domingo, 20 de dezembro de 2009

Misterioso




Para além dos mistérios e dos universos
Ondula esquivo o teu olhar de navegante
Em intensa, fantástica procura, constante
Vagueando no mundo das palavras em meus versos.

Cerrado no culto, qual solene oficiante
De ritos que esconjuram presságios adversos
Dominas meridianos e seus inversos
E fazes-te ao mar, como mareante.

Transportas, ainda mesmo que o não saibas dizer,
Arrastada, a indomável e estranha fera
Que se manifesta, tocando e me faz doer.

Enquanto que eu queda no porto da tua espera
Abrigo no colo aberto para te receber
A encarnação felina da enorme quimera.

O Evangelho de Iris


Leonor
Ainda que não se veja, a compaixão adormece as dores e suaviza os sofrimentos.




Leonor tem nos olhos o espelho do mar. É sua filha porque nasceu no barco que a viu crescer e que continua a ser o seu lar.
Dizem os homens da vila que Leonor tem pacto com a Lua, que aprendeu com ela o seu sorriso suave e que a luz do seu olhar aquece as almas tiritantes, que alumia a escuridão dos medos e domina as marés da revolta.
É mansa Leonor ! Tão mansa que o mar se encanta com ela !
Íris e Ofélia caminharam para a vila que se planta junto do mar. Recebem o seu cheiro como uma nova experiência, apetece-lhes mergulhar naquela imensidão bordada de ondas constantes. Têm os pés feridos da caminhada. Leonor vem até elas, chama-as para a beira-mar e lava-lhes as feridas com água salgada e beija-lhes os pés com meiguice.
Íris pergunta-lhe então:
- Queres tu espalhar a compaixão nos caminhos que percorrem o mundo e seguir-me para além de todos os carreiros?
- Quero. - Responde Leonor - Quero que o luar que habita em mim se espalhe na negrura dos caminhos.
- Queres tu com a tua compaixão ouvir todos aqueles que carregam fardos maiores do que eles ?
- Quero. Quero que o sal que se desprende de mim sare as feridas abertas dos que se queixam.
- Queres tu, juntamente connosco, levar a esperança e a caridade a quem desespera e sofre ?
- Quero. Quero que a liquidez do mar que me constitui envolva também os outros e que lhes naufrague o medo.
Então Íris junta nas suas as mãos de Leonor e Ofélia, pedem silêncio ao mar que é espelho do céu, as palavras. Fica parada no tempo da emoção e por fim murmura:
- Que a ajuda seja feita de compaixão e que a compaixão seja sempre de ajuda que ambas me sigam até à cidade onde a loucura dos tempos incendeia os vícios. Tu, Ofélia, sê a mão caridosa que segura e tu, Leonor, sê o sorriso que sustém o olhar de quem se sente perdido. Tornai-vos hoje filhas da divindade que nos indicará a jornada.
Ambas as discípulas se sentam agora no areal esperando com Íris, a Palavra.
Íris eleva a voz para as ondas e pede:
- Mar. Tu que és feito das águas do mundo; das fontes que correm para os ribeiros, dos ribeiros que enchem os rios, e que Te alimentam. Mar. Tu que és feito das lágrimas e do suor daqueles que se alimentam de Ti, diz-me o que tens a dizer !
Um búzio rola nas ondas e vem até junto delas, Leonor apanha-o e entrega-o a Íris que o coloca no ouvido e repete o seu recado, frase a frase com o vagar de quem medita:

- Felizes os que acreditam que um grão de areia os pode suster.
Eles sentir-se-ão seguros no seu caminhar.
- Felizes os que aceitam as tormentas sem revolta.
Eles também saberão sorrir à bonança.
- Felizes os que forem capazes de mergulhar na escuridão à procura de luz.
Eles encontrá-la-ão e serão por ela alumiados.
- Felizes os que sabem calar os seus segredos na caverna dos seus peitos.
Eles passarão a receber nessa caverna a voz do oceano que os tranquilizará.
- Felizes os que comparam o azul do céu ao azul do mar.
Eles estão no caminho certo.
- Felizes os que sabem que uma maré se segue a outra assim, sucessivamente, até ao fim dos tempos.
Eles serão eternos.
- Alegrai-vos pois porque vos escolhi como mensageiras da Palavra, do Socorro e da Compaixão.
Vós fareis parte de mim em pouco tempo.

As raparigas levantam-se e seguem pela marginal em silêncio. Ali os homens não tiveram medo. Ali a divindade não se vestiu de cor mas falou na língua do mar.
A cidade espera-as..

O caminheiro


Estranho contacto




A noite apanhou-o ainda no percurso.
A neblina envolveu-o criando um cenário de feitiço.
Não sabia onde estava, caminhava apenas tendo como orientação a cúpula de uma igreja longínqua levemente iluminada.
Daí a algum tempo os seus pés pisaram uma estrada. Era de terra batida, estreita e esburacada, mas tornava-se uma esperança de vida.
Uma casita aqui, outra além, e na escuridão acabou por encontrar uma pequena vila adormecida. Àquela hora não era provável que lhe dessem abrigo.
Por instinto encontrou a igreja que fora seu farol, recolheu-se num canto abrigado e adormeceu.
Sentiu que o abanavam com firmeza mas o seu corpo não respondia, estava entorpecido tanto pelo o sono como pelo esforço da véspera. Os olhos resistiam, cerrando-se ainda mais.
- Ó homem, homem! O que faz aqui a esta hora? Levante-se que ainda fica doente. Vá venha comigo, dentro da minha casa há um bom fogo onde se pode aquecer e um caldo acabado de fazer. Está a ouvir?
O calor prometido começou a despertá-lo, aos poucos foi reagindo, abriu as pernas e os braços, tornou a fechá-los e enfrentou o homem de idade avançada e magro que tinha na sua frente. A luz apesar de fraca deu para o observar. Tinha um rosto estranho, quase mítico, dele sobressaíam-lhe uns olhos escuros, muito vivos, um nariz e um queixo salientes e uma boca que se divertia discretamente.
- Então homem? O que faz por aqui? É forasteiro?
- Atravessei ontem toda a serra a pé e quando cheguei já não havia ninguém a quem pedir abrigo...
- Venha comigo, esta neblina dá cabo dos ossos de qualquer um. Eu moro já ali.
Ele levantou-se, as pernas doíam-lhe, tinha uma pressão incómoda na cervical. A posição em que adormecera fora castigadora. Atrás das passadas rápidas do homem, caminhou trôpego.
A casa ficava no outro lado do largo. Era relativamente pequena, na fachada havia apenas uma porta e um postigo. Quando entrou viu-se numa espécie de átrio empedrado e abobadado. O corredor em frente estendia-se até à cozinha. Pareceu-lhe ter entrado de repente num laboratório alquímico da Idade Média. A mesa comprida de madeira e mármore ocupava quase todo o compartimento, em cima dela estavam bicos de bisel, retortas, tubos de ensaio, toda a panóplia utilizada para experiências do género! Numa parede do fundo havia um forno encastrado, ao lado uma chaminé e uma lareira onde uma trempe suportava um caldeiro de ferro.
- Garanto-lhe que é caldo de hortaliça! Hoje não há sapos... ( riu o velho ao ver a sua cara de espanto)
- Parece que entrei noutro tempo!
- Sente-se, sente-se aí nesse canto.
- Se... se não se importasse gostava de lavar as mãos e... a cara.
- Além, olhe está a ver? Há ali uma pia, um jarro com água e sabão. Não tenho casa de banho. Para urinar saia essa porta que dá para o quintal. É o que lhe posso oferecer...
- Agradeço muito.
Saiu até ao quintal, para seu espanto viu um vasto espaço primorosamente cultivado. Havia desde árvores de fruto a ervas medicinais, passando é claro, pela horta. O sol começava a dar sinais de vida e todas as plantas estavam cobertas de orvalho.
- Que rico quintal o senhor tem aqui!
- Sou eu que trato dele. A sopa que vai comer é feita com legumes e hortaliças dele. Vai ver como lhe vai saber!
Lavou-se rapidamente e sentou-se à mesa. Um cheiro delicioso lembrou-lhe que já não comia há muitas horas.
O velho acompanhou-o, repetindo várias vezes e insistindo que ele ficasse à vontade.
Estava cansado, transpirava imenso, recostou-se na cadeira com a sensação de que ia desmaiar.
- Isso já passa, é da fraqueza. Deixe-se estar tranquilo.
O velho pegou nas tigelas e lavou-as. Veio sentar-se junto dele com as pernas esticadas para o lume. Acendeu o cachimbo e ofereceu-lhe. Ele recusou educadamente.
- Então já se sente melhor?
- Já sim, muito obrigado.
- Disse que tinha atravessado ontem a serra...
- Sim, precisava de fazer esse caminho!
- Os caminhos são para se cumprirem, e neles há paragens obrigatórias...
- O senhor é sempre assim tão hospitaleiro?
O outro riu. Uma gargalhada rouca de completa surpresa.
- Nunca me deram esse nome! A maior parte das vezes chama-me bruxo. É o preço de quem não se obriga a ser como os outros....
- É alquimista?
- Não, ainda não... vou dominando e transformando a matéria, mas dificilmente serei um dia alquimista!
- Vive sozinho?
- Que remédio! Enviuvei há quatro anos e não há por estas redondezas mulher que me ature!
- Afastou-se do mundo com o desgosto da perda?
- Não. Longe disso! Sabe, há muito tempo que não falo com ninguém. Pelo menos com alguém que valha a pena! Hoje estou bem disposto e penso que a minha história o ajudará.
- Porque diz isso? Não me conhece...
- Posso vê-lo como realmente é. A minha casa é uma paragem obrigatória no seu caminho.
- Talvez! Não tenho nada a perder!
O velho retirou do lume o caldeiro e pôs-se a fazer o café, com gestos regulares foi colocando as canecas e o açucareiro em cima da mesa.
Despejou o resto da sopa numa malga velha e assobiou. Três enormes gatos malhados apareceram de algures e atiraram-se à comida. O dono fez um afago a cada um deles.
O cheiro do café invadiu a cozinha e ambos se prepararam para o beber.
Depois de um demorado olhar, o velho começou:

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quero-te livre


Chagal
Com as asas abertas no limite do infinito
Querera eu ver-te planando sobre o destino.
No cimo de escarpas ao vento libertador
Querera eu ver-te dançando em seu redor.

Ver-te livre, livre, como águia ou falcão
Longe da rotina árdua da tua função.
Ou ainda, como onda em mar revolto,
Salpico de suspiro, salgado e solto.

Querera eu ver teu verde olhar desperto,
Teu sorriso endiabrado um pouco mais perto.
E sentir que os teus braços abraçavam viris
O universo inteiro, deixando-o feliz.

O Evangelho de íris


Ofélia

Há sempre um momento em que mesmo os mais fortes precisam de socorro e da ajuda do próximo.



Ofélia não tem sonhos. Mesmo que os tenha estão guardados no fundo do coração. Ofélia já não anda na escola, não conseguiu aprender mas dá em cada dia de vida uma lição de ajuda a quem a procura.
O corpo de Íris foi encontrado à porta da aldeia.
Trouxeram-na ao anoitecer ardendo de febre. Ofélia passa a noite a velar, refrescando-a, falando-lhe, tocando-a com o seu amor de menina.
Íris ouve-a, sente-se grata mas a voz parece ter-se perdido algures e não a encontra. Deixa que uma lágrima se solte e escorra na palidez do seu rosto. Com um dedo só Ofélia limpa a lágrima e limpa o medo.
A puberdade chega para Íris e estranha o seu corpo assim como estranha também aquele tagarelar à sua volta. O silêncio de Ofélia é agora cúmplice e doce. Não lhe faz perguntas somente deixa que as mãos lhe manifestem o carinho.
Aos poucos Íris começa a acreditar que a procuram. Dói-lhe, mas as palavras saem da boca sem pensar. Ofélia não entende as palavras mas compreende que a divindade de Íris não se reverencia, apenas se ama como se ama cada ser que existe.
O medo supersticioso dos aldeões começa a invadi-los.
Íris reconhece esse medo nos seus olhos, sabe que também terá de fugir daquele lugar.
Só tem em Ofélia a ajuda. Sabe que ela não a abandonará.
Procura ao amanhecer do Sol e ele no distante horizonte não lhe diz nada.
Procura no ribeiro as gargalhadas das fontes, mas só observa a água correndo apressada no seu destino.
Procura nas flores o seu perfume mas este mistura-se no ar com os outros cheiros e confunde-a.
Procura nos animais a sua alegria mas, eles enterraram-na nas luras mais profundas.
E as rochas estão sólidas, sem sorrisos, no mesmo lugar. Imutáveis. Só o medo dos homens é igual ao medo dos homens de Geração.
O espírito verde surge-lhe naquela manhã. Indica-lhe o caminho da estrada que a levará à vila. A estrada é mais larga que o carreiro mas não deixa de ser um caminho. Íris pede a Ofélia que a acompanhe, que deixe a aldeia para trás porque ali o medo torna os homens pequenos. Ofélia dá-lhe a mão, não se despede de ninguém porque os leva consigo na alma. Juntas iniciam a jornada. Em todas as estradas há um fim que se abre para uma nova aldeia. Em cada aldeia há homens que procurarão a palavra de Íris, a ajuda de Ofélia.

O caminheiro


Era manhã


Era manhã.
Nem ele nem ela dormiram a noite.
Fizeram amor sabendo que era a última vez.
Ela levantou-se e desculpou-se que tinha que ir à cidade.
Ele ainda perguntou se queria que a acompanhasse, mas ela calou-o com um beijo.
- Vai. Vai porque ficas. - Murmurou ela ao ouvido. - Para que a árvore possa dar bons frutos é necessário podá-la.
E saiu!
Saiu, deixando-o naquele quarto quente que o acolhera durante o Inverno.
Enrolou a esteira e a manta, meteu a roupa na mochila e desceu.
Fez alguns telefonemas e meteu o pouco dinheiro que trazia no bolso dentro da lata dos trocos.
Abriu a porta sem olhar para trás.
Em vez de tomar a estrada que o levaria até à cidade, preferiu seguir pelo carreiro que o levava à serra. O nevoeiro estava bastante cerrado, a humidade em breve trespassou-lhe a roupa e penetrou-lhe na pele. Era como se quisesse fazer parte dele mesmo! Escolheu as veredas traçadas pelos pés dos pastores da região. Elas o levariam a algum lugar. Já não fazia caminhadas há muito tempo e as folhas e os fetos molhados faziam-no escorregar com frequência. Agarrava-se aos ramos e arbustos naquela subida cada vez mais íngreme da montanha. A lama pesava-lhe nas botas, pegajosa... embora não conseguisse entrever animais, ele pressentia-os nas suas tocas, nos seus ninhos, nos seus charcos, e agradecia-lhes mentalmente a companhia.
Aos poucos a vegetação foi rareando dando lugar a grandes blocos de rocha desfeita, agrestes e traiçoeiros. Uma espécie de embriaguez tomou-o, ia marcando metas e investia todo o seu esforço em as alcançar. Quando o conseguia, parava, respirava profundamente e lançava o olhar para o pretérito despedindo-se dele com um grito selvagem.
O Sol acabou por vencer a resistência das nuvens, perfurou-as e surgiu amarelo e morno.
O vento no seu reino, fazia-se ouvir e sentir empurrando-o para o apressar.
Ele caminhava, sem sede, sem fome, sem cansaço...
Por volta do meio-dia atingiu o cume da primeira montanha. Então, olhando em redor, deu conta que dera o seu primeiro passo.
Ali estava ele no alto da serra, entre o céu que quase o tocava e o abismo que deixara. Entre a imobilidade do absoluto e a agitação de um vento teimoso e dançarino.
Ele estava ali. Ele!
O mundo revelava-se-lhe. Um mundo maternal, fecundantemente generoso! E chamava-se Terra!
Um repuxo? Não. Uma onda de sentimentos soltou-se do seu coração inundando-o, multiplicando-se em outras ondas que o tomavam por inteiro.
E ele... Ele fez a sua primeira oração:

Abençoada. Abençoada sejas tu, Terra Mãe
Porque te estendes assim em caridade,
Tudo de ti, por um imenso amor, vem.
Abençoada sejas por toda a eternidade!

Abençoado. Abençoado sejas tu, ó Sol
Porque aqueces a minha longa jornada,
Porque estendes sobre mim, o lençol
Que envolve, a minha alma cansada.

O dia ainda não tinha acabado. A sua visão estendeu-se para lá da imensidão dos montes e vales, de planícies... não havia caminhos traçados, seria ele a desbravá-los com a mesma força e tenacidade que o levara até ali. O seu passado ficava para Leste. Mesmo que a Norte uma cidade rica e poderosa o chamasse. Mesmo que a Sul uma praia dourada o convidasse. O seu caminho era em frente porque as montanhas ocultavam o fim.
Depois de alimentar o corpo e a alma, descansou, embalado pelo segredar dos ventos que o acarinhavam.
A tarde veio rápida e desceu sobre ele sem sombras.
Estava na hora de descer.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Lago

Chagal

Arpoo o teu corpo em assalto comedido
Quando te dispões assim estendido.
Navego nele como em lago misterioso
Sempre à espera de algo mais alteroso.

Não. Não é o mar que me ofereces,
É um lago parado onde me aqueces,
Onde as águas cinzentas de neblina estranha
Bordam as margens de terra castanha.

Ai como eu queria mergulhar mais fundo,
Penetrar até aos confins desse teu mundo,
Engolir contigo o sal que se mistura
Com o doce sabor de uma fonte pura!

Ai como eu queria ficar molhada de ti!
Aprender gestos e expressões que nunca vi.
Emerge depressa desse líquido protector
E vem mostrar-me o teu escondido calor!

O Evangelho de Íris


O CARREIRO

Por muito estreito que seja um carreiro é sempre um caminho.



Corre e tropeça e cai e sangra e chora.
Pelo caminho acaba Íris os seus dias de Geração.
Não sabe para onde vai, o que vai fazer. Só sabe que foi banida do lugar onde nasceu. Do lugar onde as perguntas não têm respostas, do lugar em que a serra e o mar entalam os espíritos dos homens.
O carreiro é longo mas pode ser o princípio ou o fim de uma nova vida. Íris na sua inocência sabe disso e sabe que não tem outra alternativa. Sente já saudades do seu monte, da sua figueira, do Sol que saúda todos os dias e das fontes que lhe não negam as respostas. Mas sabe que não pode ficar agarrada ao seu passado.
Haviam-lhe dito que o carreiro era do tamanho de uma manhã. Mas a manhã das suas pernas é mais comprida...
Os pés ferem-se nos tojos e pedras do caminho. Já os tem em sangue mas isso não é nada comparado com as dores horríveis que sente na barriga das pernas. Senta-se um pouco na berma junto das giestas amarelas e roxas. Uma sonolência invade-a deixa vir a si o som das palavras tentadoras.
"Íris em Geração chamam-te as flores. Elas perguntam por ti ao Sol e as flores temem de novo que o sofrimento lhes toque, perdem o perfume a cada momento e choram as pétalas ao entardecer. Volta para trás Íris, volta para trás. Terás quem te sare as feridas se obedeceres à Avó Grande, se souberes calar o teu pensamento. As mães que te criaram recolher-te-ão no seu seio. As tuas companheiras acompanhar-te-ão, se souberes calar o teu pensamento.
- "Não! - grita Íris - Não. O meu pensamento tem a voz da divindade. Mesmo que morram as flores de Geração há outras flores no fim do carreiro. O lugar de onde vim não precisa dos aromas nem das cores, basta-lhe o silêncio. Eu vim dar voz, eu vim dar voz...
Íris volta a andar revigorada pela revolta. A fome enfraquece-a mas não a derruba. Mais além há uma figueira brava, os espinhos que protegem os frutos gritam-lhe:
- "Vem Íris, fere as tuas mãos, vale a pena o sofrimento delas para o alimento do teu corpo. Em Geração as figueiras são mansas e doces os seus frutos, se levares de mim as sementes e as plantares no monte do Sol, também eu me transformarei e me tornarei na árvore dos frutos de mel. Tu podes. Tu és a divindade feita voz que fala por todos os seres. Volta a Geração. A tua voz falará pelo silêncio dos homens."
- Não - grita Íris - Não. As tuas sementes bravias jamais se tornarão doces. A minha voz fica calada na solidão das palavras dos outros. Eu não pertenço a um lugar. Pertenço a todos os carreiros do mundo. Por isso vim trazer a palavra...Vim trazer a Palavra...
Agora que a divindade susteve o cansaço e a fome, Íris sofre horrivelmente a sede. Gretam-se-lhe os lábios e a língua parece ter dobrado o seu tamanho. O carreiro parece mais longo e curvo. O seu corpo cai desamparado junto da lama quase seca de um buraco do chão. Íris saboreia o pedaço de lama tentando reter dele o resto de humidade. As pedras e areias comentam:
-" É esta a forma material do espírito da Palavra. A divindade é sua aliada. Se ela quiser pode transformar Geração, basta-lhe que volte para trás e diga bem alto o que o seu pensamento lhe fala. Vê como sofre a sede e lá, há fontes amigas que a confortam com alegria."
- Não!-Grita Íris - Não. Não voltarei atrás porque o meu destino é percorrer os carreiros do mundo. Não voltarei atrás porque nem os homens, nem os animais, nem as plantas, nem as rochas me merecem. A divindade que trago em mim é universal e fala em todos os recantos da existência. E vós, vós todos não me tenteis porque eu faço o que me é ordenado. Eu só obedeço Àquele que tem vida e não tem nome.
O grito de Íris morre-lhe nos lábios e o seu corpo caído perde o resto das forças.
Os espíritos das sete cores acorrem, alimentam-na, saram-na, e dão-lhe de beber o orvalho mais puro. Ressuscitada, Íris vê o Sol desaparecer lá no fundo e a Lua a sorrir-lhe junto dela.
Perto ouve-se o ladrar de um cão, o balido de ovelhas e a flauta de um pastor.
Chegou ao fim do carreiro.
Chegou ao princípio da aldeia.

O Caminheiro


Era Dezembro


Era Dezembro.
O frio da neve derretida penetrava os ossos e os músculos endurecidos e magoavam-no..
A viagem ficara adiada. Agora dormia todas as noites com a mesma mulher. Aprendera a reconhecer cada sinal do seu corpo, o seu cheiro, a sua voz, o seu olhar...
Para se manter, voltara à sua actividade profissional, o jornalismo. Para isso bastava-lhe o uso dos correios, o telefone e jornais locais. Engordara um pouco e voltara a usar os óculos de aros escuros. Também colaborava na contabilidade da pensão, desse modo ela ficava mais disponível para si. O movimento sem ser intenso era no entanto regular, todos os dias havia clientes de passagem, na maioria camionistas e comerciantes que almoçavam ou jantavam. Alguns, raros, dormiam uma noite. Depois esses homens anónimos partiam pela estrada comprida que não deixava adivinhar o princípio e o fim.
Naquele dia tudo podia ser igual aos anteriores, mas à hora do almoço chegou com grande aparato um camião de longo curso. Um homem alto e forte, de pele avermelhada e quase careca, desceu da cabina e dirigiu-se à sala com passadas largas. A sua voz cantante e bem disposta perguntou:
- Boa tarde! Vocemecês que é que têm para um homem esfomeado como eu?
A mulher, serena como sempre, respondeu-lhe que havia o prato do dia, um prato de “sustância”!
Ele deu uma gargalhada, esfregou as mãos e sentou-se disposto a começar. Enquanto esperava mirou com ar aprovador a modéstia quase familiar daquele espaço. Percebeu de imediato que ele pertencia ao lugar e sem cerimónia sentenciou:
- Sim senhor, vomecês têm aqui uma bela casa! Limpinha e sossegada! Faz lembrar uma casa de família! É a primeira vez que cá entro e estou a gostar!
O homem sentiu-se na obrigação de agradecer o elogio, dobrou o jornal, tirou os óculos e sorriu.
A mulher apareceu entretanto com a travessa do cozido e o jarro de vinho tinto, perguntou se estava tudo a seu gosto. O camionista provou e acenou diversas vezes com a cabeça garantindo a sua aprovação. Ela voltou à cozinha deixando a responsabilidade de acompanhar o hóspede ao homem da casa.
Era um prazer observar a disposição para comer daquele homenzarrão! Passados alguns minutos o camionista voltou a falar:
- Vomecês não são daqui pois não? Pelo menos o ano passado não reparei nisto! Olhe que deve ser um bom negócio, por aqui passa muita gente...
Ele ia confirmando e esclarecendo o outro apenas com monossílabos, não era pessoa de grandes conversas mas ao mesmo tempo sentia curiosidade por aquele tipo.
Contra o seu costume dirigiu-se à mesa.
- Posso?
- Ó homem a casa é sua!
- O senhor parece ser muito bem disposto. – Disse enquanto se sentava.
- Graças a Deus, senhor, graças a Deus! Mas também não tenho do que me queixar!
- No entanto... o seu trabalho deve ser duro e solitário, não combina consigo...
- Estou habituado! Há mais de quinze anos que ando nesta vida! É verdade que é duro, mas há outros trabalhos que são duros e a gente quando faz uma coisa que gosta nem dá por isso! Eu sou forte, aguento bem! E depois, não é tão solitário como isso, há sempre estradas novas, gente diferente que se conhece todos os dias. O que custa mais é a saudade da família, mas compensa-se quando chego. Enchem-me de mimos!
- Tem uma família grande?
- Não. É pequena mas boa. Mulher e três filhos.
- E eles não se aborrecem com a sua ausência?
- Eles sabem que os tenho sempre no meu pensamento e no meu coração. Ah! A minha mulher é uma mulher e pêras! Já fizemos vinte e um anos de casados e nunca brigámos a sério.
O que um diz o outro acata, tanto faz que seja ela ou seja eu!
- E os filhos? Como se sentem?
- Bem. Olhe, não é para me gabar, mas são uns miúdos formidáveis. O mais velho é muito esperto, está na universidade. A do meio também está a estudar e é tal e qual a mãe! A mais novinha, veja vocemecê, tem só três anos! Veio sem a gente contar... mas graças a Deus que veio! É a nossa alegria! Quando chego a casa, corre logo para o meu colo e abraça-me de tal maneira que, oh homem! Não sou de ferro! As lágrimas chegam-me a assomar aos olhos!
- Pode-se então dizer que é um homem feliz!
- Claro! Diga lá se tenho alguma coisa porque reclamar?
Ali estava alguém que conseguia percorrer um caminho sem percalços! - Pensou ele. - É verdade que não procurava nada de transcendente...
Toda a sua felicidade residia nas pequenas e boas coisas da vida!
O camionista acabou a refeição, puxou a cadeira para trás, alargou um furo no cinto, estendeu as pernas e suspirou.
- Vomecê não é feliz?
Fora apanhado de surpresa. Não sabia como responder. Tinha receio de dizer que se acomodara, que não sabia exactamente se queria a felicidade. Mas o problema maior era explicar isso aquele homem. Ele não iria entender que ele também fora um dia um caminheiro. Mas um caminheiro diferente, um caminheiro que percorrera espaços que não vinham no mapa das estradas!
Salvou-o da complicada resposta a entrada de um outro cliente.
Era um homem velho e magro vestido de negro. O seu colarinho branco identificava-o bem.
Quando cumprimentou, o camionista levantou-se de um salto e deu-lhe um forte abraço.
- Veja vocemecê como as coisas são! Este aqui é o senhor padre Galvão, foi ele que me baptizou e casou! É da minha freguesia!
- Coincidências... – Disse timidamente o padre.
- Muito prazer. – Respondeu ele educadamente apertando-lhe a mão. Enquanto o velho padre se sentava na mesa do camionista. – Aceitou o seu pedido: apenas sopa e pão. Como convinha a um homem de espírito! Foi à cozinha dar o recado e hesitou em voltar a sentar-se no mesmo lugar. Mas a sincera insistência do camionista forçaram-no.
- Sente-se homem e responda lá a pergunta que lhe fiz há pouco.
- Vim interromper a conversa? – Perguntou o padre.
- Não é nada de especial senhor padre! É que aqui o nosso amigo fez-me uma daquelas perguntas simples cuja resposta é mais complicada.
- E que pergunta lhe fez este maganão?
- Se eu era feliz?
- E então? - Insistiu o padre já interessado.
- Então ... então não sei, sinceramente, não sei e, nem sequer sei se procuro a felicidade!
- É a primeira obrigação do Homem. Cada um deve procurar a felicidade! Já há coisas bastante tristes que acontecem no nosso caminho para que nós ainda compliquemos mais... - Disse o padre.
- Pois é, acho que sou um homem complicado... Não tenho a pureza e simplicidade aqui do nosso amigo. Toda a minha vida andei à procura de encontrar algo que respondesse às minhas dúvidas, numa espécie de jogo das escondidas. Agora acho que me acomodei a este lugar e gozo de uma paz tranquila... mas dormente...
- Dúvidas. Todos nós temos dúvidas! São elas que nos fazem caminhar! Que tipo de dúvidas tem? Se é que posso perguntar...
- As dúvidas que muitos têm, penso eu. Quem sou? Que faço aqui? Para onde irei? Sabe, e perdoe-me a franqueza, as respostas que as igrejas dão não me parecem satisfatórias. Recuso-me a acreditar que sou apenas um objecto de entretém nas mãos de um deus que um dia se lembrou de nos fabricar...
O padre acenou com a cabeça. Parecia ter entendido o que ele estava a querer dizer. O camionista sacudia os ombros e bocejava, não era conversa que lhe interessasse.
Após breve pausa, o padre continuou:
- Essas respostas que o senhor pretende encontrar só o tempo lhas trará. Quando tiver mais experiência. O senhor ainda é jovem, tem muito tempo para descobrir. Mas desde já lhe digo que não as vai encontrar nos livros nem nos lugares de culto. Há um sítio mágico que as revela: O centro da nossa alma!
Ouvir um padre falar daquela maneira surpreendeu-o. Depois, como um menino perante o mestre, murmurou:
- Ás vezes... ás vezes gostava de ser mais simples, de ver as coisas como este amigo que encontrou a felicidade na família e no trabalho...
- Cada um alimenta-se de forma diferente. Porque cada um é diferente. É essa a grandeza da Obra Divina. A individualidade. Veja bem, os animais reflectem comportamentos idênticos dentro de um mesmo grupo. Reagem segundo padrões pré estabelecidos. À medida que o animal sobe a escala da evolução nota-se uma certa individualidade. No Homem então, essa característica é acentuadíssima. Não concorda?
- Sim, concordo. Mas senhor padre Galvão porque não estamos todos ao mesmo nível? Porquê que alguns se satisfazem com as necessidades mais básicas e outros ficam insatisfeitos a vida inteira?
- Porque escolheram meios diferentes de caminhar. Olhe, eu viajo
naquela velha “carripana” e aqui este amigo no camião.
Mesmo percorrendo a mesma estrada temos uma visão diferente dela. Para além disso ele tem uma família e a sua lembrança acompanha-o, eu não tenho família, mas tenho uma comunidade que me faz pensar nela. As nossas disposições e motivações são diversas, logo não podemos de modo nenhum ter as mesmas dúvidas e as mesmas certezas.
O camionista estava impaciente. Queria concluir a estrada que o levava a casa.
- Vocemecês não me levem a mal mas tenho que voltar ao camião. Senhor padre Galvão não se esqueça de aparecer, eu e a minha senhora temos muito gosto em o receber.
- Vai lá rapaz, vai com Deus. Dá cumprimentos lá em casa. Qualquer dia apareço. Prometo.
- Serão entregues senhor padre. E vocemecê amigo mais uma vez parabéns pelo negócio. Quando cá voltar hei-de parar, nem que seja para o cumprimentar.
- Muito obrigado, apareça sempre. Tenho muito prazer em recebê-lo aqui de novo.
Depois desta interrupção, o camionista partiu.
Ele e o padre puderam então conversar mais um bocado.
- Está a ver senhor padre, há poucos assim tão puros como ele!
- É verdade, mas ele estacionou no seu percurso e ainda não deu por isso. Não tem dúvidas nem ambições. Fechou-se no seu espaço e não procura. Deste modo pouco mais pode crescer. É que crescer magoa....
- Se magoa! - Pensou ele – Cada vez que avanço parece maior o meu sofrimento.
- E... resolveu parar?
- Só para respirar fundo. Recuperar energias...
- Cuidado homem, não deixe o seu espírito adormecer...
- É disso que tenho medo...
- Nesse caso porque não corta as amarras e se não faz ao caminho?
A mulher chegou perto deles para levantar a mesa, traíram-se nos seus olhares, o padre compreendeu. Quando ela se afastou de novo perguntou:
- É por ela?
- Talvez. Nela encontrei muitas respostas e o colo macio aonde me encosto!
- ... Mas não é a companheira da mesma jornada!
- Não. Apenas a fonte que me matou a sede, o pão que me alimentou. A sombra que me cobriu ao entardecer!
- Foi bom então?
- Sim, mas não é tudo!
- O tudo não existe! Só tem que optar.
- É na escolha que rasgo a alma!
- Deixe sangrar... em breve cicatrizará. Se o não fizer terá sempre uma ferida aberta que corre o risco de infectar e alastrar, tornando-se perpétua.
- Ele concordou.
O padre apertou-lhe a mão para sair. Ao chegar à porta voltou-se para trás, hesitou ainda um bocado mas acabou por dizer:
- Ao contrário do nosso amigo, espero não o encontrar da próxima vez que aqui passar.
Ele sorriu e acenou levemente com a mão.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ao acordar


Chagal




REVIVER

Voltar a ser mulher e ter dentro de mim
O frémito do desejo em turbilhão.
Sentir que a alma não cabe nem tem fim
No corpo que entretanto se dilata.
Sorrir e poder ver reflectido
O meu sorriso num outro olhar,
Acordar manhã cedo e erguer
O peito que se inflama de prazer.

Quão longínqua é já a memória
De outras paixões passadas...
Encontrar na velha mala
Os restos bafientos das alegrias.
Saltar o tempo que é História
E só encontrar o que se quer.
Tão remotas são as recordações
Que se patinaram de decência.
Esquecer o buraco fundo aonde fui
O limite que foi das minhas forças.
Apagar o giz dos traços no negro
Que as regras me impuseram.
Rasgar os remendos puídos
Que fui obrigada a coser.
E ser, ser de novo borboleta
Com a capacidade de voar.

Não importa agora o tempo
Que posso usar para bailar,
Cantar e gritar se necessário
Para que outros me possam ouvir.
Falar e contar a muitos mil
Para que eu própria possa sentir.
Vão, vão por mim aí dizer
Que sou outra vez mulher!

O Evangelho de Íris


ÍRIS


Mensageira dos deuses Hera e Zeus. Metamorfoseada por Juno em arco-íris.




A gente de Geração anda preocupada. Íris, a Sétima filha que Tamara deixou, é estranha. Muito estranha mesmo. Passa a vida a perguntar coisas. Nunca pára ao pé de casa. Está sempre longe. Até já a apanharam uma vez a caminhar pelo carreiro que leva à aldeia.
Mas, o mais grave é que fala com as coisas, com os animais, as plantas, as fontes. sabe-se lá com quê mais.
Íris quase não dorme. Acorda ainda de noite. Vai até ao cabeço dos montes e espera que o Sol regresse ao dia. Gosta de ficar ali sentada em silêncio. Quando os primeiros raios furam o anilado do céu, levanta-se e dá-lhes os bons-dias - É Sol que me dizes hoje?- grita na sua vozita infantil. Ao entardecer faz o mesmo com a Lua e as estrelas. No outro dia, as estrelas desceram tanto que puseram as pontas na Terra e dançaram com ela. Íris não ri com medo de as assustar, só sorri e dança, dança! Apesar de gostar da Lua e das estrelas, prefere conversar com o Sol. Ele aquece-lhe o sangue e não se importa com as suas gargalhadas. Quando está com os astros, Íris toma todas as suas cores. Fica brilhante! A menina não compreende porquê que os outros não entendem as suas conversas e, quando fala nisso às suas companheiras, elas ficam amedrontadas e fogem dela.
Íris fala com as fontes. Elas são muito alegres. Passam muitas tardes juntas, principalmente no Verão. Elas explicam-lhe pacientemente como é o interior da terra, como é o rio onde vão desaguar, o mar, as nuvens, enfim, todo o mundo líquido de que fazem parte.
Íris viaja com elas em pensamento, mergulha nas suas águas e deixa-se levar até à foz do rio azul. Prova o sal do mar e extasia-se com todas as algas, todos os peixes que nele vivem.
Ás vezes Íris conta essas histórias às mães e elas ficam caladas, sussurram para o lado, coram ou empalidecem. Até o seu pai que parece um homem inteligente, meneia a cabeça e diz: - tch...tch... Que imaginação esta menina tem! Íris não sabe bem o que é imaginação, mas não fica muito contente com isso. Dá-lhe a impressão que não acreditam nela.
Por isso aprende a calar. Por isso se separa cada vez mais dos outros e se torna mais estranha aos seus olhos.
Uma manhã, depois da conversa com o Sol, Íris resolve ir até ao campo das flores situado no vale de Este. Elas chamam-na baixinho, estão muito magoadas. Na véspera um bando de crianças espezinhara-as, arrancara-as e, muitas delas sucumbiram.
Íris afaga-as devagarinho, canta-lhes uma cantiga sem palavras. Das mãos deixa que um clarão verde as ilumine. E elas sossegam. Íris promete falar com as crianças e explica-lhes que na Primavera seguinte as suas sementes brotarão multiplicadas tornando mais colorido o tapete onde crescem. A voz das flores é feita de perfumes, por isso o ar toma um intenso odor que chega ao terreiro. As pessoas, ao sentirem o cheiro, saem das suas casas, das suas oficinas, dos seus campos e olham para o local onde Íris está, toda rodeada de verde luminoso, dançando por entre as flores agradecidas, que se agitam também.
Mãe Vanda chama-a. Mãe Marta chama-a. O pai chama-a. Mas... o perfume solto pelo ar embarga-lhes as vozes e Íris não os ouve.
Quando regressa, Íris vê o medo espalhado nos seus rostos. Um medo que se transforma em cólera. Embora fique chocada não tenta justificar-se. Eles nunca perceberão o que se passa com ela.
Íris aprende a calar. Por isso se separa cada vez mais dos outros e se torna mais estranha aos seus olhos.
No cabeço de um dos montes está uma rocha desgostosa. Está farta de ter há tanto tempo a mesma forma, de estar sempre no mesmo lugar.
Atenta, Íris ouve-a. Depois diz-lhe que ela lhe poderá dar outra forma. Se ela quiser, embora isso possa magoá-la.
A esperança dá um sorriso à rocha. O sorriso da rocha é deixar escorregar devagarinho os seus grãos de areia. Mas, mesmo assim pede que Íris lhe dê outra forma. Mesmo doendo. Não há maior dor que ficar a vida inteira igual. Íris que traz consigo um pequeno fuso, passa a desbastá-la. Enquanto o faz, a rocha sorri e deixa cair uma gargalhada um pouco maior.
A rocha torna-se a pouco e pouco num enorme pássaro de asas abertas. Íris conclui que está pronto o seu trabalho e inocentemente arrasta-a para o terreiro. Está tão bonita!
Apavoradas as crianças vão chamar as mães, vão chamar os pais. Quando estes chegam ficam todos muito calados com os olhos muito abertos. Depois, num murmúrio que se torna brado, empurram uma escultura até uma ravina e despenham-na no vazio.
Íris acompanha escandalizada toda a acção. Quer reclamar mas não consegue. As lágrimas correm pelo seu rosto amargas, grossas. Quando todos se afastam, olha lá para baixo e grita à rocha.
- Perdoa-lhes rocha, que eles não sabem o que fazem!
A rocha que não pára de se rir, responde:
- Não faz mal, Íris. Eu mudei, eu mudei!
Íris aprende a calar. Por isso se separa cada vez mais dos outros e se torna mais estranha aos seus olhos.
A Avó Grande chama Íris. Ela só costuma falar com os pais e as mães e, mesmo assim, só quando é necessário. Íris está intrigada. Não sente medo mas também não se sente muito à vontade.
A Avó Grande é pequena, tem o cabelo e os olhos quase brancos. Está sentada num banco de pedra à porta da sua casa Como é que alguém tão pequeno pode dominar tantos? A voz sai-lhe lenta esganiçada e começa por perguntar:
- És tu Íris. A Sétima de Tamara?
- Sim, sou eu. E tu? Tu és a Avó Grande que comanda o destino do nosso clã e mantém o seu silêncio?
A velha franze o nariz, não está habituada a que a interpelem. Principalmente por uma garotinha que ainda nem chegou à puberdade. Por isso quando fala novamente é como se um vento gelado soprasse.
- Uma criança não faz perguntas. Limita-se a obedecer e a ouvir o que os mais velhos lhe dizem. Sabes porque te chamei?
- Não...quer dizer, talvez porque mudei a rocha num pássaro... Mas o pássaro não voava!
- Um pássaro de pedra ! Um ídolo! Uma blasfémia menina!- grita agastada a Avó Grande- E há mais, fazes as flores perfumarem o ar como se enlouquecessem, dizem até, que falas com as fontes e os astros. É verdade, Íris?
- É...é verdade! Não vejo que mal tenha isso. A divindade que habita em mim, é a mesma que habita todos os seres. É natural que me entenda com eles.
- Blasfémia, blasfémia menina!
É segunda vez que a Avó Grande usa aquela palavra! Não a conhece bem. Não é o mesmo que verdade nem o mesmo que mentira. É uma palavra que fere e não sabe porquê.
- Avó Grande o que é blasfémia?
- Blasfémia é o pecado maior. A divindade que habita os seres é silenciosa e tu pões nela a palavra.
- Mas...Avó Grande, as palavras não são minhas, são palavras de troca que o pensamento transporta.
- Cala-te. Cala-te. Serás votada ao silêncio. Ao silêncio absoluto. Durante sete luas ninguém te dirigirá palavra e tu não te dirigirás a ninguém. É o castigo.
- Mas...
- Vai-te! -Que eu não te torne a ouvir nem a ouvir o teu nome nesse espaço de tempo. De contrário serás banida.
Íris regressa com o silêncio. Tem vontade de chamar hipócritas a todos aqueles que falam com o pensamento mas não têm a coragem de o fazer de viva voz. A tortura dos homens é grande. Só lhe resta a fuga para os recantos mais escondidos e falar, falar com os animais, as plantas, a terra e as águas que não sabem o que é blasfémia e lhe respondem.
Íris já sabe calar. Mas continua separada dos outros porque é estranha aos seus olhos.


A tortura do silêncio mantém-se. Íris passa ainda mais tempo nos montes junto da natureza. Ninguém se importa com ela. Os estranhos não são bem aceites. Íris é uma estranha.
Ouve-se um grito lá em baixo. Íris acorre preocupada. Junto dos tanques de tingimento das lãs estão três mulheres petrificadas de medo. Um lobo enorme e preto, de baba escorrendo pelas queixadas e olhos vermelhos ameaça atacar.
Quando Íris chega o lobo sobressalta-se. Ela baixa-se até ele. Afaga o seu lombo, a sua cabeça, levanta-lhe uma das orelhas e segreda-lhe qualquer coisa. O lobo parece compreender. Lambe-lhe as mãos e parte.
O espanto das mulheres é tão grande que uma delas desmaia. As outras tremem. Íris afasta-se também e vai para debaixo da sua árvore preferida. Uma figueira mansa. Sente uma dor enorme no seu peito. Uma dor que se mistura com a náusea e a faz fechar os olhos e deitar-se no chão.
De repente sente-se levada, olha para baixo mas o seu corpo continua estendido de bruços no chão. À sua frente um vulto luminoso e amarelo dá-lhe a mão e leva-a a planar sobre toda a área do clã. entra nas casas e ninguém a vê. Leva-a até ao carreiro, pede-lhe que o siga. Íris pela primeira vez na sua vida sente medo e regressa ao seu corpo debaixo da figueira. É quase manhã e nesse dia ela não cumprimentou o Sol.
A população do clã vem em grupo até ela. Ouve gritar:
- Banida! Banida! Vai-te embora. Vai-te embora!
O corpo de Íris treme. Faltam-lhe as forças. Mas o medo é maior e empurra-a para o carreiro que vai dar à aldeia.

O Caminheiro


Recordações


Depois de um primeiro sono profundo e sossegado, o homem entrou num outro sono, pesado, preenchido de sonhos.
Viu-se multiplicado como numa sala de espelhos. Cada expressão, cada gesto era copiado simetricamente por todos os outros.
O espaço onde se encontrava era indefinido, vago! Envolvia-o uma bruma angustiante que o impedia de reconhecer os limites. Aqui e além vislumbrava silhuetas de árvores nuas e rostos muito brancos que o mimavam. Quando pronunciava um som, uma palavra, via apenas reflectido o movimento dos lábios, já que a ausência de ruído era absoluta.
Em jeito de desafio, avançou para o que estava mais próximo. Estendeu os braços para o tocar, tocou-o, mas não sentiu nada... as mãos interpenetravam-se, fundindo-se. Recuou. Onde estava?
Já não tinha medo, mas a curiosidade levou-o a desejar outro lugar.
Uma a uma, as cópias tomaram as formas do seu passado! Ali, um menino de escola brincando com o seu avião simulando voos acrobáticos. Mais à frente, um rapazinho debruçado num muro imaginário e estendendo o olhar sobre o abismo. Um pouco mais distante, um jovem nadando furiosamente num mar vigoroso que vinha morrer na praia dourada. Depois, um homem rodeado de gente, erguendo no punho um diploma enrolado.
Reconheceu-se.
Reconheceu os momentos de herói provisório que havia vivido.
Estava orgulhoso de si mesmo!
Ele era o guerreiro feito à medida da sua luta.
Esticando-se, o corpo cresceu-lhe e rodeou como uma circunferência o mundo inteiro, de uma forma maternal com o peito e o ventre colados a ele numa atitude interna de posse.
Essa imagem pairou durante largo tempo no universo escuro que a continha e só a sua florescência impedia de se tornar real. Ele sentiu-se nessa hora, o Senhor!
Acordou com o vento a bater nos vidros da janela, o céu estava nublado e prenunciava um dia desagradável. Há tanto tempo que não sentia a macieza de uma cama! Merecia-o. Deixou-se ficar nessa modorra vendo a manhã passar. Relembrou as imagens do seu sonho mas não se deu ao trabalho de as analisar. Fora só um sonho!
Involuntariamente, fechou de novo os olhos...
A mulher bateu à porta.
Sobressaltado, levantou-se e pigarreou uma desculpa. Vestiu-se à pressa e desceu. Passava do meio-dia.
A mulher serviu-lhe o almoço. Ele olhou-a com olhos de homem. Ela deixou-se olhar. Sem saber porquê decidiu ficar mais um dia. Propôs isso à mulher e ela, naturalmente, aceitou.
Enquanto ela lidava, o homem observava-a. Ás vezes levantava-se nervoso e ia até à porta, sacudia as pernas como para as sentir presas ao corpo. Depois voltava a sentar-se na sala só para a ver.
A mulher não possuía nenhum atributo demasiado relevante, mas tinha nela algo que o segurava. A dada altura ela passou junto a si, ele tocou-a, e ela enfrentou-o. Ficaram parados, inquirindo-se. Não havia nada para dizer com palavras porque o calor da proximidade dos corpos falava em todo o seu tremor. Um desejo imenso tomou conta de ambos...
Durante toda a tarde se roçaram e amaram em pensamento, fantasiando antecipadamente todos os gestos.
Ao anoitecer, em cumplicidade, subiram ambos para o quarto e permitiram que a torrente estrangulada do dia brotasse e queimasse os seus corpos.
No final da madrugada e pela primeira vez, a mulher fez uma pergunta:
- Porquê?
Ele ficou acordado e numa voz surpreendentemente clara, respondeu:
- Eu olhava e não te olhava. Dirigia o meu olhar para ti. Mas era de ti que vinha o meu olhar!
Ela sorriu e aconchegou-se na concha do homem. Ele sorriu e sentiu-se de novo a circunferência do mundo!

domingo, 8 de novembro de 2009

Ao Acordar



MEU AMIGO



Tu que passas individualmente
Por esta cidade anónima,

Tu que procuras no infinito
O ponto fulcral da glória,

Anda, vem, agarra a minha mão
E chora, chora a tua intensa solidão.

Tu que olhas o teu umbigo
E esqueces o resto do corpo sem razão,

Tu que aqueces o teu peito
Apenas com a voz da tua garganta,

Lembra-te que fora de ti, existes tu
Reflectido nos olhos de quem te vê.

Que há as mãos que te tocam e seguram
O fio delgado que te prende à vida.

Acorda, meu amigo, que é tempo
De fazer coisas e deixar rasto.

É com elas que serás eterno!




O evangelho de Iris


TAMARA



Já ontem ameaçava... O calor abafado e o céu de chumbo bem o previam... O temporal desencadeou-se a meio da noite, para além dos trovejos e chuva grossa, o vento enlouquecido parece descabelar todas as casas, arrancar todas as árvores. O caudal passa pela rua em atropelo. Tudo treme e geme...
No interior do casebre, na sua cama, geme também Tamara, a mãe velha. Já pariu seis vezes. Não é novidade. Sabe como se desenrola o fio. Primeiro a sensação de ardor junto dos rins que lhe apanha o ventre, depois a ardência torna-se pouco a pouco numa insistente e regular dor impossível de desprezar. Pode demorar horas, ás vezes dias. No entanto esse processo tem um fim. Um fim que é um começo, com o rebentar das outras, mais fortes, mais profundas, que parecem arrancar todos os órgãos internos. Dores molhadas.
Com ela, não costuma ser demorado, acaba abruptamente com a expulsão de um ser que ela não compreende muito bem como foi que lá cresceu. Depois, depois gosta de sentir aquela pequena coisa a mexer, a chorar, a cheirar a sua pele. Seis vezes! Seis mulheres que darão ao seu clã outras oportunidades de crescer.
Costuma pedir ajuda a Vanda ou a Marta, suas irmãs e vizinhas. Mas hoje, a madrugada está louca e mesmo que mandasse uma das suas filhas buscar as tias, ia ser difícil elas virem. Talvez de manhã o tempo ajude e ela possa ter a sétima com conforto. É a sétima, disso tem a certeza. Mais uma mulher em casa! É uma honra, segundo a tradição, ter sete filhas. O mais natural é não ter mais filhos depois desta. A idade já não favorece. Antes dela teve dois abortos e daí para a frente é muito provável ter mais. Por isso a Sétima vem na hora certa.
As filhas, alheias ao que se passa, dormem no espaço do lado dividido pela parede frágil. Duas já passaram a puberdade mas vivem ainda com a mãe. Se ela as chamasse?...
Mas não, deixá-las dormir. Por enquanto aguenta. O pior é que o peito parece rebentar, o coração pula apressado e o calor sufoca-a, tem sede, mas sente que as pernas não vão aguentar o peso.
Ainda falta algum tempo para que o dia aclare. Talvez se dormisse um pouco... Se as dores abrandarem é o que vai tentar fazer. Dormir. Sente o sono vir. Suave como um bálsamo. Às vezes não sabe se está a sonhar, ou se está acordada. Deve ser da febre... Há-de passar!
O quarto ilumina-se suavemente. Uma luz azulada percorre-o, preenche-o e, dá uma sensação diferente a tudo o que conhece. Dessa luz, sai de repente, um vulto de azul mais carregado que se dirige a ela. Não percebe muito bem se é homem ou mulher. Só vê o seu sorriso doce e sente as suas mãos macias. Comunicam-se mas não utilizam palavras, apenas ideias através do pensamento de ambos:
- Está próximo, mulher, muito próximo...
- O que é que está próximo? Quem és ? Que fazes comigo?
- Schiu...Calma! A Sétima! Aquela que virá de ti! Trocarás o teu espaço pelo dela. Porque ela será diferente. Será ela que tornará os homens e as mulheres diferentes.
- Como? Porquê?
- Porque o desejaste. Porque o mereceste. A Sétima será a Primeira.
- Não percebo.
- Agora não. Depois. Depois de feita a troca. O teu corpo deu-lhe a matéria, mas o seu espírito encerra já o conhecimento. Foste tu que o desejaste.
- Eu? Quando?
- Tu. Quando te dirigiste à montanha do Sol e disseste:" Que o espírito me escolha e se torne carne."
- Eu disse isso? Quando?
- Ainda antes de nasceres nesta vida. Foi noutra, numa vida em que o sofrimento te era incompreensível e tinhas o coração tão magoado que pensavas carregar a dor colectiva.
- Não me lembro.
- Suave foi o teu esquecimento...
- Foi isso que pedi A quem não tem nome mas tem vida?
- Foi.
- Então percebo. Faça-se em mim a Tua vontade e Graças a ti por tua lembrança.
- Estás pronta?
- Estou pronta.
O espírito decresceu. Decresceu tanto que o corpo da criança que saía o acolheu. A aurora surgiu radiante e o corpo de Tamara sossegou cumprindo o seu destino.
Nasceu a Sétima! Nasceu a Sétima!

O caminheiro


A pensão




Quando abriu os olhos compreendeu que ainda estava sentado na esteira e protegido pelos muros da ermida. Tacteou os braços, o peito e o ventre verificando se havia vestígios da “luta”.
Nada. À parte a cor afogueada, resultante da exposição ao calor, a pele apresentava-se intacta, nem um arranhão! Tudo se passara no domínio de outros espaços! Ele vencera. E isso tornava-o diferente do homem que naquela manhã se encolhera. A sua glória varrera de dentro de si o medo.
Preparou as coisas e, com um passo firme, marchou de encontro ao mundo. Estava cheio de admiração por si próprio, tudo agora lhe parecia vulgarmente pequeno! Deixou de ouvir o gorjeio dos pássaros, o restolhar dos coelhos a fugir, a serrazina dos grilos. A noite aproximou-se e tornou tudo de uma mesma cor!
A povoação era já ali.
À sua entrada, como convidando, havia uma pensão. Pequenina, mas com um aspecto agradável! De dentro vinha um cheiro bom de sopa acabada de fazer. Entrou.
A sala era toda branca e castanha.
Branca da cor das paredes caiadas de fresco, castanha dos madeiros patinados e sólidos.
Havia seis mesas quadradas prontas a servir, um balcão e umas escadas que ligavam ao andar de cima.
Uma mulher apareceu. Era bonita, desenxovalhada, com ar de quem estava habituada a decidir. Quando falou, a voz saiu-lhe forte, ligeiramente rouca, mas segura do que oferecia.
O homem pediu uma refeição quente, um banho e uma cama. Ajustaram o preço. Não era caro! A mulher subiu as escadas e ele seguiu-a.
Mostrou-lhe o quarto mobilado modestamente cheirando a limpo. Gostou dele.
Ela deixou-o, e ele dirigiu-se ao duche. Ah como era bom sentir a água correndo, morna, lavando-o do cansaço e das emoções! Demorou algum tempo a fruir a frescura desse banho. Depois vestiu a outra muda de roupa que trazia consigo e penteou-se cuidadosamente.
Desceu à sala e encontrou uma mesa posta com um fumegante prato de sopa, pão e vinho. Comeu devagar, se o tivesse feito mais rápido sofreria um enjoo. Soube-lhe bem! A mulher trouxe-lhe ainda um prato de guisado e ele saboreou cada pedaço como se fosse a primeira vez. Já não pensava em nada. Agora o que era importante, era manter o corpo forte.
Quase no fim da refeição olhou a mulher que estava ali à sua frente, calada e serena. Agradeceu-lhe, mas ela encolheu os ombros, estava a ser paga pelo serviço! Não fizera mais do que uma troca...
Arrastou a cadeira para trás e esticou as pernas. Estava satisfeito, completo! Ficou assim durante algum tempo, depois levantou-se e foi até à entrada. O ar do campo entrou-lhe pelo nariz e perfumou-lhe a alma. Atentou aos ruídos nocturnos, eram sons de vida! O luar diluía-se pelo céu tornando mágico o momento!
Quando regressou ao quarto estendeu-se abandonado no conforto da cama e, adormeceu.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Ao acordar


DESEJO ACORDADO

Acordaste-me o desejo e subtraíste-me a chave
Que a minha alma inquieta guardava fechada.
Num esgar de deleite, de repente, soltaste
A esperança que me fora proibida e, alcançaste
O meu peito, que num ímpeto de ansiedade
Se abriu, feminino, a uma espécie de felicidade.
Agora manténs secreta uma esquiva distância
Como se fora apenas brincadeira de infância.
Torturas o meu corpo sem o tocares e, por o não roçares
Magoas-me a alma, que vive a intolerância.
Onde pensas que podes ainda abrir e ferir?
Eu, aquela que ainda vive e é capaz de rir!
Destapa-te desse lençol de confusão e procura
Dentro da minha ilusão a gargalhada pura.
Porque escondes os sentimentos dentro de ti?
Fala, fala com o teu corpo dentro de mim!

O Evangelho de Iris


I

GERAÇÃO



Entre o oceano bravio e a serra áspera já calva de erosão, à distância de uma manhã da aldeia mais próxima, fica Geração. Um lugar em que as casas de barro e areia dão guarida a uma família, a um clã, que não tem para comunicação mais que um carreiro torto e pedregoso, e que devido ao seu isolamento, vinca as suas particularidades. Não chegam as trezentas almas incluindo crianças, não têm lugar de culto, escola ou órgão representativo de poder que lhes lembre que fazem parte deste planeta. Todo o seu património é colectivo e todos os seus bens são retirados da terra. Os pouquíssimos objectos que não podem ser produzidos por si, trazem-nos de longe em longe, e porque que necessidade a isso obriga, por um voluntário que se dirige à aldeia vizinha. Como não comercializam, não têm moeda de pagamento, recorrem à troca directa onde a boa vontade dos aldeões acaba por aceitar, mais como por superstição do que por solidariedade. Geralmente trocam cabras, ovelhas ou animais de pêlo, apanhados em armadilhas, por lâminas, pregos ou outros utensílios.
A comunidade vive sob a autoridade do mais velho elemento. Tradicionalmente é uma mulher, uma avó, por quem nutrem imenso respeito e reverência. Ela, pela sua experiência lega aos outros a sabedoria e a justiça. Também é ela que decide quando devem ser feitas as sementeiras ou as colheitas, ou ainda, quando é necessário que um emissário enfrente o mundo exterior e vá até à aldeia.
O casamento, digo antes, o acasalamento, não é monogâmico, nem esse conceito é perceptível por eles. Apesar de tudo evitam as ligações entre pais e filhos e entre irmãos, quase como por instinto, em defesa do seu património genético. A mãe é quem fica encarregue da educação e da subsistência dos filhos. Os homens respeitam as crianças mas não nutrem por elas nenhum sentimento paternal. Defendem-nas, vigiam-nas mas separam-se totalmente dos aspectos afectivos. A partir da puberdade os rapazes desligam-se das mães e passam a acompanhar os homens adultos, enquanto as raparigas começam também a assumir as suas funções femininas. Não há rivalidade entre os dois sexos, mas sim uma espécie de cumplicidade.
A moral existente é um conjunto de regras aceites comummente. Fechados em si próprios, receiam o que vem do exterior e hostilizam os forasteiros que por qualquer razão atravessam os seus domínios. Embora não utilizem armas nem se possam considerar guerreiros, mantêm para com os outros uma total frieza que desmotiva qualquer um. Não dão, nem recebem com facilidade, como se esse facto implicasse o abaixamento das suas defesas.
Vivem um presente contínuo.
Fisicamente são todos parecidos. Nem de outra maneira poderia ser; não muito altos, secos e rijos. A pele é muito branca, quase leitosa, enquanto os olhos e os cabelos variam de azul a cinzento, de vermelho a castanho. Proporcionalmente têm os membros muito compridos em relação ao tronco curto e estreito. São ágeis, resistentes, quase incansáveis.
Apesar do grupo ser muito silencioso, têm um vocabulário extenso e o seu pensamento não é linear. Chegam a ter um gosto pelo poético das palavras e pela sua musicalidade. Mas, como em tudo o que fazem, a sua arte é íntima e só se manifesta em ocasiões muito especiais. Nas longas noites de invernia ou nas tardes ardentes de verão, quando o trabalho físico é quase impossível de realizar, juntam-se numa espécie de assembleia e dão largas aos seus dotes numa disputa saudável de reconto de poemas e histórias.
Professam uma ideia de sobrenatural. Consideram as forças da natureza ou os próprios elementos portadores da divindade única existente. Essa divindade não tem nome, é simplesmente divindade. Respeitam os ciclos naturais e agradecem à divindade única que se manifesta na terra, na chuva, no vento, todas as suas benesses e sobretudo, têm de si mesmo a ideia de que fazem parte desse corpo divino. Para eles qualquer que seja o ser, animal, planta ou rocha é composto de duas partes; a eterna, que transmigra de forma em forma e vive para todo o sempre e, a outra, que só é utilizada em cada vivência e que alimenta com os seus despojos a primeira. Assim o nascimento e a morte têm uma importância relativa. Pois que cada morte dá vida e cada vida tem morte. Sem religião instituída não têm festividades exaltadas. Para eles o nascimento e morte de um ser humano é tão importante como o despontar de uma seara ou a queda de um rochedo.
As suas vidas são círculos concêntricos.
Não parecem aspirar à evolução. Não utilizam a escrita e tudo o que sabem é transmitido oralmente e guardado na memória ao longo das suas existências.
Não se esforçam por mudar. Aliás, a mudança de hábitos é para eles uma violação, tão grande que quase não sobrevivem.
No entanto, apenas à distância de uma manhã, o mundo «civilizado» evolui.
Geração é um hiato da História da Humanidade e não se sabe até quando conseguirá essa (in)diferença...

o CAMINHEIRO


A luta


Uma nuvem de vapor abafava o azul carregado do céu envolvendo-o em ameaças.
O silêncio absoluto permitia distinguir o crepitar das folhas secas, o ligeiro zumbido dos insectos e o coaxar longínquo de rãs em um qualquer charco.
Sem se encostar à parede para não adormecer, fechou os olhos e regulou a respiração. A princípio tudo eram manchas vermelhas, alaranjadas e negras, depois pouco a pouco, enquanto calava o pensamento, formaram-se as imagens. Partiu com elas.
Encontrou-se no meio de um vale desértico ao lusco-fusco. As montanhas erguiam-se como agulhas e rompiam o alto, profundamente! O quartzo-róseo das rochas provocava reflexos que quase o cegavam. Todo o seu corpo parecia esmagado com a energia emanada delas.
Ficou quieto. A habituar-se...
O vento veio enrodilhá-lo de poeira. Era frio, quase gelado...
Gritos acutilantes penetraram então o vale. Asas negras de aves de grande porte surgiram sobre si. A primeira reacção foi encolher-se, depois pensou ainda em fugir, recolher-se entre as arestas das rochas. Mas ele estava ali para vencer e não para ser derrotado. Por isso fincou os pés na terra, como num desafio e, esperou.
Uma a uma, como obedecendo a uma ordem maior, foram pousando em círculo à sua volta, olhando-o de lado com um único olho amarelo e ameaçador.
O terror voltou a encharcar-lhe o corpo, desta vez de um suor pegajoso e frio. Sabia que empalidecera, que as pernas esticadas tremiam. Não possuía qualquer arma com que se defendesse. Descobriu então que isso excitava as aves, que estas estendiam as asas, prolongavam os pescoços e abriam o bico prontas a despedaçá-lo. Então pensou que elas eram apenas animais movidos por instintos e por um espírito de grupo rudimentar e que ele era um homem pleno na sua individualidade, capaz de usar para além das emoções a sua inteligência lógica.
Deu um salto para a frente e lançou um grito de guerra. As aves sobressaltaram-se e desmancharam o círculo desorientadas. Colocaram-se então a uma distância prudente esperando novas ordens. Uma delas que parecia dominar o bando, levantou voo e desceu perpendicular à sua cabeça.
Era o sinal!
Reunindo todas as forças, ele lutou com a ave. Ela arrancava-lhe pedaços de carne nas suas investidas, ele arrancava-lhe porções de penas na sua defesa.
O duelo tomava agora proporções angustiantes.
A um novo grito, outras aves vieram. Não todas, mas algumas delas... usando todos os seus recursos, com brados e pedras, o homem excedia-se.
O tempo parecia parado e os movimentos repetidos constantemente. Toda a fúria que havia dentro dele soltou-se e já sem limites, redobrou-se de forças e conseguiu agarrar o pescoço serpentilíneo da ave maior e atirá-la ao solo. Pisou cada uma das suas asas, ignorou o ataque das outras e foi estrangulando-a, torcendo sem piedade até ouvir o som dos ossos partidos e sentir o estrebuchar do corpo em agonia. O bando afastou-se...
A morte foi breve. O bando órfão levantou voo entrechocando-se no ar, procurando as escarpas mais altas para chorar o seu chefe.
O rosto do homem estava desfigurado, o sangue e a terra, o suor e o brilho da vitória escorriam até ao seu peito.
- Vitória! - Gritou. – Vitória... vitória... – sussurrou.
E deixou-se cair em gargalhadas no pó do chão avermelhado e penugento.
Olhou o cadáver torcido no meio da arena.
Ele era o Homem!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Tudo correu bem


Em breve voltarei. Prometo! A operação correu bem e estou a recuperar. depois dou mais notícias.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

devido a


sou obrigada a fazer

tenho que passar uma féria no

domingo, 5 de julho de 2009

Desculpem lá...


Desculpem lá…
Continua, sem grandes melhoras, o meu estado de saúde. Não vos solicito compaixão mas compreensão. Um dos meus impeditivos é estar sentada à mesa do pc. Outro é que com as grandes quantidades de medicação que tenho e estou, a tomar, sinto alguma dificuldade em me concentrar e desenvolver ideias. Há uma ponta de esperança pela primeira consulta de neuro cirugia, pode ser que me diagnostiquem de facto a causa de tantas dores e incómodos e, haja enfim um tratamento que me ponha, de novo capaz. Até lá, tenham paciência (que a minha já vai faltando!) e não desistem de mim.
Um abraço

Valeu a pena!

Ontem quando fui ao centro de saúde receber mais uma das injecções, reencontrei uma antiga aluna e sua mãe. Depois da conversa breve que tive com elas, regressei com o sentimento de que a minha vida profissional valeu a pena.
Não foram os excelentes alunos que me marcaram mas aqueles que haviam sido rotulados de difíceis, foram esses a quem dei o meu melhor, por quem me esforcei mais, com quem utilizei todos os meus recursos pedagógicos e todas as minhas qualidades humanas que mais me agrada rever e, perceber que fui importante para eles.
Fico ainda mais feliz quando os seus pais reconheceram o meu papel junto deles, que mesmo sem grandes palavras demonstram agradecimento.
Apesar de tudo eu é que agradeço a Deus ter nascido e podido desenvolver as capacidades que me levaram a poder ajudar na formação de tantos meninos e tantas meninas. Não tenho saudades da Escola, há muitas coisas que sinto necessidade de fazer, mas fico feliz porque a minha vida não foi em vão.
Para todos os professores que me estão a ler digo-vos: vale a pena não desistir, vale a pena acreditar e usar a linguagem do coração aliada às mais variadas técnicas! E, se por acaso, algum dos meus alunos hoje me lê, também lhe quero dizer: quanto mais te ensinei, mais aprendi contigo!
Bem haja a vida que me deu tal graça!

Folhas soltas



Quero um arco-íris

Quero um arco-íris na minha túnica tumular
Onde as cores não gritem, mas soem como um saxofone emotivo,
Invadindo o pequeno universo feito de gente que sabe sorrir.

Quero que a minha última vontade se cumpra
Sem condolências, sem lamentos, sem suspiros.
Que cantem, que contem anedotas (se possível sem brejeirice),

Quero?

Não, não quero nada, porque já tive tudo nas minhas mãos
E agarrei a vida como o vendedor de balões,
Oferecendo-os a quem passava por mim,
É provável que alguns tivessem rebentado logo em seguida,
E, outros, que se escapassem dos dedos,
Mas alguns, muitos, penetraram no azul dos dias
E coloriram o céu para que todos os olhassem encantados.

O arco-íris, vesti-o eu sempre.
Talvez seja melhor… deixarem-me ir nua
Para que assim não me engane a mim mesma!

O caminheiro


O medo



O grito foi tão próximo que o gesto instintivo foi o de se baixar e tapar ambos os ouvidos.
Mais do que agudo o grito veio de asas abertas perfurar a intimidade.
Veio vestido de negro. Repetidas vezes. Sacudindo uns restos de raiva que se encontravam no fundo.
Veio dilacerante remexendo na ferida que a alma encrostara.
O coração batia agora num ritmo maior e os passos arrastavam-se vacilantes.
Tivera medo. Um medo gelado que o prendera ao solo.
Depois, quando o grito alcançou o outro lado da lonjura, respirou fundo e reviu mentalmente as qualidades predadoras de todas as aves que conhecia e identificou a espécie e a rota.
Era absolutamente normal que num descampado houvesse aves daquele tipo. Fora apanhado desprevenido, fora o que fora!
Calcou o susto... não o expulsou...
Recordou as histórias terríveis que ouvira em criança em que pássaros gigantescos arrancavam viajantes para os levar a palácios encantados habitados por monstros.
Recordou que era assim que se iniciava mais uma noite de terror que, invariavelmente, terminava em lençóis molhados e o chamamento aflito pela mãe.
Os fantasmas da infância teimavam em aparecer mesmo agora que o seu corpo adulto já se controlava e que o seu raciocínio lógico se explicava.
Lá estava o medo vencendo-o! O medo que o fez aprender a construir muros de defesa, a tornar-se senhor do universo!
Ah não! O caminho seria longo e para isso tinha que se purificar e olhar de frente o inesperado. Como queria ele transpor a linha do infinito se se acobardava ao primeiro grito da primeira ave negra que encontrava?
Ali estava longe das montanhas onde as aves nidificavam, era preciso procurá-las e enfrentá-las, sem isso, continuaria a agachar-se sempre que um par de asas negras se aproximasse.
Procurou uma sombra. Podia ser aquela, encostada às ruínas da ermida sem idade. Tocou-lhe como se lhe pedisse permissão. Estendeu a esteira no chão, bebeu um gole de água, despiu-se da cintura para cima e descalçou-se.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Folhas soltas



O meu sono


Nos bocejos do meu tédio caem gotas de saliva salgadas
Tão salgadas como as lágrimas que guardei
Como as palavras que não gritei e os beijos, os beijos que ficaram revoltos no ar…
Os pêlos eriçados do meu corpo branco e vermelho
Escondem medos e perguntas que ainda não formulei,
Reclamam-se eléctricos, na superfície da minha pele…

Já deixei de sonhar com Quixote, Rocinante e Pança.
O Santo Graal deve estar neste momento a ser vendido a preço de saldo,
Julieta, encontrou conforto nos braços de Midas,
Talvez, Francisco, ainda clame sob a bandeira de um grupo de ecologistas!
Os meus heróis de infância perderam-se no caminho!

Che, é hoje um produto de marting,
Gandi, provavelmente adormeceu com um charro na mão,
Lutter King, agita pateticamente a bandeira dos States.
E os meus heróis da adolescência perderam-se no caminho!

Foi tão breve o meu sono!

O despertador acaba de tocar o irritante pipipi.
Encaminho-me para a casa de banho onde despejo toda a raiva que acumulei,
Tomo um duche que me suja de cobardia,
Saio para a luz crua da manhã que me torna igual,
… feita à medida dos outros.

Executo todas as tarefas que me pedem,
Mesmo aquelas que não conheço a utilidade,
Sou produtiva.
Sou cordial,
Sou solícita,
Sou obediente,
Sou, sou, sou,
E não vivo o que sou
Porque me deixo cansar
e voltar a adormecer
Num sono sem sonhos.
Pesado
Calado
Apagado!

O caminheiro




A aldeia





Pára à entrada da aldeia.
Ela é toda branca por fora mas a penumbra convive com os homens que ali vivem.
Eles olham desconfiados o forasteiro solitário e põem-se em guarda.
O homem encolhe os ombros. Está habituado ao medo da diferença.
Junto de um velho poço de manivela retira da bolsa um bocado de pão endurecido e rói-o distraídamente.
Uma bola atrevida toca-lhe os pés. O rapazito que a jogou mantém-se à distância.
Olha para ele com o desejo de ir e de ficar.
O homem não se mexe. Que a venha buscar! Um passo, dois, uma pequena corrida e já está!
A bola regressou às mãos do seu Senhor.
Do bolso dos calções tira uma laranja, olha para ela. Olha para o homem. Estica o braço.
- Queres?
- Muito obrigado - diz o homem sorrindo por dentro.
A porta do conhecimento abriu-se.
- Eu gosto de laranjas. - Afirma o rapaz.
- Eu gosto do mundo. - Replica o homem.
Riem-se os dois. Não se sabe muito bem porquê. Mas os risos juntos têm outro som!
- Para onde vais? - Pergunta o garoto entre um sorriso maroto.
- Não sei. - Responde o homem com sinceridade.
- Estás perdido? - Volta a sorrir!
- Não. Estou a ver se encontro. - Esclarece.
- O quê?
- Não sei.
- Assim não podes achar o que queres!
- Pois não. Também não sei se quero encontrar o que desconheço...
- É maluco! - Pensa o rapazinho.
Acena-lhe com a mão e parte saltitante.
O homem reabastece o cantil e parte agora. Agora que a poeira tem consigo um riso infantil!

Telmo, o marujo

Uma cidade quase desconhecida


Quando o navio atracou era quase manhã. Uma neblina violeta banhava-nos, fazendo-nos estremecer. Jerónimo e eu descemos a rampa e pisámos o cais.
A primeira reacção que tive foi uma espécie de vótimo devido ao cheiro forte e desagradável que recebi. Depois, como por instinto dirigi-me a casa de meus pais.
Lá estava ela, degradada, suja e meio abandonada. O toldo vermelho tinha agora uma cor indefinida, a loja estava entaipada, olhei o meu amigo e ele parecia indiferente às minhas emoções.
- Jerónimo, o meu corpo gela e a minha alma treme…
- O teu corpo é forte e, a tua alma, está preparada para o que tens a fazer. Usa a tua luz interior para te acalmar e agir.
- Como é que me irão receber? Provavelmente pensarão que sou um fantasma! Além disso a minha roupa não se parece nada com que esta gente usa!
Jerónimo ergueu os braços e, ao baixá-los, envolveu-me numa nuvem de poeira esbranquiçada. Instantaneamente vi-me vestido com fato de fazenda escura e de pouca qualidade. Surpreendido, percebi que só eu me transformara. Jerónimo continuava igual. Ele sorriu e disse-me:
- Não te admires, poucos perceberão a minha presença. Aliás tens que ter cuidado porque se começares a falar comigo ao pé dos outros pensarão que estás louco!
Respirei fundo, tinha que provar que a minha estada no Arquipélago do Ocaso não havia sido em vão. Bati duas vezes na madeira corroída da porta.
Algum tempo depois ouvi de dentro uns passos arrastados e o tossicar de uma mulher.
Quando abriu a porta olhou para mim como um estranho. Estava tão velha que me impressionou. Com a garganta apertada, murmurei:
- Aceite, minha mãe, o regresso de seu filho que tanto tempo esteve afastado.
A minha mãe recuou uns passos e empalideceu.
- Como pode ser? O meu único filho que desapareceu aí pelo mundo foi Telmo. E, esse morreu num naufrágio há mais de quinze anos!
- Salvei-me, minha mãe, salvei-me! Olhe bem para mim… claro que me tornei um homem… mas algum sinal deve haver em mim que confirme a minha identidade!
Ela observou-me com mais atenção, sobretudo o rosto, os olhos…e foi aí que deu grito:
- Os teus olhos… os teus olhos são iguais! Entra e vem ver a miséria em que me encontro!


domingo, 17 de maio de 2009

Simão César Dórdio Gomes
















Histórias de mim para ti ou Histórias mágicas de reais acontecimentos




O menino zangado



- Não quero!
- Deixem-me, não me apetece falar!
- Quero lá saber!
Que pena! Aquele menino tão bonito, de olhos castanhos tão grandes, falava sempre assim! Zangado com tudo e com todos, gritava constantemente, nada lhe agradava, nunca se lhe ouvia uma palavra simpática!
Os pais, coitados, que tanto o amavam, ficavam envergonhados e desconsolados com aquele feitio e já não sabiam o que fazer para o tornar mais agradável.
Na escola sentava-se sozinho no fundo da sala com ar amuado. Nunca emprestava nada, nunca brincava com os outros, nunca dizia uma palavra gentil a quem quer que fosse. A professora também não sabia o que mais fazer e resolveu chamar os pais para ver se em conjunto com eles descobria a razão daquela zanga, até pôs a possibilidade de o levarem a um psicólogo ou a um médico especialista pois, quem sabe? O menino sofresse de alguma doença do corpo ou da alma e não soubesse como explicar! Além disso ele também estava a ter dificuldades em aprender!
Cabisbaixos, os pais do menino, prometeram fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para solucionar o problema.
No dia seguinte, apareceu na escola uma nova aluna que vinha de outra cidade. Por coincidência, foi parar à turma do menino. A professora recebeu-a com alegria e pediu-lhe que escolhesse o lugar para se sentar, ela como não sabia de nada, e bem-educada, pediu licença e com um grande sorriso, sentou-se mesmo ao lado do menino. Claro que ele nem sequer olhou para ela mas a menina não se deu por achada e ficou na mesma naquele lugar. Até parecia que o sol se sentara à beira de uma nuvem cinzenta!
Passado um bocado, a menina disse baixinho para o menino:
- Olá, eu sou a Rita. E tu, como te chamas?
Ele encarou-a com um ar carrancudo e não respondeu.
Rita admirou-se mas não disse mais nada. Tirou da mochila um passarinho feito de papel branco e colocou-o em cima da mesa.
- É um amigo meu. – Justificou.
Ele encolheu os ombros e franziu as sobrancelhas, a Rita, não voltou a falar com ele nesse dia mas não desistiu. Durante o resto da semana, continuou a pôr o passarinho entre ela e o companheiro.
A curiosidade acabou por vencer a zanga do menino e, uma manhã, não aguentando mais, ele perguntou:
- Porque trazes sempre o passarinho para a escola?
- Ah, ainda não te tinha dito! É um passarinho mágico. É ele que me ajuda em tudo, até nos deveres de casa!
- Estás a gozar! Isso é só um pedaço de papel dobrado!
- não estou, não. Experimenta tocar-lhe. Se quiseres até to empresto hoje. Vais ver como o teu dia te corre bem!
Apesar de desconfiado, ele lá estendeu a mão e tocou no passarinho, e…coisa estranha! Sentiu um calorzinho nos dedos, uma espécie de formigueiro que lhe fez cócegas e, riu. Como era engraçado o seu riso!
Claro que a professora deu logo por isso mas nem se importou, quem sabia se a Rita não estava fazendo um milagre…
Com o tempo a passar, a Rita e o menino tornaram-se amigos. Ele melhorou a olhos vistos, começou a ouvir com atenção tudo o que ela dizia, e ficou muito mais simpático e amável com toda a gente.
Quase no final do ano lectivo, na hora do recreio, a auxiliar veio chamá-los para irem à sala.
Lá entraram eles, de mãos dadas, cansados e suados da brincadeira, na sal estava a professora e os pais do menino que vinham de propósito para agradecer à Rita o que ela fizera pelo filho.
A menina, muito vermelha, respondeu timidamente que não fizera nada de especial, que fora tudo obra do passarinho mágico!
Tanto os pais como a professora não perceberam nada até que viram um pedaço de papel saltar da carteira deles e sobrevoar as suas cabeças, voltando depois a poisar na carteira.
Rita e o menino, olharam-se de forma cúmplice e desataram a rir às gargalhadas. Os seus risos contagiaram logo os adultos e, naquele momento, as preocupações deles desapareceram para sempre.

Folhas Soltas



Em fúria


Nua de raivas,
Galgando rochedos verdes
Como o vómito dos deuses de aquém-mar.
Eu me solto
Me solto
Sem choros
Em voos planados de poentes a nascentes
Tanto faz
Tanto faz
Porque deixarei de ser limite de mim própria
Ad eterno…

Tenho vontade de me rasgar
Em pedaços incontáveis
Para que a tentação de me reunir seja absurda.

Não quero morrer em pé
Na fila de espera
No balcão da morte asséptica
Quero desfazer-me
E cheirar tão mal que nada possa nascer de mim.

A morte não é um ponto final.
É um bem único,
Um ângulo
Na linha recta
Correcta
Ascética.
É mais, muito mais,
Uma linha que se quebra
Nos escolhos
Do mar perpétuo.

O caminheiro


Não há estradas



Algures, os padrões de cor vão tornando as imagens visíveis. Primeiro são apenas poliedros translúcidos, depois arredondam-se desequilibrando as simetrias e, eis que chega o momento do Ser.
O cenário é agora um mar de areia e pedra. Não há colinas, apenas alguns picos aguçados que ferem o cobalto do céu. É difícil olhar directamente para ele, a luz solar é intensíssima e fere. Os únicos sons que se ouvem são; o estalido dos ossos que se esticam e o bocejo prolongado do homem que acorda.
É de manhã.
Chegou a hora de recomeçar.
O homem não tem idade, o corpo diz que é jovem mas a expressão serena desmente-o.
Com as mãos seguras pega no cantil e bebe a água. Por ora é o único alimento a que se permite. Enrola a esteira juntamente com a manta de lã, ata o rolo com uma corda fina rematando com duas laçadas sobrepostas.
Coloca o rolo nas costas, enfia a tiracolo o cantil e prende a pequena bolsa no cinto. Na cabeça, põe um lenço puído com nós nas pontas. Os pés estão calçados com uns ténis esfarrapados e tem na mão uma vara para ser um homem livre!
Dirige-se para Oeste. O sol já queima as suas costas. É um fardo mais... Da garganta, sai-lhe um rouquejar lânguido como um cântico de louvor. É a sua forma de saudar o dia.
As etapas do caminho são definidas pela resistência do corpo. Hoje a solidão vai ser sua companheira até ao lugar do repouso.
Não há estradas.
Apenas o traço imaginário do futuro.

Telmo, o marujo

A despedida

Antes de regressarmos de novo à Ilha dos Seguidores, Estela ofereceu-me um anel de ouro com um pequeno círculo de minúsculos diamantes brancos rodeando uma pedra negra. Explicou-me ela que o anel significava o círculo do Conhecimento, os diamantes os actos de Serviço e a pedra negra, a Fé no Infinito. Agradeci comovido. Nunca havia gostado de jóias mas aquele anel era acima de tudo um símbolo, um prémio e uma prova da minha estada no Arquipélago do Ocaso.
Depois de passarmos as Portas Sagradas esperavam-nos todos os Seguidores. Eu, não sabia… mas pressentia que todo eu resplandecia. Parecia que uma luz maior me tingira a alma e transbordava para fora do meu corpo. O meu rosto trazia uma expressão grave e plena de maturidade. Eu tornara-me num Homem!
Um a um, abraçaram-me felizes desejando-me sucesso na minha futura etapa de vida. Jerónimo foi o último e, em vez de se despedir, confidenciou-me que iria comigo para me acompanhar, proteger e guiar na nova aventura. Fiquei admirado porque este era o Seguidor com quem tinha tido menos contacto.
Era uma personagem um tanto estranha, muitíssimo alto e magro, parecia um junco balançando ao vento, do seu rosto também afilado sobressaía um nariz em forma de bico de águia, as sobrancelhas espessas juntavam-se em ásperos pêlos de cor branca acinzentada. A barba e o cabelo desciam até meio do peito e eram quase resplandecentes na sua alvura. Vestia uma túnica cor de noite que contrastava cor a claridade da sua figura.
Fiquei contente com a segurança oferecida por Jerónimo e, saí da Casa confiante.
Descemos a rampa que nos encaminhou ao cais, entramos num bote que nos levou a um navio maior. Quando me debrucei na amurada deixei que as imagens daquela que fora também a minha pátria se desfizessem na neblina rosada e, em breve, entrei num mundo de céu azul, águas ruidosas. Voltava a sentir o ciclo do dia e da noite.
Contei cinco até perceber o horizonte negro e verde que me esperava no entanto, estremeci com os gritos das gaivotas!










domingo, 10 de maio de 2009