sábado, 31 de janeiro de 2009

Amor em passos de dança

Eduuaro Viana
Morto o meu corpo em abandono
Fulgindo dançando a alma
Sobre o planeta da cor.

O mundo que foi meu dono
E me deu alegria e calma
Escondeu-me o amor.

E eu fiquei encolhida
Numa espera ansiada
Tiritando no frio nocturno.

E eu fui por ele preterida
Sem palavras, silenciada,
Com todo o meu medo soturno.

Não há mais nada para além de mim?
Que monstros precisam ainda vencer?
Aonde é o lugar do meu fim?
Em que espaço posso renascer?

Carlos Bracher
A manhã começou há pouco, ainda se vê a Lua!
A noite foi longa, cheia de sobressaltos, cheia...
E eu acordei definitivamente depois das seis
Com uma enorme saudade de ser tua!

Que foi que os dias passados foram fazendo?
Porque se ofuscaram as imagens que tinha guardado?
Ficaram apenas aquelas a preto e branco e... a cinzento
Há muito tempo que ficaram enevoadas!

Nunca entendeste bem o que me deste, não.
Não sabes ao certo o que em mim plantaste.
Hoje sou ama e senhora de outro coração
Hoje sou a dona da flor que semeaste.
António Carneiro
Procuro-te na multidão dos lamentos
Tu existes aí, algures por entre eles.
Oiço a tua voz embrulhada na confusão
Sou até capaz de ouvir algumas sílabas!
Chamo-te.
Chamo-te a todo o momento
Mas o som mistura-se com o vento!
Onde estás?
Aonde me leva a tua canção?
Amadeu de Sousa Cardoso
No calado silencio da tua ausência, desespero
Clamo por ti no deserto da minha demência
Choro-te no meu peito vazio...
Tranco a garganta de dor em suspiros
E arrefeço o meu corpo frio
Eu sou a imensidão...
Na hora que entre nós medeia
No devir infinito da solidão
Eu canto o meu canto de sereia.
Arrimo contra mim o cansaço
O acolhedor abraço da exaustão
E torno o dia em cada noite...
No calado silencio da tua ausência, em vão
Parto em busca da minha compaixão
E volto a ser a interrogação!


Telmo, o marujo

Mãe Irene (3ªparte)
- Mas porque fiquei eu tão perturbado com a revelação de Daniel?
- A tua perturbação vem de um reconhecimento longínquo da tua memória. Ela emergiu à superfície confirmando que algo nesta tua existência merece ser revista. Essa sensação de desamparo é o teu orgulho que se recusa a ser dominado, que julgava tudo dominar que acabou por reconhecer a sua fraqueza. É bom. Far-te-á procurar soluções de modo a desenvolver outras qualidades. É necessário ser-se humilde para crescer, Telmo.
Não me apercebo que isso seja orgulho mas, na verdade, incomoda-me pensar que aqueles a quem chamo família, só o sejam por um instante, segundo Daniel, apenas por esta existência!
- É verdade, Telmo. A verdadeira família não é aquela de quem descendes materialmente mas, aquela com quem te identificas espiritualmente. No entanto, se nasceste numa determinada família foi porque só te poderia dar aquilo que necessitavas, ou porque necessitavas de resgatar algum aspecto do teu passado.
Quanto à tua “verdadeira família” vais reconhecê-la quando os encontrares e sentires que eles fazem parte de ti e tu deles. Em qualquer podes encontrar num estranho, num estrangeiro, esse sentimento. Quando tiveres ultrapassado a busca e encontrado o teu caminho. Entre vós não haverá segredos nem desvios de pensamento pois, sereis capazes de escutar e falar o cada um tem para dizer sem qualquer esforço.
- Quem me dera, encontrar assim alguém!
-Guarda então essa esperança…
- Peço-te que não te ofendas, Irene. Mas gostava tanto que fosses minha mãe!
- E sou, meu querido Telmo! Sou a mãe de todos os que me procuram. O meu colo está sempre disponível para quem dele necessita!
- Às vezes, quando estou contigo, sinto-me tão pequenino!...
- Fico contente que te sintas assim. Só mostra que crescerás, que te tornarás Homem e que me recordarás com esse sorriso que agora mesmo desenhaste no teu rosto!
A emoção com que ouvi Irene fez-me aconchegar a ela num choro convulso como nunca me acontecera. De tanto chorar adormeci nos seus braços enquanto ouvia um sussurro: “ Dorme… dorme meu filho e que os teus sonhos sejam o prenúncio de uma nova forma de estar!”

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Amor em passos de dança

Tarsila do Amaral
Porque
Houve uma promessa que não esqueci
Porque
O amor é maior que todas as iras
Porque
Te conheci num tempo diferente


Amei-te

Sem que o soubesse ainda...

Porque
Os anjos não são crianças risonhas
Velando por nós sem que o saibamos
E nos mostram os rostos dos que abandonamos.
Porque
É necessário e urgente cumprir
A prova material do que há-de vir
Eu quero sentir, sim, sentir,



Braque
As imagens da minha fantasia perpetuam-se nos nervos grisalhos que reclamam estímulos de alegria.

A construção do irreal requer algum engenho e parceria.

Por isso volvo em busca do sótão das recordações.

Os meus sonhos perderam cor, só rebrilham de tanto os lustrar!

Cristalizaram-se as formas atrevidas, porque não temo já a sensatez.

Eu sou hoje caleidoscópio perdido.

Nascente de águas filtradas.
Picasso


O teu olhar escorrega nas paredes do meu corpo
Humedece-o de lágrimas doces,
Luzindo.
Depois...
Depois, vagueia até ao largo...
Endurece
Envelhece
Reprime o desejo que floresce!
Aperta-se em silêncios e estremece,
Perde a cor,
Empalidece!

Os teus lábios apertados cerram palavras
Enroladas na confusão
E tantos pensamentos
Que ficam incapazes de suspirar!
Sussurram
Murmuram
E sopram brisas de angústia
Enturbilhadas
Numa saudação.

Todo o teu rosto se mascara de insolência
Se veste de rugas
Enganando
Uma alma puída de desilusões.

Pinta-te meu amor com as tintas da vida
E faz de mim a tela virgem


Agora só restam as lembranças das emoções espalhadas por aí.

O mundo não acaba aqui!
Miró
A aurora dos olhares espraia-se no horizonte da eternidade.

Veste as cores do espectro, diluídas no céu imenso e envolve-nos.

Mergulha num mar ondulante de emoções e procura apenas a serenidade.

Rebrilha no rosto do anjo que nos observa, é a lágrima que o comove.

Na plenitude, os olhares, lançam-se sobre si sorrindo.

Ficamos nus de pureza, no abandono dos corpos deitados em inocência.

Manifestamos a ternura sem gestos, apenas com a luz que nos tomou.

Depois, na maturidade de uma geração inteira, os esplendores vão fugindo... até se encontrarem de novo nos peitos sábios e portadores da serena paciência.

No final dos tempos desaguaremos no Universo que nos criou.
André Neto
Diz
Diz que os teus olhos são estrelas
E que essa luz
Não é uma ilusão!


Diz
Diz que o seu doce cintilar
É o reflexo do espelho
Do meu olhar.


Diz
Diz que estou viva e pronta a amar
Bastando para isso
Um leve pestanejar.


Telmo, o marujo

5. Mãe Irene (2ª parte)
Irene convidou-me para ir com ela, torneámos alguns dos caminhos e abeirámo-nos de uns arbustos muito engraçados; da mesma planta, despontavam pequenas bagas cor de mel, vagens verdes riscadas de amarelo, e flores brancas muito parecidas com as flores das nossas abóboras. Seguindo o seu exemplo, comi as bagas que me pareceram ter um sabor agridoce e as vagens que sabiam a pão de milho. No fim de me ter saciado com estas iguarias, peguei numa das flores e chupei cada uma das suas pétalas que me refrescaram agradavelmente. Foi uma refeição divertida, pois uma das coisas que mais me interessava naquela idade, era descobrir sabores, cheiros, cores, sons e texturas. Sentia um apelo enorme em exercitar todos os meus sentidos!
Enquanto comíamos, conversávamos sobre as sensações que íamos tendo. Nunca tinha pensado quão interessante podia ser falar daquilo que experimentava. Irene era uma excelente mestra, sabia orientar e levar-me a descobrir conceitos como se fosse um jogo, um divertimento!
Depois, sentámo-nos na relva e muito mais à vontade, pousei a minha cabeça no seu colo. Era tão repousante que me senti quase um menino pequenino com direito a usufruir cuidados maternais. Estivemos calados durante muito tempo, nesse período pude pôr em ordem as minhas ideias.
Irene era uma mulher grande em tudo, o seu colo fazia lembrar um ninho forrado de ternura. Tinha a pele castanha macia, quente e perfumada. No rosto arredondado, os olhos negros cintilavam e falavam com uma linguagem que entrava ternamente no coração. A boca apresentava quase sempre um sorriso meigo.
Reparei que a via escolhida por ela, era a do Serviço porque trazia, tal como Helena e Daniel, um cristal pendurado na testa. O cristal de Irene assemelhava-se a uma lágrima de solidariedade por todos aqueles a quem protegia.
Pela primeira vez, sem ter que fazer qualquer esforço, deixei que a minha voz se soltasse de dentro para fora:
- Irene, porque que tem que ser assim? Porque é que os homens só aprendem com a dor?
- Com a dor? Oh, meu filho, a dor é apenas um dos meios de aprendizagem, ela tem apenas a intensidade que cada um pode suportar! Mas também se aprende com o trabalho, a beleza, a alegria e, sobretudo meu querido, com o amor!
Tudo tem que ser bem doseado para não haver desequilíbrios.
Se a dor fosse o único meio, os homens tornar-se-iam empedernidos, indiferentes. A dor só serve quando se está disposto a entendê-la. Os outros meios ajudam a compreender o lado forte, belo e sólido da vida. Com eles, constrói-se a doçura e a gratidão, principalmente a crença profunda nos objectivos a atingir.
Quando Daniel te falou na Lei, foi para que percebesses que existe uma justiça em tudo o que nos rodeia. Nada se colhe sem sementeira, mesmo num mundo tão agraciado como o nosso! É muito difícil de entenderes isto?
- Não, dito assim, não é. Mas… Irene, porque não temos nós consciência de todo o nosso passado? Porque nascemos esquecidos dele em cada vida? Deste modo caímos nos mesmos erros, não é?
- Isso acontece para que possamos começar de novo, como se acabássemos de acordar. Embora não os esqueçamos totalmente, dentro de nós existe a consciência do que devemos fazer para corrigir cada um dos nossos defeitos ou crimes de outras passagens pelo mundo material. No entanto, o passado é pouco importante se já formos capazes de decidir o futuro, de transpor os obstáculos, um a um, com a certeza do que fazemos. Não convém negar os erros anteriores porque eles fizeram parte da aprendizagem. Imagina que te recordavas de tudo. O mais natural era que tentasses esconder os teus aspectos negativos por vergonha, ficarias tão preocupado com eles que deixarias de investir nas tuas qualidades ou agirias apenas em função deles.
Tal como os pais esquecem as diabruras dos filhos, dando-lhes constantemente a possibilidade de se regenerarem, Aquele que nos criou também assim faz!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Mais palavras...

Matisse
Peguei em altas montanhas
Sobre o mar das minhas lágrimas
E vi sob mim
A larvar essência
De uma vida,
Escondida nas pétalas de uma flor.
Henri Maguin
Sinto o peso do nada
Vazio no meu peito,
Enquanto os pés calcam
A almofada do meu jeito.

Sinto o labirinto de sons
E as imagens a branco e negro,
Ecoando em semitons
Aquilo que eu mesma nego.

Aqui sou sem tudo e sem nada,
A luz que ilumina o cego
Na tortuosa estrada.

Aqui governa o meu medo,
E sinto-me surda, cega, calada
No meu próprio enredo.

Palavras

Tarsila do Amaral
O Sol é de todas as cores
Mesmo daquelas que ninguém vê.

O Sol tem todos os valores
Mesmo para quem não crê.

O Sol
Trago eu no peito
Quando o riso se desprende
No riso
Que ilumina e surpreende.

O Sol
Trago eu no olhar
Quando a paixão se solta
E quando ela voando
Volta e não volta.

O Sol
Trago eu no ventre inchado
Quando grávida me sinto.
Quando há algo esperado
No amor que pressinto.

O Sol
Trago eu nas mãos
Quando dou
Quando recebo
Dos que são meus irmãos.

O Sol
É de todas as cores
Ao erguer de cada manhã
Ao erguer de cada dia.
Raoul Dufy
Foste campo, foste sol,
Terra semeada de trigo,
Subterrânea água do lençol
Nascida no solo amigo.

Foste oceano, foste mar,
De ondas ao sabor da maré,
Cardume que ao passar
Alimentou a minha fé.

Agora não és mais do que eu.
Estás fundido no meu corpo cansado.
O amor, esse morreu,
Ficou apenas o seu recado.

O campo e a água secaram
O cardume desapareceu,
E até o sol se esqueceu e as ondas sossegaram.

Telmo, o marujo

5.Mãe Irene (1ª parte)

Durante alguns dias andei estranho. Ora me angustiava, ora ficava inexplicavelmente alegre. Nenhum dos Seguidores se mostrou admirado com esse comportamento. Continuavam a tratar-me com delicadeza e simpatia.
Eu entretanto ia-me habituando àquele lugar e ao modo como ali se vivia.
De vez em quando pensava nas palavras de Daniel e, sempre que o fazia, mais perguntas nasciam no meu pensamento. Ninguém me respondia a elas já que no meu íntimo, eu as fazia para mim mesmo. Não em direcção a eles, portanto nenhum me respondia. Às vezes parecia que se me abriam fendas profundíssimas na mente, como se tudo o que eu considerara definitivo, se esfumasse. Havia como bolsas de vazio…espaços em branco para cobrir… nesses momentos, sentia-me só, realmente só! Meio perdido num mundo desconhecido!
No entanto, em certas alturas, parecia-me que alguns dos rostos que me rodeavam eram-me conhecidos, embora não me lembrasse de onde, nem de quando os conhecera. Por isso sentia aqueles sentimentos que tanto me levavam à tristeza como à alegria. Os pensamentos escorregavam de tal forma que pareciam feitos de água sobre a minha cabeça.
Segui o conselho de Daniel, procurava o jardim para estar a sós e pensar, ou melhor, para tentar agarrar cada um desses pensamentos e tentar compreendê-los.
Um dia, estava eu debaixo de um carvalho sem idade, meditando sobre a relação da minha vida com o que se estava a passar, quando me cansei de disciplinar os meus pensamentos e adormeci.
O meu sono foi agitado, cheio de sonhos confusos. Vi-me vestido de corpos diversos, representando papeis diversos. Ora me via como escravo, ora como senhor de terras, ora como frade, ora ainda, como uma mulher. Uma mulher desesperada, atada a um poste sobre uma pilha de lenha que ardia. O sonho era tão real que me ardiam os olhos e sufocava com o fumo, que sentia a queimadura das chamas e a dor intensa que elas me provocavam. Comecei então a gritar: - Estou inocente! Estou inocente!
- Schiu, calma pequenino!... – Sussurrou uma voz meiga junto ao meu ouvido.
Acordei então sacudido por um choro convulso e fui abraçado pelos braços macios da Seguidora Irene.
- Que sonho horrível, Irene!
- Que se passou? Em que estavas a pensar antes de teres adormecido? Tem calma, meu filho, está tudo bem!
- Acho que estava a pensar na conversa que tive com Daniel, um dia destes… há coisas que são difíceis para mim entendê-las e, vim para aqui pensar nelas! Foi ele quem me aconselhou a procurar o jardim para reflectir nas suas ideias!
-Hum, hum! Mas afinal o que é que te perturbou tanto? Lembras-te qual era a questão em que estavas a pensar antes de adormecer?
- Acho que foi… essa coisa de se ter muitas vidas numa só vida, dos familiares só durarem algum tempo, de ter que subir sozinho as escadas do progresso…
- O Seguidor falou-te da Lei, não foi?
- Foi.
- E isso, atormenta-te, assim tanto?
- Oh, Irene, é que eu de repente fiquei sem saber quem sou! Não percebo porque errei nas outras vidas e, que erros cometi…não sei a quem devo nesta vida!
- Serena, meu menino, eu te explicarei o melhor que puder de modo a compreenderes, está bem?
- Está - Respondi eu quase a chorar outra vez.
- Então agora, antes de tudo, vais comer e beber alguma coisa para te refazeres. Vem comigo que eu te ensino a colher um verdadeiro manjar.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Palavras

Milton Dacosta
Ai a areia dos teus cabelos
Na praia do meu peito
Espalhada!
Doira e enfeita e cativa
Os servos dos meus olhos
Enfeitiçados.
Rugem leves, em sossego,
As palmas do meu sorriso
No teu espelhado.
Ai como bailam as dunas
Dos teus cabelos
No meu sossego
Acordado!
Gauguin
Estou tão distante
Estou tão perto
Como vento que passa e
Não se vê.
É tão constante
É tão concreto
Este amor que me enlaça e
Ninguém vê.
Estou aqui
Estou lá
Sou o Sol e não me alcanço.
Tarsília do Amaral
Rodeia o meu corpo com o teu,
Assim...como no verbo primordial!
Para que eu sinta de novo viver.

Que esse enlaçar supremo
Faça que o sussurro se solte,
E que eu sinta de novo crescer
O grito, que dentro de mim, está por dizer.

E,
No lapso de tempo tomado,
Que o ar fique acordado.
Que eu creia,
Que ao me teres apertado,
Tenha o amor despertado!
Oswaldo Goedi
No meu encontro de passos
Vejo a sombra estendida
No cinzento da parede
Que a luz da noite ilumina.

No meu encontro de passos
Arrasto em desarmonia
Os meus pés já gastos
E esquecidos da alegria.

Vejo a sombra estendida,
Porque de outro modo não podia,
Porque cansada morria
Aos passos da melancolia.

No cinzento da parede
Que fora branca um dia,
Caiada ao pôr – do - sol,
Manchada no outro dia.

A luz da noite ilumina
Numa voltagem anémica,
Queimando solene, os restos,
Daquilo que foi um dia!
Cezanne
Vem depressa, vem depressa,
Que eu morro por esperar.

Aqui, neste cais ventoso
De Inverno, envergonhado.

Vem depressa, vem depressa,
Que o meu corpo se cansa,
Já não consegue avançar,
Já não consegue esperar.

Vem depressa, vem depressa,
Para que não acorde de vez
Deste sonho que, por acabar,
Ficou neste inglório chamar.
Sebastião Rodrigues
Tenho medo de sentir medo,
De ficar com o gemido na voz.
E, de acordar manhã cedo,
Com a sensação de estar a sós.

Tenho medo de sentir tremer
O meu corpo convulsivo
E, de continuar a tremer,
Num anúncio evasivo.
Derain
Eu conto:
Era uma vez uma história
Que ficou por dizer
Presa na garganta
Que a não pode contar.

Era vermelha a nuvem
Que se abria
Azul a estrada
Por onde se estendia
E a flor generosa
O seu perfume oferecia.

O que ficou calado
Cá dentro do peito
Foi como uma semente
Germinando contente...

Telmo, o marujo

A justiça de Daniel (2ªparte)

- O que pensas verdadeiramente daqueles que fazem parte da tua família actual?
- Bem…não tenho grande impressão dela… às vezes até parece que não faço parte dela!
- Sim, mas sinceramente, analisa cada um deles.
- O meu pai é muito trabalhador, esquece facilmente as necessidades dos outros, só pensa em acumular riqueza, é um bocado mesquinho e, não tem nunca um gesto de generosidade. Nunca faz nada pelos outros se não obtiver algum ganho com isso.
- O teu pai ainda está num degrau muito abaixo do seu desenvolvimento, não o culpes, ele não aprendeu ainda a importância de outros valores.
- A minha mãe criou-nos, tratou de nós como soube, mas está sempre a reclamar da vida que tem. Julgo que gostaria que nós fossemos famosos, importantes, assim reconheriam o seu trabalho e a sua contribuição na nossa educação. Dedica-se muito a João por causa da sua doença.
- Ela não é muito diferente do teu pai. Espera que tu regresses rico, admira Gil e Henrique porque os sabe ambiciosos, despreza Bernardo por ser humilde e reservado e, espera, mesmo que secretamente, que João morra e a liberte desse fardo.
- Gostava que assim, não fosse, mas acho que estás certo em muitas coisas, tenho pensado nisso algumas vezes, mas achava que estava a ser um pouco duro com os meus pais!
- Mesmo que lhes reconheças os defeitos, não quer dizer que não tenhas uma grande dívida para com eles, afinal o teu projecto de vida nunca seria posto em prática se não nascesses deles. Se calhar se fosses um filho muito amado, não terias ansiado procurar outro caminho! E, os teus irmãos, que pensas deles?
- Bernardo e João são os meus favoritos. Bernardo é forte e manso, obediente e cumpridor. Não tem grandes ambições. Às vezes parece-me um bocado triste mas nunca lhe ouvi uma palavra desagradável. É o braço direito do meu pai, mas ele não reconhece e prefere os meus irmãos, Gil e Henrique. João foi sempre doente, é o que está mais próximo da minha idade mas nunca brinquei com ele. Tem o olhar parado, quase não sai de casa, tem medo de tudo. Mas olha-me nos olhos com ternura, às vezes até parece que me quer dizer qualquer coisa, mas eu não o percebo. Gosto muito dele sem saber porquê, sinto as suas dores no meu peito e não posso fazer nada por ele!
- Quanto a João já te expliquei que a sua doença é uma espécie de cura na sua vida, não tens que ter pena dele, só tens que o amar, mais nada. Bernardo, talvez não seja o mais esperto da família, vê o que vê, e mais nada. É muito terra a terra, como costumam dizer as pessoas no teu mundo, mas é um homem muito generoso, honesto e tranquilo. Talvez numa próxima vida ele vos ultrapasse. E, os outros, já manifestaste a tua pouca simpatia para com eles. Porque razão sentes isso?
- Bom… eles não são exactamente iguais, no entanto, dão-se bem. Não sei explicar bem porque sinto isso em relação a eles, mas Gil, tem uma linguagem feia, tudo nele é malícia, não respeita ninguém, sobretudo as mulheres. Henrique é violento, está sempre pronto para uma boa rixa, parece que já nasceu zangado. E não é só bater, ele sente prazer em magoar. Sofri bastante com ele quando era criança, e João também é muitas vezes uma vítima nas suas mãos. Até com a minha mãe é bruto.
Sabes, Hugo, apesar de reconhecer que a minha família não é aquilo que eu desejava, custa-me falar dela assim, é a única família que tenho!
- É bom que tenhas esses sentimentos. Mas enganas-te numa coisa, não é a única família, é a tua família actual, esta é mais uma que tiveste.
- Como assim?
- Já tiveste outras famílias em vidas passadas, a todas deste um pouco de ti, criaste com elas laços de amor, hoje porém, a tua família é a humanidade inteira, tens que aprender que não devemos amar só o que é nosso, mas o que é de todos.
- Ai! Hugo, receio que não entenda tudo o que me estás a dizer? Sinto uma confusão enorme na minha cabeça!
- Eu sei, pequeno, mas a nossa conversa entrou em ti como semente, e ela, germinará dentro de ti. No dia em que desabroche, terás o conhecimento inteiro sobre ela.
-Só mais um esclarecimento: quando falas em vidas, fico curioso, afinal quantas vidas temos nós?
- Uma só, revestida de infinitas formas. Não há limites, e o seu número não é mensurável.
- Não?
- Não. O mais importante é o que vives em cada uma delas, o que aprendes com elas, como te transformas e aperfeiçoas ao longo da tua única vida!
- Pensei que ia ficar esclarecido! Mas acho que fiquei ainda com mais dúvidas!
- Óptimo! São as dúvidas que nos fazem procurar respostas. E por isso aprender! Estás cansado, não estás?
- Estou, mas não te zangues comigo!
- Claro que não, compreendo. Está na altura de repousares, talvez no jardim encontres um lugar aprazível que te ajude a sossegar o espírito e a organizar as ideias.
Daniel despediu-se de mim e eu desci até ao jardim como ele me recomendara, durante o percurso ia pensando como era interessante haver uma justiça que não era exercida pela força, mas feita através da razão e dos sentimentos, que em vez de castigar, reabilitava os homens sem os derrubar nem os atirar para um inferno em chamas. Acho que nesse dia fiquei um pouco mais sábio, afinal, não era o tempo que me fazia crescer, era apenas uma forma nova de ver as coisas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Telmo, o marujo

4. A justiça de Daniel (1ª parte)

Ninguém me impedia de vaguear pelo interior da Casa, por isso eu percorria todos os corredores na esperança de encontrar alguém com quem conversar. A maioria das vezes encontrava encerradas as portas e imaginava mistérios atrás delas.
Naquele dia no andar de cima, descobri uma que se situava numa espécie de plataforma, para lá chegar bastava-me subir por uma escada em caracol construída toda em tubos de bronze amarelo. Foi o que fiz. À minha chegada, a porta deslizou em silêncio e eu esgueirei-me cautelosamente para dentro do aposento. Fiquei de boca aberta!
A sala era oval e o tecto abobadado, nele abria-se uma fenda que permitia a saída de um braço de um telescópio monstruoso que ocupava grande parte da sala e que girava por si só, muito lentamente, num arco de circunferência aproximadamente de duzentos e quarenta graus. As paredes da sala estavam repletas de painéis côncavos em que inúmeros pontos de luz de várias cores piscavam. Havia ainda uma quantidade razoável de mesas com bancos acoplados cujos tampos eram concebidos num material idêntico ao vidro mas muito mais espesso e brilhante.
Depois do primeiro impacto, sentei-me a uma das mesas e pousei a minha mão direita sobre ela. Imediatamente, começaram a formar-se no tampo imagens vivas reflectindo os meus pensamentos da altura. Arrisquei então pensar na minha própria cidade, e logo se esboçaram os contornos dela, o cais amuralhado, as calçadas, o largo da feira... entusiasmado, dirigi então o meu pensamento para casa do meu pai.
Lá estava o toldo vermelho assinalando-a. Vi o meu pai mais velho e desgastado a atender um estrangeiro que lhe mostrava uns tecidos finíssimos e ele, com o seu habitual ar desdenhador a subvalorizar a mercadoria para ver se conseguia baixar ao mínimo o seu preço. Bernardo mostrava-se interessado e tentava convencer o pai que valia a pena o investimento, mas ele não lhe ligava nenhuma. Depois penetrei no armazém onde encontrei os outros meus irmãos, Gil e Henrique que estavam a enrolar peças de lã. Pareciam divertidos, pois de vez em quando, soltavam risadas e piscavam os olhos maliciosamente um para o outro.
Como não vi João, o meu irmão mais querido, resolvi entrar na cozinha. A minha mãe e a comadre Zinda vestiam-se ambas de luto, mas não percebi porquê. Encontrei o João deitado numa enxerga perto do lume, transpirava abundantemente e agitava-se com alguma violência. Nunca soube porque João passava a vida doente. Bastou-me ter posto esta questão para que reparasse numa figura horrível perto dele. Era escura e retorcida, estava agarrada às suas costas e parecia sugar-lhe um filtro esbranquiçado. – Sai daí! – Gritei eu, a criatura olhou-me maldosamente nos meus olhos e acabou por se assustar, largando o meu irmão e desvanecendo-se numa espécie de fumo acinzentado.
João suspirou e acalmou-se, pediu a minha mãe um pouco de água que ela serviu de imediato, surpreendida com as melhoras repentinas dele.
Fiquei atordoado com tudo aquilo, o que me parecera de início um jogo era a própria realidade! Como era então possível interpenetrar o meu mundo e exercer influência nele, apenas com o meu pensamento e a minha vontade?
Senti uma mão pousar suavemente sobre o meu ombro, virei-me e encontrei o rosto de Daniel.
- Tudo o que vês aqui é inteiramente real mas não é vantajoso interferir levianamente com essa realidade. Vem comigo para eu te explicar melhor.
Daniel era o mais baixo e atarracado de todos os Seguidores, tinha uma cabeça pequenina colada a uns ombros demasiado largos, quase nem se distinguia o pescoço! O tom da sua pele era de um moreno azeitonado, porém os traços da sua cara eram correctíssimos e os seus olhos transmitiam uma serenidade sem igual. A sua voz entrava directamente no meu cérebro, devagar, como para ter a certeza que eu o entendia. Passámos por uma porta mais pequena que dava para uma outra sala onde funcionava a biblioteca e onde milhares de livros se perfilavam nas estantes coladas à parede, alguns Seguidores liam compenetrados e Daniel fez-me um sinal para que eu me mantivesse em silêncio e indicou-me uma escada interior. Descemos os degraus e penetramos numa espécie de gabinete onde também havia prateleiras cheias de caixas numeradas.
- Lá em cima estão milénios de cultura terrena e não terrena, escritos em todas as línguas de todos os mundos conhecidos, aqui estão os registos do seu estudo. Sabes, o pensamento da humanidade não tem variado muito ao longo dos tempos, mas a forma como o têm posto em prática varia conforme os tempos e os lugares. Às vezes, esses pensamentos revestem-se de alegorias tão fantásticas que acabam por perder o seu verdadeiro significado, outras, são tão claros, que surpreende os homens e os torna incrédulos em relação a eles.
Perguntar-me-ás porque estudamos nós, o passado dos mundos? E eu respondo-te desde já que é no passado que encontramos muitas vezes as respostas do futuro.
Todos os seres evoluem ciclicamente até atingirem a maturidade num lugar e passar à infância noutro. Assim, cada nova multidão tenderá a cometer os mesmos erros, só que os vão sanando de forma diferente, dependendo da sua evolução e sensibilidade. É interessante verificar como cada geração os resolve! Todos os Seres ambicionam progredir nos seus conhecimentos, quer na sua aplicação, quer nos recursos que utilizam. Isso não tem grande importância se no final atingirem o objectivo pretendido. No Universo existem várias leis; mas a Lei da Casualidade que diz que uma acção por si só não tem razão de existir se dela não derivar um efeito, repercutindo-se sucessivamente, é a mais compreensível e aceite por todos. Tudo é consequente, nada fica em suspenso. É por isso que nós, vós e todos os outros habitantes do vasto universo habitável, necessitamos de aprender a conhecer a Lei. Só com a consciência plena dela se pode agir utilizando o livre arbítrio que nos foi dado, responsabilizando-nos portanto por todas as nossas acções e pensamentos.
Os habitantes do nosso Arquipélago vieram de mundos muito diferentes entre si, só a sua essência divina os aparenta bem como o seu nível de evolução. No entanto, por uma questão de adaptabilidade revestiram-se das formas corporais que tu lhes reconheces. Têm em comum a conduta, os valores, e o desejo de progredir num mesmo sentido. Nós mesmos, os Seguidores, estamos sujeitos às mesmas necessidades e desejos. A nossa atitude prioritária é evoluir e dar àqueles que ainda não atingiram o mesmo grau de evolução a oportunidade e os meios de o conseguirem. Entendes?
-...Mais ou menos, Daniel! Não percebo muito bem como é que seres desiguais, procuram em caminhos diferentes os mesmos fins! Repara, tenho pouco mais de uma dúzia de anos, não sou estudado, e a primeira vez que saí de casa foi para dentro de um navio que navegou mais de um ano só parando o tempo suficiente para carregar e descarregar mercadorias, o que nem deu tempo sequer de conhecer os cais aonde aportávamos. Que conheço eu da vida!?
- Conheces sim, Telmo, tu tens muito mais idade do que julgas ter, um dia irás recordar-te disso...se for necessário para tua aprendizagem, claro. Sempre exististe, o teu lugar estava ocupado por ti antes de o saberes, muito antes de nasceres daquela a quem chamas mãe.
- Credo, Daniel! Como pode isso ser?
- Tu, como todos, és espírito, essência, verbo... no teu mundo costuma dar-se o nome de espírito a tudo o que não tem uma consistência sólida, porém, há muitas formas da matéria que desconheceis e que existem distintas em todo o Universo. O verdadeiro espírito ainda fica muito além da vossa compreensão porque é demasiado subtil, etéreo!... Mas continuemos; o que pensas do tu do facto de nos preocuparmos com a harmonia e o desenvolvimento dos que habitam nos mundos próximos?
- Não sei! Talvez sejais como os anjos, e essa é a vontade de Deus!
- Não, não somos como os anjos, esses, são seres perfeitíssimos
que vivem na esfera divina. Nós, mesmo que mais avançados do que vós em alguns aspectos, estamos muito atrasados para os nossos próprios padrões e, sobretudo para aqueles que já nos ultrapassaram! É certo que já passamos a vossa fase evolutiva há algum tempo, mas estamos apenas um pouco à frente. Se a nossa missão é fazer-vos crescer é porque crescemos também com esse esforço, é como uma retribuição!
- Então qualquer um de nós pode chegar ao topo? Nesse caso,
para que serve o céu ou o inferno? Quem nos faz o julgamento depois da morte? Que papel desempenha Deus nesta história?
- O céu e o inferno não são lugares específicos, são apenas
Imagens, estados de alma que se apresentam aos seres menos evoluídos que não conseguem perceber de outra maneira os seus erros. Como em tudo, os que são semelhantes tendem a reunirem-se, logo, cada qual encontra após a sua morte física aquilo que acredita encontrar, bem como os que actuaram e pensaram de forma idêntica. A prestação de contas é feita por nós mesmo se tivermos capacidade para tal, pois possuímos uma consciência mais clara depois de nos libertarmos do nosso invólucro. Só os mais atrasados, renitentes e orgulhos precisam da intervenção de alguém mais aperfeiçoado para lhes mostrar o caminho certo, isso os impulsionará a corrigir e a arrependerem-se dos actos cometidos de forma a comprometerem-se com o caminho do bem. Deus é o Infinito, o Absoluto que nos criou, e todos nós, se quisermos, podemos em todas as nossas vidas encontrá-Lo.
- E então, o que são os anjos afinal?
- Os anjos jamais se apartam da presença do Divino. Nunca utilizaram corpos materiais para crescer. Eles são como luzeiros que velam os nossos passos no labirinto da nossa procura.
- Nesse caso tudo está previsto! Não vale a pena fugir ao sofrimento, nem alterar o nosso caminho!
- O sofrimento ajuda-nos a crescer, ele permite que aprendamos a desviarmo-nos de alguns comportamentos, torna-nos mais humildes e dispostos a perceber a transitoriedade das coisas. Mas cada um é livre de viver esse sofrimento com mais ou menos compreensão. Podemos subir ou descansar na escada que nos leva aos patamares da nossa vida. Logo, és tu mesmo que constróis esses degraus.
- Mas… e os males que nos atingem fora da nossa vontade? Eu vi que João, o meu irmão, era vítima de uma criatura horrenda que lhe sugava as forças e, não creio, que ele aprenda com isso! Apesar de tudo, sinto uma imensa compaixão por ele e gostaria de o libertar dessa criatura que o mantém refém e o debilita!
- O teu irmão aceitou esse sofrimento para redenção de um passado anterior cheio de vícios, é como se lavasse toda a sua vida nesta existência. Tu e o João vieram com a mesma vontade de mudar. Ele através do sofrimento e da dor e, tu, com o conhecimento que aqui adquirás e com as tuas acções futuras. Ambos fazeis para do mesmo plano. Plano esse que traçastes há muito.
- Perdoa-me, Daniel, mas tudo o que dizes é muito confuso para mim!
- Acredito que neste momento te perturbes, mas tenho a certeza que o entenderás em breve quando meditares no que falámos.
Responde-me agora tu a umas perguntas:
Rubens Gerchman
Alguns vêem estrelas nos olhos
E caminham ao som do vento.

Outros, na rota do deserto
Bradam e arrastam-se no lamento.

Alguns têm o olhar brilhante,
Iluminam a estrada,
Desfraldam a bandeira berrante
Sempre que vencem, em cada passo, o nada.
De harmonia com o tempo,
Trazem em gloriosas taças
O sémen do advento,
O elogio da sua raça.

Outros, no seu deserto
Cegam-se pela poeira.
Nunca chegam a estar perto,
Caem e levantam-se a vida inteira.
São os derrotados, os enlutados,
Estéreis, escondem-se temerosos.
Passam sem serem notados.
Não são belos...nem horrorosos.

E nós?

Olhamos
E ficamos mudos de olhar e de voz!
Matisse
As pedras do caminho
Negras
Gastas
Pelos domingos

No passo passo
Do caminho sem rota
Misturando a cor
Dos perfumes d’ocasião,
Mostrando as barbas rapadas
E as pernas depiladas,
E, os relógios
Que esquecem as horas.

Passa o domingo
Negro
Gasto
À porta da rua
Onde as palavras são inaudíveis.
Picasso
No encontro das tuas mãos
Procurando desejo,
Há uma página em branco
De um livro em segunda edição.

Há já o tempo passou!
O tempo de poder passar...

Agora as minhas mãos
Seguram o presente
Que não se deixa prender
Nem, simplesmente, se mostrar.
Os dias têm estados chuvosos e frios, é tempo disso! Mas eu sinto-me enjaulada!
Gosto de sair de casa, manhã bem cedo, cruzar-me com os noctívagos que saem dos bares e discotecas que arrastam com eles a ressaca de uma noite de esvaziamento. Sou-lhes tão estranha como eles a mim, mas gosto de olhar e ouvi-los no seu entaramelar de vozes.
Mesmo não vendo qualquer sentido no seu modo de vida, sou incapaz de os criticar. Cada um é o que é, cada um vive do modo que entende. Eu prefiro o meu mas sei que muitos também se admiram disso.
O melhor da manhã é o começo do ruído, num crescendo, depois, passadas algumas horas já não o distinguimos.
Também gosto de ver aqueles que têm que partir para os seus afazeres, lavados, perfumados, com o sono atrás das costas mas caminhando para o dia. Também já fui assim! E ficou-me o jeito.
Daqui a pouco, vou para a rua beber o café e os rostos!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Elza O.S.
Não sei o que me faz seguir em frente, olhar as margens do caminho, parar por momentos nas fontes de água fria, aquecer-me ao sol, reparar no luar.
Só sei que os meus passos me levam do destino, e que o mundo todo é meu ainda!

Telmo, o marujo

3.Explorando a Ilha dos Seguidores

Helena deixou-me só e eu pude explorar o resto da ilha por minha conta.
Andei um bocado à deriva, a falta da referência solar criava-me dificuldades, resolvi então orientar-me pela cúpula do edifício principal que se destacava de tudo o resto. Desci uma rampa que me levou a um portão velho com inscrições enigmáticas, quase escondidas pela enorme vegetação que crescia agarrada a si, ao tactear os relevos, as portadas abriram-se devagar e sem ranger, revelando então um caminho serpenteante que desaguava na estrada marginal. Há tanto tempo que eu não via o mar! Corri, e embora ele tivesse aquela estranha cor violeta, continuava a cheirar como o mar da minha cidade. Inspirei, eufórico a maresia e encantei-me com o vai e vem das ondas chegando cadenciadas à areia rosada e beijando as rochas carinhosamente. Ele convidava-me a entrar nele, mas apesar de tudo senti algum receio em o fazer. Só pretendia ver o mar, matar as saudades que sentia... ao largo, avistei as ilhas de que Helena me falara e verifiquei o quanto era intenso o trânsito entre elas.
Seguidamente, deambulei pela calçada ao longo do mar e reparei nos pequenos aglomerados de casas, eram manchas brancas, azuis, rosas, amarelas, interligadas por ruas estreitas entretecidas como redes. O silêncio confundia-me, somente os animais tinham o direito de se manifestarem com ruído.
Acabei sem me aperceber por entrar numa grande praça. Estaquei de espanto ao deparar com três estátuas descomunais perfiladas num semicírculo. Provavelmente representavam Seguidores importantes ou outras personagens do Passado. Apesar de diferentes entre si, os rostos eram neutros, quase sem expressão. Só o seu tamanho gigantesco me perturbou. À frente delas erguia-se uma espécie de altar construído numa pedra verde e faiscante. Era também proporcional ao tamanho das estátuas o que me fez pensar na dificuldade que teriam os homens em o utilizar. Claro que o mistério desvaneceu-se logo, quando ao rodeá-lo encontrei na parte anterior uma escada móvel feita de madeira vulgar. Não me atrevi a experimentá-la, limitei-me a conjecturar sobre que tipo de cerimónias seriam ali realizadas, senti-me nervoso, tenso, como se estivesse a profanar um lugar sagrado! Afastei-me rapidamente e procurei outro caminho.
Havia um mais abaixo, lajeado de pedras mais escuras e que se internava num parque onde cresciam plantas desconhecidas e árvores exuberantes muito estranhas pois as suas copas enormes eram de cor dourada e paralelas ao solo. Preferi optar por uma ladeira que se abria ao meu lado esquerdo. Estava a ficar cansado de tanto andar! Acabei por atravessar uma ponte e ir dar a um mercado que se assemelhava aos mercados de qualquer mundo, à excepção de que ninguém falava alto. Toda a gente andava de um lado para o outro observando e escolhendo a mercadoria desejada. Caminhei anónimo e só depois me lembrei que aquela gente não falava como eu. Acabei por me divertir com essa situação. Não sabia que tipo de moeda, utilizavam, pois não vi em nenhuma situação, ninguém pagar pelo que levava. Sentei-me num pequeno banco de pedra e um dos tendeiros ao ver-me, ofereceu-me uma bela maçã sorrindo simpaticamente. Titubeei um agradecimento e expliquei-lhe que não tinha dinheiro. O homem assustou-se ao ouvir a minha voz, recuou um bocado e olhou-me com atenção, depois parecendo entender quem eu era, foi a correr buscar também um cacho de uvas purpúreas e insistiu que as aceitasse. Despediu-se de mim fazendo uma festa na minha cabeça com muita ternura. Eu também me despedi acenando-lhe com uma mão enquanto com a outra segurava a generosa oferta.
Já reconfortado voltei à estrada principal até à baía em que havia aportado no primeiro dia. Emocionei-me ao olhar para cima e ao reconhecer a Casa dos Grandes Seguidores.
Agora, aquela era também a minha casa!

Palavras

Adelson do Prado
Os pássaros da ribeira
Que moram no pinheiro
Plantado à minha beira,
Cantam o dia inteiro.

E eu subo ao outeiro
Batendo as asas à minha maneira
Fingindo o voo maneiro
Dos pássaros da minha beira.
Orlando Teruz
Basta-me o tempo...
Que o vento é meu amigo
E o sol carinho me tem.

Basta-me o tempo...
Porque o luar nasceu mais tarde
E a manhã, ficou por abortar.

E, nesta passagem onde me envolvo
Volto feto em útero materno.
Sou filha e sou mãe.
E agora quero apenas,
Descansar na posição de pino
Com as pernas a balançar.
Matisse
Por de trás das cortinas azuis
Que o sol aos poucos empalideceu,
Vejo os campos esverdecidos
De mil tons subtis
Rentes ao espantado céu
Por mil pássaros endoidecidos.

É dessa janela fechada
Que o vento leve incomoda,
Que sinto o vidro estremecido
Como o meu coração perdido,
No peito da minha fachada.

Junto das cortinas azuis da janela
O meu corpo está parado
E o meu pensamento, por ela,
Passa, como furacão, em rajada.
Carlos Leão
Guardo os meus sonhos só para mim
Porque é nos sonhos que eu vivo
E neles, me aqueço e me alento.

Embora recorde nos meus lábios
O gosto dos teus beijos apressados,
Não quero, contudo, esquecer
O tempo, em que os davas, demorados.

O tempo que passou, já não tem tempo.
Ficou ancorado lá fora...
No espaço aquático das lágrimas
Ou na geometria do pensamento!

Agora só me resta sonhar,
Porque há mais coisas por dizer,
Palavras para me acordar.
Adélio Sarro
Às vezes!
Às vezes sinto-me pérola esquecida
Na concha da ostra levada pelo mar
Até à praia de grãos de areia.

Às vezes sinto-me erva humilde
Arrastada pelo chão, maltratada,
Esvoaçando no beato esquecimento.

Às vezes sinto-me mulher-mulher,
Passando rápida, despercebida,
Pela multidão em apatia.

Às vezes!

Às vezes o mundo é pequeno para mim
Ou, eu sou grande demais para ele.
Sem orgulho, sem modéstia,
Eu sinto que estou vivendo
E que vivendo me recorda
O que se pode viver às vezes!

Ai Obama a quanto obrigas!

A eleição de Baraca Obama começa a ser omnipresente e ameaça monopolizar todos os temas noticiosos. Sei perfeitamente, quer eu goste ou não, que os EUA são a potência maior do mundo actual, o modelo político e económico mas, o espectáculo a que temos assistido parece tê-los tornado no país suserano do mundo ocidental. A reportagem da eleição do novo presidente faz lembrar a entronização de um imperador, será que não há mais vida para além do que se passa do outro lado do Atlântico!
É interessante que nós, os portugueses, queixamo-nos do nosso Sebastianismo, mas a verdade é que o mundo sofre do mesmo mal. A humanidade está sempre à espera de um Salvador, um Moisés, que nos leve ao lugar onde escorre o mel e o leite. Todos procuramos o Paraíso Perdido, temos dificuldade em pegar pelos cornos o nosso destino.
Bem sei que o papel dos EUA foram determinantes no xadrez geopolítico após a Segunda Guerra do século XX, mas o preço que temos pago, tem sido tremendo, a nossa dependência, tem feito perder muito da nossa cultura e valores. A velha Europa, pode estar anquilosada, mas é dentro de nós que temos que procurar a renovação. Hoje a cultura europeia, faz lembrar uma velha vestida de adolescente.
Não sou conservadora nem europeísta convicta, nem podia sê-lo! Os povos ibéricos são diferentes, principalmente Portugal, porque nos corre no sangue outras fontes culturais, desde a Ásia, a América, para já não falar da nossa vizinha África. Não tivemos os conflitos que fizeram nascer os nacionalismos europeus, e embora sejamos pequenos e periféricos, construímos um país tranquilo e homogéneo.
Está na altura de reflectir naquilo que somos e procurarmos em nós mesmos uma nova forma de estar e de agir, fazendo valer a nossa solidariedade, diplomacia e tolerância aprendida com os nossos avós e ao mesmo tempo, experimentar um pouco de iniciativa e exigência dos tempos modernos. Não precisamos de chefes importados, devemos ter por aí um qualquer Viriato que nos una!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Hoje não houve muito tempo mas houve cor!


Derain

Braque

Almada Negreiros


Adelson do Prado



Aldemir Martins

À procura de mim

Girou a roda do moinho,
chiou, chiou devagarinho,
com medo de tremer,
de se afirmar, de ser.

O vento era fraquinho,
mas fez girar o moinho.
Só não deu para moer
a farinha que ficou por fazer.

Logo, logo de mansinho,
pararam as velas do moinho,
só o moleiro velhinho
ainda mora no moinho.
O saxofone toca
E eu sinto-me oca.

De repente tudo se cala
E vem até mim uma fala.

Uma voz que sussurra grave
Como o pio distante de uma ave.

É com fúria violenta que esmurro
Este meu ar casmurro,

Fujo de mim vazia e nua
Porque sou, incrivelmente tua!
Hoje sonho que sou eu.

Por mais que vagueie na ilusão,
Por mais que procure a verdade
Vejo-me sempre envolvida no turbilhão
No vento ciclónico desta cidade.

Mea culpa...

Não é o meu sonho...sou eu!
Faz frio
O meu corpo dobrado,
encolhido,
procura o meu bafo

o meu calor.

Lá fora o sol brilha.
Cá dentro o frio fere...

Faz frio.
Queima o gelo em nós.
O mundo da rua, deserta
e, até o meu sorriso arrefece...

domingo, 18 de janeiro de 2009

hoje revisitei Cézanne























Quero pintar um quadro cor-de-rosa, rasgar-lhe em vermelho um sol poente. Simular pássaros azuis em voos de espirais violetas.
Quero parar o tempo num sonho.
E meter-me lá dentro a rir de mim mesma.

Telmo, o marujo

2.Helena, a mediadora

Quando abri os olhos não sabia se era manhã ou tarde porque a luz que entrava no meu quarto, rosada quase cor de malva, me confundia. Mas sentia-me tão confortável que aproveitei uns momentos para saborear e observar com mais atenção o quarto em que estava.
Não era muito grande, nele apenas cabiam a minha cama, uma pequena arca e uma mesa oval com um banco incorporado. As cores das paredes faziam lembrar madrepérola, muitíssimo suaves. Não havia lanternas nem velas pois a iluminação era feita através de uma vigia que filtrava a luz conforme a necessidade, como posteriormente vim a perceber. Senti-me um privilegiado!
Por fim levantei-me e pousei os pés no chão, percebi que aquilo que julgava ser mosaicos não era, mas sim, um material macio, tépido e maleável. Dei dois ou três saltos só para sentir o amortecimento.
Acabei por decidir vestir-me e encontrei a roupa dentro da arca que cheirava a maçãs misturadas com canela. Já estava pronto para sair quando surgiu à porta a doce Helena. Trazia nas mãos uma bandeja com a minha primeira refeição do dia; fruta, água e um pão feito de cereal amargo que com a mistura dos outros sabores ficava com um gosto muito curioso. Saciei-me por completo!
Enquanto comia, Helena falou-me do Arquipélago do Ocaso.
Este, era formado por quatro ilhas principais e mais meia dúzia de ilhéus que não sendo habitados, eram contudo aproveitados para armazéns ou estaleiros; a Ilha dos Seguidores ficava no centro, ligeiramente ao lado, ficava a Ilha do Labor. Estas duas ilhas devido à proximidade eram ligadas por uma ponte. Depois, rodando um pouco para esquerda, a Ilha do Conhecimento, que pelos vistos, era muito montanhosa e por fim, um pouco mais afastada, situava-se a Ilha do Repouso onde ninguém vivia devido ao seu solo ser extremamente ácido mas, que era utilizada como cemitério para os habitantes das outras ilhas. Helena prometeu-me que as conheceria a todas, uma por uma, quando chegasse a altura, mas que naquele momento deveria iniciar a minha instrução.
Percorremos depois um corredor que desembocava num átrio onde umas escadas davam acesso a um jardim. Era engraçado! Todos os caminhos estavam marcados por lajes que faziam lembrar mármore azul e branco e de cada lado havia canteiros de mil flores muito bem cuidados, parámos por fim junto a um miradouro donde se podia enxergar o mar violeta e as ilhas de que Helena me falara. Só aí tive a noção que as ilhas do arquipélago formavam uma espiral que crescia no sentido oposto ao dos ponteiros de um relógio. Centenas de pássaros voltejavam em nosso redor lançando os seus trinados e guinchos. Nos campos em baixo, reparei numas quantas corças que saltitavam em plena liberdade, completamente à vontade, como se soubessem que ninguém lhes faria mal. Cascatas e ribeiros cantavam por entre as pedras dos montes traseiros. Fiquei deslumbrado! De tal modo que me convenci, mais uma vez, estar no Paraíso. Helena lendo esse pensamento desatou a rir, deu mesmo uma sonora gargalhada, e o seu riso imprevisto fez-me corar de emoção.
O passeio pelo jardim ainda se prolongou durante quase toda a manhã, enquanto isso, Helena fez-me perguntas sobre mim a que eu respondi natural e confiadamente. Ela parecia entender tudo o que eu sentia e não criticava nenhum dos meus sonhos ou sentimentos. Acabamos por nos sentar na relva e ela tirou da cintura um pequeno saco onde trazia a nossa merenda. O gosto da aventura ficou presente, pois cada alimento tinha um sabor diferente. Era uma provocação ao meu apetite de adolescente em crescimento. Comi tanto que fiquei cansado, encostei-me a uma pedra de barriga para o ar e inspirei satisfeito aquele ar tão puro. A meu lado, Helena, passou os dedos pelos meus cabelos e disse meigamente:
- Anda lá, pergunta o que queres, não tenhas vergonha!
Sobressaltei-me, ainda não estava habituado a que me lessem os pensamentos, ainda por cima eles estavam em tal turbilhão que nem eu próprio sabia como ordená-los!
Inspirei profundamente e comecei a perguntar, mais ou menos conforme me vinham as questões à ideia?
- Helena, quem governa este Arquipélago? É um país independente, não é’
- Não nos organizamos em países, fazemos parte de uma unidade universal mais abrangente. Que por sua vez faz parte de um centro de projecção energética. Sabes, o Universo invisível aos olhos dos seres terrenos, tem múltiplos centros de projecção energética e as unidades universais de cada um, permitem a evolução dos seres que neles vivem, de modo a que progridam e desenvolvam.
- E há leis? As pessoas têm que obedecer a regras? Ou já estais tão avançados que sabeis exactamente como deveis agir?
- Claro que há! É sempre necessário numa organização haver normas de conduta! Até porque, no nosso mundo, também existem aqueles que se desviam dos seus deveres!
- Nesse caso, o que lhes acontece quando prevaricam?
- Depende, podem ser apenas chamados à atenção, ou então, em casos raros, são obrigados a um período de reeducação.
- Em que ilha?
- Não é numa ilha, eles passam para outra unidade universal com uma frequência energética menos sublime. Em casos muito raros, podem até ter que atravessar o plano e passar a viver no teu mundo.
- Deve ser muito perturbador, passar deste modo de vida para o nosso onde há tanta injustiça, dor e guerra! Aqui não há guerras, pois não?
- Não, isso não! As nossas divergências não nos levam a tanto! Quem vive neste plano já ultrapassou esse tipo de comportamentos.
- Então, qual é afinal, a função deste Arquipélago?
- Meu querido, cada ilha tem uma função. A Ilha do Labor, sendo a mais fértil e a maior, foi escolhida para a produção daquilo que é essencial; os alimentos, as fibras têxteis, os metais, os objectos de uso diário, etc. A Ilha do Conhecimento, por ser a mais inacessível e montanhosa, favorece o refúgio e a concentração, por isso foi adaptada ao estudo. É lá que se reúnem as Escolas de Iniciação e os Grandes Centros de Desenvolvimento. A Ilha dos Seguidores é quem dirige as outras através da aplicação dos conhecimentos intelectuais e espirituais dos seus Seguidores que foram preparados para isso e põem em prática tudo o que aprenderam para a realização dos seus raios ou vias. No entanto não julgues que essa actividade nos dá mais poder, pelo contrário, o nosso Serviço deve ser humilde e isento de quaisquer benefícios especiais. A Ilha do Repouso, como já sabes, é inabitada pois não tem condições para o ser devido à falta de água e ao seu solo ser demasiado ácido. Assim, todos os habitantes sentem que fazem parte de um todo, partilhando, cada um, as suas responsabilidades e direitos. Não há razão para haver conflitos!
- Ah! Então é por isso que as ilhas têm o nome conforme o que lá se faz!
- Sim, é uma maneira simples de ver as coisas...
- Como é que as pessoas escolhem o seu modo de vida? Também vão à escola e aprendem artes e ofícios? E tu, como te tornaste Seguidora?
- As crianças começam por ser criadas e educadas nas suas respectivas famílias mas, quando atingem alguma maturidade, são enviadas às Escolas de Iniciação onde aprendem tudo o que as suas capacidades permitem. Quando atingem o domínio das técnicas que lhes serão necessárias para que essa escolha seja inteiramente livre, preparam-se para o seu papel nesta sociedade. Aquelas que provem ser dotadas de um espírito mais avançado, continuam os estudos nos Grandes Centros de Desenvolvimento, onde são altamente treinados nos mistérios mais profundos e é lhes imposta uma rigorosa disciplina que permite dominar o corpo, a mente e o espírito. Só depois decidem a via ou o raio a seguir, fazendo-o com consciência e convicção.
Fiquei de boca aberta. Então os Seguidores não eram uma espécie de sacerdotes obrigados a viver de orações e rituais?
Helena esclareceu-me:
- Não, Telmo. Os sacerdotes do teu mundo, na maior parte das vezes nem têm consciência do poder das orações que recitam nem da utilidade dos seus rituais, limitam-se a representar um papel que lhes foi ensinado. Nós, os Seguidores, temos uma função esclarecida e trabalhamos de forma a intuir as ideias e a transformar para o bem o pensamento daqueles que dependem de nós.
Por certo, já ouviste falar de homens que pelas suas concepções revolucionaram todo o saber de uma época e que foram chamados de sábios! Porém, poucos sabem que esses homens foram apenas tocados pela Sabedoria e pela Luz dos Seguidores.
- Nesse caso, se eles receberam de vós essas mensagens, e apenas as transmitiram sem saber que foram escolhidos para o fazer, qual é a sua responsabilidade?
- Se foram escolhidos é porque tinham qualidades para isso. Também acontece, se bem que raramente, que um dos Seguidores aceite voluntariamente uma tarefa no teu mundo, assim ele terá que renascer nele e trabalhar nele como qualquer outro cidadão.
- E como os reconhecemos se são iguais aos outros? Como os devemos reverenciar?
- Não é aos homens que deveis prestar culto mas sim às suas ideias. Eles jamais procuram a fama ou a glória, limitam-se a cumprir o que definiram nos seus projectos de vida.
- Falas em vias ou em raios de conhecimento, explica-me o que são, por favor. E já agora, que via segues tu para que sejas aquela que mais atenção me dá?
- Há três vias principais: a do Serviço, a do Conhecimento, e a da Fé. Eu sigo a primeira, sou uma espécie de mediadora entre o teu mundo e o meu, por isso me compete receber-te e preparar-te para o compreenderes. Não gostas da minha companhia? - Perguntou ela sorrindo maliciosamente.
Fiquei desorientado e, meio engasgado, respondi à pressa:
- Gosto. Oh se gosto! És tão linda! Tão bondosa! Nem pareces real, pareces mais um anjo!
- Ah como estamos longe de o sermos!
Observei-a com atenção e timidamente estendi a minha mão tocando-lhe no rosto. Senti através do meu braço e em seguida por todo o meu corpo, uma inexplicável alegria. Não me contive e gritei de prazer. Era tão excitante o que sentia! Helena também se riu, pelo menos foi o que me pareceu porque a vi ainda mais resplandecente e luminosa!

À procura da vida

O nevoeiro
Que encobre e tapa
O mundo,
Que esconde e vela
A terra,
Não mata,
Fere!
Rasgando a tela que era...
Calai-vos águas do rio.
Calai-vos águas do mar.
Calai-vos vento, pássaros, meninos.
A noite vem a começar!

O rio calou-se.

Silenciosamente correu
No leito que o destinou
Ao mar do seu sustento.

O mar calou-se.

Silenciosamente moveu-se
No fundo e, estremeceu
Calando o seu lamento.

O vento, os pássaros, os meninos, calaram-se.

Apertados
Sob a nuvem encarnada
Do fogo que os não queimou
E mergulharam na escuridão.

Ouviu-se então o silêncio
O silêncio...
Solto está o vento pelas minhas mãos fugido.
Lembra o alento de um sorriso!
Bravo está o vento, quente, ardente, poente.
Eternamente...
Eternamente...
E quando o meu olhar pisado se ri, se vende,
Logo o concerto do mar grita ciumento,
Balançando as ondas
Que murmuram e vingam,
Como se arrastassem do ventre
O recém-nascido vento!
Espreitei por um funil e lá bem no fundo gostei do que vi:

Era um mundo de plantas perfumando o ar,
era um lago estendido com as águas a pratear,
E um rio límpido que descia do verde monte,
e meninos brincando perto de uma fonte.

(Ainda me dizes que não sei sonhar?)
Pois é! É verdade!
O funil é que estava de pernas para o ar!

Essa história de dizer que os impostos são uma forma de solidarizar a sociedade, cá para mim não passa de uma treta. Poucos são os que pensam em tal coisa, se os pagam é porque a isso são obrigados. Alguns ainda acreditam que os impostos são uma espécie de poupança para quando eles próprios necessitarem, outros, que são uma forma de financiar o Estado e, como o Estado é tão abstracto, acreditam que é uma maneira de os roubar.
Isto vem a propósito de alguns discursos políticos sobre o rendimento mínimo. De facto, está longe de ser transparente a sua distribuição, todos conhecemos um ou outro caso que recebe o rendimento mínimo sem necessidade de tal. De qualquer forma o que seria importante era políticas de emprego, educação e apoio médico-social correctas. A maioria das pessoas está-se nas tintas para quem não consegue ter meios de subsistência, é mesmo assim, a natureza humana é muito pouco solidária!
Quem fala de rendimento mínimo, fala também dos célebres subsídios de desemprego. Ainda não percebi muito bem porque o dito Estado, prefere pagar subsídios ao invés de incentivar a criação e manutenção dos postos de trabalho. Para os privados, quando têm lucro é um ganho pessoal, quando têm prejuízo, é o Estado que tem que arcar com as consequências!
Quem depende assim do Estado deve ter muita dificuldade em integrar-se socialmente e em participar de um modo activo quer politicamente, quer noutros aspectos.
Os partidos de direita queixam-se do Estado paternal, os partidos de esquerda, queixam-se de um Estado indiferente. Afinal em que é que ficamos?
Está na altura de decidirmos o tipo de Estado em que queremos viver. Precisam-se de ideias urgentemente. Os partidos comunistas falharam, na maior parte desenvolveram um Capitalismo de Estado, a Economia de Mercado apregoada pelos liberais, também falhou. Está na altura dos cidadãos do mundo inteiro decidirem novas políticas que contemplem os mais fracos e incentivem os mais fortes a partilhar sem contrapartidas.

sábado, 17 de janeiro de 2009


Mesmo que a trovoada rasgue os céus do espanto, o vento trespasse o espaço das perguntas, o gelo queime os caminhos dos desejos e a chuva torrencial arraste consigo as emoções, vale a pena viver porque o arco-íris nos espera com um sorriso.

Telmo, o marujo

1.Os Seguidores do Rasto do Sol

Despertei quando o barco embateu no muro do cais. Quis levantar-me, mas logo que ergui a cabeça, senti uma espécie de zoada que me obrigou a baixá-la de novo.
Um dos meus salvadores ajoelhou-se junto de mim e esfregou-me os pulsos, enquanto os outros três procediam à tarefa da amarração do barco.
As forças regressaram rapidamente ao meu corpo e voltei a tentar pôr-me em pé, o homem que me ajudou fez menção de me levar ao colo, mas eu recusei porque me sentia envergonhado com o meu estado de fraqueza. Ele sorriu mas amparou-me no meu passo trôpego enquanto subia a rampa que nos levava à estrada marginal.
Era como sair de um sonho pegajoso! Mas entrava aos poucos no meu domínio. Já mais desperto, pude então observar o quanto era limpa aquela estrada, pavimentada com grandes lajes octogonais de cor ocre, muito polidas e brilhantes e, quanto era larga! Dava perfeitamente para que dois carros se cruzassem e deixava ao mesmo tempo, espaço para as pessoas caminharem em segurança.
Não consegui determinar exactamente o tamanho da marginal porque de outro lado havia uma praça rectangular e do outro, estendia-se o porto que parecia prolongar-se em curva.
Dirigimo-nos precisamente para a praça, fiquei espantado com o seu tamanho, devia ser muito importante! De frente para o mar erguia-se um enorme edifício todo cor-de-rosa e branco, calculei que tivesse no mínimo quatro ou cinco pisos. Reparei que em vez de janelas, apareciam na sua fachada, uma quantidade enorme de vigias redondas e um magnífico portão encaixilhado por uma arcada. Quer o portão, quer a arcada, eram de um metal alaranjado, o que me espantou muito! De cada lado da praça, havia outros edifícios idênticos ao maior, mas bastante mais pequenos, intercalados por ruas que aí desaguavam. Fiquei logo com a ideia que para lá daquele espaço, deveria haver outras ruas e praças e que aquele lugar, do qual não conhecia o nome, era uma cidade bem grande.
À medida que nos aproximávamos do edifício principal, reparei que este não tinha arestas vivas, elas estavam como que limadas, mostrando-se arredondadas.
Chegados ao portão verifiquei que todo ele estava preenchido por uma quantidade de símbolos que não fui capaz de identificar, esses símbolos constavam de círculos concêntricos, espirais, curvas com contracurvas sobrepostas, não havia nenhuma linha recta naquela linguagem estranha. Senti-me impelido a tacteá-los, mas um dos meus acompanhantes retirou-me suavemente a mão do portão.
Entretanto uma das portas abriu-se e passamos a percorrer uma espécie de túnel que tinha um gradeamento no final. Esse gradeamento, abriu-se sozinho para nos dar passagem sem qualquer ruído e encontrámo-nos em seguida num claustro com planta octogonal.
No centro do claustro, essa forma repetia-se em colunas e arcos feitos do tal metal alaranjado. No meio havia um lago circular com pequenos repuxos em todo o seu rebordo, o que embelezava o espaço. Tanto as colunas como os arcos estavam revestidos de trepadeiras em flor que exalavam um perfume levemente adocicado e calmante. Nas bases das colunas estavam também canteiros com plantas verdes e amarelas.
O homem que cuidou de mim até ali, indicou-me um banco junto à parede, e eu obedeci, embora ficasse ansioso pelo que se iria passar. Aproveitei para passar as mãos nas paredes e confirmei que elas não estavam pintadas, mas sim revestidas de um material sedoso, cor de pêssego, enquanto o chão me pareceu pavimentado de blocos castanhos brilhantes e translúcidos. O lugar era tão relaxante que fechei os olhos e creio que adormeci um bocado porque, quando os abri, encontrei à minha frente a mulher mais bonita que jamais vira!
Ela sorriu para mim e eu, atarantado, levantei-me num pulo e curvei-me instintivamente para a cumprimentar. Era belíssima! A sua pele morena clara parecia resplandecer, os cabelos de um castanho doirado, caíam em cachos pelas costas quase até à cintura, trazia vestida uma túnica de panos finos sobrepostos como lenços que esvoaçavam com os movimentos, tal qual uma borboleta, pensei eu! Não trazia quaisquer outros ornamentos além de uma pequena gota de cristal sobre a fronte, presa numa fita azul escura lhe rodeava a cabeça.
O meu corpo foi percorrido por um arrepio quando a voz dela em vez de vir da boca entrou directamente na minha cabeça:
- Bem-vindo sejas às Ilhas do Arquipélago do Ocaso, jovem Telmo! Compreendo a tua confusão mas peço-te que não tenhas receio porque logo ficarás esclarecido. Temos muito prazer em te ter connosco. Para que nos entendamos, não precisas de falar, basta que formules os teus pensamentos como estou fazendo contigo.
- Rainha...Senhora...Donzela... o que está a acontecer? Que lugar é este? – Disse eu, articulando naturalmente as minhas palavras com a voz esganiçada própria de um adolescente como eu.
- Sabê-lo-ás em breve. Chama-me apenas Helena, não sou nem rainha, nem Senhora. Sou apenas uma das representantes do raio de luz que iluminará algumas das tuas dúvidas. Sou uma das Seguidoras do Rasto do Sol.
- Meu Deus! Que ilhas são estas? O que são os Seguidores do Rasto do Sol? O que faço aqui?
- Calma, calma, responder-te-emos a tudo na hora certa! Agora tens que te recuperar, refrescar e alimentar, vem.
Aturdido, segui Helena pelos corredores, onde havia muitas portas mas, nem o cheiro nem o ruído, me permitiram descortinar a natureza das suas funções. Acabei por entrar num quarto todo revestido de azulejo colorido com uma espécie de tanque arredondado, onde no fundo, uma água esbranquiçada e borbulhante, esperava por mim.
Recuei assustado ao verificar que ela tinha intenção de me enfiar naquele “caldeirão”. Helena riu e mostrou-me que não havia qualquer perigo. Ajudou-me a despir e a mergulhar na água o que me fez ficar um pouco intimidado. Logo que me meti dentro de água achei óptimo o banho, era tranquilizante e ao mesmo tempo o seu aroma dava-me energia! Foi um pouco contrariado que tive que sair de lá.
Helena tirou de uma arca de madeira avermelhada a minha nova indumentária; uma túnica e uns calções curtos e brancos, uma jaqueta cor de laranja e umas alpargatas de um material idêntico à pele mas, muito mais macio! Dei um suspiro de alívio, aquela roupa dava-me uma grande liberdade de movimentos e era muitíssimo confortável, há tanto tempo que não me sentia assim tão limpo nem tão leve!
Regressei com Helena pelos corredores e desemboquei num salão de jantar fantástico em que as paredes eram revestidas de inúmeras pinturas, e no centro, uma enorme mesa repleta de iguarias que me fizeram esfregar os olhos e lembrar que há muito tempo não comia.
Sorrindo, divertidos, seis personagens esperavam por mim.
_ Senta-te e come connosco, Telmo. Dá-nos o prazer da tua companhia. Nós, tal como Helena, também somos Seguidores do Rasto do Sol, embora sigamos diferentes raios. - Disse o que parecia ser o mais velho, cujo nome era Hélio, o Guardião das Portas Sagradas.
Sentei-me timidamente, enrugando a testa à medida que ele falava porque me custava a compreender o sentido das suas palavras.
- Agora o jovem tem que se alimentar. – Interveio com ternura Helena.
Logo que me senti mais à vontade, cresceu-me uma enorme excitação, como se tivesse bebido álcool e que me fez fazer perguntas.
- Não sei o que é ser Seguidor do Rasto do Sol mas gostava de saber o que faço aqui? Sobretudo que me expliqueis se há relação entre vós e o mistério dos cânticos e da cor tão invulgar que tomou o céu há dias. Já agora porque é que todos os homens enlouqueceram menos eu e o imediato? Isto ainda me parece uma espécie de sonho, não sei se bom se mau, podeis esclarecer-me?
- Não foi bem um sonho – respondeu Hugo – mas há sonhos que são mais reais do que aquilo que se crê... tu não percorreste já terras longínquas cujos povos vivem de forma bem diferente da tua? Pois bem, o que pensariam alguns deles se fossem transportados sem qualquer explicação para o teu país? Provavelmente sentir-se-iam tão desajustados como tu neste momento. Poder-lhes-ia parecer também um sonho! Nós existimos há muito, mas porque estamos num espaço paralelo, tornamo-nos invisíveis para vós. Desta vez os nossos dois mundos tocaram-se e o vosso navio entrou no nosso. És capaz de me entender? Somos de alguma maneira iguais a vós. Invisíveis, só aos vossos olhos, porque aos nossos, não. Fazemos muitas visitas ao vosso mundo sem que vocês dêem por nós.
Em relação ao delírio colectivo que tomou os homens deve-se simplesmente ao medo. Eles não aguentaram encarar o desconhecido. Os cânticos que ouvistes, foram de boas vindas porque a música é uma linguagem universal. Quanto ao céu, no nosso mundo ele tem sempre a mesma cor, a cor do Ocaso, porque vivemos sempre no rasto do Sol, não a reconheces no vosso entardecer? Tens mais dúvidas?
- Mais ou menos...nem sei se percebi muito bem! Quereis dizer que há dois mundos diferentes, que sempre existiram lado a lado e que só são visíveis para os seus próprios habitantes?
- Exactamente! Mas atenção, eles podem sempre tornar-se visíveis para aqueles que os entenderem.
- Nesse caso… se nós pudemos entrar no vosso mundo, vós também podeis entrar no nosso!
- É muito frequente, isso acontecer. Sobretudo se algum de nós tem um objectivo muito definido no vosso mundo! O que aconteceu desta vez é que entrastes acidentalmente, sem preparação para o fazer, foi isso que gerou todo aquele pânico.
- E agora como posso eu regressar?... O navio incendiou-se, a tripulação morreu, eu não sei viajar entre dois mundos! Vocês vão-me ajudar, não é verdade?
- Cuidaremos disso fica descansado! No entanto temos um plano para ti.
- Um plano? Que plano?
- Tu és um rapazinho diferente dos mais, poderás cumprir uma missão muito importante, mas para isso terás que ser educado.
- Uma missão importante? Eu? Que posso eu fazer se não passo de um ignorante?
- Tu não és ignorante, apenas esquecestes o que sabias... nada em mundo algum, acontece por acaso! Serás tu quem vai descobrir essa missão e nós ajudar-te-emos a criares condições para a realizares.
- Posso fazer ainda outra pergunta?
- Claro, todas as que quiseres!
- Como se chama este mundo e que ilha é esta?
- O nome do mundo, não te podemos dizer, mas estás na Ilha dos Seguidores do Rasto do Sol, no Arquipélago do Ocaso. O nosso mundo, como perceberás um dia, acompanha o rasto do Sol, por isso recebemos dele esta luz tão generosa e plena de conhecimento. Nunca há noite nem manhã, mas sempre o eterno pôr-do-sol.
- Então não sabem em que tempo, vivem! Não tendes datas? Nasceis todos adultos?
- O nosso tempo não é avaliado pelos dias, mas pela nossa experiência e aprendizagem. E não somos assim tão perfeitos! Repara que também precisamos ter um corpo para sustentar e viver! Ele também se desgasta ao longo de cada vida, e precisamos de cuidar dele. Também nos reproduzimos para que a matéria se renove, nascemos e morremos como vós, e também passamos da infância à idade adulta.
- Há outra coisa que me faz muita confusão: A voz! não falais como nós, parece que a vossa voz vos sai directamente do pensamento!...
- Porque desenvolvemos mais essa capacidade! Vós também a tendes, só que preferistes desenvolver a outra que vos obriga a usar o sopro e a boca. Não há magia nenhuma nisso. Vós é que complicastes! Cada povo com a sua língua! Não achas que é mais fácil, falarmos todos a mesma? E repara, usando a linguagem do pensamento é se muito mais preciso e só com muita dificuldade se pode enganar os outros! O pensamento sai mais límpido, sem artifícios! Podemos, se quisermos, afastar as ideias ou impedir que terceiros se interponham, mas não podemos mentir.
- Ah são perfeitos!
- Meu jovem não há perfeição senão na essência divina! Entre Ela e o resto das suas manifestações, há uma imensidão de mundos que representam outros tantos estados de evolução. Além disso, os padrões de exigência são sempre maiores à medida que progredimos. Há mundos inferiores ao teu, mas há muito mais mundos superiores ao nosso!
- O quê? Então o homem não é o único ser criado à semelhança de Deus? Ah se eu dissesse uma coisa dessas na minha terra seria condenado por heresia!
- Quantos o foram! Semelhança não significa igualdade, na verdade todos os seres são semelhantes a Deus porque todos trazem em si a Sua centelha. Deus manifesta-se e reparte-se em todas as formas diversas e simultaneamente!

Todas aquelas emoções tinham-me arrasado! Estava completamente esgotado com o esforço que fizera para acompanhar a conversa e receber os novos conhecimentos, sem dar por isso, encostei a minha cabeça sobre a mesa e adormeci.

À procura da vida

Era uma vez...
Embrulhei-me, desesperei-me,
com a vida de surdez...
Ai como eu queria fugir do que fugia!
Era uma vez...
Como toupeira, enterrei-me,
numa vida de cegueira...
Ai como eu queria fugir do que fugia!
Era uma vez...
Foi há muito tempo, no caminho
numa vida que não lembro...
Hoje oiço e vejo e não fujo...
Quero ver a cor de uma terra de paz
e saber de cor
as canções que faz.
Quero encontrar uma nova vida
e poder escutar
sua música perdida
Quero um mundo diferente
e renascer
estrela cadente.
Na palma da tua mão está o futuro
traçado nas linhas da tua invenção.
Procuraste o teu caminho
por entre pedras.
Sofreste o arranhar dos cardos
e o escaldar do meio dia.

Mas...partiste.
Tão vazio,
que nem sentiste
fome e sede.
Apenas encheste a tua alma de lugares
e aprendeste
a conhecer o teu mundo!
Acocorada na tua mão
procuro ansiosa a segurança
feita de rosa em botão
que se fecha em tempo de bonança.

É assim, com emoção nervosa
que aperto a esquiva esperança.
Como magnífica mariposa
que no vento se atreve e lança.

E a mão, que abre outra mão
liberta-me medrosa
e faz de mim a mudança.

Perfeitinhos, bem-comportados e parcimoniosos


Há quem goste de ser perfeitinho, bem comportado e parcimonioso.
Eu cá não tenho vocação para formiga. Nem sempre me agrada a simetria e pouco me importa a proporção dourada. Quanto à parcimónia, adoro cometer alguns excessos desde que não ponham em perigo a minha vida ou a dos outros.
Para esses, que passam pelo mundo sem o apreciar, que apenas tratam das suas coisinhas, que só pensam politicamente correcto, a vida deve ser bem chata!
Imaginem, se é que conseguem fazer esse exercício, que tudo era regulado, absolutamente igual sem risco de fantasias. Que tudo o que existe tinha que ter uma função de utilidade e para nossa subsistência, que a imaginação fosse uma aberração ou uma doença. Teríamos evoluído como humanos?
Quantos crimes se cometeram em nome da pseudo-perfeição? Alguns deles em prol da pureza da raça, da verdade da fé, em nome do Capitalismo ou do Comunismo!
Por isso me arrepia quando me falam de alguém que nunca prevarica, que é o paradigma da mulher, esposa, mãe, profissional, bela e sem rugas nem cabelos brancos. Ou de um homem que vive para o trabalho, que não gasta à toa, que é sempre educado e nunca se mete em sarilhos!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

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Só porque gosto!

Ao navegares neste oceano socorre-te do vento da simpatia para que a tua bússola interior te leve para o país da alegria, para as praias da harmonia.

Telmo, o marujo

5. O fenómeno

A tripulação mostrava-se risonha e bem-disposta, pronta a abraçar brevemente aqueles que os esperariam no cais dentro de dias, quando aconteceu algo que fez alterar toda a nossa vida.
Uma neblina densa, arrastada pelo vento, embrulhou-nos repentinamente de espanto. Parecendo vir agarrados às partículas de humidade, sons lentos e musicais, invadiram a atmosfera, como se fosse um cântico tornando-se cada vez mais audível enquanto que, ao mesmo tempo e aos poucos, se desenhava no céu, um anel cor-de-rosa. No centro desse anel uma cor púrpura intensíssima, foi-se alargando, alargando, até cobrir dessa cor única, a abóbada celeste. Tudo parou naquele instante. Era maravilhoso! Fascinante!
Apesar de habituados a observar fenómenos atmosféricos bastante estranhos, os homens estremeceram e, supersticiosos persignaram-se murmurando rezas de esconjuro.
Não posso dizer quantos dias se passaram então ali parados, porque o sol, a nossa referência, estava escondido naquele céu invulgar. O medo foi crescendo a tal ponto que foi pedido ao capelão que dissesse missa e que exorcizasse o fenómeno. Houve quem recordasse e ressuscitasse as velhas lendas de sereias e os consequentes naufrágios. O pânico instalou-se. Iniciou-se uma confusão como eu nunca vira, ouviram-se gritos e gemidos por todo o lado, depois, quase de uma hora para a outra, os marinheiros foram caindo num mutismo doentio.
Com o tempo, o céu tornou-se todo ele violeta enquanto do mar chegava um aroma doce e inesquecível que parecia ter sido espalhado nas águas. As aves que cruzavam o espaço, ficavam como que paralisadas com as asas abertas, como silhuetas! O fenómeno criou um efeito hipnotizante em quase todos os homens, incluindo o comandante, fazendo-lhes perder o juízo. Uns tornaram-se inânimes, outros violentos. Havendo muitos que se atiraram num desespero horrível para o mar sem que alguém conseguisse salvá-los.
Apenas eu e Bartolomeu parecíamos imunes à loucura colectiva que se havia instalado na tripulação.
Na tentativa de resgatar um dos homens, o meu imediato, desequilibrou-se e caiu ao mar. Ainda tentei salvá-lo lançando-lhe uma bóia mas, ele foi engolido imediatamente pelas águas. Foi então que me apercebi que ficara sozinho rodeado de cadáveres mortos e cadáveres vivos e, tive medo. Não um medo como o deles, mas um medo real por me saber perseguido por homens desvairados e não estar preparado para conduzir o navio. Corri assustado para a amurada e avistei então ao longe uma pequena embarcação que parecia dirigir-se para o navio. Excitado, gritei com quantas forças tinha:
- Venham buscar-me! Estou aqui!
A embarcação não trazia pavilhão e a sua forma não me lembrava nenhuma que já tivesse visto. Durante o tempo que demorou a chegar deixei de ouvir os cânticos, se calhar porque já me havia habituado a eles... de qualquer maneira pareceu-me que havia uma ligeira diferença na atmosfera...
Entretanto, um dos meus camaradas, em delírio, ateou fogo ao barco e vi-me de súbito rodeado de chamas e fumo. Senti que ía morrer ali se não chegasse a tempo de ser salvo por aquele barquito a remos. Tudo parecia estar a passar-se de um modo muito lento... acabei por desfalecer.

O que se passou a seguir, não sei, porque só me recordo de dois homens me olharem com carinho e de me terem embrulhado numa manta e deitado no fundo do bote enquanto outros dois remavam em direcção oposta à do navio.
Tentei falar, mesmo assim naquele estado de choque, queria agradecer terem-me resgatado. Mas os homens olharam para mim de uma forma natural como se estivessem habituados a fazer salvamentos todos os dias. Não os ouvia conversar, nem mesmo entre eles, embora se olhassem e se entendessem perfeitamente. Um deles, tocou-me com a sua mão na testa e senti uma paz imensa. Nessa altura acreditei sinceramente que estava morto e que provavelmente me estariam a levar para o paraíso. Adormeci profundamente.