Também eu estou no último degrau, também eu me preparo através da meditação para tornear o patamar e entrar no corpo sublime da estrela-mãe. No entanto não tenho precisado de me liquefazer em dor...
- Há sempre formas de atingir esse momento; tu fá-lo através da meditação, eu, através da acção. Ambas são legítimas e seguras. No entanto ambas são incompletas. Por essa razão te reencontro. A partir de agora teremos que caminhar juntas, para conseguirmos alcançar o nosso objectivo. Só quando nos completarmos, poderemos terminar. Vem Sofia, está na hora.
- Não posso deixar de sentir receio pelo que vou encontrar. Há muitas histórias da História da humanidade que têm chegado até mim através dos ventos e das marés. Falta-me a coragem, confesso, Íris, de avançar por esse caminho. Há muito que esqueci a provação !
- Afasta as tuas dúvidas minha irmã ! Para lá do farol estão aquelas, que com as suas virtudes, representam o melhor da humanidade ! São elas que me têm amparado e incentivado até aqui. Continuarão a fazê-lo.
- Fá-lo-ão por ti, Íris, não por elas próprias !
- É verdade...mas quando partirmos, entrelaçarão as suas forças e continuarão a arrastar os homens. Vem Sofia, está na hora !
- Espera. Espera só mais um pouco. Deixa que amanheça e partiremos.

Outra manhã começa. Íris e Sofia trazem consigo a luz do farol que encandeia e prostra o grupo. É necessário que Íris as sossegue:
- Não temais amigas. É apenas a luz que transborda. Logo vos habituareis a ela. Esta é Sofia, minha irmã. Também ela percorrerá a partir de agora o que falta.
Não temais. Esta luz não vos cegará, apenas abrirá aos poucos os vossos olhos. Logo sereis capazes de a seguir e vós mesmas, depois de nós a transportareis, iluminadas.
Não temais. Não temais.

O Caminheiro


Vaidades



Como é estranho o sucesso dos homens! Do baú tinha nascido o reconhecimento material e social da sua vida. E, enquanto seu nome era falado ele ia calando cada vez mais o segredo da sua caminhada.
O regresso às obrigações do trabalho tornara-o a pouco e pouco insensível, sobretudo em relação ao seu mistério íntimo.
No tempo em que falara do seu baú ainda fora capaz de tocar os sentimentos, mas agora, que escrevia sobre os baús dos outros, a memória deles era filtrada por uma mente racional e fria.
Vendia bem as histórias. O público prefere histórias vulgares que apenas rocem as suas próprias histórias. Nada de muito profundo...
O tempo antes não tinha dimensão, agora perdia-se escoado nas alíneas da agenda. Como é estranho o sucesso dos homens!

Naquela noite quando chegou a casa, encontrou sobre a secretária um telegrama. Suspirou, tirou o casaco, desapertou o nó da gravata e por fim abriu-o e leu-o: PAI FALECIDO ESTA MANHÃ. Nunca a morte lhe tinha sido tão próxima. Com uma espécie de desconfiança e os dedos incertos carregou nas teclas do telefone.
Foi a mãe que o atendeu.
- Mãe?
- Filho!
- Só o soube agora. Acabei de chegar... Como foi?
- Naturalmente, meu filho, suavemente...
- Mas...assim? Estava doente?
- Não. Porque é que há-de haver razões para a morte? Morre-se e pronto!
- Há tanto tempo que não estava convosco!
- Mas nós estivemos sempre contigo!
- Mãe?
- Sim?
- Amanhã estarei aí.
- Esperarei por ti.
Pousou o auscultador. Custava-lhe a acreditar... sentou-se no sofá e ficou muito tempo sem conseguir ordenar as ideias. As imagens do pai assomavam constantemente. Parecia-lhe ainda ouvir a voz dele, levemente arrastada, e sentir, sentir as mãos de pele áspera de encontro ao seu rosto, cheirando a coiro. E ele que abominava o cheiro do coiro! Agora entrava-lhe pelo o nariz e arranhava-lhe a garganta, e ele gostava!

Só as lágrimas é que não vieram ter com ele, teimavam e negavam-se a correr, ou então, corriam dentro dele como lava quente queimando-o por dentro.

Logo que amanheceu, comunicou a um colega o sucedido, e preparou-se para sair. Pegou numa pequena maleta de coiro e enfiou lá para dentro alguma roupa juntamente com os objectos de higiene. Depois ficou parado algum tempo remirando-a poderia ter sido feita pelo pai, mas tinha uma marca estrangeira e custara bastante dinheiro. Porque nunca pedira ele ao pai que lhe fizesse uma mala como aquela?

Fez-se à estrada. Agora já não andava de mochila às costas. Conduzia um bom automóvel e seguia pela estrada asfaltada em grande velocidade apesar do especial cuidado que esta exigia. Admirou-se consigo mesmo. Estava tão calmo e seguro que aparentava frieza. À medida que se ia aproximando mais rígido parecia. Porque não conseguia chorar? Como se comportaria na hora do funeral? Acusava-se intimamente da pouca assistência que lhe dera. Quem teria tratado de todas as formalidades? A mãe? Apesar da idade continuava enérgica e cheia de sangue frio. Mas... naquela hora de perda...amando o marido como só ela fora capaz. Teria tido coragem? Talvez algum dos vizinhos?... Quem sabe? Um dos seus irmãos?... Achava pouco provável que algum tivesse essa iniciativa. Era a ele que lhe competia a tarefa, a mais ninguém, afinal era seu pai, não era o pai dos seus irmãos.
Quando entrou no prédio, a D. Mingas nem o deixou tocar à porta, era a vizinha do rés-do-chão, abraçou-o a chorar comovidíssima e comunicou-lhe que o corpo estava na capela mortuária da igreja do bairro. Ele agradeceu, desembaraçou-se como pode do abraço e dirigiu-se para lá.
O cheiro adocicado e crepitante das velas misturado com o perfume das flores irritaram de imediato as suas narinas obrigando-o a uma série de espirros ruidosos. A mãe reconheceu-o e veio ter com ele.
Olharam-se com ternura, nos olhos, e ampararam os corpos um no outro, sem se apertarem, apenas de forma que eles confirmassem a materialidade da sua existência.
A mãe vestia de negro com a mesma naturalidade com que vestia qualquer cor, talvez estivesse um pouco mais pálida, mas de resto, parecia tranquila. Ela dando-lhe a mão, levou-o até a galeria dos amigos e parentes afastados sentados cerimoniosamente nas altas cadeiras de espaldar. Todos aqueles rostos pareciam esculpidos de conveniência, nem um só gesto desajustado, nem uma só expressão menos correcta. Nada fugia às normas convencionais.
Sem dar por isso deixou escapar um leve sorriso, não era um sorriso de alegria, claro! Mas um sorriso nervoso de quem não está habituado aqueles cenários.
Depois, com naturalidade, dirigiu-se à urna do pai.
Era de madeira escura e pesada, forrada de cetim azul claro. À sua volta uma moldura de flores torneava-lhe a cabeça e o corpo. Poucas vezes tinha visto o pai sem óculos e estremeceu ao notar como eram grandes as semelhanças entre si e ele. Era como se estivesse a presenciar o seu próprio futuro! O pai estava vestido com o melhor fato que tinha, o cinzento escuro, uma camisa imaculadamente branca e uma gravata azul escura e branca que ele lhe oferecera num Natal distante. Aquele não parecia ser o pai, estava habituado a vê-lo com roupa de trabalho, sobretudo com o enorme avental de couro enegrecido. Aproximou-se um pouco mais e estendeu a sua mão direita sobre as mãos dele que estavam cruzadas no peito. Sim. Aquelas eram as suas mãos! Mãos que não souberam mascarar a vida e que traziam com elas as cicatrizes da sovela e do fio. Mãos endurecidas e, no entanto, tão delicadas, tão cheias de carinho.
Em pensamento dedicou-lhe as palavras de amor que nunca lhe expressara claramente, pediu perdão pela negligência que tivera nos últimos tempos e viu-se de repente a confidenciar-lhe os últimos projectos. Tudo em silêncio! Depois sentou-se ao lado da mãe e passou-lhe o braço pelos ombros. Ficaram quietos, calados, sem lágrimas nem inquietações.
Uma hora depois chegaram dois dos seus irmãos com as respectivas mulheres e filhos. Nunca haviam sido muito chegados ao padrasto, mas soube-lhe bem que tivessem vindo para confortar a mãe. Desculparam a irmã, dizendo que ela vivia longe demais e o marido estava fora, mas traziam da parte dela palavras sinceras de condolências. A mãe abraçou-os e parecendo quase feliz.
Depois do funeral propriamente dito, os irmãos chamaram-no. Era a primeira vez que o tratavam como irmão verdadeiro, e a questão principal era saber exactamente o que deviam fazer com a mãe, pois com a idade que tinha já não convinha ficar tão sozinha. Ele nunca pensara nisso, por isso respondeu que o melhor seria falar com ela logo que fosse possível. Talvez aquele momento não fosse o ideal para o fazer. No entanto não acreditava que a mãe, sempre tão independente, quisesse ficar em casa de algum deles. Os outros desculparam-se imediatamente com o facto de terem casas demasiado pequenas e, provavelmente porque a sua solidão seria maior pois, as respectivas mulheres trabalhavam também, e ela desse modo, ficaria sem ninguém durante todo o dia. Mas o mais grave seria o desenraizamento. Ela vivera quase toda a vida naquele prédio, naquele bairro, naquela cidade. O mais sensato seria que ele, solteiro, e um escritor famoso, com melhores condições económicas do que eles, pudesse assumir o encargo financeiro de manter alguém de confiança junto dela.
Teve vontade de os mandar passear, mas conteve-se. Descansou-os, dizendo que sim, que assumiria esse compromisso com toda a alegria, que ficassem tranquilos quanto a isso. Percebeu os seus suspiros de alívio e nem sequer ousou criticá-los.
A mãe voltou para casa com os vizinhos, ele precisava de espairecer um bocado e sobretudo preparar a conversa com ela de modo a não a magoar.
Quando entrou no carro sentiu uma enorme necessidade de rolar pela cidade sem rumo definido. Parou por fim na parte alta e sem saber como, rompeu num pranto. Não chorava a morte do pai. Uma vida inteira de generosidade e pureza. Chorava o desmembrar do casal feliz que os seus pais tinham formado.
Esgotado pelo esforço do choro, reclinou a cabeça e fechou os olhos. Sentiu o cheiro a cabedal, o afago no alto da cabeça que o pai gostava de lhe fazer, olhou para o lado. Ali estava ele, de camisola azul e calças cinzentas de algodão. Estava a rir. Parecia estar a fazer pouco dele. Quis dizer-lhe alguma coisa mas a voz embargou-se-lhe. Não teve medo mas sentiu-se atrapalhado pela presença etérea do pai.
O velho piscou-lhe o olho como se dissesse: - Desta já me escapei! – E ele riu.
Com mais segurança perguntou-lhe:
- E agora? E a mãe?
- Agora nada! Vou viver a minha verdadeira vida! A tua mãe? Bom, ela é forte, saberá encontrar pensamentos de conforto. É uma grande mulher, sabes?
- Sei.
- É contigo que me preocupo, meu filho.
- Comigo?
- Sim. Procuras sempre fora o que tens dentro de ti. Arriscas-te a perder no meio da ilusão que criaste para ti. Tens fama, tens sucesso, serás cada vez mais solicitado para te integrares nesta sociedade de bem estar material. Dessa forma irás perder tudo. Tem cuidado, não te desiludas a ti próprio!
- Que hei-de fazer, meu pai?

O pai esfumou-se sem palavras.

sábado, 20 de março de 2010

O nascimento de uma flor


2. A haste verde que estende os braços



Pouco maior que o musgo atapetando o chão, encarei o orvalho e fiquei a recebê-lo…. Bebi-o até não poder mais, numa atitude cortês de quem recebe um prémio.
Estava tão cheia de orgulho de mim mesma que nem reparei na minha mãe longínqua plantada naquele vasto lugar.
Interessava-me rever e reaprender tudo. Sobretudo voltar a sentir o perturbante enleio que vinha do ar; os cheiros, os sons, os toques macios e ásperos das brisas e dos ventos, do calor do sol filtrado por entre as minhas irmãs.
Tinha urgência em abraçar o universo. Quem chegava era eu e vinha de novo para o mundo que entrava em mim. Havia que estender os meus braços e estender-me à vida. Em breve, um pequeno animal, um grão de terra, vieram cumprimentar-me trazendo-me as suas mensagens através de folhas desprendidas…Do meu corpo então em alvoroço estendi o verde da minha folhagem

O Evangelho de Íris


Lectícia




A alegria dá à vida o brilho com que se destacam os pormenores da neutralidade dos factos.





Íris não dorme, fica ali sentada, vigiando, junto das suas companheiras. Acompanha o percurso da noite e recebe de seus pais intemporais a mensagem do dia próximo.
Quando o horizonte muda de tom não pode evitar um sorriso de bem estar. Acorda as companheiras deixando que a energia transmitida pela paisagem lhes toque a alma. Correm para as águas cantantes que correm no ribeiro, mergulham nelas e lavam nelas as tristezas do passado.
Com a voracidade juvenil comem todos os frutos que podem oferecidos pelos arbustos e as árvores. É preciso dar alimento ao corpo que as transporta.
A aurora do dia chega plena de luz, desperta os bandos de aves que repousam nos ramos e enche as margens do ribeiro com criaturas diversas, dispostas a viver mais um dia. O sol ainda se orna de rosa, mas aquece já o orvalho que se eleva no ar formando uma neblina baixa e mágica que encanta. Cheira a pinheiros, fetos e violetas. Uma mistura de aromas que inebria os sentidos. O vale coberto de musgo abraça e recebe a graça divina de uma primavera benevolente.
Apetece gritar bem alto:
Bom dia! Bom dia!

Da encosta do monte desce a voz de uma pastora que canta. Cantiga simples em que as palavras jogam com os sons da rima quebrada, mas, a música, vem de dentro, sobe e desce e volteja no ar como trinados. O eco repete-a como um coro no espaço. A pastora pensa que está só em intimidade com a natureza, por isso se despe de todo o pudor e através da voz se mostra nua.
O grupo faz-se encontrado e ela recebe-o surpreendida. O breve momento de hesitação desvanece-se e abre o seu sorriso franco. Oferece então o pão da partilha e o leite das suas ovelhas.
Emocionada com a simplicidade da jovem, Íris pergunta-lhe o nome. O nome é fundamental porque imprime no espírito a personalidade.
- Lectícia.
- Lectícia!- Repetem em conjunto as companheiras.
Íris convida-as a todas a sentarem-se, dá a mão a Lectícia e, virando-se para o grupo, explica:
- Lectícia é a alegria. A alegria que nos falta tantas vezes. Toda a caridade, toda a verdade, toda a coragem e acção devem ser feitas com alegria. Agradece-se a oportunidade de viver, demonstrando a alegria, porque ela filtra a luz que entra no coração dos homens e torna maior a dimensão em que vivemos.
Tu, que és pastora, que estás longe das estradas e das cidades, que vês o mundo do alto dos montes e o céu inteiro do fundo dos vales, tu que aprendes com os pássaros a voar com a tua voz para além de todas as dores e de todas as dúvidas, tu que calcas as ervas que atapetam o solo, és outro elo da cadeia que arrasto e com a qual desejo prender o mundo de meu pai ao de minha mãe, vem. Vem connosco espalhar generosamente os teus risos e deixa, Lectícia, que eu ria também contigo, que eu aprenda contigo a tua música e dance, dance até à exaustão, o bailado, que o Divino coreografou!
Talvez Lectícia não perceba todo o sentido das palavras que ouve, Talvez se acanhe perante aquela que veste todas as cores. Mas sente no seu corpo o desejo de ir. Olha, uma a uma, cada uma das presentes e vê nelas a mesma ansiedade que vê em Íris.
Mas e o rebanho? Que contas dará dele?
Não pode haver alegria sem liberdade diz-lhe Íris.
- Homens! Eis que a Palavra se mistura com o som da música no meu peito.
Homens! Ouvi comigo a canção e deixai que o vosso corpo se contagie de ritmos e baile...baile...
Homens, aquela que foi escolhida também me acolhe, como acolherá a vós se quiserdes!
Glória. Glória à Vida. Deixai que o Sol solte uma risada e vos aqueça até ao fim dos tempos. A alegria chegou!

O Caminheiro


O Próximo




A corrente de ar deslizou fria por cima dos seus cabelos arrepiando-os. Depois muito lentamente afagou todo o seu rosto passando em seguida para o peito. Aí, foi aumentando a temperatura tornando-se tão quente que lhe abrasou todo o corpo. Gemeu. Depois, desceu arrefecida, pelo seu ventre, pelas suas pernas, terminando na ponta dos pés e, fluiu como se de um rio de suor se tratasse. Suspirou. Daí a pouco um novo fluxo fez o percurso inverso enchendo-o de força e de paz. Uma paz a que não estava habituado.
O conjunto das vozes em confusão foi deixando distinguir alguns termos técnicos sobre o seu estado de saúde. Até que uma mais forte disse: - Abre!
Foi então que as vozes passaram a ter rostos.
Eram homens e mulheres de idade e aspecto diferentes que tinham apenas em comum o estar vestidos com uma espécie de túnica verde-água que lhes escondia o corpo de modo que os contornos se perdiam em pregas soltas.
Reparando mais atentamente, pode verificar que algumas das formas não eram humanas, tratavam-se de criaturas com feições bizarras mas que apesar disso inspiravam confiança e bondade.
Uma delas, com cerca de um palmo de altura e olhos encovados de uma cor violeta deslumbrante, levitou até junto da sua fronte. À sua volta havia um halo luminoso amarelo dourado que lhe acariciou o coração.
- Pronto. Daqui a pouco poderás descansar, agora no entanto é necessário que aguentes a dor para teu próprio bem. Depois disto compreenderás muitas coisas que te estavam vedadas.
Foi o que percebeu! Pois a voz que ouvia não tinha som, apenas entrava nele como um pensamento.
De repente, aquilo que lhe pareceu ser um dedo comprido e delgado, tocou-lhe um ponto entre as sobrancelhas. Uma dor aguda e ardente violou-lhe todo o crânio. Vulcões de fogo, explosões de estrelas, ondas gigantescas de lava, encheram-lhe a visão. Durou uma eternidade!
Quando acordou verificou que tinham passado apenas quinze minutos desde a última vez que olhara para as horas. Tinha a certeza absoluta disso porque o seu velho relógio de parede continuava fiel na marcação do tempo. Já não sentia dores nem calor excessivo, embora estivesse completamente transpirado. Sentia um torpor agradável que o embalava.
Com incredulidade reparou que tudo à sua volta estava rodeado de auras luminosas que se exprimiam em cores e intensidades diferentes. Algumas dessas auras, como as das plantas do vaso sobre o parapeito da janela, pareciam intermitentes, outras, eram pálidas e pouco definidas.
Quando a mãe voltou a entrar, vinha rodeada de um largo espectro. Azul. Verde. Matizando-se com um dourado fascinante. Emocionou-se. Um nó na garganta impediu-o de falar. E ao sentir as suas mãos magras a afagá-lo, teve vontade de chorar.
A mãe. Quem era aquela mulher?
Tivera-o em fase adiantada da vida, no entanto a diferença de idades nunca obstara a um óptimo relacionamento e até a uma certa cumplicidade. Ela compreendia porque razão aquele filho tinha tanta necessidade de se afastar e de viver uma vida solitária porque o aceitava e o amava tal como ele era.
Fora sempre uma grande mulher, a mãe! Tivera uma infância pobre e com poucas oportunidades, casara muito cedo com um homem doente e agressivo. Criara três filhos dele com imensas dificuldades e muita instabilidade afectiva. Quando o marido morreu de forma atroz, ela ficou sozinha com todas as responsabilidades e sem ajuda de ninguém, mas o mais grave, sem um trabalho que lhe garantisse o sustento dela e dos filhos. Desembaraçou-se. Fez limpezas, costurou para fora, dormia e comia muito pouco para que nada faltasse. Encontrou então um homem tranquilo e bondoso que por amor dela aceitou o encargo de uma família já formada. Casaram. Sem exigências, apenas com a ternura de bagagem. Os filhos cresceram e tomaram conta dos seus próprios destinos. Nunca souberam agradecer à mãe e ao padrasto a vida que puderam usufruir.
O nascimento dele fora aceite de má vontade, como se o considerassem um intruso. Um bastardo. O que fazia sofrer aquela mãe divida entre o amor dos primeiros e a paixão do último.
Tanto o pai como a mãe pareciam ter sido talhados à medida um do outro. Tinham uma delicadeza de trato que mesmo nas horas de maiores dificuldades se fazia sentir. Nunca os ouvira queixar um do outro, nunca se apercebera dos defeitos de um através da crítica do outro. Eles amavam-no e mimavam-no com alegria. Deram-lhe todas as possibilidades de progredir e desenvolver as capacidades. Sem grandes recursos contudo, tornaram-lhe a infância feliz e tranquila. Com o seu exemplo, ensinaram-lhe a ser tolerante, generoso e respeitador para com toda a gente. Fora um privilegiado!
Agora voltar à casa paterna era reaprender os afectos.
- Então, meu filho, como te sentes? – perguntou a mãe suavemente.
- Bem, obrigado, minha mãe. Perdoe o trabalho que lhe estou a dar!
- Ora filho, que trabalho? O que me fez mal foi o susto que nos pregaste. Já não somos novos e situações destas perturbam-nos muito.
Ficou envergonhado. A última coisa que desejava era fazer mal àqueles dois seres maravilhosos.
- Eu sei que já és adulto e tens a tua própria vida, mas filho, ficamos tanto tempo sem ter notícias tuas!
- Não é por indiferença, mãe, sabe que não é por mal! É que o meu trabalho não tem horário fixo... nem lugar...
- E os outros teus colegas que têm família? Será que a abandonam assim?
- O que eu faço é diferente. Sou repórter.
- Quando telefonei para o jornal, ninguém sabia dar resposta. Disseram também que havias deixado de enviar trabalho há algum tempo. O que se passa? Confia em mim!
- O segredo é alma do negócio, não é? – Disse para desviar a atenção- E sabe, tenho andado todo este tempo à procura do sentido da vida. Quero escrever sobre ele.
- O sentido da vida? Porquê? A vida não tem que ter um sentido! Talvez seja bom que o não o conheçamos. O melhor é viver. O ontem de uma maneira, o hoje de outra , e o amanhã ... Bom o amanhã logo se verá! Para que queres tu complicar as coisas? E ainda por cima escrever sobre isso? A tua vida é tão importante como a dos outros! Só tu é que a vês diferente...
Era verdade. A mãe sempre fora uma mulher muito prática. Nunca tivera tempo para problemas existenciais. Sorriu. Que mais poderia fazer? Prometeu à mãe que voltaria a trabalhar e a pôr em ordem as suas ideias. Talvez fosse interessante falar da vida dos outros, daquilo que aprendera a conhecer neles. Sim, falaria dos homens e das mulheres que encontrara no caminho.
A mãe respirou fundo aliviada e convencida que ele a havia escutado.
Assim que ela saiu, retirou o livro do peito e passou a mão pela sua capa macia e lustrosa. Que lhe diriam agora aquelas páginas de sabedoria?

“ Nas angústias do Ser há sempre um cais.
Um cais onde o Homem pode aportar
E, olhar o horizonte, e exigir dele mais,
Estendendo a mão de modo a poder agarrar.
Em cada viagem há outros companheiros
Que de tão próximos de nós são esquecidos,
São como nós, também, caminheiros,
E dão-nos a comparação do que sentimos.”

Fechou os olhos e compreendeu. O seu orgulho de homem convencido foi rasgado pelas lágrimas da compreensão.
A mãe, o pai, eram os eus próximos que havia esquecido. Nunca lhes soubera agradecer realmente a oferta da sua vida. Pensara que ela era só sua!

A vida! Agora entendia-a como o entrelaçar de todas as vidas.



Passado o tempo da convalescência era preciso voltar à vida activa. Tinha deixado de ganhar dinheiro durante a sua aventura e precisava de voltar a tê-lo para subsistir, tornava-se urgente voltar à redacção, rever os colegas e sobretudo concretizar as ideias que germinavam dentro de si.
Preparou-se para sair de casa naquela manhã com a sensação de ter fechado um parêntesis na sua vida. A mãe abeirou-se com a sabedoria dos anos e o hábito velho de o aconselhar: Estava nevoeiro, não convinha uma recaída, que tivesse cuidado, que se agasalhasse... ele abraçou-a com a ternura feita de reconhecimento. Era bom!
A rua agora parecia-lhe um lugar mágico, envoltos como estavam, os contornos do que via.
Apanhou o autocarro e saiu em frente da porta castanha do edifício decadente que o esperava. O cheiro familiar do papel e da tinta, do fumo e do suor, escorregou-lhe pela garganta, obrigando-o a tossir.
À sua entrada, os colegas de trabalho regozijaram-se com o seu regresso, como se ele fora um filho pródigo! Palmadas nas costas, piadinhas salgadas, e apertos de mão viris e sinceros. Sentiu-se amado, sentiu-se protegido, no seu lugar.
O chefe da secção ainda não tinha chegado por isso a confusão soava alto. Mas poucos minutos depois, o “Riscos” apareceu e a sua voz rouca surpreendeu-os como a meninos apanhados em falta. Todos voltaram as suas mesas de trabalho para voltar a martelar textos. Só ele ficou em pé à espera de ordens e... talvez um cumprimento!
“Riscos”, sem o olhar, disse:
- Duas colunas sobre as condições hospitalares. Estiveste internado, não foi? Um gajo como tu deve ter percebido muitas coisas. Ao meio-dia quero tudo pronto.
E foi sentar-se na sua velha secretária. Preparou a máquina e ficou à espera. Que havia para dizer? Dois terços do tempo estivera a dormir, o outro terço entre a vida e a morte! Pediu com jeitinho ao seu cérebro que se recordasse e o ajudasse. Uma enxurrada de palavras soltou-se e pespegou-se no papel. Quando terminou de escrever eram onze e meia. Levantou-se e foi mostrar o trabalho ao chefe.
O velho leu em silêncio e depois tirou de trás da orelha o famoso lápis vermelho e desatou a riscar. – O “Riscos”- remontava o texto e acrescentava, encavalitando, algumas palavras.
- Continuas o mesmo literário! Mais objectividade, menino! Bem, passa isto a limpo e envia para baixo.
Quando ia a sair ouviu:
- Depois volta aqui que quero propor-te uma coisa. É bom ter-te de novo!
Ele sorriu e levou a mão à cabeça em jeito de continência.

Escrever contos para o jornal? Era uma ideia aliciante. Sempre sonhara ser escritor de verdade e aquela era uma óptima oportunidade para começar.
Logo que chegou a casa revirou a secretária para encontrar os seus cadernos. Leu-os de um fôlego, a mãe até lhe veio trazer o jantar num tabuleiro, porque ele não conseguia interromper a leitura.
Os olhos ardiam-lhe e a noite estava já cerrada quando concluiu com uma certa decepção que todos aqueles contos religiosamente guardados eram imaturos, quase infantis. Ficou desconsolado e deitou-se sobre a cama. Escrever sobre o quê?
De repente a sua atenção foi desviada para o baú onde guardava os despojos da sua vida: brinquedos, cartas, fotografias, etc. tudo era tão vulgarmente raro! Tudo estava tão impregnado de história! Da sua história, da história dos outros!..
E se escrevesse sobre esses objectos?
Naquele momento tudo se tornou mágico, as palavras que lhe vieram à memória encheram de vida as vidas antigas desenhando-se nas páginas brancas do caderno recém aberto.